Herança de Sangue
8 Laços de Sangue
Notas iniciais
Janine não conseguia acreditar no que estava acontecendo! Teria que ficar novamente naquela cidade que só lhe trouxera dor e sofrimento. Este, com certeza, era o seu pior aniversário! Já que não poderia sair, resolveu ficar no cemitério e esperar o sepultamento. Ainda não havia falado com sua tia Mariana, que acabara de chegar.
– Oi tia, que saudade! É uma pena vê-la em uma situação tão ruim!
– Oi Janine, pois é minha filha. Eu estava na capital. Ninguém ainda me contou o que aconteceu. Feliz aniversário, minha filha.
– Tia, foi horrível! Fizeram com ela o mesmo que fizeram com Papai.
– Como assim? Eliete foi assassinada? Achei que fosse um infarto!
– Sim, tia! Da mesma forma que mataram meu pai.
– Ah, meu Deus!
Mateus prestava atenção na conversa entre Janine e Mariana, do outro lado da sala. Mariana parecia muito fria, pra quem acabara de perder a irmã. Não conseguiu se segurar e foi de encontro a elas.
– Tia, quer me explicar o que está acontecendo?
– Como assim, Mateus? Não estou entendendo!
– Não se faça de desentendida! – Mateus estava furioso!
– Do que você está falando, Mateus?
– Eu te liguei agorinha, e você disse que estava na capital. E já está aqui. Como chegou tão rápido?
– Eu vim correndo muito. Você me liga e dá uma notícia destas. Queria que eu viesse devagar?
– Se eu descobrir que você tem algo a ver com a morte da minha mãe, eu mesmo te mato! Estou avisando.
– Calma, Mateus. Vamos sair daqui. – Janine puxava Mateus para fora.
– Você também, Janine! Tenho certeza que tem alguma coisa a ver com isso. Seu pai morreu, com você lá dentro, sem ver nada. E agora é só você chegar na cidade que minha mãe morre! Não sou o único a perceber que as coisas estão ligadas.
– Mateus, eu nem vou te responder, porque sei que você está sofrendo. E falando asneiras. Mas vou provar que não tenho nada que ver com isso.
– Ah, é? Por que o delegado te proibiu de sair da cidade, então? Acha que não o vi falando contigo?
– Nossa, Mateus. Crescemos juntos! Não acredito que esteja falando isso. O delegado está suspeitando de todo mundo isso é normal. Não quero brigar com você! Está de cabeça quente, eu entendo!
Margarida chegou bem na hora, para separar a briga. Se não fosse por ela a coisa teria ficado feia. Ela puxou Mateus para a sala de velório, enquanto Janine e Mariana saiam para o pátio. Aos poucos o público que se formou em torno do trio, se desfez. Mateus deu a ordem para que fosse realizado o enterro.
O vigário Jose, que estava presente, celebrou uma missa de corpo presente. Realizou as orações de exéquias, e disse algumas palavras para os presentes, sobre Eliete e o quanto ela era importante para a cidade. Depois passou a palavra a Mateus, para que ele encerrasse a celebração e convidasse os presentes para o sepultamento.
O cortejo seguiu a pé da sala de velório até a sepultura. Mateus estava à frente, segurando a primeira alça da direita, do caixão. Ao seu lado, Mariana. Os outros quatro que seguravam o caixão eram: Seu Jânio, que chegou somente para o enterro, Margarida, Janine e Celso, o delegado.
O túmulo de Eliete ficava bem ao lado do de Seu Silva e Marta, que foram enterrados na mesma cova. O dia já estava quase no final. Eram quase seis da tarde. Todos choraram com as palavras de Mateus, enquanto o caixão era baixado.
– Minha mãe sempre foi uma pessoa maravilhosa! Ajudava a todos que a ela recorria, mesmo quando não tinha condições, se desdobrava para fazer o melhor. Eu a amo com todas as minhas forças, e não descansarei enquanto não ver quem fez isso com ela pagar! Quero que todas aplaudam a mulher maravilhosa que foi assassinada de maneira covarde essa noite. Sonhos perdeu uma de suas melhores cidadãs!
Todos aplaudiram. Vigário José concedeu uma bênção final aos presentes. O tempo estava fechando novamente. Seria mais uma noite chuvosa. Os primeiros pingos começavam a cair. Muitos correram para seus carros. Mateus permanecia em pé de frente o túmulo de sua mãe.
Janine não podia deixar de parar no túmulo de seus pais. Chorou novamente. A chuva engrossou, ela correu para seu carro. A tristeza lhe apertava o coração. Era horrível saber que teria que dormir mais uma noite naquela cidade.
Mariana a convidou para dormir em sua casa. Seria melhor que ficar no hotel. Janine aceitou sem pensar duas vezes. Era melhor que encarar dona Sônia e suas pregações, ou ter que dormir na casa de Eliete, com Mateus.
Chegaram à casa de Mariana, junto com o primeiro trovão da noite. Com certeza seria mais uma noite chuvosa. As duas entraram e Mariana subiu para preparar o quarto de hóspedes para Janine, enquanto ela tomava um banho.
Janine estava preocupada. Sob o chuveiro, pela primeira vez no dia parou para refletir sobre tudo o que estava acontecendo. A água quente escorria pelo seu rosto, as janelas embaçavam, e ela começava a reconhecer que se fosse o delegado também veria nela a principal suspeita. Teria que ligar para sua advogada logo cedo!
– Janine! Janine! – Mariana bateu na porta do banheiro.
– Oi, tia? Aconteceu alguma coisa? – Janine tirava o sabão do rosto.
– Não, não! Só para saber se está tudo bem com você! Já está aí dentro tem mais de meia hora!
– Está sim, tia! Desculpe-me a demora. Já estou saindo.
– Não se preocupe, minha filha! Pode tomar o seu banho tranquila.
Janine estava tão perdida em seus pensamentos que nem se deu conta do horário. Era tão aterrorizante pensar em todos os detalhes. Finalmente quando teve coragem de voltar à cidade, sua tia é morta do mesmo jeito que seu pai. Será que seria alguma força sobrenatural, como muitos acreditavam? Não era possível que alguém pudesse ser tão mal a esse ponto. Por que cortar o corpo? Retirar os órgãos? Não bastava matar?
***
Do outro lado da cidade, Kelly e Alexandre estavam curtindo cada segundo de sua nova casa. Eles não haviam se mudado ainda. Mas a casa estava tão arrumada que decidiram passar a noite pela cidade. Iriam embora cedo, e voltariam com a mudança na próxima semana. Não imaginavam o que tinha realmente acontecido com Eliete. Achavam apenas que tivesse sido um ataque do coração, ou infarto. Coisas que acontecem aos mais velhos.
A campainha tocou. Estava chovendo lá fora. Kelly deu um grito de susto. Alexandre sorriu da situação.
– Calma, meu bem! É só a campainha.
– Quem será a essa hora? Está chovendo. Será algo grave?
– Vou descer e checar. Você fica aqui no quarto.
A campainha tocou novamente. Seguida de várias batidas na porta.
– Calma, já estou abrindo! Quem é?
– Sou eu. Jorge. Seu vizinho da frente. Tenho algo a lhe falar.
Antes que Alexandre abrisse a porta totalmente, seu Jorge entrou.
– Vocês não deveriam estar aqui!
– Como é? Como o senhor vem na minha casa essa hora falar esse tipo de coisa?
– Estou falando sério. Não deviam ter comprado essa casa. Ela é amaldiçoada. Vocês não sabem com o que estão mexendo.
– Saia já da minha casa! Não tenho saco pra esse tipo de coisa!
– Eu só vim avisar!
– Saia, ou eu chamo a polícia!
Alexandre fechou a porta na cara de seu Jorge. Subiu furioso para o quarto. Kelly já estava dormindo. Ficou por um tempo admirando aquela cena. A mulher que amava, ali deitada, dormindo feito um anjo. Deitou-se ao lado dela e dormiu também.
***
– Janine, o jantar está pronto! Venha!
– Estou indo tia! – Gritou Janine descendo as escadas com uma toalha enrolada na cabeça.
– Não repare no cardápio. Fiz só um jantar simples. Estou muito cansada.
– Que isso, tia! A senhora sabe que eu não tenho frescuras pra comer! Mas mudando de assunto, porque o Mateus estava tão bravo hoje?
– Ele me ligou mais cedo pra avisar do Falecimento da Eliete, e pouco tempo depois eu cheguei. Eu disse a ele que estava na capital. E ele achou que eu cheguei rápido demais.
– Mas a senhora estava realmente na Capital?
– Não comente com ninguém o que vou falar agora! Na verdade eu estava na fazenda aqui perto da cidade.
– Mas por que mentir, então? Poderia ter falado que estava lá!
– Não poderia. Eu estava acompanhada. Alguém casado.
– O seu Jânio, do mercado?
– Como sabe?
– Ah, tia. Ele sempre pergunta pela senhora. E depois que a senhora falou de estar acompanhada. Lembrei-me do velório, e não me lembro de ter visto o seu Jânio antes do enterro.
– Pois, é Janine. Estávamos na fazenda. Mas ninguém pode saber disso. Você sabe como a Rita é. Se ela souber de algo, é capaz de surtar.
– Pode deixar, tia. Mas vocês pretendem viver assim para sempre?
– Não, não! Ele está preparando ela para um divórcio. Mas estamos indo com calma.
– Entendi.
– Mas, mudando de assunto. Não acredito que o Celso te proibiu de sair da cidade. Ele te conhece há tanto tempo.
– Pois é, tia! Nem sei o que fazer. Liguei para a Andréia, mais cedo. Ela disse que virá amanhã assim que amanhecer.
– Quem é Andréia?
– Minha advogada. Ela tem cuidado de tudo pra mim, desde a morte do meu pai. É de minha inteira confiança.
– Entendi. Que bom que você tem alguém em quem confiar assim.
As duas já haviam terminado de comer. Ainda estavam na mesa, apenas para concluir a conversa. De repente, o celular de Janine toca. Na tela aparece apenas os dizeres “número privado”. Apesar de achar estranho resolveu atender.
– Alô?
– Você acha que vai ficar com tudo? Desista! Essa herança não te pertence, e quem tem realmente o sangue Silva é que têm direito a ela. Você irá pagar por cada que está roubando.
– Quem está falando?
Do outro lado o telefone já estava mudo. A ligação havia sido cortada. Seria apenas um trote? Ou a voz do outro lado estava falando sério? Janine subiu e deitou-se. Era muita coisa pra apenas um dia. Não conseguiu assimilar o que foi lhe dito nesta ligação.
***
– Amor! Amor! Acorda!
– O que aconteceu? Está tudo bem?
– Está sim, amor! Quer dizer... Acho que minha bolsa rompeu. Está na hora!
– Ai meu Deus. E como você diz que está tudo bem?
Alexandre estava mais nervoso que Kelly. A criança, fruto do amor dos dois iria nascer. Era alegria demais! No mesmo dia em que compraram a casa nova, Kelly iria dar à luz! Não estavam preparados pra esse nascimento nesse momento. As coisas estavam na capital. O médico que faria o parto, também!
Kelly começou a sentir as contrações. A dor começava a aumentar. E Alexandre desceu para pegar o telefone celular que havia ficado na sala. Estava tão afobado, com a situação. Que nem percebeu a porta meio aberta. A pressa para pegar logo o celular e ligar para o médico era tanta que nem viu o que lhe acertou.
A força da pá lhe acertando o rosto quebrou seu nariz, e o fez cair para trás, como quem leva um tiro à queima roupa. Alexandre caiu, desacordado, aos pés da escada, com o rosto voltado para o chão. O sangue escorria pela sua boca. Era possível ver dois dentes no chão, arrancados pela força da pancada.
Alexandre voltou a si. Mas não tinha forças para se mexer. Sentia seu rosto formigar, e podia sentir o gosto do sangue quente na boca. A única coisa em que conseguia pensar era que o vizinho louco, havia invadido sua casa e o acertado com a pá. Nem teve tempo de estruturar esse pensamento. Outra pancada na cabeça o desmaiou. Alexandre nem teve tempo de perceber que morreria sem conhecer o bebê pelo qual ele esperou tanto.
No quarto, no andar de cima, Kelly gritava por Alexandre. As dores do parto estavam começando a aumentar. E ele desceu pra pegar o celular já fazia cinco minutos. Não aguentaria aquilo por muito tempo. Kelly não imaginava que seu marido já estava morto.
Uma figura apareceu na porta do quarto. Com uma capa de chuva, e um chapéu sobre a cabeça, na mão havia uma pá, molhada por um líquido vermelho e pegajoso. Apesar de ser possível ver o rosto da pessoa, para Kelly era inútil, afinal era alguém que ela nunca vira na vida.
– Quem é você? O que está fazendo aqui? Cadê meu marido?
A figura assustadora não respondeu. E começou a andar em direção à Kelly, que tentou em vão se levantar da cama. As dores lhe tiraram as forças e seu pé enrolou-se no edredom. Ela caiu ao chão. Começou a gritar. A chuva lá fora abafava seus gritos. Tentar reagir era perda de tempo.
Encostou-se em um dos cantos da parede, se arrastando, como um animal acuado. Encolheu-se. As lágrimas escorriam pelo rosto. Kelly pensou em implorar por sua vida. Seria em vão. Fechou os olhos e começou a visualizar todos os momentos que não teria com a criança que estava em seu ventre, a filha que sempre esperou. Alice, este seria o nome. Já haviam comprado todos os móveis para o quarto dela. Eram todos rosa, com desenhos de morangos. Móveis que jamais seriam usados.
Nem viu a pá ir de encontro ao seu rosto. Só sentiu o nariz quebrando, e o maxilar se deslocando. A dor era terrível. Mas ela sabia que logo passaria. Se sentia um lixo por não conseguir reagir. Tinha que lutar! Pelo menos para tentar salvar Alice. Apertava os braços em torno de sua barriga. Outra pancada na cabeça. Sentiu os ossos da face se quebrarem. Podia sentir o sangue escorrendo pelo rosto. Na boca o sangue jorrava. Um dos olhos saltou da órbita. A dor era visceral. Um terceiro golpe na cabeça fez a dor cessar. Kelly não estava mais respirando. Ela estava morta, Alice não.
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