Herança de Cinzas
14 O Véu das Águas
POV LUNA
Abro os olhos e, pela primeira vez desde que o torneio começou, não vejo os raios de sol da manhã. O peso dos últimos acontecimentos me atinge imediatamente.
Olho ao redor e mais uma vez estou sozinha no pequeno quarto da tenda. Me sento na cama e sinto como se meu corpo tivesse sido passado por um moedor de carne.
Cada músculo dói. Cada movimento é um lembrete do que passei.
Ainda estou com a mesma roupa, mas noto que os locais onde fui ferida foram limpos e cobertos com curativos. Respiro fundo e coloco os pés para fora da cama, sentindo o chão frio contra minha pele. Me levanto devagar e encontro minha mochila ao lado da cama.
Abro o zíper e pego minha última troca de roupa, vestindo-a sem pressa. Prendo o cabelo, arrumo a bolsa e fico pronta para sair. Mas falta algo fundamental. Meus All Star. Reviro o quarto rapidamente e os encontro embaixo da cama. Calço os tênis e saio do quartinho, caminhando em direção ao quadro de placar.
Durante o percurso, percebo que alguns semideuses me olham de forma estranha. Algo não está certo. Meu peito se contrai com uma ansiedade subconsciente. E então, quando chego diante do quadro, descubro o motivo.
Meu nome está em último lugar, mas isso não é o que atrai os olhares. O que realmente prende a atenção de todos é o nome ao lado do meu.
Perséfone.
Meu corpo se enrijece.
Depois de tantos anos buscando respostas, finalmente descubro o nome de minha mãe.
Minha mãe.
Sempre imaginei que, no momento em que descobrisse a verdade, sentiria uma explosão de emoções. Esperava sentir raiva. Talvez alívio. Ou quem sabe tristeza.
Mas agora que o nome está ali, exposto diante de mim… nada disso acontece.
A única coisa que sinto é indiferença. Esse nome ao lado do meu não tem peso.
Não significa nada para mim.
Não representa um passado.
Não desperta memórias.
É apenas um nome.
Antes que eu possa mergulhar completamente nesse pensamento, meus olhos captam um movimento à frente. Kaique sai da tenda do conselho, caminhando em minha direção. Seus passos são lentos, mas vejo claramente a preocupação em seu rosto.
— Como você está?
Sua voz é gentil, e ele me abraça imediatamente.
Solto um suspiro pesado, sentindo o conforto do seu toque.
— Me sentindo um pedaço de carne moída.
Minha resposta o faz rir, e por um momento, apenas aproveito seu abraço.
Então, ele me solta e começa a me inspecionar, verificando cada detalhe, garantindo que estou realmente bem.
Respiro fundo antes de perguntar. Minha voz vem hesitante.
— Kai, a…
Não consigo terminar a pergunta. Todas as lembranças do labirinto surgem de uma só vez, e um bolo se forma na minha garganta. Mas ele entende imediatamente.
— Ela foi enviada para o jardim.
O Jardim dos Semideuses.
Todos que morrem são enviados para lá. É o mais próximo que temos de um Olimpo. Ninguém sabe exatamente onde fica. Só é possível chegar até lá através de portais, e há um em cada continente.
Meu peito alivia minimamente. Kelvia teve um destino digno. Ela merecia isso.
Me recomponho e levanto os olhos para Kaique.
— Eles disseram algo sobre o Minotauro? — Minha voz vem mais firme agora. — Porque sabemos muito bem que uma criatura incontrolável como aquela não deveria fazer parte deste campeonato.
Kaique solta um suspiro curto.
— Eles estão apurando. — Ele não parece satisfeito com a resposta que teve. — Aparentemente, as coisas estão fora da alçada do conselho.
Minha sobrancelha se franze.
— Como assim?
Ele cruza os braços, pensativo.
— Pelo que entendi, toda a ideia do torneio veio do Olimpo. — Minha pele se arrepia. — Mais especificamente, do próprio Zeus.
Ele solta um pequeno riso sem humor.
— O conselho apenas adaptou o projeto para nossa realidade.
Meu coração bate pesado.
— Então devo concluir que eles também não sabem explicar como fui mandada para um local aleatório no meio da floresta e não para o acampamento?
Kaique apenas assente com a cabeça, confirmando minha suspeita. Meu sangue ferve.
— Isso não faz sentido, Kai! — Minha voz cresce. — Qual o propósito de expor os próprios filhos a essas provas perigosas?!
Kaique exala frustração, sua expressão é carregada de irritação.
— Não sei, pequena. — Ele solta um suspiro pesado. — Também não consigo entender.
Seus olhos se obscurecem.
— E isso está me deixando extremamente frustrado. — Ele desvia o olhar, seu tom se torna tenso. — Todos aqueles corpos espalhados pela floresta sendo enviados para o jardim…
Meu peito se contrai imediatamente.
Minha voz sai trêmula.
— Corpos? — Engulo seco. — Houve outras mortes além de Kelvia?
Kaique pausa por um segundo, mas então responde.
— Tivemos muitas perdas.
Ele respira fundo antes de continuar.
— Eles estão providenciando para que os que conseguiram ser trazidos de volta, como a Kelvia, sejam enviados para o jardim.
Ele me encara diretamente.
— Mas estão averiguando aqueles que nem sequer voltaram para o acampamento.
Meus dedos apertam a costura da minha calça.
— Mais algum conhecido?
Minha voz é um fio de som. Ele exita por um instante. E então, diz o que eu temia ouvir.
— O Alec e a Angie.
Meu peito afunda. Alec trabalhava comigo na cafeteria. Angie chegou junto com Kaique ao acampamento. Kaique aperta minha mão.
— Restaram apenas 150 para a próxima prova.
Sua voz é pesada, carregada de algo sombrio.
— Devem anunciá-la a qualquer momento.
Me permito sentir o impacto da notícia por um instante.
Mas então, pergunto:
— Kaique, o que aconteceu depois que eu apaguei?
Ele me encara, pensativo.
— Como assim?
Enquanto ele procura um lugar para sentarmos, meus pensamentos não param de trabalhar. Algo me diz que a resposta não será simples.
Me encosto na árvore, tentando entender como estou viva e sem nenhum arranhão depois de tudo. Minha voz vem baixa, ainda carregando o peso dos últimos acontecimentos.
— Eu lembro de estar bem machucada quando cheguei aqui. — Faço uma pausa, passando uma mão leve sobre minha pele intacta. — E quando acordei, não tinha nada. Nem uma cicatriz.
Meu olhar se volta para Kaique, buscando uma resposta.
— A única prova de que não foi um sonho é essa sensação de ter sido atropelada por um caminhão.
Ele solta um pequeno sorriso, mas não há humor genuíno em sua expressão.
— Digamos que você recebeu uma ajuda inesperada.
Meu peito se contrai minimamente.
— De quem?
Ele me encara por um instante, antes de finalmente responder.
— Tobias.
Minha respiração vacila, mas Kaique não diz mais nada. Apenas me observa. Quando percebe que não vou aceitar uma resposta curta, ele solta um suspiro leve e continua.
— Ele utilizou uma técnica rara para curar seus machucados através da água.
Minha testa se franze.
— Achei que filhos de Poseidon só conseguiam usar a água para curar a si mesmos.
Kaique assente, seu tom firme.
— E é assim. — Ele pausa, tentando encontrar as palavras certas. — Mas, de alguma forma, Tobias conseguiu acesso a essa técnica e a aprendeu.
Seus olhos me analisam rapidamente.
— Depois, usou a mesma para lhe curar. Fim.
Meu peito se aperta de novo. Tento manter minha voz neutra ao perguntar:
— E onde ele está agora?
Kaique solta um suspiro pesado, como se já tivesse se feito essa mesma pergunta inúmeras vezes.
— Eu não sei. — Seu tom é baixo. — Quando terminou, me mandou te trazer de volta e ficou no rio. Não o vi mais depois disso.
Meu olhar se perde por um instante.
— Entendi.
Faço uma nota mental para agradecer a Tobias assim que o reencontrar.
Então, me volto para minha bolsa. Reviro o interior, até encontrar o que quero: Uma barra de chocolate.
Está meio mole, um pouco quebrada, mas ainda é chocolate. E, neste momento, é tudo que preciso. Começo a abrir a embalagem, mas então uma mão grande surge e toma o doce da minha mão.
Kaique balança a cabeça, fingindo indignação exagerada.
— Eu digo pra colocar tudo que for necessário na mochila para sobreviver por três dias…
Ele ergue o chocolate, como se fosse uma prova condenatória.
— E a minha garota traz uma barra de chocolate.
Ele termina de abrir a embalagem e come um pedaço, sem nenhum remorso. Reviro os olhos, mas não deixo barato.
— Sua garota?
Minha sobrancelha se ergue. Aproveito a distração e roubo um pedaço do chocolate da sua mão. Kaique sorri de lado, sem hesitar.
— Minha garota!
Então, antes que eu possa reagir, ele me impede de roubar outro pedaço. E, no mesmo instante ele me beija.
Minha mente trabalha por um instante, mas então me afasto minimamente. Meu tom é direto.
— Não me importo que me chame assim.
O olhar dele se fixa no meu, atento.
— Mas espero que tenha em mente que nós não temos nada.
Minha voz vem firme.
— E, mais importante, eu não pertenço a você.
Kaique não responde imediatamente. Ele apenas me encara por alguns segundos, seu olhar parece perdido em um pensamento profundo. Então, finalmente, desvia os olhos.
Respiro fundo e mudo de assunto.
— Eles já falaram alguma coisa sobre o que aconteceu?
Kaique parece incomodado com a pergunta, minha voz vem determinada.
— Não acho que estava no planejamento um portal que me jogasse no meio da floresta, fora das barreiras.
Ele solta um suspiro lento.
— Ainda não sabemos ao certo o que aconteceu. — Suas mãos se fecham sobre os joelhos. — Eles ainda estão tentando descobrir.
Nosso momento de paz não dura muito. A movimentação ao redor se altera. O conselho deixa sua tenda e segue para o palco.
Sabemos exatamente o que isso significa. A próxima prova.
Guardamos nossas coisas. Kaique se levanta primeiro, e estende a mão para me ajudar. Mas, no instante em que seguro sua mão, ele me puxa com mais força do que deveria.
Meu corpo se projeta para frente, e antes que possa me estabilizar—
Acabo batendo contra seu peito, nos derrubando no chão.
Kaique solta uma risada.
— Está se tornando muito comum nos encontrarmos por aqui, não é, senhorita?
Seu sorriso é despreocupado. Me permito rir também, mas então me recomponho.
— Também acho, senhor.
Me levanto e lhe estendo a mão. Dessa vez, não caímos.
— Vamos.
Caminhamos de mãos dadas, até estarmos perto o suficiente do palco para escutar o que for dito. Mas longe o suficiente para não nos misturarmos com a multidão.
Meu olhar busca um rosto familiar. Já estou quase desistindo, até que o encontro.
Bem na frente do palco, conversando com uma garota. No início, não reconheço quem é, pois ela está de costas. Mas então, ela se inclina de leve, dando um beijo no rosto de Tobias.
Meu peito trava.
E eu reconheço o perfil de seu rosto imediatamente.
Maia.
Uma pontada aguda atravessa meu peito. Por um momento, um pensamento tóxico se forma.
Ela não deveria estar ali.
Deveria ser eu.
Mas então eu mesma me repreendo. Foi ele quem quis assim. Não posso obrigá-lo a me querer ao meu lado.
Kaique balança meu ombro, e percebo que ele me perguntou algo. Respondo sem nem prestar atenção, e volto a olhar para frente. Minha mente reflete.
Talvez eu esteja sendo injusta com Kai. Ele tem se esforçado ao máximo para me fazer feliz nos últimos dias. Não posso negar que sinto algo por ele, mas não sei dizer que sentimento é esse.
Talvez apenas esteja me deixando levar pela carência e pela ausência de Tobias. Mas então percebo algo ainda mais complicado. Também não sei o que sinto pelo Tirano. Me desperto da reflexão no momento em que vejo meu padrinho subindo ao palco.
A próxima prova será anunciada e nada mais importa agora.
— Existem cem centauros espalhados pela floresta.
A voz ecoa pelo acampamento, carregada de seriedade.
— Cada um de vocês deve capturar um e levá-lo de volta para o bosque suspenso.
Meu peito se aperta antes mesmo que eu possa raciocinar sobre o desafio.
— Vocês terão até o fim do dia. Preparados?
Antes que alguém possa responder, uma voz corta o silêncio.
— E vocês, já preparam os cinquenta túmulos?
A pergunta vem bem do meio da multidão, e por isso demoro alguns segundos para identificar de quem veio. Mas então a reconheço.
Kamily.
Uma das semideusas mais velhas que já conheci. Com 36 anos, a filha de Atena sempre honrou sua filiação, sendo extremamente sábia e justa.
Mas agora… agora seu tom transborda revolta.
— Porque é isso que vai acontecer. — Sua voz treme, carregada de um misto de fúria e dor. — Todos nós iremos morrer nesse torneio estúpido!
Alguns semideuses se mexem desconfortavelmente, mas ninguém a interrompe. Porque todos sabem que ela não está exagerando.
— Vocês sempre se mostraram preocupados com nossa educação e nossos futuros.
Seus olhos varrem os líderes no palco.
— Mas de repente se mostram totalmente inexpressivos diante da morte de vários companheiros nossos!
Suas palavras são afiadas como lâminas, e o impacto se espalha pelo grupo. Kaique fala baixo, mas eu o ouço claramente.
— Parece que um dos mortos no labirinto era companheiro dela.
Meu peito afunda ainda mais.
A certeza que eu já tinha se solidifica. Esse torneio é algo muito maior do que imaginamos. Não é possível que, de repente, eles tenham simplesmente deixado de se importar conosco.
Dionísio finalmente responde.
— Eu entendo sua revolta, senhorita Parker. — Mas sua voz não tem emoção alguma. — Não pense que não estamos sofrendo por todas as vidas que foram perdidas.
Minha mandíbula se trava. Ele pode dizer isso o quanto quiser, mas nenhum de nós acredita.
Então, ele continua.
— Existe uma hierarquia em nosso mundo.
Ele mantém o olhar firme, como se fosse uma verdade absoluta.
— E devemos segui-la.
Minha respiração vem mais pesada.
— As ordens de manter o torneio em curso vieram de alguém maior do que nós.
Meu corpo esfria.
Então é isso.
Alguém acima do conselho está manipulando tudo. Alguém que não se importa com nossas vidas. Alguém que nos trata como peças descartáveis em um jogo.
Dionísio finaliza sua fala com um tom definitivo.
— Mesmo diante da dor e dos infortúnios, iremos cumprir nossas ordens.
Suas palavras são frias como pedra.
— Aqueles que não se sentirem aptos a permanecer na competição estão livres para deixá-la.
Sem hesitar, ele faz um sinal para Apolo, e o canhão é disparado.
Me viro para Kaique, já tendo certeza absoluta do que vai acontecer agora. Nessa prova, eu serei apenas um peso que irá atrasá-lo.
Por mais que meus machucados não estejam mais visíveis, meu corpo ainda não está no seu máximo.
E capturar um centauro? Isso não vai acontecer.
Kaique percebe meu olhar imediatamente. E antes que eu possa abrir a boca, ele já me corta.
— Nem pense nisso!
Sua voz vem firme, como se recusasse qualquer alternativa.
— Nós vamos dar um jeito.
Ele pega minha mão e começa a caminhar para dentro da floresta. Já estamos há alguns minutos caminhando quando percebo algo.
A floresta está estranhamente quieta.
Até agora, não vimos nenhum sinal de centauros. Meu olhar varre as árvores, mas nada. O desafio será muito pior do que imaginamos.
Capturar um centauro já é difícil por natureza. São criaturas selvagens e violentas, extremamente velozes e fortes. Seria pedir demais que os centauros aqui pertencessem ao grupo de Quíron?
Sim, seria.
Porque Quíron não é qualquer centauro.
Ele é o primeiro, o mais forte e inteligente da raça. Por um momento, um pensamento me atravessa.
— Kai.
Minha voz é baixa, mas ele me ouve imediatamente. Ele continua caminhando, mas olha na minha direção.
— Você teve alguma notícia de Quíron recentemente?
Kaique pensa por um instante antes de responder.
— Não.
Seu tom tem um toque de hesitação. Então, depois de um segundo, ele completa.
— Na verdade… já faz algum tempo que Apolo não fala sobre ele.
Minha mente trabalha, tentando conectar as peças. Mas então, algo interrompe meus pensamentos.
Meu olhar capta um movimento à direita. Minha respiração se ajusta automaticamente. Cutuco Kaique de leve, e percebo que ele também viu.
Sem hesitar, começamos a nos mover em direção ao local. Minhas mãos buscam algo específico na mochila. O chicote que ganhei de Dionísio há muito tempo.
Feito de couro de esfinge, forte e resistente. Uma arma perfeita para capturar centauros.
Minha mente já está preparada para o ataque. A criatura sai do esconderijo atrás de um arbusto. E não perco tempo.
Lanço o chicote, agarrando sua perna e derrubando-a no chão.
Mas então—
Um grito preenche o ar.
Nada parecido com o som de um centauro. E quando finalmente vejo quem derrubei… Minha respiração trava por um segundo.
Não é um centauro.
É um Marvin muito irritado.
— Merda!
Ele continua resmungando, tentando em vão soltar o tornozelo do aperto do chicote. Meus lábios se contraem instantaneamente.
Droga.
Seu olhar dispara diretamente para mim.
— Será que tem como a encrenqueira me soltar?
Seu tom carregado de sarcasmo. E, por um instante, eu não sei se rio ou peço desculpas.
— Foi mal.
Minha resposta vem automática, carregada de um toque inesperado de nostalgia ao ouvir aquele apelido que há tanto tempo não escutava.
Com um rápido movimento, puxo de volta a corda do chicote, que se enrola sozinha no meu cinto.
Essa é a vantagem dessa arma. Ela só pode ser movimentada pelo seu verdadeiro dono. Se eu prender algo, por mais que solte o cabo, o aperto não se desfaz até que eu mesma o remova.
Marvin exala um suspiro, como se já estivesse acostumado com esse tipo de situação.
— Tudo bem.
Ele limpa a terra da roupa, mas sua expressão não parece incomodada.
— Agora saia da minha frente, ainda tenho um longo caminho até o acampamento.
Kaique o observa por um instante antes de perguntar:
— Por que está voltando para o acampamento?
Sua voz não tem acusação, apenas curiosidade genuína. Marvin não demora para responder.
— Tem alguma coisa errada com esse torneio.
Seus olhos se fixam na floresta, como se estivesse sentindo algo que não conseguimos ver.
— Eu percebi assim que pisei aqui no primeiro desafio.
Minha respiração vacila minimamente.
Ele continua.
— E então veio o Minotauro, a Kel… todo aquele lance com você na floresta…
Ele me encara diretamente, e seu tom é afiado.
— E agora, mais do que nunca, algo nessa floresta grita perigo.
Meu corpo se tensiona. Porque Marvin não é qualquer semideus. Como filho de Deméter, sua ligação com a natureza e as florestas é muito mais forte do que a de qualquer outro. Ele sente coisas que os outros não conseguem perceber.
Se ele diz que há algo errado, então há algo errado. E então, antes de continuar, ele me encara de novo. Seus olhos carregam algo que eu não consigo definir completamente.
— Você sendo filha de quem é deveria ter percebido também.
Sei que não foi a intenção dele, mas suas palavras me atingem de um jeito inesperado. Minha mandíbula trava, e meu corpo se encolhe automaticamente.
Foi um golpe baixo. Meu tom vem controlado, mas firme.
— Talvez.
Solto um suspiro leve, recompondo-me.
— Mas eu não sinto nada. Tudo continua da mesma forma que era antes.
Ele não rebate, apenas assente lentamente.
Kaique, por outro lado, não se deixa distrair pelo peso das palavras. Seu tom vem afiado e direto.
— Mas o que exatamente você sentiu que o fez voltar para o alojamento?
Seu foco está no que realmente importa. Marvin solta um suspiro longo antes de finalmente responder.
— A floresta não gosta de ser controlada. — Seu olhar fica ainda mais sério. — E desde que esse torneio começou, ela reclama por estar sendo subjugada pelo poder de alguém muito superior a nós.
Meu corpo tensiona minimamente.
— Eu não consegui descobrir quem era. — Ele respira fundo, como se pensasse antes de continuar. — Mas de uma coisa tenho certeza.
Seus olhos se tornam sombrios por um instante.
— É algum Deus de classe superior.
O peso da revelação paira sobre nós, mas antes que possamos reagir Marvin se vira, retomando seu caminho de volta ao acampamento. Mas então, antes de se afastar completamente, ele complementa.
— Se eu fosse vocês, faria o mesmo.
Ele não desvia o olhar ao dizer isso.
— Mas como eu sei que a encrenqueira aí não desiste fácil…
Ele olha diretamente para mim, e por um instante quase sorrio.
— E você não vai deixá-la sozinha…
Agora seu olhar se volta para Kaique.
— Aconselho que tomem cuidado.
Minha respiração vem mais profunda, esperando o que virá em seguida.
— Existem outras criaturas à solta por aqui.
Minha pele se arrepia minimamente.
— Os centauros não serão a única preocupação de vocês.
Minha voz vem automática.
— Obrigada pelo conselho, Marvin.
Ele assente, e então caminha para o sentido oposto ao nosso.
— Temos que ficar atentos a qualquer movimentação ou ruído diferente.
Kaique afirma, seu tom mais sério do que antes. Assinto automaticamente.
— Eu sei. — Minha voz vem mais baixa, ainda absorvendo as palavras de Marvin. — Ainda temos um bom tempo, então podemos ser mais cuidadosos.
Já estamos caminhando há tempo suficiente para fazer minhas pernas começarem a reclamar pelo esforço.
Vez ou outra, trombamos com algum dos outros competidores, mas não nos atrasamos conversando. Seguimos nosso caminho sem hesitação.
Estou distraída refazendo meu rabo de cavalo quando algo me faz parar.
Alguns raios de sol aquecem minha pele, antes fria pelo inverno. Meus olhos se erguem imediatamente.
— Uma clareira?
Minha voz vem levemente surpresa. Minha mente trabalha automaticamente, tentando lembrar dos mapas da região.
Kaique assente rapidamente.
— Devemos ter caminhado para o sul do acampamento.
Seus olhos varrem o ambiente.
— Se não estou enganado, essa é a Clareira Diamantina.
Então, tudo se conecta. Me lembro do local.
É conhecido assim por suas pequenas pedras cristalinas espalhadas pelo solo, que parecem pequenos diamantes. Meu olhar se ajusta novamente para o ambiente.
— Se meus rasos conhecimentos de geografia não estiverem errados…
Meu tom tem um toque de leveza, apesar da tensão do momento.
— A entrada do bosque suspenso fica no topo do morro do outro lado da clareira. — Kaique assente imediatamente. — Exatamente.
Ele ajusta a postura antes de continuar.
— Basta descer a clareira e atravessar o rio logo abaixo, e então chegaremos lá. Seu tom tenta soar tranquilo, mas percebo algo oculto em sua voz.
Minha sobrancelha se ergue levemente.
— Mas?
Meu tom vem certeiro. Ele solta um suspiro discreto.
— Mas não encontramos nenhum centauro durante todo o caminho.
Seus olhos ficam atentos ao redor.
— E esse deveria ser o ponto final da prova. — Ele pausa por um segundo. — Então, onde eles estão?
Antes que eu possa responder, um grito animalesco explode pela clareira. Minha respiração trava por um instante. O som vem de algum lugar abaixo da clareira, a alguns metros à nossa frente.
Minha voz dispara automaticamente.
— Acho que iremos descobrir agora.
Sem pensar duas vezes saio correndo para verificar de onde veio o som. Chego até a beirada da clareira, parando antes da ribanceira, e observo a paisagem lá embaixo.
O que deveria ser um rio calmo e raso agora se transformou em uma correnteza consideravelmente forte e aparentemente profunda.
Mas o que realmente me paralisa são as criaturas que se banham nele.
— Aquilo são...
Minha voz desaparece antes que eu possa terminar. O fascínio me consome completamente, mas Kai entende na hora.
— Nereidas? Sim.
Seu tom é tão surpreso quanto o meu. Até hoje, nunca havia visto ou conhecido alguém que tivesse de fato visto uma delas. As nereidas são criaturas aquáticas, muitas vezes comparadas ao que os mundanos chamam de sereias.
Mas são muito mais do que isso. São ninfas marinhas, filhas de Nereu, a grande divindade dos mares. Antes de Posseidon nascer, era ele quem governava os oceanos.
Saímos do nosso transe fascinado quando outro grito, igual ao anterior, rompe o silêncio da clareira.
— Mas que merda é essa?
Kai se volta para a cena, observando o que poderia ser cômico, se não fosse trágico. Um semideus, que não reconheço de imediato, tenta atravessar o rio. Mas não está nadando.
Está saltando de um lado para o outro, usando alguma estratégia que quase desafia a física. Para qualquer pessoa comum, isso seria impossível.
Mas para ele…
— Hermeson.
Kai e eu falamos ao mesmo tempo, reconhecendo o ousado competidor.
Não conheço Hermeson pessoalmente, mas suas peripécias são famosas no submundo dos herdeiros do Olimpo.
Filho de Hermes, ele recebeu do pai um presente único: Um par de sapatos com pequenas asas.
Originalmente, o presente servia apenas para torná-lo veloz, mas Hermeson não se contentou com isso. Ele aprimorou o equipamento, e o resultado foi melhor do que o esperado.
Agora, os sapatos não apenas o tornam rápido, mas também o ajudam a flutuar. E, aproveitando a direção dos ventos, ele consegue atravessar o rio com apenas um salto.
Mas isso não agrada as nereidas. Elas ficam claramente irritadas, observando sua travessia ousada.
Kai solta um suspiro irritado.
— É claro que eles não iriam facilitar.
Seu olhar agora varre o cenário completo. E, só agora, percebo a real dificuldade do desafio.
Do outro lado do rio, vários centauros pastam calmamente.
As nereidas não estão apenas se banhando ali. Elas estão protegendo os centauros.
Para concluirmos a prova, não basta apenas atravessar. Temos que driblar as nereidas, capturar um centauro, e subir o morro para chegarmos ao bosque suspenso.
Logo abaixo de nós, vários semideuses se acomodam afastados das margens do rio. Eles estão tentando descobrir uma forma de atravessar.
Mas até agora…
Ninguém teve sucesso.
Alguns mais corajosos tentam nadar até o outro lado, mas são capturados pelas ninfas, arrastados para a escuridão do fundo do rio.
Outros tentam barganhar, mantendo uma distância segura, mas acabam levando jatos d’água na cara e ficando totalmente encharcados.
Meu peito aperta enquanto observo a cena absurda diante de nós.
Mas então…
Meu olhar captura algo ainda mais inesperado.
— Por Zeus, me diz que eu bati muito forte com a cabeça na prova anterior e estou alucinando!
Cutuco Kai de leve, esperando que ele veja o mesmo que eu.
— Aquilo não pode ser real.
Meus olhos fixam na figura afastada da margem. Uma mulher…, mas não uma qualquer.
Kaique demora um segundo para falar, quando responde, sua voz está carregada de pura admiração.
— Eu… Meu pai do Olimpo… — Ele pausa, como se precisasse processar a visão diante de nós. — Ela é mais linda do que qualquer palavra poderia descrever.
Anfitrite.
Mais afastada da margem do rio, semideitada sobre uma longa rocha, observando a cena e rindo de tudo, está a própria Anfitrite em pessoa.
Uma das nereidas mais famosas e deslumbrantes.
Seus longos cabelos negros caem sobre seus ombros, contrastando com sua pele brilhante como diamante.
Seus lábios vermelhos, quase da cor de sangue puro, atraem o olhar de forma hipnotizante.
Seus olhos refletem a cor do mar, profundos, intensos, implacáveis.
E sua calda longa, repleta de escamas prateadas, parece um fragmento da própria água cristalina.
Mas não é sua beleza surreal que a torna tão famosa.
Minha voz vem baixa, quase trêmula.
— O que a esposa do seu pai está fazendo no meio de uma prova de um torneio de semideuses?!
Ainda não consigo acreditar no que estou vendo. Kaique solta um suspiro exasperado, sem tirar os olhos dela.
— Eu não faço a porra da menor ideia.
Me esforço para acordar do torpor momentâneo. Por mais que isso seja surreal, ficarmos parados aqui não vai nos ajudar a encontrar respostas.
— Okay… acho que ficarmos parados aqui não vai nos ajudar.
Kaique assente rapidamente, ajustando sua postura.
— Você tem razão.
Ele ergue o dedo, apontando para o que eu estava procurando.
— Por ali.
Uma trilha um pouco à esquerda, levando direto para a margem do rio.
Sem hesitar, começamos a descer.
Começamos a descer a trilha, avançando com cautela, até finalmente chegarmos à margem. E, no instante em que meus olhos varrem o cenário, vejo o dono dos meus pensamentos nas últimas semanas.
Tobias.
Mas o que vejo não é o que eu esperava.
Enquanto vários semideuses estão se matando para atravessar o rio, ele está sentado despreocupadamente, conversando com uma das ninfas.
Minha mandíbula trava, e meus pensamentos escapam antes que eu possa segurá-los.
— É sério isso?
Minha voz sai mais alta do que pretendia, e, logo depois, recebo uma resposta automática de Kaique. Ele solta uma risada discreta, mas carregada de um toque de irritação.
— Pois é, ele consegue ser bem idiota quando quer.
Meu peito afunda minimamente, mas antes que eu possa processar mais, uma voz interrompe o momento.
— Kaique-senpai!
Minha cabeça se vira imediatamente, acompanhando a voz aguda e animada. Vejo um pequeno ser de quase 1,50m correndo em nossa direção. Sua voz explode de alegria antes de parar perto de nós.
— Luna-san!
No instante seguinte, Hiyori se joga nos braços de Kaique, ele não estava preparado. O impacto é forte, e ele esbarra em mim.
Quase não tenho tempo para me preparar. Por muito pouco, não caio de bunda no chão.
— Meu Zeus, como você cresceu!
Kaique solta uma risada, abraçando a menina com força.
— Quando foi que chegou aqui?
Seu tom vem carregado de carinho e surpresa. Hiyori responde animada, se soltando do abraço.
— Uns três dias antes do início do torneio.
Ela pausa, ajustando o tom.
— Thoth mandou um comunicado para a casa dos meus pais, e eles compraram minha passagem de volta. — Então, sem hesitar, ela vem até mim, me abraçando com a mesma energia de antes.
— É bom saber que você está bem, Luna-san! — Seus olhos brilham de emoção. — Você nos deu um susto e tanto na última prova.
Ela solta um pequeno suspiro, antes de acrescentar:
— Por muito pouco, não desfigurei a cara de macaco do Peter.
Minha risada vem automática.
— Uma pena que não tenha conseguido. — Me solto do abraço, segurando seu rosto pequeno e ajustando os cabelos bagunçados pelo vento. — É bom lhe ver também, Hiyori-chan.
Meu tom vem caloroso.
— Você não nos mandou mais notícias, estávamos com saudades.
Por um instante, seu olhar se torna um pouco culpado. Ela abaixa a cabeça minimamente, seu tom mais tímido agora.
— Desculpe deixá-los preocupados. — Ela solta um pequeno suspiro antes de continuar. — As coisas ficaram um pouco complicadas após a coroação.
Kaique intervém imediatamente, sua voz suave e acolhedora.
— Não precisa se desculpar.
Ele sorri para ela.
— Apenas tente nos mandar notícias com mais frequência.
O brilho em seus olhos retorna, e ela assente rapidamente.
Hiyori pertence a uma família japonesa muito influente. A região de onde veio é dividida em clãs, e entre eles existe uma hierarquia rigorosa.
Até onde sabemos, sua família fundou o Clã Lotus, que atualmente lidera todos os outros. Ela chegou ao acampamento aos oito anos, quando começou a expressar seus dons. Nos últimos sete anos, fez parte da nossa família. Mas no início deste ano, tudo mudou.
Sua mãe se casou e assumiu a liderança do clã. Uma semana antes da cerimônia, alguns membros vieram buscá-la para levá-la de volta para casa. Mesmo morando do outro lado do mundo, ela sempre mandava notícias.
Porém nos últimos dias não havíamos recebido nada.
Minha voz vem curiosa agora.
— E como estão as mãos?
Meus olhos se fixam nas luvas cobrindo seus dedos. Hiyori sorri levemente, seu tom animado.
— Quase cem por cento saradas.
Ela remove as luvas, revelando algumas queimaduras ainda em processo de cicatrização.
— Tem sido cada vez mais fácil controlar.
Meu peito se alivia. Kaique franze levemente o cenho, examinando mais criteriosamente os machucados.
— Você não parou de treinar, não é?
Seu tom vem atento.
Hiyori estufa o peito com orgulho.
— Não mesmo!
Sua voz transborda determinação.
— Eu não consigo mais treinar com a mesma frequência de antes, mas sempre que posso, o faço.
Ela é filha de Hefesto, o deus do fogo e também o fabricante do prêmio do torneio. Quando chegou ao acampamento, ainda estava começando a controlar suas habilidades.
Mas, ao invés de apenas manipular o fogo, ela o tomava para si. E sempre acabava com queimaduras feias. Por algum motivo inexplicável, ela não é imune ao fogo.
Como foi embora antes do fim do treinamento, ainda não consegue controlar com precisão. Mas conseguiu melhorar muito, ao ponto de as queimaduras já serem quase nulas.
Hiyori solta um pequeno sorriso.
— Essa vai ser fácil pra você, hein, Kai?
Seu tom vem cheio de provocação leve. Kaique revira os olhos, mas sorri.
— Eu espero que sim.
Ele solta um pequeno suspiro leve.
— Afinal, a água é a minha área de domínio.
Hiyori levanta uma sobrancelha, seu olhar travesso.
— Dos dois, pelo visto.
Ela aponta para Tobias, que continua sentado, conversando com a ninfa. Meu peito reconhece a verdade nisso.
Tobias agora está de pé, analisando algo na água. Seus olhos varrem a superfície, como se estivesse tomando uma decisão.
Então, com um pequeno movimento da mão, quase um estralar de dedos, ele age. E, como se não fosse loucura suficiente, ele começa a pisar na água. Mas seus pés não afundam como deveriam.
Na verdade…
Ele parece estar pisando sobre uma lâmina de vidro. Kaique solta um suspiro e, sem hesitar, explica a técnica.
— Cristalização da água. Simples e prático.
Ele acompanha os passos de Tobias, observando cada detalhe.
— Ele agrupa as moléculas de água do rio e as transforma em cristais de gelo sólidos como mármore.
Minha mente processa a informação, mas a única coisa que consigo expressar é pura admiração.
— Legal!
Hiyori também parece hipnotizada pela cena. Então, de repente, ela se volta para Kaique, seu olhar cheio de curiosidade.
— Você também consegue fazer isso, senpai?
Kaique pausa, seu tom vem hesitante.
— Hm… sim e não. — Sua testa franze levemente, enquanto ajusta a resposta. — Eu conheço a técnica, mas meus cristais não são tão resistentes.
Ele solta um pequeno riso sem humor.
— Então, creio que não seria a melhor escolha para mim.
Hiyori assente rapidamente, mas continua.
— Então já sabe como vai atravessar?
Kaique solta um suspiro antes de responder.
— Sim, já decidi.
Mas então, sua expressão fica mais fechada. Algo em sua voz muda.
— Vocês não acham que tá muito fácil?
Minha atenção se volta para ele completamente.
— O quê?
Minha voz carrega um toque de surpresa. Kaique aponta para o rio, observando Tobias avançando sem dificuldades.
— A travessia.
Seus olhos varrem a margem.
— Todos os semideuses que tentaram atravessar até agora foram atacados pelas ninfas.
Ele pausa, ajustando seu tom.
— Mas nenhuma chegou perto dele até agora.
Minha respiração desacelera, e Hiyori também parece notar o detalhe. Ela se ajusta, observando mais atentamente.
— É verdade.
Sua voz vem mais baixa agora, mais alerta.
Meus olhos fixam na cena, analisando cada movimento. Quase não percebo o momento em que Anfitrite faz o comando.
É um movimento quase insignificante, como se espantasse um inseto da mão. Mas apenas esse pequeno gesto faz com que as ninfas ataquem.
Elas nadam em uma velocidade absurda, avançando diretamente para Tobias. Ele percebe tarde demais.
No instante seguinte, começa a acelerar os passos. Seu corpo se move rapidamente, e por um momento parece que ele vai escapar. Ele já tinha atravessado quase o rio todo quando uma delas agarra seu tornozelo.
A placa de cristal onde ele pisava se desfaz por completo. Como se fosse vidro estilhaçando.
E então… Ele é arrastado para o fundo do rio.
Um minuto se passa.
Nenhum sinal dele.
A respiração presa das pessoas ao redor se torna quase audível.
Até mesmo Kaique parece preocupado.
As ninfas agora nadam calmamente, como se nada tivesse acontecido. Seus sorrisos vitoriosos denunciam a certeza do semideus abatido. Minha mente não consegue processar totalmente.
Hiyori, por outro lado, expressa sua incredulidade sem hesitar.
— Isso… caramba, isso foi realmente uma surpresa!
Seus olhos estão arregalados.
— Eu apostei minha mesada nele.
Dessa vez, seu tom vem carregado de pura decepção. Minha cabeça vira imediatamente para ela.
— Você o quê?!
Hiyori balança as mãos, como se quisesse se justificar.
— Não me leve a mal, Luna!
Ela solta um pequeno suspiro, ajustando sua postura.
— Você é forte e inteligente e tudo mais… — Mas então, continua. — Mas quando eu soube que ele iria competir, apostei todas as minhas peças nele.
Minha expressão se fecha minimamente. Hiyori continua sua explicação.
— Afinal, ele é… ou era, pelo menos… — Ela pausa por um instante. — O garoto dos olhos de Ártemis.
Minha garganta se aperta.
— Se a deusa da caça considerava ele bom o suficiente para ser pupilo dela, então ele realmente era bom.
Minha voz sai controlada, mas ainda carregada de um toque de ressentimento.
— Okay, você me descartou sem pensar duas vezes, entendi.
Solto um pequeno suspiro, ajustando minha postura.
— Mas que raios de aposta é essa?
Kaique intervém antes que Hiyori responda.
— O bolão sobre quem seria o campeão do torneio. — Ele solta uma risada leve. — A aposta mínima é de cinquenta dólares. — Seu tom vem carregado de despreocupação. — O ganhador leva literalmente um bolão de dinheiro.
Minha expressão se fecha completamente.
— Se até o Kai sabia, por que ninguém me contou?!
Kaique apenas faz uma expressão inocente, enquanto Hiyori parece genuinamente culpada.
— E quem organizou isso?!
Antes que alguém possa responder, um estrondo sai do rio. Algo explode de dentro da água, caindo a alguns metros de nós.
Hiyori grita assustada.
— YATO GAMI! — Mas então, sua voz vem mais calma. — Na verdade… parece ser só o Tobias mesmo.
Meu peito relaxa minimamente quando o vejo. Tobias cuspindo a água que engoliu, tentando recuperar o fôlego.
Uma tensão que eu sequer havia notado se dissolve imediatamente.
Alguns semideuses próximos começam a rir e fazer piadas.
Eu tento me segurar, mas acabo sorrindo também.
Porque agora, diante de mim…
O grande e convencido Tobias, primogênito de Posseidon, está completamente encharcado. Se recuperando após ser engolido pelo rio.
Até as próprias ninfas riem.
E na verdade, elas são as que mais parecem estar se divertindo.
Hiyori solta um pequeno riso.
— Elas o deixaram pensar que iria conseguir até o último momento…
Ela observa Tobias com um olhar travesso.
— E então o derrubaram. Cruel.
Minha voz vem automática.
— Era de se esperar isso delas.
Mas então, meu olhar se volta para Kaique, e percebo que ele parece mais preocupado do que antes.
Minha voz vem cautelosa.
— O que foi?
Kaique solta um suspiro pesado, observando o rio e as ninfas que o guardam.
— Parece que vai ser impossível atravessar do jeito que eu tinha planejado. — Seu olhar se estreita, analisando cada detalhe da margem. — Pelo menos, sozinho.
Hiyori inclina a cabeça, seu olhar questionador.
— Mas vocês são dois. — Ela gesticula ligeiramente na minha direção antes de continuar. — E se eu decidir ir também, seremos um trio.
Ela cruza os braços, esperançosa.
— Mesmo não sabendo seu plano, acho que pode dar certo.
Kaique balança a cabeça, seu tom é mais pragmático.
— Não estava me referindo à quantidade, e sim ao poder.
Minha respiração vacila, e por um instante sinto um toque de desconforto. Não tenho nenhuma habilidade que possa contribuir nesse desafio.
E agora… Isso parece mais evidente do que nunca.
Kaique me percebe imediatamente e, antes que eu possa mergulhar nessa sensação, corrige-se rapidamente.
— Não foi isso que eu quis dizer, Luna.
Seu olhar é direto, tentando quebrar qualquer mal-entendido.
— Mesmo se você tivesse algum dom, ainda assim não seria nada relacionado à água.
Ele ajusta o tom, tornando-o mais suave.
— Levando em conta os poderes da sua mãe.
Minha expressão se relaxa minimamente, e lhe dou um sorriso simples.
— Tudo bem, Kai.
Ele parece aliviar a tensão, seu ombro relaxando um pouco.
Hiyori cruza os braços e solta uma risada curta.
— Bom, não me levem a mal, mas eu não tenho intenção alguma de me arriscar novamente. — Ela solta um pequeno suspiro dramático antes de continuar. — As duas primeiras provas já foram o suficiente pra mim.
Mas então, ela sorri de lado.
— Mesmo assim, vocês não estão sozinhos.
Kaique levanta uma sobrancelha, curioso.
— O que quer dizer?
Ela gesticula levemente, seu tom tranquilo.
— Até onde eu sei, temos dois dominadores de água no acampamento.
Minha testa franze.
— Dominadores… — O termo me traz lembranças antigas. — Faz tempo que não escuto essa expressão.
Mas então, percebo exatamente o que ela quer dizer. Me volto para Kaique, sorrindo levemente.
— Mas ela tem razão. — Meus olhos se fixam nele. — Você e Tobias são considerados os dois melhores filhos de Posseidon. — Minha voz vem firme. — Ao ponto de serem chamados de dominadores.
Há alguns anos, alguns semideuses começaram a controlar seus dons tão bem que passaram a ser considerados os melhores naquilo que faziam. Eles ganharam a denominação de dominadores, classificados de acordo com seus pais.
Na época, vários semideuses ganharam destaque. Havia até um ranking semanal, divulgado no jornal do submundo.
Kaique chegou a ficar no top 10 algumas semanas. Mas quanto a Tobias… não consigo lembrar se ele esteve na lista.
Com o tempo, as pessoas perderam o interesse. As listas pararam de serem lançadas. E o termo foi esquecido.
Kaique solta um resmungo.
— Odeio esse termo.
Minha risada vem automaticamente ao ver a expressão de desgosto que ele faz. Seu tom é carregado de irritação cômica.
— Eu sei que não sou o único, meninas, mas…
Ele solta um pequeno suspiro exasperado.
— Não estou muito afim de pedir ajuda ao outro ali.
Ele balança a cabeça na direção de Tobias, que agora está sentado em uma pedra, passando as mãos pelo cabelo. Tentando remover o excesso de água.
Meus olhos o acompanham por um instante, e o impacto é imediato. Os raios de sol batem nas gotas d’água espalhadas pelo seu corpo. Sua pele bronzeada parece ainda mais brilhante.
Chega a ser um crime um homem desses sair por aí com toda essa beleza.
— Luna!
A voz de Kaique me arranca de meus pensamentos. Me viro rapidamente, tentando focar.
— Sim?
Hiyori esconde um sorriso atrás da mão, e Kaique me lança um olhar irritado. Meu peito se aquece minimamente, mas ignoro o toque de vergonha.
Kaique revira os olhos antes de perguntar novamente.
— Eu estava perguntando se você pensou em alguma forma de atravessar.
Minha mente se ajusta automaticamente, e finalmente apresento minha ideia.
— Na verdade, pensei em utilizar a força do empuxo da água como impulso para atravessar saltando.
Hiyori franze o cenho, curiosa.
— O que é empuxo?
Minha voz vem automática, explicando com calma.
— Sempre que entramos em um ambiente com água, como uma piscina ou um rio… — Gesticulo levemente, ajudando na explicação. — Nós empurramos as moléculas da água, e, como consequência, elas nos empurram de volta.
Minha expressão se mantém tranquila.
— Quanto maior a força que usamos, maior será a resposta da água.
Meu olhar se volta para ela diretamente.
— Entendeu, Yori?
Ela assente rapidamente, seu tom empolgado.
— Ah, sim, legal. — Então, sua voz se volta para Kaique. — Dá certo usar a ideia da Luna, senpai?
Kaique solta um pequeno suspiro pensativo.
— A teoria em si é muito boa. — Ele faz uma pausa, ajustando a resposta. — Mas só a força do empuxo não seria suficiente.
Minha voz vem automática, já antecipando isso.
— É claro que não.
Meu olhar se torna mais intenso.
— E é aí que você e o senhor encharcado ali entram.
Eu explico meu plano com firmeza.
— Vamos trabalhar em equipe.
Gesticulo ligeiramente, reforçando a ideia.
— Vocês dois me ajudam a atravessar, usando algum dos seus truques para intensificar a força do empuxo. — Meu tom se mantém determinado. — Transformando a água em uma espécie de trampolim.
Então, finalizo.
— Depois, um ajuda o outro a atravessar. Todos saem ganhando.
Kaique solta um suspiro profundo, mas já sei que ele vai questionar.
— Luna…
Seu tom carrega hesitação, e eu já antecipo sua discordância. Minha voz vem firme antes que ele negue.
— Sem Luna. — O impacto é direto. — Você perguntou se eu tinha ideias. E essa foi a única que eu tive. — Minha expressão se fecha minimamente. — Lá no fundo, você sabe que essa é nossa melhor chance de conseguir.
Hiyori se volta para Kaique, apoiando minha ideia.
— Não querendo me meter, mas já fazendo isso… — Seu sorriso é travesso. — Concordo com a Luna. — Ela cruza os braços. — Trabalhar em conjunto é a melhor opção pra vocês agora.
Kaique solta um suspiro derrotado.
— Ok, concordo com o plano. — Então, acrescenta. — Mas eu não vou lá falar com ele.
Antes que eu possa responder, Hiyori solta um sorriso radiante.
— Acho que você nem vai precisar.
Minha expressão se franze.
— O que?!
Minha cabeça vira rapidamente, e meus olhos capturam a visão inesperada. Tobias caminha na nossa direção, sua blusa já meio enxuta, revelando parte da pele ainda úmida.
A mochila, que até então eu não havia notado, pende do ombro esquerdo.
Cada passo exala uma confiança desmedida, como se carregasse a certeza de que sempre tem o controle da situação.
Ele transpira confiança em cada célula do seu corpo. E, por um instante, a cena me prende completamente. Sem hesitar, sua voz rompe o silêncio entre nós.
— Eu tenho uma proposta pra vocês.
Ele para perto o suficiente, seu olhar fixo em nós. Mas antes que eu possa formular uma resposta coerente… Minha mente se dissolve completamente na imensidão verde das esmeraldas que são os seus olhos.
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