Herança de Cinzas
15 O Chamado das Estações
Notas iniciais
— Parece que vocês estão com sorte mesmo. Não vão nem precisar falar nada.
Hiyori solta uma risada divertida, seu olhar brilhando com uma mistura de provocação e entretenimento.
— Tobias-senpai, você parece bem refrescado.
Tobias mantém uma expressão séria por um breve momento, e por um instante, quase penso que ele vai retrucar. Mas então…
Ele abre um sorriso brincalhão e pisca para ela.
— Parece que sim, não é mesmo?!
Seu tom carregado de ironia. Mas sua expressão se ajusta, e ele olha para nós.
— Mas, então, o que eles não vão precisar falar?
Kaique parece a um passo de ter um colapso nervoso quando Tobias o questiona. Meu peito se contrai minimamente, e antes que a situação saia do controle, tento reverter.
— O quê? Não, não, a Yori tá só brincando, não é mesmo?!
Minha voz vem despreocupada, enquanto passo a mão no cabelo dela, bagunçando os fios de propósito. Ela resmunga, mas ri levemente.
Eu aproveito o momento para mudar o foco da conversa.
— Mas o que você queria falar conosco?
Tobias fica em silêncio por alguns instantes, seu olhar fixo em mim. Quase posso escutar as engrenagens girando dentro de seu crânio. Ele parece refletir intensamente, avaliando os prós e contras de algo que ainda não revelou.
Finalmente, ele passa a mão pelo cabelo úmido e balança a cabeça, antes de olhar para Kaique.
— Você viu o que elas são capazes de fazer.
Sua voz vem afiada, carregada de uma seriedade inquestionável.
— Um truque qualquer não vai ser suficiente para enganá-las e atravessar.
Seus olhos se fixam no irmão por parte de pai, esperando uma reação. Kaique se move minimamente, ficando mais próximo de mim antes de responder.
— E o que você sugere, então?
Seu tom é calculado, mas há uma leve sombra de irritação oculta ali. Tobias exala um suspiro discreto antes de falar.
— Primeiro de tudo, vamos dar uma trégua. — Ele cruza os braços, sua postura firme e inabalável. — Nós três queremos completar a prova, e isso não vai ser possível se nós dois estivermos tentando nos matar o tempo todo.
Meu olhar se ilumina com uma ideia súbita, e minha voz vem carregada de falsa formalidade.
— Concordo plenamente.
Lanço um olhar travesso para os dois antes de continuar.
— Então, os dois podem apertar as mãos e repetir comigo: "Eu não vou matar o meu amiguinho pelo bem da missão".
Minha expressão é de pura diversão, e por um momento, espero que façam o que eu sugeri.
Mas…
Eles não fazem nada. Apenas me encaram, como se eu tivesse dito que como minhocas no café da manhã.
— Não? — Minha voz carrega uma leve decepção fingida. — Bom, é uma pena. Seria uma ótima cena, não é mesmo, Yori?
Hiyori solta uma risada curta, sacudindo a cabeça.
— De fato. — Ela retira o celular do bolso e sorri de forma brincalhona. — Eu já estava com a câmera preparada.
Com um pequeno movimento, guarda o celular novamente, dando um olhar cúmplice para mim.
Kaique solta um resmungo derrotado, cruzando os braços antes de falar.
— Certo, acho que posso fazer isso.
Seu tom não é animado, mas ele aceita a trégua sem contestar.
— E o resto?
Tobias revira os olhos de leve antes de continuar.
— Segundo… você vai precisar sair do pé da Luna.
Seu olhar é afiado, e por um instante, Kaique parece tensionar os ombros.
— Não é como se ela não soubesse se defender sozinha.
Kaique solta um pequeno suspiro, antes de perguntar.
— O que isso tem a ver com o plano?
Seu tom vem carregado de cautela. Tobias não hesita.
— Tem que ela é quase um peso morto. — Ele me olha diretamente, e solta um pequeno sorriso travesso. — Sem ofensas, Boneca.
Minha expressão permanece impassível.
— Não ofendeu.
Mentira.
Ofendeu sim.
Um pouquinho.
Mas deixei passar, porque no fundo… Ele não estava errado.
— Nós dois teremos que nos concentrar em atravessar e ajudar ela a passar também.
Tobias continua, sua voz mantendo um tom de comando.
— Se você não estiver pregado nos pés dela, será mais fácil.
Kaique não responde, mas eu sei que ele sabe que Tobias tem razão.
— Ok.
Sua voz vem mais contida, mas há uma aceitação implícita na palavra.
— Mas ainda não entendi como isso vai nos ajudar a chegar do outro lado.
Tobias solta um pequeno sorriso misterioso. E então, faz a pergunta que muda tudo.
— Vocês já ouviram falar de empuxo?
No instante em que Tobias termina sua pergunta, Hiyori entra em uma crise de riso histérica. Eu fico em dúvida se deveria socorrê-la ou rir junto.
No fim…
Acabo rindo também.
Tobias então explica sua ideia. E, por incrível que pareça…
Era praticamente igual à minha.
A única diferença era que ele sugeria que os dois dominadores da água usassem seus dons para potencializar a força de empuxo, transformando a água em uma espécie de canhão que nos arremessaria para o outro lado do rio.
Hiyori ainda parecia um pouco confusa, e eu também não havia entendido completamente. Minha voz vem automática.
— Eu ainda não entendi como isso vai acontecer.
Hiyori assente, concordando comigo. Tobias solta um pequeno sorriso, e então começa a explicar de forma visual.
— Quando você está andando em uma trilha e encontra um buraco no meio do caminho, grande demais para ser atravessado andando, e que não pode ser contornado… o que você faz?
Minha resposta vem sem hesitação.
— Eu pulo por cima.
Ainda não entendi onde ele quer chegar com essa comparação. Tobias assente rapidamente, seu tom tranquilo e meticuloso.
— E como você faz isso?
Solto um pequeno suspiro, tentando estruturar.
— Eu avalio a distância que tenho que saltar, caminho para trás, depois corro em direção ao buraco, pegando impulso… e quando estou na borda dele, pulo.
Tobias sorri de maneira satisfeita.
— Exatamente!
Kaique parece entender antes de mim, pois algo se ilumina em seu rosto. Tobias então finaliza.
— E é aí que nós entramos.
Seu olhar brilha levemente.
— No momento em que seu pé pisar na água, a força do empuxo vai tentar lhe empurrar para cima.
Ele então completa.
— E nós iremos potencializar essa força de forma que ela seja suficiente para lhe arremessar.
— Levando em consideração a direção do vetor de força com que você vai correr, será arremessada alguns metros além da margem do outro lado do rio.
Kaique complementa meu plano, seu olhar brilhando com um toque de cálculo preciso. Hiyori assente rapidamente, ainda recuperando o fôlego da crise de riso anterior.
— É uma ótima ideia. Tem uma grande probabilidade de sucesso.
Seu tom vem mais animado agora, claramente convencida. Mas então, minha mente se volta para um detalhe crucial.
— E como exatamente vocês pretendem potencializar a força?
Kaique solta um pequeno sorriso, satisfeito por ter entendido.
— Isso é o mais simples.
Ele gesticula ligeiramente, explicando com confiança.
— Basta pegar uma grande quantidade de água e lançá-la para fora do rio na forma de um jato.
Ele continua explicando, o tom técnico.
— Mas no mesmo vetor de força do empuxo.
Seus olhos brilham levemente, como se tivesse certeza da viabilidade do plano.
— Vai ser como se estivéssemos criando um grande degrau de água exatamente onde você pisar.
Minha mente processa a explicação, mas ainda há algo que não entendo totalmente.
— Se é tão simples, por que vocês dois precisam se ajudar para fazer isso?
Tobias intervém imediatamente.
— Distração.
Kaique assente.
— Exatamente.
Ele ajusta sua postura, seu olhar se tornando mais calculado.
— Se eu tentar fazer isso sozinho, no momento em que você se aproximar da água, elas encontrarão uma forma de impedir você.
Ele faz uma pequena pausa, antes de completar.
— Mas se, enquanto você estiver atravessando, Tobias fizer algo que chame mais a atenção delas, você consegue chegar do outro lado sem interrupções. Entendeu?
Minha respiração vem mais pausada, enquanto visualizo a execução do plano.
— Faz sentido.
Minha voz vem mais baixa, mas cheia de convicção.
— A primeira tentativa pode dar certo. Mas na segunda ou terceira vez, elas já estarão preparadas.
Kaique sacode a cabeça de leve.
— Não se formos todos ao mesmo tempo.
Seus olhos varrem Tobias, esperando sua reação. Tobias levanta o olhar lentamente, seu rosto carregado de uma concentração intensa. Ele me encara diretamente antes de perguntar para Kaique.
— Você consegue criar os três degraus d’água ao mesmo tempo?
Kaique solta um pequeno suspiro pensativo.
— Eu acho que sim.
Mas então, acrescenta um detalhe importante.
— Mas talvez não consiga dar impulso suficiente para chegarmos ao outro lado.
Tobias solta um pequeno sorriso travesso, seu olhar ligeiramente brilhando.
— O dia está bem úmido, não é mesmo?
Antes que eu possa continuar, Kaique interrompe. Seu olhar vem levemente confuso.
— Luna, eu acho que a umidade do ar não vai nos ajudar muito a atravessar o rio.
Minha mandíbula trava. Ele não entendeu minha deixa. E isso me ofende um pouco.
Mas antes que eu possa dizer algo, Hiyori intervém rapidamente. Seu olhar se ilumina, e um pequeno sorriso brilha em seu rosto.
— Na verdade, eu acho que vai sim.
Ela aponta para Kaique, sua expressão convicta.
— Você não precisa jogá-los do outro lado.
Ela faz uma pausa antes de continuar.
— Apenas tirá-los do alcance das nereidas.
Suas mãos gesticulam ligeiramente, como se estruturasse a ideia visualmente.
— Depois que estiverem alto o suficiente e longe delas, pode usar a umidade do ar para criar os mesmos cristais que Tobias criou na primeira tentativa de travessia.
Minha mente explode em empolgação. Finalmente, alguém entendeu.
— Exatamente!
Meu tom vem animado, e um sorriso cresce em meu rosto.
— Dessa forma, elas ficarão tão distraídas e surpresas que não conseguirão nos impedir.
Tobias assente, sua expressão séria, mas calculadora.
— Faz sentido. Pode dar certo.
Ele então se volta para Kaique, seu olhar afiado.
— O que você acha?
Por um instante, sinto algo se aquecer dentro de mim ao ver que Tobias realmente gostou da minha ideia.
Kaique solta um pequeno suspiro antes de responder.
— Acho que temos um pequeno problema com esse plano.
Seus olhos se estreitam.
— Meus cristais não são tão resistentes.
Ele ajusta a postura, seu tom mais preocupado agora.
— O primeiro impulso não será um problema. Mas, se eu criar os cristais, corremos um sério risco de despencar lá de cima até o fundo do rio.
Tobias assente lentamente, antes de responder com um simples:
— Eu posso fazer isso.
Minha cabeça vira rapidamente, surpresa.
— Você vai conseguir distrair elas e criar os cristais ao mesmo tempo?
Tobias solta um pequeno sorriso infantil.
— Digamos que o que eu pretendo fazer irá deixá-las ocupadas por um bom tempo.
Minha mente trabalha rapidamente, processando tudo. Por fim, minha voz vem determinada.
— Certo, então temos tudo pronto para começar?
Kaique e Tobias respondem ao mesmo tempo.
— Sim!
E então…
Percebo algo que nunca havia notado antes. Eles são muito parecidos.
A cor da pele.
O formato dos olhos e nariz.
O contorno da mandíbula.
Saio do meu pequeno transe quando um flash de câmera chama minha atenção. Hiyori sorri abertamente, olhando para a foto no celular.
— Desculpem, mas eu precisava registrar esse momento.
Ela gesticula de leve, mostrando o celular.
— Isso é um marco histórico. O início de uma nova era para os semideuses.
Então, faz uma comparação inesperada.
— É quase como ver o próprio trio do Olimpo.
Referindo-se a Zeus, Hades e Posseidon. Tobias solta uma risada curta, bagunçando os próprios cabelos.
— Okay, agora a mocinha foi longe demais.
Ele revira os olhos antes de completar.
— Eu sei que sou bem mais bonito do que Zeus.
Minha risada vem automática, mas não digo nada. Porque agora, nossa atenção precisa retornar ao desafio
Repassamos o plano mais uma vez, garantindo que cada detalhe esteja claro. A corrida começará na base da ribanceira, avançando até a margem do rio.
No instante em que pisarmos na água, Kaique nos arremessará para cima e para frente.
Então, Tobias criará placas de cristal d’água, que servirão como suporte para atravessarmos o restante da distância.
E eu?
Bem, eu só preciso me concentrar em não fazer nenhuma merda que possa colocar tudo a perder.
Decidimos que iremos correr em formação, mantendo uma distância de aproximadamente dois metros entre nós.
Tobias será o primeiro, ficando praticamente de frente para o divã onde Anfitrite está deitada. Eu seguirei logo atrás dele, e por último virá Kaique.
Hiyori decidiu vir comigo até aqui, acompanhando os últimos momentos antes do início da travessia. Ela não vai continuar no torneio, mas quer assistir tudo de perto.
E então, quando paramos no local combinado, ela me lança uma pergunta inesperada.
— Você já decidiu com qual dos dois vai ficar?
Minha mente trava por um instante. Meu olhar se volta para ela rapidamente.
— O quê?!
Hiyori não desvia o olhar, seu tom leve, mas calculado.
— Kaique ou Tobias. Tá na cara que os dois estão doidinhos por ti.
Minha testa franze imediatamente, e solto uma risada curta de descrença.
— Acho que você bebeu muito saquê, Yori.
Mas ela não desiste tão fácil. Seu olhar fica mais intenso, e sua expressão quase intimidadora.
Mas no fim…
O efeito acaba sendo apenas fofo, vindo dela.
— Sério que vai se fazer de desentendida pra mim, Luna-san?
Cruzo os braços, lançando um olhar exausto.
— Tudo bem, você é quem sabe.
Mas então, ela inclina a cabeça, e suas palavras vêm com certeza absoluta.
— Mas, se eu puder opinar…
Minha mão interrompe sua fala, empurrando-a para longe.
— Não, você não pode.
Aponto para uma pedra grande.
— Agora vá se sentar ali e apreciar o nosso plano em ação.
Hiyori solta uma risada curta, mas ignora completamente minha tentativa de afastá-la do assunto.
— Você e o Kai se conhecem muito bem, e isso é muito bom para um relacionamento. — Ela sacode a cabeça, como se estivesse formando um raciocínio lógico. — Por outro lado, você e Tobias-senpai têm uma química sobrenatural.
Ela cruza os braços, contemplando a questão com um olhar divertido.
— Eu estaria bem indecisa se estivesse no seu lugar.
Minha expressão permanece firme, mas minha voz vem mais impaciente.
— É… obrigada pela ajuda. Agora vá para o seu lugar.
Hiyori sorri, mas finalmente aceita.
— Okay, estou indo.
Ela faz um pequeno gesto de despedida antes de continuar.
— Boa sorte com o plano! Irei torcer por vocês.
Me posiciono no local e espero pelo sinal de Kaique. Ele levanta os dedos, iniciando a contagem regressiva.
Três.
Meu coração acelera.
Dois.
Minhas pernas tensionam, prontas para disparar.
Um.
Começamos a correr.
No início, ninguém percebe o que estamos fazendo. Mas conforme nos aproximamos da margem, todos os olhares se voltam para nós.
As nereidas estão atentas a cada movimento. Prontas para nos impedir. No instante exato em que meu pé toca na água, flexiono o joelho.
E logo em seguida sinto o impulso provocado por Kaique. Ele nos arremessa para frente e para cima.
Minha visão se abre para o rio. Por um segundo, me distraio com a paisagem abaixo de mim. Mas então me recomponho rapidamente, ajustando meu corpo. E vejo exatamente o que Tobias considera uma boa distração.
Ele prendeu Anfitrite em uma espécie de caixão d’água. As ninfas se desesperam imediatamente. Seus movimentos se tornam caóticos, tentando soltá-la.
E então…
Temos tempo suficiente para atravessar. Me preparo para pisar no primeiro degrau, mas perco o equilíbrio por um instante.
Meu corpo se inclina levemente para a direita.
Quase caio.
Antes que isso aconteça uma barreira invisível me impede de afundar no rio.
— CORRE!
Kaique grita, desfazendo a barreira antes que eu possa entender exatamente como ela foi feita. Me equilibro novamente e volto a correr.
Agora, faltam apenas dois metros para terminarmos a travessia. Porém os cristais começam a rachar.
Meu olhar dispara para Tobias, que agora está visivelmente tenso.
— Não vou conseguir mantê-la presa por muito mais tempo.
Sua voz vem carregada de urgência.
— Quando eu mandar, saltem.
Ele ajusta sua postura, preparando-se para agir.
— Vou dar um último impulso para chegarmos do outro lado.
Kaique e eu respondermos ao mesmo tempo.
— Certo!
Nosso salto vai decidir tudo.
E do jeito que Tobias disse, ele fez. Assim que soltou Anfitrite, saltamos juntos.
E então, ele criou três jatos d’água que nos atingiram em cheio, nos arremessando para as margens do outro lado do rio.
Meu corpo se projeta contra o chão, e caio literalmente de cara.
Estou encharcada.
Minhas mãos e joelhos ardem, e sinto o formigamento dolorido em minha bochecha. Viro-me de barriga para cima, tentando recuperar o fôlego, e me sento devagar, observando a cena ao redor.
Os semideuses que ficaram do outro lado do rio explodem em gritos eufóricos. Alguns batem palmas, celebrando a nossa travessia bem-sucedida. Hiyori está entre eles, seu rosto transbordando entusiasmo e orgulho.
Mas então, ao observar as nereidas percebo que nem todas as reações são positivas. Elas não parecem nada felizes. Na verdade…
Parecem o completo oposto.
Principalmente Anfitrite.
Ela encara Tobias com um olhar cortante, sua expressão impassível, porém carregada de significado. De repente, ela sorri.
E começa a bater palmas.
Meus olhos disparam para Tobias, que agora está sentado, sua postura rígida. Ele encara Anfitrite de volta, sem desviar nem por um segundo.
Desvio meu olhar para Kaique, que também observa tudo com extrema cautela.
Seus rostos estão tensos, seus olhos varrem o ambiente, como uma lebre que está em perigo, calculando formas de escapar.
A voz de Anfitrite rompe o silêncio, suave como um encantamento para os ouvidos.
— Incrível!
Sua melodia é calma e fluida, impossível de ignorar.
— Como já era de se esperar dos filhos queridos de Posseidon, não é mesmo?!
Tobias não vacila. Contudo seu rosto permanece rígido, mesmo ao responder.
— Obrigado. É uma honra receber tal elogio da Senhora dos Mares.
Kaique acompanha seu tom, mantendo sua postura respeitosa, mas cautelosa.
— Faço minhas as suas palavras, Tobias. Não somos aptos a tais elogios.
Eu fico na dúvida se deveria dizer algo também. Mas decido permanecer em silêncio.
Anfitrite solta uma risada incrédula, seu olhar ainda brilhando com um toque de diversão afiada. Então, se reclina novamente no divã, passando os dedos lentamente pelos cabelos.
— Possuem a mesma lábia do pai. — Ela observa os dois com um olhar penetrante. — São mais parecidos do que pensam, filhos de Posseidon!
Mas então, sua voz se ajusta para algo mais direto.
— Agora, se apressem, ou todo esse esforço será à toa.
Tobias se levanta imediatamente, sem hesitar. Kaique o acompanha, e eu os imito.
Minha voz vem carregada de satisfação e alívio.
— É isso aí. Acho que conseguimos!
Meus olhos varrem os dois ao meu lado, meu peito ainda acelerado pela adrenalina.
— Agora é só capturarmos nossos centauros e subirmos a montanha.
Kaique sacode a cabeça, seu tom mais contido.
— Adoraria acreditar que será tão fácil quanto você está falando.
Ele exala um suspiro curto, sacudindo a água dos cabelos.
Sua expressão se fecha levemente.
— O que aconteceu com o seu rosto?
Minha reação vem automática.
— Ai!
Meu corpo recua, afastando sua mão da minha bochecha.
— Está muito feio?
Minha voz vem preocupada, e meus dedos tocam levemente a pele arranhada.
— Bati o rosto no chão quando caí e deve ter machucado.
Kaique examina por um instante antes de responder.
— Só um pouco ralado.
Mas então, seus olhos desviam para algo atrás de mim.
— Você vai conosco?
Minha sobrancelha se ergue automaticamente.
— Isso é um convite?
Kaique revira os olhos, cruzando os braços.
— Não começa. — Ele solta um pequeno resmungo, antes de continuar. — Eu só acho que funcionamos bem juntos. Então, por que não estender a trégua até o final da prova?
Tobias parece ponderar sobre isso, seu olhar pensativo, mas atento.
Ele finalmente responde, sem hesitar.
— Certo, por mim tudo bem. Alguma objeção?
Seus olhos varrem diretamente os meus, esperando minha resposta.
Minha voz vem automática.
— Nenhuma. Vamos lá.
Saio caminhando na frente, tentando conter o sorriso que insiste em permanecer no meu rosto. Por mais que as coisas estejam confusas entre nós três, essa trégua veio no melhor momento possível.
Tenho certeza que, se trabalharmos juntos, conseguiremos terminar essa prova rapidamente. Sou interrompida pelos meus pensamentos quando Tobias fala novamente.
— Aqui.
Minha mente se ajusta, e meus olhos captam o objeto em sua mão. Um lenço molhado, estendido na minha direção.
— É melhor limpar esse arranhão no seu rosto.
Seu tom é casual, mas atento.
— Do jeito que você tem sorte, é capaz de infeccionar.
Minha testa franze minimamente, mas seguro o lenço.
— Nunca imaginei que você fosse o tipo de homem que anda com lenços na bolsa. — Meu sorriso vem travesso. — Estou brincando, não revire os olhos pra mim.
Ele revira os olhos mesmo assim, mas não responde. Apenas me deixa limpar o ferimento.
Minha voz vem mais baixa agora, carregada de algo mais genuíno.
— Obrigada.
Ele assente minimamente, sua expressão neutra.
— Não tem de que.
Então, acrescento algo que eu não poderia deixar passar.
— Não só pelo lenço. — Meu tom se ajusta, ficando mais direto. — Mas por ter me curado na prova anterior.
Tobias pausa imediatamente, como se não esperasse isso.
— Como você...?
Sua testa franze, e por um instante ele parece surpreso. Minha resposta vem automática.
— Kai me contou.
Gesticulo levemente, apontando com a cabeça para meu amigo que caminha logo atrás de nós.
— Sei que ele preferiria estar do meu lado, mas ele também sabe que eu precisava agradecer ao Tirano.
Minha voz vem tranquila, carregada de certeza.
— Enfim, não vou esquecer isso. No momento oportuno, irei devolver o favor.
Tobias solta um pequeno suspiro, mas então… Seu olhar se ajusta para algo mais sério.
— Não precisa.
Ele pausa por um segundo antes de completar.
— Apenas se mantenha a salvo.
E então, voltamos a caminhar.
Tobias não diz mais nada e volta a caminhar em silêncio, sua postura relaxada, mas carregada de observação. Pouco tempo depois, Kaique nos alcança, ajustando o passo ao meu lado.
Começamos a nos aproximar dos centauros, e minha mão já desliza para o cabo do meu chicote. Mas antes que eu possa preparar um movimento, um deles começa a correr na nossa direção.
Ele é enorme, deve ter o dobro da minha altura. Seu pelo é marrom escuro, quase preto, refletindo o brilho do sol em um tom vibrante. Seu rosto carrega feições duras, quase desafiadoras. Seus olhos cor de mel são profundos e atentos. E seus cabelos castanhos lisos, trançados perfeitamente, caem sobre suas costas.
Meu instinto é imediato. Me preparo para desviar, ajustando meus pés para um recuo rápido.
Porém ele diminui a velocidade. Seu trote se ajusta para algo mais controlado.
E aos poucos… Ele para bem na minha frente.
O sol bate no seu pelo, e meu olhar se prende à superfície brilhante. Ele me encara por um tempo, seus olhos implacáveis e profundos. E então, de forma completamente inesperada ele se abaixa, sentando-se no solo.
Agora, praticamente da minha altura. O movimento repentino me faz recuar automaticamente. Meu corpo se inclina para trás, e meu ombro esbarra nas costas de Kaique.
— Acho que ele quer que você monte nele.
Kaique segura meus braços, garantindo que eu não perca o equilíbrio. Minha respiração vem mais rápida, e meus olhos fixam na criatura imponente à minha frente.
— Isso… é sério?
Meu tom é inseguro, quase descrente. Meu olhar varre Tobias, esperando uma opinião. Mas tudo que recebo dele… é um simples levantar de ombros, como se não quisesse opinar.
Me volto para Kaique novamente, buscando alguma certeza.
— Simples assim?
Ele assente, e sem hesitar me empurra levemente na direção do centauro. Minhas pernas parecem hesitar minimamente, mas então dou um passo à frente.
Meu olhar fixo na criatura, tentando entender o que fazer a seguir.
— Olá. — Minha voz vem mais suave do que o esperado. — Então… eu nunca fiz isso.
Respiro fundo, ajustando minha postura.
— Quer dizer, eu já montei em outras criaturas, mas nunca em um centauro.
Minha expressão se torna pensativa.
— Mas não deve ser muito diferente, não é?!
Ele me encara diretamente, seu olhar quase impaciente. Por um instante, tenho a impressão de que ele entende exatamente o que eu estou dizendo.
Contudo ele não responde. Meu peito afunda minimamente, mas não desisto.
— Certo, então vamos lá.
Minha voz vem mais firme agora.
— Está tudo bem para você se eu o montar?
Como forma de confirmação, ele apenas abaixa a cabeça. E permanece completamente imóvel, como se me esperasse. Me volto para Kaique novamente, ainda buscando alguma aprovação final.
Ele faz um sinal de “ok” com as mãos, me incentivando. Meu peito se expande minimamente, e eu avanço.
Aproximo-me com cautela, parando ao seu lado. Minhas mãos tocam sua base, e instantaneamente fico impressionada com a maciez de seu pelo.
Reúno um pouco de coragem. Meus dedos se ajustam ao seu dorso, e passo a perna sobre sua pele escura, me posicionando com cuidado.
Ele continua imóvel, seu comportamento tranquilo e estável. Me ajusto melhor, buscando um ponto confortável.
Meu olhar se volta para frente, e abro a boca para perguntar algo, mas antes que eu possa dizer qualquer coisa ele se levanta de uma vez.
E começa a correr em direção ao morro.
— EI, GAROTO! CALMA! DEVAGAR!!
Minha voz explode no ar, cheia de surpresa e desespero. Meu corpo se agarra ao seu tronco, tentando não cair.
— EU DISSE PARA PARAR!
E então—
Ele para.
De uma vez.
Mas no instante em que ele desacelera, algo começa a mudar. O ar se transforma completamente. O calor do ambiente desaparece.
E então, o inverno cai sobre nós. O tempo fecha subitamente, uma neblina densa se espalha pela clareira. O vento se intensifica, e uma sensação gélida atravessa minha pele.
Minhas mãos tremem, e sinto minha pulsação acelerando nos ouvidos. Meu peito se contrai, e o enjoo se instala em mim como uma avalanche. Por um instante, parece que vou desmaiar.
— LUNA!
Kaique grita, sua voz carregada de preocupação. Ele corre na minha direção, sendo acompanhado por Tobias. Seus olhos fixam diretamente em mim, avaliando cada detalhe.
— Você está bem? Como você fez isso?
Minha mente não processa o que ele quer dizer de imediato. Meu olhar oscila entre os dois, e minha voz vem automática.
— Eu… Isso o quê?
Kaique franze o cenho, como se mal acreditasse no que está dizendo.
— O tempo, a neblina, toda essa mudança… foi você.
Minha pele se arrepia completamente. Meu coração dispara. Minha mente explode em uma única revelação.
— Eu? Eu fiz isso? Como é possível se eu não tenho pode…
A resposta vem como um clarão.
Perséfone.
A deusa da agricultura. Aquela que controla as estações do ano.
Meu peito afunda com a certeza absoluta.
De alguma forma…
Eu herdei algo desse poder.
E sem perceber…
Fiz com que o inverno, que estava apenas no início, se instalasse completamente. Kaique solta uma risada curta, seu olhar transbordando incredulidade e orgulho.
— A não ser que exista algum outro semideus por aqui que possa ter influência sobre as estações do ano… então, sim. Foi você.
Tobias exala um pequeno sorriso, seu tom cheio de aprovação.
— Parabéns, encrenqueira. — Seu olhar brilha minimamente. — Você acabou de descobrir seu primeiro dom.
Eu sorrio de volta.
— Vamos?
Kaique me encara, sua voz carregada de determinação e exaustão.
Respiro fundo, tentando equilibrar a emoção da descoberta do meu dom e o peso do que ainda está por vir.
— Claro, vamos lá.
Eles se viram e começam a subir o morro. Minha atenção se volta para o centauro, que continua trotando ao meu lado.
— Me desculpe pelo susto, garoto. Vamos começar de novo.
Minha voz vem mais calma, tentando me conectar melhor com a criatura.
— Meu nome é Luna, e eu irei levá-lo de volta para o bosque suspenso, ok?
Minhas mãos acariciam suavemente seu tronco, sentindo o calor do pelo espesso. O centauro me encara por um instante, seus olhos cheios de profundidade e entendimento.
E então…
Ele responde.
— Certo, Megala Thea.
Minha respiração vacila por um instante, surpresa pela resposta.
Ele fala?!
Minha expressão se ilumina de fascínio imediato.
— Você fala?!
Meu tom vem carregado de genuína surpresa.
— Que ótimo.
Mas então, minha mente captura um detalhe inesperado.
— O que significa Megala Thea?
Meu olhar se fixa nele, buscando alguma explicação.
— É o seu nome? Esse termo me parece familiar… Onde eu já ouvi isso antes?
Mas ele não responde mais. Mesmo quando insisto novamente, ele permanece em silêncio.
A caminhada até o topo do morro segue em um silêncio profundo. O tempo esfria ainda mais, e a sensação se intensifica contra a pele.
Nenhum de nós estava vestido para esse frio repentino. Minhas mãos começam a ficar dormentes, e minha respiração fica mais densa a cada passo. Cada vez que expiro, consigo ver a névoa se dissipando no ar.
Kaique parece um pouco melhor do que eu, mas ainda consigo ver suas bochechas rubras pelo frio. Sua respiração é pesada, e ele mantém os músculos tensos contra o vento gelado.
O mesmo acontece com Tobias. Seu rosto carrega uma concentração intensa, mas o desconforto do clima está evidente.
Finalmente, alcançamos o topo.
E no instante em que meus olhos capturam a visão diante de mim… Meu peito se expande com admiração pura.
O cenário diante de nós é deslumbrante. Um planalto imenso, sem uma única árvore. E bem no centro dele, uma estrutura antiga e imponente.
Três pedras retangulares formam um portal colossal.
Minhas mãos deslizam automaticamente sobre o material frio, e então percebo algo gravado.
Várias escrituras estão marcadas nas rochas, mas não reconheço o idioma.
— É grego.
A voz de Tobias vem ao meu lado, e eu nem havia notado sua presença tão próxima. Meu olhar se volta para ele imediatamente. Ele observa as inscrições por um instante antes de continuar.
— O idioma das escrituras.
Ele pausa por um segundo antes de acrescentar:
— Vi a forma como você olhou para as escrituras sem entender.
Minha testa franze levemente, tentando compreender.
— Por que não se parece com o grego que aprendemos no acampamento?
Dessa vez, quem responde é Kaique, que para ao nosso lado.
— Porque é grego antigo.
Sua voz vem carregada de reflexão, como se estivesse conectando os fatos.
— Utilizado pelas primeiras civilizações para cultuar os deuses do Olimpo. — Ele observa o portal, sua expressão carregada de curiosidade e respeito. — Provavelmente, esse local já foi um ponto de veneração aos deuses.
Minha mente processa essa informação, e então questiono o que fazer a seguir.
— Entendi. Então, o que devemos fazer?
Minha voz vem mais direta agora.
— Atravessar o portal?
Mas antes que qualquer um deles possa responder, algo acontece. Os três centauros começam a caminhar sozinhos em direção ao portal.
Meus olhos se arregalam minimamente, e observo suas posturas certeiras. Kaique é o primeiro a atravessar. E, no instante em que ele cruza o espaço entre as pedras, ele desaparece por completo.
Tobias vai logo em seguida, seu corpo sumindo na luz intensa. Meu coração acelera, mas eu sigo também.
Mas quando entro no portal, percebo algo estranhamente diferente. Não sou mandada para o bosque suspenso.
No instante em que passo pelas pedras, sinto meu corpo perder completamente a sustentação. O espaço ao redor se transforma em um vazio infinito.
Um limbo onde não há som, nem peso, nem direção.
Tudo fica claro de repente.
Meu corpo desaba em queda livre.
Minha voz quer explodir em um grito, mas não há ar suficiente para isso. A única coisa que consigo sentir é a velocidade da queda.
Quando finalmente chego ao solo, meu corpo se projeta contra a grama alta. Estou em um novo lugar.
E pela primeira vez desde que o torneio começou não faço ideia de onde estou. Me sento devagar, observando o cenário ao redor. Uma planície aberta, coberta por grama alta. O vento sopra forte, e o sol dança entre as nuvens, brincando com a luz.
Não é o acampamento.
Não é o Canadá.
E, ouso cogitar, não é nem o mesmo continente.
Olho ao redor. Não vejo os garotos. Nem os centauros. Minha respiração vem carregada de frustração.
Por que isso sempre acontece?
— Essa brincadeira de ir parar em locais estranhos já está ficando chata.
Me levanto, ajustando minha postura. E então, começo a chamar por eles.
— KAI!!! TOBIAS!!!
Minha voz ecoa pelo espaço vazio. Não há resposta. Decido descer a trilha ao final do terreno, buscando qualquer sinal deles.
Estou quase na metade da descida quando uma voz explode ao longe.
— LUNA!!
Me viro imediatamente, e então os vejo. Tobias e Kaique correndo na minha direção. Eles estavam em algum lugar à esquerda de onde eu estava.
Tobias me alcança primeiro, seu abraço apertado, imediato. Me deixa sem ar por um instante, antes de me soltar. E então, Kaique repete o gesto, seu abraço igualmente forte.
Minha respiração ainda está acelerada, mas consigo recuperar o controle da voz.
— Ok, ok. Estou bem. E vocês?
Kaique assente, lançando um olhar para o terreno abaixo.
— Sim, caímos na parte mais baixa da planície.
Ele aponta para a área onde haviam aterrissado. Meu olhar se estreita, analisando o ambiente ao redor.
— Certo… Mas onde exatamente estamos? México?
Minha mente trabalha rapidamente, imaginando que talvez tivéssemos sido enviados para o outro portal mais próximo do acampamento, que fica no México. Tobias solta um pequeno riso, admirando a paisagem como se reconhecesse o lugar.
— Um pouco mais longe, eu diria.
Minha atenção se volta para ele, e percebo que até Kaique está incerto sobre a resposta.
— Você sabe onde estamos?
Kaique pergunta, e seu olhar revela a mesma dúvida que a minha.
Tobias solta um sorriso incrédulo antes de revelar:
— Bem-vindos a Atenas.
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