Herança de Sangue
7 Prisioneira no Inferno
Notas iniciais
O dia começou sem nenhuma nuvem no céu. Nem parecia que havia caído um temporal na noite anterior. O celular de Mateus tocou pouco antes das dez da manhã. Ele já estava acordado. Estava no banheiro, de frente ao espelho, vendo o reflexo de seu rosto inchado e vermelho, quando recebeu a ligação do doutor Celso avisando que o corpo de sua mãe estava liberado para velório.
Do banheiro mesmo ligou para a empresa funerária da cidade dando a ordem para prepararem a sala de velório e buscarem o corpo de sua mãe na polícia. Desceu as escadas vagarosamente, parecia que suas forças haviam sumido. Logo viu Janine e Margarida sentadas no sofá da sala.
– Como você está, primo? Dormiu bem?
– Consegui dormir um pouco! O delegado ligou. O pessoal da funerária foi buscar minha mãe. Vou para a sala de velório, quero estar lá antes de o caixão chegar.
– Nós vamos com você!
– Vamos? Não podemos tomar café antes? Ou um banho? – Margarida estava com fome, dormiram sem comer nada. Além disso não tomaram banho, quer dizer, banho de verdade, pois a chuva da noite anterior havia lhes molhado bastante.
– Claro que podem, Margarida. Estou bem. Vou agora, depois vocês vão!
Mateus saiu para a sala de velório, que ficava no pequeno cemitério da cidade. Margarida desceu a pé mesmo para sua casa precisava de um banho e também de café. Janine foi trancar a casa antes de sair. Estava só. Trancou a porta da frente, e se virou para sair quando deu de cara com Kelly e Alexandre. Eram dez horas. Janine havia se esquecido que combinara de fechar negócio com o casal nesta manhã.
Eles já haviam feito o cheque no valor da compra da casa. Só faltava assinarem os papéis, que também já estavam prontos. Janine tinha tanta fé que eles iriam comprar a casa que já havia preparado tudo. Não soube o que falar para o casal. Não queria perder o negócio. Resolveu agir de maneira dissimulada. Se sentiu mal, mas não poderia continuar presa a essa casa. Não contou nada ao casal, sobre a causa da morte de sua tia.
– Oi, como vocês estão! Até me esqueci que viriam. Souberam do que aconteceu?
– Aconteceu? Como assim? Não estamos sabendo de nada!
– Ah, uma fatalidade. Minha tia, já idosa. Faleceu ontem. Meu primo encontrou-a morta. Muito triste. – Janine, omitiu apenas um detalhe: sua tia havia sido assassinada e ainda por cima teve seus órgãos arrancados.
– Nossa! Meus pêsames, Janine. Que fatalidade! Logo no dia de seu aniversário.
– Pois é! Mas infelizmente a vida é assim. Vocês vão querer ficar com a casa mesmo?
– Sim, sim! Vamos sim! Ficamos apaixonados pela casa. Vai ser maravilhoso morar aqui. Pretendemos nos mudar antes do bebê nascer. Quero ter minha filha já morando em Sonhos!
– Sério? Que bom! Já estou com os documentos preparados. Basta assinar.
– Que ótimo! O cheque já está aqui também! Vamos resolver logo isso de vez! A menos que prefira esperar, pela morte recente de sua tia.
– Não, não! Pretendo sair daqui hoje, ainda! Assim que fecharmos negócio, passarei pelo velório da minha tia por uns minutos e irei embora daqui. Para sempre!
O casal achou estranha a frieza de Janine. Porém era compreensível depois de todo o sofrimento pelo qual passara. Em menos de cinco minutos o contrato de venda da casa já estava assinado, e Janine estava com o cheque em mãos. Estava finalmente livre de Sonhos! Pelo menos, era o que pensava!
***
Mateus chegou à sala de velório antes do caixão com o corpo de sua mãe. Os funcionários ainda trabalhavam na adornação do local. Vinte minutos depois o carro da funerária chegou. Maquiaram bem o rosto ferido de Eliete. Mateus debruçou-se sobre o caixão e chorou. Ninguém havia chegado ainda. Ele passou quase cinco minutos assim, até que recebeu um cutucão no ombro. Era seu Jorge, o vizinho da frente.
– Meus pêsames, meu filho! Vi o movimento da polícia na sua casa ontem. Não quis ir lá para atrapalhar. Mas os boatos correm. Hoje soube que era sua mãe que havia morrido.
– Seu Jorge? Não esperava ver o senhor por aqui. Mesmo assim obrigado!
O susto de Mateus ao ver o vizinho foi grande. Ele não costumava sair muito. Quer dizer, ninguém costumava vê-lo andando pelas ruas de Sonhos, havia muito tempo. Da mesma maneira repentina que apareceu, ele sumiu.
Aos poucos a sala de velório ficou lotada. Eliete era conhecida na cidade, e muitos gostavam dela. Ao lado do caixão já estavam colocando a sexta coroa de flores, cada uma enviada por algum comerciante da região.
Só agora com a cabeça mais fria, Mateus viera a se lembrar da tia! Mariana não estava na cidade! Havia avisado Eliete que iria à capital fazer uns exames, pois não andava se sentindo bem. Partiu da cidade no mesmo dia que Mateus havia chegado. Janine chegava na sala de velório nesse instante:
– Meu Deus, Janine! Tia Mariana! Tia Mariana!
– O que tem ela, Mateus? Aconteceu alguma coisa?
– Ela ainda não sabe! Precisamos avisá-la!
– Ontem passei na casa dela. Ela não estava lá!
– Realmente não estava! Ela está na Capital fazendo uns exames! Precisamos avisá-la!
– Eu só sei o telefone da casa dela. Como ela não está aqui, não adianta muita coisa.
– Eu tenho o número do celular dela. Vou ligar, agora!
– Ok! E eu vou embora! Desculpe-me Mateus. Mas não consigo ficar aqui mais.
– Não acredito que você não vai nem esperar pelo enterro! Ela estava fazendo um bolo de aniversário para você, sua ingrata! — Mateus começou a se alterar.
Na sua mão o telefone já estava chamando o número de Mariana. Do outro lado ela atende ofegante. Deve ter corrido para atender ao telefone, pensou ele.
– Tia, onde a senhora está?
– Estou na capital, oras! Vim fazer uns exames.
– Tia, não há outra forma de dizer isso, vou ser direto: Minha mãe morreu!
– O que? Como? O que aconteceu?
– É melhor a senhora vir embora. Aqui a gente conversa e conto tudo o que aconteceu.
Do outro lado, Mariana desligou o telefone. E correu para o carro!
***
– Era pra você ter eliminado Mãe e filho. Não só a mãe! E agora? Como vai ser?
– Relaxa! O moleque estava na fazenda! Mas logo resolvo isso!
– É bom mesmo!
– Se não fosse essa obsessão pelo espetáculo, já estariam todos mortos!
– Quem dita as regras aqui sou eu! Eu sei o que estou fazendo!
– Ok, você quem sabe! Tenho que ir!
***
Mariana chegou ao velório ofegante e desarrumada, demonstrando sua pressa em chegar logo. Só estavam esperando por ela, para prosseguirem com o sepultamento. Mateus se assustou com a chegada da tia. Acabara de falar com ela, e a mesma disse que estava na capital. Não daria tempo de ter chegado tão rápido. Algo estava estranho. Mas não tinha cabeça para isso. Passavam tantas coisas em sua mente naquele momento!
Janine já estava entrando no carro para ir embora de vez da cidade. Finalmente ficaria livre de Sonhos. Quando segurou a maçaneta, alguém a segurou por trás. Seu coração parou por um momento. Sentiu um calafrio. Ao virar-se, relaxou! Era o delegado Celso.
– Delegado Celso, quase me mata do coração!
– Desculpe-me não queria lhe assustar! Porque está tão preocupada? Está com pressa?
– Sim, sim! Confesso que estou com um pouco de pressa. Não aguento mais passar um dia sequer nessa cidade.
– Sinto muito por ter de lhe falar isso, mas você terá que ficar mais uns dias!
– Como assim? Por quê?
– Esta é uma ordem da Juíza Karen, determinando que você permaneça na cidade até o fim das investigações.
– O que? O senhor está insinuando que eu matei minha tia? – Janine começava a demonstrar o quanto estava estressada com essa situação.
– Pela segunda vez, Não estou insinuando nada! Mas você está, sim, na lista de suspeitos. Portanto não pode deixar a cidade.
– Seu Celso, eu tenho trabalho para fazer. Não posso ficar aqui.
– Talvez fosse melhor você chamar um advogado, por enquanto se tentar sair da cidade, terei que prendê-la. Espero você amanhã de manhã para te interrogar na delegacia.
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