Herança de Cinzas

11 O Caminho Sem Volta


Meus olhos permanecem fixos nos dele. Tobias segura o olhar, até que lentamente desvia, mas não para o chão. Seu olhar vai além de mim.

Franzo a testa e me viro, seguindo sua linha de visão. Kaique está parado atrás de mim, encostado em um dos postes de madeira da estrutura montada.

Seu olhar é duro, direto, cheio de significado. Tobias o encara de volta, como se houvesse algo sendo dito, mesmo sem palavras.

Então, sinto os dedos de Kaique segurarem minha cintura. Ele me puxa para mais perto, seu abraço firme e possessivo, mas confortável, e me acomodo em seu abraço.

Quando finalmente olho para frente, Tobias já está se afastando, misturando-se à multidão.

Por cerca de cinco minutos, ficamos ali, apenas absorvendo o momento.

A tensão no ar não desaparece completamente, mas é suavizada pela expectativa crescente ao nosso redor.

Até que uma movimentação começa na entrada do acampamento. Me viro, ainda no abraço de Kaique, e observo, os quatro deuses membros do conselho caminham até uma estrutura recém-montada.

Minhas mãos apertam um pouco o tecido do casaco de Kaique, atenta aos detalhes ao meu redor.

Um grande quadro de madeira se destaca, provavelmente destinado a marcar as classificações dos competidores. Ao lado, uma torre colossal se ergue, ultrapassando as copas das árvores da floresta, impondo sua presença sobre o cenário. Bem na frente da torre, um palco de madeira se estende, posicionado estrategicamente para servir como o centro das apresentações e anúncios. Próxima a ele, uma pequena tenda foi montada, provavelmente para abrigar o conselho durante as competições, garantindo que tenham um espaço reservado enquanto observam o desenrolar das provas.

Os deuses param no centro do palco, e a multidão se organiza rapidamente. Todos querem ouvir o que está prestes a ser anunciado. Thoth dá um passo à frente, sua postura é clara e objetiva.

— Serei direto. — Seu olhar varre os competidores. — A primeira prova é simples: encontrem a ninfa da lua e tragam o presente que ela lhes der.

Minha respiração se acelera um pouco.

Thoth continua:

— Vocês terão até o meio-dia. — Ele solta um pequeno sorriso. — Tempo mais que suficiente, na minha opinião.

Apollo então aponta para um canhão no topo da torre.

— Um tiro de canhão irá ecoar pela floresta quando já tiver passado a metade do tempo. Dois tiros indicarão que o tempo acabou. Os que já tiverem voltado, avançarão para a próxima prova.

Meu corpo se mantém imóvel, absorvendo cada instrução.

Ártemis, ao lado deles, intervém.

— Aqueles que ainda estiverem na floresta, ela própria se encarregará de trazê-los de volta.

Seu tom é neutro, mas suas feições… estão cansadas. Seus olhos encontram os meus, e ali, no breve momento em que nos encaramos, vejo algo inesperado.

Preocupação.

E ressentimento.

Engulo em seco, mas não desvio.

Uma voz surge da multidão.

— Como vamos encontrar a ninfa da lua certa? Existem várias… sem falar que elas se escondem durante o dia.

Não consigo identificar quem fez a pergunta, mas sei que é válida.

Thoth responde sem hesitar:

— Esse é o trabalho de vocês, encontrá-la.

Ele olha para o céu, sua expressão enigmática.

— E garanto que apenas uma lhes dará um presente.

Apollo então ergue uma das mãos.

O primeiro raio de sol raia sobre o horizonte.

— Estão prontos? Ótimo! — Ele sorri. — Boa sorte!

O caos começa. A multidão se dispersa, cada competidor correndo em direção à floresta. Minha mochila está no chão ao meu lado, me abaixo, pego-a, coloco nas costas. Mas não corro junto aos outros, pelo contrário.

Começo a caminhar no sentido contrário. Kaique se aproxima, suas passadas ajustando-se às minhas. Seu tom é curioso, mas confiante.

— Tenho certeza que tem um plano. Gostaria de ouvi-lo antes de seguir no caminho oposto à maioria.

Sorrio de canto, ajustando as alças da mochila.

— Uma ninfa da lua nunca sairia durante o dia.

Minhas palavras são diretas, sem hesitação.

— Nem pelo pedido de um deus. Elas odeiam a luz do sol.

Kaique assente devagar, processando. Então, levanto o olhar e completo:

— Mas há um lugar onde ela ficaria, se fosse obrigada a sair. Se estivesse em busca de proteção.

Ele para de andar por um segundo, franzindo a testa. E então, seus olhos brilham de compreensão.

— A cachoeira dos amantes?

Seu tom sugere que ele já sabia, mas precisava confirmar.

Sorrio, confirmando com a cabeça.

— A caverna atrás da queda d’água da cachoeira serve de abrigo para todos aqueles que não podem sair durante o dia. A queda d’água impede que os raios de sol passem, quem está lá dentro… não é atingido por eles.

Kaique solta um suspiro.

— São quase três horas de caminhada até lá. — Ele me olha de lado. — E devemos ter no máximo sete horas.

Minha resposta vem na hora.

— Então acho bom corrermos.

Me viro e disparo pela trilha, Kaique me segue sem hesitar.

E assim, o verdadeiro desafio começa.

Atravessamos a queda d’água, sentindo a água extremamente fria e intensa penetrar nos músculos como pequenas agulhas afiadas. O impacto do frio é quase paralisante, mas seguimos em frente até que finalmente chegamos à caverna. Lá dentro, tudo está claro e calmo, o som da água atrás de nós formando um pano de fundo constante.

Um som inesperado rompe o silêncio.

Uma gargalhada ecoa, reverberando contra as paredes de pedra e fazendo meus instintos se aguçarem. Começamos a caminhar, seguindo a origem da risada, até que alcançamos o fundo da caverna.

E então, o encontramos.

A ninfa da lua está sentada em um trono de pedra translúcida, a luz fraca refletindo em sua pele como se ela própria emanasse um brilho sobrenatural. E ali, de frente para ela, Tobias.

Molhado, exatamente como nós, acomodado sobre uma pedra, sua expressão neutra, mas seu corpo claramente tenso.

— Ahh, que maravilha! Olhe só, pequeno príncipe, temos companhia! — A voz da ninfa chega animada, suas mãos se juntando enquanto bate palmas, olhando diretamente para Tobias.

Eu me seguro para não gargalhar com o apelido que ela acaba de lhe dar. Tobias revira minimamente os olhos, mas não responde.

— Venham, venham! Juntem-se a nós! — Ela nos chama, apontando para duas pedras próximas. — Estávamos falando sobre como os outros devem estar perdidos na floresta me procurando.

Me aproximo sem me sentar, mantendo a postura firme e direta.

— Tenho certeza que sim. — Meu tom é tranquilo, mas objetivo. — Mas não pretendemos ficar muito. Gostaríamos de receber nossos presentes para que possamos voltar.

Kaique confirma, cruzando os braços.

— Exatamente.

A ninfa solta um suspiro exagerado, seu semblante carregado de decepção genuína. Ela parece uma criança traquina que teve sua brincadeira interrompida.

— Ahh, que pena...

Mas então, seu olhar brilha com algo inesperado.

— Sendo assim...

Ela se volta para mim e estende a mão.

— Venha até aqui, minha pequena.

Me aproximo sem hesitar e coloco minha mão sobre a dela. Por um breve segundo seu semblante muda. Seus olhos se expandem ligeiramente, como se tivesse reconhecido algo em mim.

E então, sussurra:

— É você.

A forma como ela diz isso me desconcentra. Antes que eu possa perguntar qualquer coisa, ela olha para Tobias, que balança a cabeça negativamente.

Meu peito pressiona.

— O que sou eu? — Pergunto, minha voz saindo menos firme do que eu gostaria.

A ninfa sorri, seus olhos brilhando com um conhecimento que não compartilha completamente.

— A senhora de todos os povos.

Suas palavras me atingem como uma onda, mas não há tempo para analisá-las.

Ela vira a mão, deixando a minha por baixo, e sinto o toque frio de um objeto gelado repousar na minha palma. Ela retira sua mão, e finalmente vejo.

Uma coroa estranhamente bizarra, atravessada por uma espécie de lança que me lembra o tridente de Poseidon. O pingente é feito de pedra bruta dourada, sua superfície áspera e irregular. É como se fosse ouro puro, um pouco menor que uma azeitona.

Meus dedos passam lentamente pelo objeto, sentindo seu peso e sua textura.

— Obrigada.

Minha voz sai mais baixa, ainda observando o pingente enquanto me afasto. Agora é a vez de Kaique. Ele caminha até a ninfa, mas antes que possa se aproximar totalmente, ela o interrompe com um gesto.

— Ainda não, criança.

Kaique para no meio do movimento, franzindo minimamente a testa. A ninfa se vira para Tobias e estende a mão.

— O primogênito primeiro.

Tobias se levanta, caminhando sem hesitar até ela. Ele estende a mão.

A ninfa o observa por um instante antes de murmurar:

— Luz ao vazio do coração perdido.

Suas palavras pesam no ar, e então ela libera o presente.

O pingente tem a forma de um eclipse lunar, sua base é um disco negro e no centro, uma pequena gema branca brilha suavemente, como se tentasse atravessar a escuridão ao seu redor. A superfície do pingente é texturizada, com detalhes finos que lembram fissuras na pedra, como se a luz estivesse lutando para emergir.

Tobias encara o objeto por um momento, seus dedos passando lentamente por sua superfície. Depois, ele aperta a mandíbula, sem dizer nada.

Agora, finalmente, é a vez de Kaique. A ninfa estende a mão para ele, seu sorriso esmorece.

Sua voz chega mais baixa.

— O sangue amado.

Dessa vez, há uma certa tristeza em sua expressão.

Ela libera o presente, e Kaique observa uma gota d’água sólida como gelo repousar em sua palma. Dentro dela, há uma balança. De um lado, uma pena leve e delicada. Do outro, um coração.

O coração pesa mais.

A lembrança vem rápida e certeira. "O tribunal de Osíris."

A antiga lenda que Thoth me contava. A ninfa retorna ao trono, sua missão cumprida.

Estende a mão para Tobias, que pega e beija seu dorso com respeito.

— Foi um prazer revê-la, Lucina.

Ela sorri, seu olhar cheio de algo que não sei decifrar completamente.

— O prazer foi todo meu, príncipe. — Ela inclina levemente o rosto. — Mande lembranças à sua mãe. Agradeça a ela por ter me dado essa honra.

Tobias assente com a cabeça. — Pode deixar.

Ele se vira e sai da caverna, sem olhar para mim. E então, o primeiro tiro de canhão ecoa na floresta.

Três horas restantes.

Meu coração acelera, e troco olhares rápidos com Kaique. Saímos da caverna o mais rápido possível, sem nos despedirmos da ninfa. Atravessamos a queda d’água, sentindo o choque do frio uma última vez antes de emergir do rio.

Minhas roupas estão encharcadas, mas não há tempo a perder. Visto o casaco, ajusto a mochila nos ombros e me preparo para correr.

Enquanto me movo para entrar na floresta, avisto um vulto correndo na direção da cachoeira. Meus olhos estreitam.

Peter.

Ele não nos viu ainda. Um sorriso se forma em meu rosto antes que eu possa evitar. Disparo na direção dele e lhe dou uma rasteira, fazendo-o cair pesadamente no chão.

— Ops! Por que a pressa, campeão?

Minha voz chega cheia de diversão, antes de simplesmente me virar e correr de volta para onde Kaique me espera.

Ele solta uma risada, passando uma mão pelos meus ombros.

— Você nunca perderia a chance de humilhar ele.

— Não mesmo.

E então, seguimos correndo de volta para o acampamento.

Corremos de volta para o acampamento, o som da vegetação sendo pisoteada ecoando ao nosso redor. O cansaço pesa nos músculos, mas a necessidade de descansar antes do tempo acabar nos mantém em movimento. Depois de um tempo, avistamos a torre imponente e, logo depois, a tenda onde o conselho está reunido.

Assim que paramos diante da estrutura, meu pai sai e vem ao nosso encontro. Ele se posiciona na frente de Kaique primeiro, estendendo a mão com expectativa. Kaique entrega seu presente, a gota d’água sólida que recebeu da ninfa.

Thoth gira o objeto entre os dedos, analisando-o com atenção, até que, com um movimento sutil, uma fina corrente metálica se forma ao redor do presente, transformando-o em uma pulseira discreta, mas claramente significativa.

— Muito bem, garoto.

Thoth devolve a pulseira para Kaique e lhe dá uma instrução clara:

— Coloque-a e não tire para nada.

Kaique não hesita. Apenas prende a pulseira ao redor do pulso, ajustando-a sem questionar.

Então, Thoth caminha até mim e estende a mão. Engulo seco antes de depositar a pequena pedra negra na palma dele. Assim que toca sua pele, sinto uma mudança sutil, sua cor agora mais vibrante, como se pulsasse com uma energia recém-despertada.

Thoth observa por um instante antes de soltar um sorriso leve.

— Sabia que não iria me decepcionar.

Ele roda o pequeno objeto entre os dedos e, como aconteceu com Kaique, uma fina corrente dourada se entrelaça ao redor da pedra, transformando-a em um colar.

— Vire-se.

Sem hesitar, me viro, sentindo o toque frio do metal contra minha pele enquanto ele prende o colar ao redor do meu pescoço.

Meus dedos deslizam pela corrente, explorando sua textura, até que percebo um detalhe inesperado.

— Não tem fecho?

Minha voz carrega curiosidade genuína, e eu me volto para Thoth. Ele pisca um olho e solta um riso baixo.

— Para garantir que você não irá tirar.

Minha boca se curva em um sorriso.

Então, sem dizer mais nada, ele vira para o grande quadro e estala os dedos. No mesmo instante, os nomes surgem no quadro, alinhados abaixo do de Tobias.

✔ Tobias — 62 pontos

✔ Luna — 49 pontos

✔ Kaique — 48 pontos

Os pontos dessa prova dependem do tempo restante quando cada competidor retorna ao acampamento. Tobias chegou antes de todos, acumulando a maior pontuação. Antes que eu possa dizer algo, Kaique entrelaça sua mão à minha.

— Vamos? — Ele aponta para uma grande tenda afastada. — Creio que seja para nós, e ainda devemos ter cerca de uma hora para descansar.

Solto um suspiro leve, finalmente percebendo o cansaço acumulado.

— Claro. Estou louca para tirar essas roupas molhadas.

Seguimos lado a lado até a tenda. O espaço interno é dividido por cortinas, criando pequenos ambientes que simulam quartos. No centro, há uma grande mesa, aparentemente de uso coletivo.

O primeiro “quarto” está com a cortina fechada. Eu já sei quem está ali.

Ignoro e sigo para o segundo espaço, onde a cortina permanece aberta. Kaique solta minha mão e se aproxima, deixando um beijo leve em meus lábios antes de se afastar.

— Vejo você lá fora.

Apenas assinto e entro no pequeno espaço, fechando a cortina atrás de mim. Minhas roupas molhadas grudam desconfortavelmente na pele, tornando cada movimento pesado e frio.

Rapidamente as tiro e as estendo sobre um banco ao lado. A mochila está no chão, e eu a abro, pegando uma muda de roupa seca. Me sento na cama, apenas de roupas de baixo, enquanto minha mente vagueia.

O quarto ao lado me atrai de uma maneira irracional. Tobias não está bem, parece cansado, abatido.

Mas sua atitude… Seu jeito de agir não mudou.

Continua o bastardo de sempre, mas há algo estranhamente diferente. Não sei o quê, e isso me incomoda.

Deito na cama, olhando para cima, e sem perceber meus olhos começam a pesar. Não sei quanto tempo passa, mas, quando desperto, sinto um olhar sobre mim.

Minha pele arrepia.

Me viro lentamente, e ali está ele.

Sentado em uma cadeira, os braços escorados nas costas, Tobias me observa.

Seus olhos esmeralda carregam algo que eu não consigo decifrar, mas que claramente tenta me dizer alguma coisa.

Apenas encaro.

Ele está descalço, usando apenas uma calça jeans azul clara, algo completamente incomum para ele.

A tatuagem dourada em seu peito, que sempre brilhou com intensidade, agora parece desbotada, como se sua energia estivesse esmorecendo.

Ele desvia o olhar, e só então percebo algo ainda mais perturbador. Seus olhos percorrem meu corpo, e eu percebo que ainda não me vesti. Meu rosto aquece. Me levanto rapidamente para pegar minha roupa, mas sua voz me impede.

— Luna.

A maneira como ele diz meu nome não tem a firmeza habitual. Está rouca. Quase como um pedido.

Paro onde estou, mas não o encaro.

Seus passos ecoam atrás de mim, seu tom baixo e carregado de algo que não consigo decifrar.

— Por favor, não precisa falar nada. — Sua voz não tem exigência, apenas um pedido silencioso. — Eu apenas preciso da sua presença perto de mim.

Ele se aproxima, sua respiração pairando contra minha nuca. Meu coração vacila. Não sei o que pensar.

Parte de mim ainda sente raiva, como se cada palavra cruel que ele me disse antes ainda queimasse na minha pele.

Mas, ao mesmo tempo, há uma necessidade inexplicável dentro de mim. Uma parte que anseia por seu abraço, pela paz que ele me fez sentir tantas vezes.

Fecho os olhos. Sua presença atrás de mim é intensa, e eu posso sentir cada pequena mudança em sua respiração.

— Por quê?

Minha voz sai baixa, trêmula, e não sei se estou perguntando para ele ou para mim mesma.

— É complicado. — O peso de suas palavras me atinge. — Eu sei que essa não é a resposta que você quer, mas é a única que posso te dar no momento.

Minha respiração pausa por um instante, sentindo algo que se mistura entre dor e entendimento.

— Eu sei que não sou digno.

Seu tom agora tem algo que não ouvi antes. Fragilidade. Medo.

— Mas me traria uma paz sem igual se você pudesse me perdoar por tudo que eu lhe disse. —Minha garganta fecha. — Nenhuma daquelas palavras foram sinceras ou verdadeiras.

Meu peito aperta, e minhas pernas perdem a firmeza.

— Você é a garota mais incrível que eu já conheci.

Antes que eu perceba, meu corpo desaba, mas não atinjo o chão. Sou amparada por um peitoral largo e um par de braços fortes, que me seguram sem hesitação.

Sua voz vem mais baixa, mas inebriante.

— Em tão pouco tempo, você me mostrou que, mesmo com tantas cicatrizes, é possível viver. — Ele me segura firme, mas com um toque suave, como se temesse que eu desaparecesse. — E eu não quero perder isso.

Minhas lágrimas não caem de imediato, mas sinto meus olhos arderem, e o resto das minhas forças se esvair.

Espero o impacto com o chão, mas, em vez disso, sou carregada. Seus braços me levantam, e ele me deita na cama, acomodando-se ao meu lado. Meu corpo se encaixa contra o dele, seu peito servindo de abrigo.

Fecho os olhos, deixando que algumas lágrimas escapem discretamente, enquanto seus dedos deslizam pelo meu cabelo. Seu toque é gentil, como se cada movimento fosse pensado para não me afastar.

— Sinto muito por todas as lágrimas que permiti que você derramasse.

Sua mão se move pelo meu pescoço, até que para ao tocar no colar que a ninfa me deu. Ele observa o pingente por um tempo, silencioso, antes de voltar a fazer carinho no meu cabelo. Meus olhos encontram seu pescoço.

Seu pingente não está lá. Antes que eu possa perguntar, ele levanta a mão, revelando a corrente de prata. O objeto está enrolado em seu pulso, formando uma espécie de pulseira com quatro voltas, o pingente preso entre elas, como uma proteção discreta.

Não digo nada.

Apenas fecho os olhos, aproveitando o carinho até que o sono me leve novamente. O peso contra o meu corpo se move sutilmente, e isso me desperta.

Quando abro os olhos, vejo seu rosto relaxado. Ele está dormindo.

Por um instante, apenas observo. Seus traços são marcantes. Tão intensos que ele poderia facilmente ser confundido com um filho de Afrodite.

Minha mente vaga em pensamentos silenciosos, até que algo acontece. O som de passos. A cortina se abre, e Kaique entra no pequeno cômodo.

Seu corpo se congela. Seus olhos se fixam na cena diante dele.

Eu deitada na cama, ainda seminua, Tobias abraçando-me, vestindo apenas a calça jeans.

Seus olhos passam por mim, por Tobias, e então ele começa a se afasta.

— Por mais clichê que pareça, eu juro que não é isso que você está pensando.

Minha voz é apressada, e tento me libertar dos braços de Tobias para correr atrás de Kaique, mas ele me segura com mais força.

— Tobias! — Sacudo seu ombro, mas ele não responde de imediato. — Tirano!

Dessa vez, ele abre os olhos, e eu acabo sorrindo pela situação.

— Eu preciso que você me solte. Vamos.

Ele pisca devagar, sua voz ainda carregada de sono.

— Por quê?

— Porque um Kai muito furioso e confuso acabou de sair daqui após me ver com você, e eu preciso ir falar com ele.

Ele resmunga antes de sentar na cama, me observando enquanto me visto.

— Gostosa pra caralho.

Seu sorriso safado surge junto às palavras. Reviro os olhos.

— Nem pense nisso.

Me afasto um pouco, mas ele apenas ri.

— Não estou pensando em nada.

— Esse é o problema.

Tento correr para fora, mas ele é mais rápido. Antes que eu perceba, ele me segura pela cintura, me vira e me beija.

O choque inicial desaparece, e o que resta no beijo é um misto de saudade e desejo contido. Quando ele finalmente para, sua voz vem baixa, mas carregada de algo mais profundo.

— O que vocês estão tendo?

Meus olhos encontram os dele.

— Não sei.

Minha voz vem sincera.

— Não definimos um rótulo. Estamos apenas aproveitando o momento.

Tobias respira fundo e assente, seu olhar mais firme agora.

— Quando tudo isso acabar…

Ele toca meu rosto, seus dedos deslizando pela minha mandíbula.

— E se ainda estivermos vivos…

Seus olhos incendeiam-se com algo que não consigo nomear.

— Vou fazer de tudo para te ter só pra mim.

Seu beijo vem novamente, mais lento, como uma promessa implícita. Então, ele se afasta.

— Mas por hora…

Seus dedos tocam o pingente no meu pescoço.

— Preciso que esqueça da minha existência e se ocupe em ficar viva.

Ele deposita um último beijo leve nos meus lábios antes de sair do quarto, me deixando mais confusa do que nunca.

A intensidade das palavras de Tobias ainda ecoa dentro de mim, me deixando momentaneamente desnorteada. O torpor leva alguns segundos para desaparecer, mas, quando enfim respiro fundo, termino de me vestir e saio à procura de Kaique.

Ao deixar a cabana, noto que já há uma boa quantidade de pessoas circulando pelo acampamento. Me movo entre elas, vasculhando rostos, até que finalmente o encontro conversando com Thoth perto da torre.

Me preparo para ir até ele, mas, antes que eu possa falar, meu pai me vê e faz um sinal discreto com as mãos, encerrando o assunto entre eles. Paro ao lado de Kaique, esperando que ele ao menos olhe para mim, mas ele não o faz.

— Preciso falar com você.

Kaique se mantém frio, sua postura rígida e distante.

— Eu não tenho nada para falar com você.

Ele se vira sem hesitar e caminha em direção ao alojamento. Minha mandíbula trava. Chamo seu nome mais uma vez, mas ele não para.

Reviro os olhos, soltando um suspiro pesado, e quando olho para Thoth, seu olhar traz um misto de curiosidade e questionamento silencioso. Dou de ombros antes de seguir atrás de Kaique.

Não tenho paciência para essa infantilidade. Nunca disse que tínhamos algo sério. Nunca jurei fidelidade. Estou cansada disso.

Minha determinação cresce conforme aproximo os passos, até que decido encerrar esse drama de uma vez por todas.

Disparo na direção dele, correndo rápido. E então, pulo em suas costas, derrubando-o no chão. Kaique cai e rola, até que fica de barriga para cima, respirando com força pelo impacto.

Antes que possa reagir, imobilizo suas mãos e sento sobre suas pernas, prendendo-o no lugar. Ele me olha surpreso, mas não diz nada.

— Não perguntei se você queria falar comigo. — Minha voz vem firme, carregada de decisão. — Agora para de frescura e escuta!

Meus olhos encontram os dele, esperando alguma resistência.

— Vai escutar?

Kaique fica calado. Cruzo os braços, mantendo-o imóvel.

— Primeiro de tudo, eu não lhe devo satisfação nenhuma. Nós não temos nada sério. Estou me explicando apenas porque lhe considero muito.

Ele pisca lentamente, sua expressão mais controlada agora.

— Segundo, já está mais do que na hora de vocês dois acabarem com essa rixa infantil.

Minha voz sai mais cortante, carregando um peso adicional.

— E terceiro…

Respiro fundo.

— Eu não quero perder o meu amigo/irmão, então acho bom a gente parar por aqui.

Um silêncio se prolonga entre nós.

Até que finalmente, ele fala.

— Vocês se entenderam?

Seu tom é neutro, mas sua pergunta é direta.

Ele se refere a Tobias.

Minha resposta vem devagar, mas sem hesitação.

— Não sei.

Minha voz diminui um pouco.

— Com ele, tudo é muito complicado.

Meus ombros cedem um pouco, e sem perceber, encosto minha cabeça contra o peito de Kaique.

— Por mais que eu tente afastá-lo, sinto uma necessidade imensa de cuidar dele. — Minha respiração se torna mais lenta. — Me traz paz.

Kaique solta um suspiro discreto.

— Entendo.

Seus braços relaxam embaixo das minhas mãos, como se cedesse ao momento.

— Eu sempre vou estar aqui pra você, pequena.

Sua voz chega suave, carregada de algo que não consigo nomear completamente.

— Não importa o que aconteça.

Meus olhos se movem até os dele, e sem perceber sorrio levemente.

— Obrigada.

Minha voz é baixa, mas sincera. Seu olhar se aprofunda por um instante.

— Luna, eu...

Mas antes que ele termine, o interrompo.

— Não diga isso. — Meu tom não é duro, mas firme o suficiente. — Não agora e não assim.

Seus olhos se arregalam ligeiramente, surpresos pela interrupção.

— Se for para falar, que seja com plena certeza.

Minha expressão suaviza um pouco.

— E não pelo calor do momento.

Kaique fica em silêncio, e por um instante vejo uma sombra de decepção cruzar seu rosto. Mas então, ele assente lentamente, como se entendesse.

Respira fundo antes de dizer:

— Eu não vou desistir de te ter para mim.

Suas palavras me atingem de forma inesperada.

— Então se não é isso que você quer, esse é o momento de falar.

Meu coração tropeça.

Fico quieta por alguns segundos, analisando cada palavra dita. E então, reflito profundamente.

Se o Tobias nunca tivesse aparecido, será que eu teria sido capaz de amar Kaique?

A resposta vem mais rápido do que eu esperava.

Sim.

Se Tobias nunca tivesse entrado na minha vida, eu teria sido capaz de amar Kaique. Mas agora, as coisas são diferentes.

Porque o que eu sinto por Tobias é intenso demais para ser ignorado. Devastador demais para ser apagado. E eu nunca poderia corresponder a Kaique com a mesma intensidade que ele merece.

Porque a história do mundo já provou que amar por dois nunca dá certo.

Me levanto lentamente, esperando que ele faça o mesmo. Meus olhos ficam firmes sobre os dele.

— Eu não sou um prêmio para vocês disputarem.

Minha voz é clara, inquestionável.

— Então, se quiser continuar com essa disputa boba, vá em frente. — Meu olhar se estreita. — Mas faça isso com a certeza de que, quando tudo isso acabar, pode não existir mais nenhum laço entre nós dois.

Kaique pisca devagar, seu olhar assustado, quase como se não esperasse minha dureza.

— Entendi.

Ele solta um pequeno suspiro.

— Então acho que aceito o risco.

Aproxima-se, devagar.

— O prêmio final é importante demais para que eu possa desistir.

Antes que eu possa reagir, ele me beija.

Sinto suas mãos em minha cintura, seu toque firme, mas controlado. Ele está determinado. E no fundo, eu sei que as coisas acabaram ficando da mesma forma que antes.

A única diferença é que agora ele sabe que eu nunca poderei correspondê-lo da maneira que ele deseja.

Mas agora, minha única prioridade é ganhar esse campeonato. Depois, eu penso em como resolver isso. Nos separamos do beijo, e eu passo uma mão pelos cabelos, tentando manter meu foco.

— Quanto tempo ainda temos?

Kaique se move um pouco para trás, soltando um pequeno suspiro enquanto olha ao redor.

— Não tenho certeza, mas creio que menos de meia hora.

Dentro do alojamento, algumas pessoas conversam e riem, despreocupadas com o que está por vir. Passamos direto, sem nos envolver no clima.

Ele me observa em silêncio enquanto termino de arrumar minhas coisas. Já está pronto. Sua mochila descansa sobre os ombros, apenas aguardando.

Ao sair da tenda, caminhamos para onde fica o placar, mas, no meio do percurso, tropeço em algo inesperado.

Meu corpo inclina-se para frente, e antes que consiga me segurar, caio por cima de Kaique, que havia tentado me segurar no reflexo.

O impacto é forte, e ele solta um som de frustração, claramente prestes a reclamar. Mas antes que possa dizer algo, o som de dois tiros de canhão reverbera pelo acampamento.

O tempo acabou.

Uma movimentação começa na floresta.

Me afasto rapidamente de Kaique e o ajudo a se levantar, nossos olhares se virando para a fonte do alvoroço. Minha testa se franze ao ver a cena diante de nós.

Uma garota corre desesperada, tentando alcançar a torre, mas no último instante, algo surge do chão. Uma raiz gigante se ergue da terra, enrolando-se ao redor de seu tornozelo. E então, ela é puxada para dentro do solo, como se estivesse sendo engolida pela floresta.

Meu coração vacila, e um arrepio me percorre.

Agora entendo o que Ártemis quis dizer quando afirmou que a floresta se encarregaria de trazer os atrasados de volta.

Kaique me distrai ao apontar para o grande quadro.

— O placar está mudando.

Nos aproximamos da multidão, nossos olhos vasculhando o painel de classificação.

Há 300 nomes listados em ordem de chegada.

Meu olhar encontra Tobias no topo da lista.

✔ Tobias — 1º

✔ Luna — 2º

✔ Kaique — 3º

Logo abaixo, reconheço Peter, Maia e Kelvia entre os nomes.

O peso do momento cresce, e sem hesitar, seguimos para o local onde será anunciada a próxima prova. A multidão se mantém agitada, mas logo se cala quando Dionísio sobe ao pequeno palco.

Sua postura despreocupada contrasta com a expectativa no ar. Ele sorri antes de falar.

— Prestem atenção!

O silêncio se instala.

— No centro da floresta, vocês encontrarão um labirinto.

Minhas mãos se fecham em punho.

— No meio dele, haverá um trono para cada deus do Olimpo.

Minha respiração se torna mais lenta.

— Encontrem o de seus pais e sentem-se nele. — Seu sorriso cresce. — Ele os transportará de volta para cá. É bem simples.

Mas então, sua voz adquire um tom malicioso, e eu sei que tem mais coisas.

— Oh, só mais uma coisa. — Meus músculos se tensionam. — Cada trono só aceitará dois semideuses.

O impacto é imediato.

— Quando o segundo semideus for transportado, o trono se destruirá.

Meus olhos se arregalam minimamente.

— Terão que achar o caminho de volta para sair do labirinto.

Meu coração acelera.

— Então sugiro que corram para serem os primeiros.

Ele sorri de lado, e eu já sei que isso será um inferno.

— Boa sorte!

O canhão é disparado.

Sem hesitar, começamos a correr.