Herança de Cinzas

12 Entre Deuses e Monstros


Aos poucos, todos se espalham pela floresta, correndo feito loucos para chegar primeiro ao labirinto. Kaique está um pouco à minha frente, mas não é uma distância impossível de alcançar.

Quando finalmente avistamos o bendito labirinto, meu peito aperta em alerta. Ele é inteiramente feito de plantas, suas paredes vivas e sinuosas, como se tivessem vida própria. A voz do meu pai ecoa na minha cabeça:

"Nunca confie na floresta. Ela pode ser traiçoeira."

E agora, mais do que nunca, isso faz sentido. À nossa frente, há duas entradas.

Uma à direita.

Outra à esquerda.

Kaique não hesita.

— Direita sempre.

Ele segue direto para a entrada da direita, e eu o acompanho sem questionar. Dentro do labirinto, cada passo parece carregado de incerteza. Cada detalhe pode ser crucial para sair daqui.

Estamos atentos, observando tudo, quando um barulho repentino nos corta como uma lâmina. Um galho quebrando. Minha voz sai instintiva.

— Kaique!

Ele já olha ao redor, sua expressão ficando séria.

— Elas estão se movendo.

Meus olhos correm para trás e vejo que o caminho pelo qual entramos não existe mais. As paredes do labirinto se reorganizaram, fechando qualquer tentativa de volta.

— Temos que prestar atenção. Deve haver algo que acione a mudança delas de lugar.

Kaique assente, ajustando o peso da mochila sobre os ombros.

— Sim.

Ele olha ao redor, tenso.

— Fique perto. Elas podem se fechar e nos separar.

Seu tom tem uma certa urgência, e eu não discuto. Seguimos em frente, cautelosos, até que chegamos a uma bifurcação. Dois caminhos. Uma escolha.

Antes que Kaique possa falar, eu me adianto.

— Direita sempre.

Mas, no instante em que damos um passo à frente, algo surge no fim do caminho. Uma sombra esguia e feroz, seus olhos ardendo como brasas.

Kaique para abruptamente, seu corpo tenso.

— Tá de sacanagem.

Sua voz chega baixa, mas cheia de frustração. Minhas mãos vão direto para minha adaga. Meus instintos gritam.

— É uma…

Kaique interrompe, sua voz carregada de certeza.

— Erínia.

Meu estômago afunda. Erínias nunca estão sozinhas.

— Elas nunca estão sozinhas.

Viro minhas costas para Kaique e preparo minha postura de defesa, aguardando as outras chegarem.

Erínias, As Filhas da Vingança. São divindades femininas do Submundo, personificações da raiva e do castigo. Elas vagam pela Terra, punindo aqueles que fizeram falsos juramentos ou vingando mortes injustas.

Sempre atuam em tríades:

🔹 Tisífone — A personificação do castigo.

🔹 Megera — A manifestação do rancor.

🔹 Alecto — A fúria inominável.

Até hoje, só as vi em livros. Mas agora… Elas estão bem na minha frente.

Escuto um grito ensurdecedor.

Minha cabeça vira rápido, e vejo a que suponho ser Megera avançando para cima de Kaique. Ela é alta e forte, seu corpo de guerreira coberto por uma armadura fragmentada, expondo parte do tronco e das coxas.

Sua pele pálida contrasta com seus cabelos negros, presos em dois coques laterais. Seus olhos são fendas sombrias, tão escuros quanto suas asas semelhantes às de um morcego.

E em suas mãos…

Duas espadas Dadao. Longas, cruéis, quase do tamanho do meu braço inteiro. Suas lâminas são finas na base, alargando-se ao longo do comprimento, terminando em pontas mortais.

Kaique recua e se defende, sua espada em movimento constante.

Eu vigio a área, esperando pela próxima investida.

O impacto vem rápido demais. Sinto uma presença atrás de mim, e quando me viro, a segunda Erínia já está pousando.

Eu me jogo para o lado no último instante, rolando pelo chão enquanto ela me ataca com as garras na extensão de suas asas.

Seu corpo se move em velocidade absurda, e antes que eu possa reagir, ela me atinge em cheio. Meu corpo colide contra o solo, e minha cabeça bate forte no chão.

Um calor intenso escorre pelo meu ombro. Sangue.

Minha visão oscila, e por um segundo considero o pior. Ela pode simplesmente terminar o trabalho e me matar.

Mas antes que eu possa processar… Seu corpo desaba sobre mim.

Meu peito sobe e desce em respiração trêmula, meu cérebro tentando acompanhar o que aconteceu.

Minhas mãos se movem automaticamente, empurrando o peso morto da Erínia para longe de mim.

E então eu vejo, minha adaga está cravada em seu peito. Devo ter atingido seu coração no momento da queda.

Meus olhos analisam sua aparência. Essa só pode ser Tisífone.

Ela é perfeita de uma forma quase sobrenatural, tão bela que poderia facilmente passar por uma ninfa.

Menor que Megera, mas igualmente letal, seus cabelos negros presos em um rabo de cavalo alto. Seu vestido vermelho longo parece fluido e elegante, mas as fendas laterais deixam visível o perigo escondido em sua postura.

Suas unhas… não são normais. São garras, afiadas como lâminas, feitas para dilacerar sem hesitação.

Uma presença se aproxima. Minha cabeça se ergue, meu corpo se prepara para enfrentar a última Erínia.

Mas, quando olho para frente… Tudo que vejo é um Kaique descabelado, sua expressão cheia de alívio.

Kaique se aproxima rapidamente, seus olhos varrendo cada detalhe do meu rosto enquanto suas mãos deslizam sobre minha cabeça, em busca de um ferimento.

— Graças a Zeus! Pensei que tinha morrido!

Sua respiração está rápida, ainda sentindo o peso do momento. Sinto uma leve pontada quando ele toca um ponto específico.

— Dói?

— Um pouco.

Minha voz sai firme, mas não tento disfarçar o desconforto.

— Bati a cabeça no chão quando ela veio pra cima de mim.

Aponto para o corpo sem vida da Erínia caída ao lado. Kaique solta um suspiro aliviado antes de se virar, seus movimentos ágeis enquanto vasculha sua bolsa no chão.

— Tenho uma pomada aqui.

Mas, no momento em que ele dá um passo para pegá-la, as paredes do labirinto se movem.

Antes que eu possa reagir, uma parede de plantas surge entre nós, separando-nos completamente.

— Kai!!

Minha voz sai urgente, minhas mãos empurrando com força a parede, mas ela não cede.

— Kaique!

Nada.

Nenhuma resposta.

Meu peito se comprime de frustração.

— Inferno!

Meus dedos se fecham sobre a alça da bolsa, e começo a procurar alguma coisa útil. Acho minha garrafa térmica com um energético natural. Tomo um gole, sentindo a eletricidade percorrer meu corpo antes de guardar de volta.

Ajeito a mochila nas costas e respiro fundo. Não posso ficar parada aqui. Preciso seguir em frente.

Meus passos ecoam pelo labirinto, o solo irregular e traiçoeiro. As paredes parecem se mover mais rápido à medida que avanço. Cada curva do caminho é instável, e mais uma vez me vejo diante de uma divisão.

Dois caminhos.

Minha voz vem automática.

— Direita sempre.

Mas, no instante em que dou um passo, o ar congela na minha garganta.

— Ahhhhhhh!

O grito escapa antes que eu possa controlá-lo.

Diante de mim, um Minotauro devora alguém.

O cheiro de sangue fresco invade minhas narinas, a náusea é instantânea.

Mas o que me paralisa não é a criatura.

É a pessoa.

Kelvia.

Sua pele está pálida, seus olhos vazios, sua respiração fraca.

Meu grito faz com que o Minotauro me perceba. Ele se assusta, suas narinas tremem antes de disparar para o fim do corredor. Assim que ele passa pela parede, ela se fecha atrás dele.

Meu corpo cede para frente, e me abaixo ao lado de Kelvia. Sua pele está fria, mas ainda há vida ali.

Uma ferida profunda em seu pescoço sangra descontroladamente. Sem pensar, pressiono minha mão sobre o ferimento, tentando estancar o fluxo de sangue.

Seus dedos fraquejam, mas ainda assim ela segura minha mão. Ela tenta falar, mas não tem força suficiente. Minha voz vem baixa, quase uma súplica.

— Shiii, calma. Vai ficar tudo bem, eu vou dar um jeito nisso.

Com uma mão, abro minha bolsa, puxando uma blusa reserva e colocando-a sobre o ferimento.

Pressiono com força, ignorando o desconforto da situação.

— Nós vamos sair daqui, só fica comigo, ok?

Rasgo um pedaço do tecido e amarro ao redor do pescoço dela, prendendo a blusa no ferimento. Coloco minhas mãos na grama e chamo pelas ninfas da floresta.

Silêncio.

Nada acontece.

Respiro fundo e tento de novo. Mas novamente, nenhuma resposta.

Então, a voz baixa, mas determinada de Kelvia surge.

— E-elas n-não vã-vão vir.

Minha garganta aperta. Ela tem razão. Não vai haver ajuda. Só há um jeito de sair daqui. Minha determinação cresce, e minha voz sai mais firme agora.

— Então nós vamos até elas.

Não vou me permitir ser fraca. Meus braços deslizam sob seu corpo, ajustando seu peso nos meus braços antes de me levantar.

Cada músculo se contrai ao sustentar seu peso, mas não hesito. Começo a caminhar pelo único caminho possível.

As paredes do labirinto se estendem infinitamente, e cada curva parece um desafio a mais.

O primeiro tiro do canhão já ecoou há pelo menos uma hora. Já estamos caminhando há mais de duas horas.

Meus braços doem, minhas pernas queimam, mas eu não paro.

A voz fraca de Kelvia chega a mim.

— Luna?

— Sim?

Sua cabeça descansa sobre meu ombro, sua respiração instável.

— Por favor, não deixa nada acontecer com o Bernardo.

Minha testa franze.

— Ele não tem mais ninguém além de mim.

Ela tosse, e sinto algo quente molhar meu ombro.

Sangue.

Minha respiração oscila.

— Você vai protegê-lo pessoalmente, Kel. Nós vamos conseguir.

Minha mente tenta processar.

Bernardo?

Kelvia é solteira, mora sozinha na cidade, sempre foi reclusa.

Quem é Bernardo?

Ela não fala mais, mas suas lágrimas continuam caindo. Dobro para a esquerda, e então finalmente vejo. A sala dos tronos está cem metros à frente.

Minha garganta se fecha, e um alívio inunda meu peito. Tenho vontade de chorar, mas não agora.

— Nós conseguimos, Kel. Estamos quase lá. Fica comigo.

Mas o perigo ainda não acabou. O som brutal de galhos quebrando explode atrás de mim. Meu olhar se volta rápido, e vejo o caminho se fechando.

Se eu não correr, seremos engolidas pelas paredes. Junto todas as minhas forças e disparo. Os galhos disparam estacas de madeira na nossa direção.

Estamos a cerca de vinte metros da entrada da sala quando uma estaca perfura minha coxa. Minha perna cede, e eu caio de joelhos no chão.

Meu corpo treme de dor, mas não tenho escolha. Seguro a ponta da estaca e a puxo para fora, o ardor devastando meus sentidos. Rasgo um pedaço da blusa e amarro na minha coxa.

Preciso continuar.

Ajusto Kelvia em meus braços, mas, antes que eu possa movê-la… Ela segura minha mão.

Kelvia tenta soltar um sorriso, mas seu rosto já perdeu parte da cor. Sua voz sai fraca, mas determinada:

— Tudo bem, Luna, pode ir.

Meus músculos se contraem diante de suas palavras, mas não aceito isso.

— Eu já disse que nós vamos conseguir, não vou te deixar aqui.

Reforço minha postura, levantando-me e reunindo as últimas forças para continuar correndo.

Nosso avanço é brusco, e assim que passamos pela entrada da sala, uma estaca de madeira crava-se nas costelas de Kelvia.

Ela solta um gemido de dor, seus olhos se fechando de forma lenta, como se sua energia estivesse desaparecendo por completo.

Assim que entro na sala, minhas pernas cedem, e eu desabo no chão, sem forças para continuar.

Coloco Kelvia ao meu lado e sacudo-a levemente, minha voz tremendo com desespero.

— Vamos lá, Kel! Nós conseguimos! Por favor, não me deixa!

Minha visão fica turva, e o peso do momento me sufoca. Kelvia move minimamente os lábios.

— Meu filho…

Ela pausa, sua respiração instável.

— Ele é meu filho.

Então, um último sorriso enfeita seu rosto, antes de seus olhos se fecharem de vez.

Sua cabeça se escora contra minhas pernas, e eu fico imóvel. O mundo ao meu redor desaparece. Tenho vontade de permanecer no chão e chorar até não ter mais forças.

Mas não posso. Não agora.

Kelvia merece ir para casa e ter um enterro decente.

E, acima de tudo, agora existe alguém que só tem a mim.

Meu corpo tenta se mover, minhas mãos preparadas para segurar o corpo dela uma última vez. Mas antes que eu consiga, outro par de mãos chega primeiro.

Tobias.

Ele segura Kelvia com cuidado, como se ela ainda pudesse sentir o toque gentil.

Seus olhos encontram os meus, esperando que eu me levante.

— Qual é o dela?

Seu tom é firme, mas respeitoso. Respiro fundo, meu peito apertado demais para responder de imediato.

— Afrodite.

Aponto para o trono.

Tobias caminha com ela até lá, seu silêncio dizendo tudo que precisa ser dito.

Ele coloca Kelvia sentada no trono, e no instante seguinte, ela desaparece, transportada de volta para o acampamento.

O silêncio é avassalador. Tobias retorna até mim, mas não diz nada.

Seus olhos brilham de forma incomum, como se quisesse falar algo, mas não o faz.

Então, ele apenas suspira discretamente e aponta para os tronos restantes.

— Precisamos achar o seu.

Meu olhar corre para as cadeiras imponentes à frente.

— Já passaram os dois filhos de Atena, de Hera, um de Poseidon, o filho de Zeus e agora a de Afrodite.

Minha voz sai baixa.

— Kai?

Tobias balança a cabeça, confirmando que ele está bem. O alívio é instantâneo, mas não posso parar agora.

— Como vamos descobrir qual é?

Ele solta um pequeno sorriso torto.

— Vamos ter que recorrer ao método mais precário. Você vai sentar em todos até descobrir qual é.

Reviro os olhos, mas não discuto.

— E se for algum que já foi destruído?

Tobias dá de ombros.

— Então daremos um jeito de sair daqui.

Solto um suspiro pesado e observo os tronos.

— Por onde eu começo?

Ele aponta para o primeiro.

Então, começo a testar, sentando de trono em trono.

O tempo passa devagar, e depois de cinco minutos, meu corpo finalmente para sobre um deles.

Uma luz brilhante e vibrante se acende ao redor do trono.

Meus olhos se arregalam, e eu encaro Tobias, ansiosa.

Ele sorri.

— Perséfone.

Seu sorriso é leve, mas brilhante.

— Até logo, pequena.

Fecho os olhos e espero o retorno ao acampamento.

Mas quando abro os olhos novamente… não estou no acampamento.

O ar parece estranho, frio e sem vida.

Minha pele treme, e eu sinto imediatamente que algo está errado. O trono me enviou para uma parte desconhecida da floresta, fora da barreira de proteção.

Minha respiração se altera, e minha pele não sente nenhuma energia viva ao redor. Minha primeira reação é vasculhar minha bolsa, puxando uma lanterna.

Ligo a luz e tento me orientar, buscando pontos conhecidos no céu. Mas há pouca luz lunar, e a noite escura dificulta tudo.

Com esforço, consigo encontrar a constelação da Ursa Menor, identificando a Estrela Polar.

Ajustando minha direção, começo a caminhar o mais rápido que posso, tentando ignorar a dor na minha coxa. Mas quanto mais ando, mais longo parece o caminho.

Algo está errado.

Verifico novamente a direção da estrela e a posição das árvores ao redor. Eu já deveria estar vendo a entrada do acampamento. Mas não há nada.

Observo mais atentamente a vegetação, essas não são as árvores da floresta do acampamento. Eles não avisaram sobre nenhuma outra prova depois do labirinto.

Meu coração bate mais forte.

Paro e me encosto em uma árvore. Bebo um pouco de água e olho para o ferimento na minha coxa. O sangramento cessou, mas a carne ainda está aberta.

Minha roupa está rasgada em vários pontos, e meus braços e rosto estão cheios de arranhões. Limpo os ferimentos de forma rápida, guardo tudo na bolsa e volto a andar.

Mas então, um som repentino surge atrás de mim.

Minha pele se arrepia, e eu desligo a lanterna imediatamente. Congelo, tentando não fazer nenhum som.

Podia ser apenas o vento, mas não posso arriscar.

O barulho não se repete.

Minhas mãos apertam o tecido rasgado da minha blusa enquanto tomo a decisão de seguir em frente.

Estou prestes a ligar a lanterna novamente quando sinto algo no meu pescoço. Uma respiração quente sopra contra minha pele. O cheiro de enxofre preenche o ambiente.

Algo molhado pinga no meu ombro. Minha mente conecta as pistas. Meu corpo se paralisa completamente. Então, ouço um bufar baixo, e finalmente reconheço a criatura.

Minotauro.

A criatura continua me farejando, buscando algo.

Minotauros são violentos e sanguinários, mas não enxergam no escuro e não têm um olfato muito aguçado.

Por outro lado…

Sua audição é extremamente apurada.

A criatura continua farejando, buscando algo. Por fim ele desiste de farejar e começa a seguir na direção oposta. Mas isso não significa que estou segura.

Assim que eu der um único passo, ele vai me escutar. E então, será uma questão de segundos até que me alcance. Se a floresta estivesse normal, talvez eu tivesse alguma chance.

Mas agora…

Agora não faço ideia de onde estou. E menos ainda de como chegar ao acampamento. Minha mente trabalha freneticamente, tentando encontrar uma alternativa.

Mas nada parece viável.

Então, faço o que sei fazer de melhor. Eu enfrento.

Sem hesitar, disparo pela escuridão, correndo sem rumo. Desvio das árvores da melhor forma possível, tentando me orientar pelo vento. Mas não consigo me concentrar o suficiente para lembrar das aulas de navegação pela direção dos ventos.

Merda.

Atrás de mim, o som brutal da criatura começa a crescer. Ele percebe minha fuga, e eu escuto seus passos pesados perseguindo-me. Tomo impulso, mas tropeço em alguns galhos. Meu corpo vacila, mas continuo correndo.

Ele está cada vez mais próximo, sua respiração grudando no ar ao meu redor. Ele avança na minha direção, tentando me capturar, mas o cálculo dele falha.

O impacto do seu corpo atinge uma árvore, e o barulho é ensurdecedor. Aproveito a brecha e mudo de direção, sem parar por um segundo.

Até que, finalmente, não escuto mais o barulho dele correndo atrás de mim. Contudo isso não significa que estou a salvo. Então, sigo com todas as forças que ainda me restam.

Um novo som explode atrás de mim. Dessa vez, não tenho tempo de reagir. O impacto vem com força total, e meu corpo é arremessado contra uma árvore. O golpe é devastador, e assim que atinjo o chão, meu peito parece esmagado.

Não consigo respirar.

Minhas costelas gritam de dor, e meu cérebro oscila entre tentar se recompor ou simplesmente desligar.

O Minotauro esmaga a terra ao meu redor, tentando me encontrar. Minha mão desliza pela lateral da perna, alcançando o coldre escondido. A lâmina fina e afiada desliza contra meus dedos.

Ela tem o tamanho do meu antebraço. Minha única chance.

Seguro firme e espero o momento oportuno. Ele abaixa a cabeça, aproximando o rosto perigosamente de mim. Seu cheiro é sufocante, seu hálito carregado de enxofre e sangue.

Meu corpo tensiona.

Não vai haver outra oportunidade melhor. Então, salto na sua direção. Minhas mãos agarram sua cabeça, e a lâmina desliza direto para seu ouvido esquerdo.

O grito que ele solta é brutal, grotesco, assustador.

Ele se contorce, e no reflexo da dor, consegue me arremessar longe. Meu corpo desaba alguns metros à frente. Minha respiração está irregular, e no momento em que tento levantar, sinto uma pontada lancinante nas costelas.

Minha mão desliza instintivamente para a região, mas assim que toco, uma nova onda de dor atravessa meu corpo.

Sinto o cheiro forte de ferro. O sangue não para.

Minha mente reconhece o óbvio. Por mais que eu tente…

Eu não vou conseguir chegar ao acampamento. Meu peito submete-se ao peso do cansaço, e eu me encolho no chão, esperando que ele desista de me caçar.

Minhas mãos apertam os próprios braços, e tento ignorar a dor. Meu corpo treme, mas minha mente foge para outra direção.

Chocolate quente. Cremoso. Reconfortante.

Me apego a essa ideia, e por um segundo, quase consigo esquecer minha situação. Até que um vento intenso atravessa meu corpo.

Minha mente desperta, e então, finalmente me lembro.

Os ventos.

Pelo pouco que recordo das aulas de navegação, eu já deveria estar a cem metros da entrada do acampamento, mas algo não faz sentido.

Não consigo enxergar nada. A floresta ao meu redor é completamente diferente da que conheço. Meu cérebro conecta as peças, e então a resposta surge rápida como um raio.

Glamour.

Uma ilusão usada para disfarçar coisas. Alguém colocou um glamour bloqueando minha visão do acampamento, mas eu não devo estar longe.

Cem metros, no máximo.

Minha respiração se ajusta, e rapidamente pego uma pedra no chão. Sem hesitar, lanço com força máxima no sentido contrário.

O Minotauro se desorienta, seus passos se agitam para longe de mim. Aguardo por alguns segundos, garantindo que ele esteja suficientemente afastado antes de me mover.

O golpe que ele recebeu deve ter prejudicado sua audição. O que significa que posso atravessar o glamour sem ser percebida.

Minha perna não responde bem, mas eu me obrigo a continuar. Cada passo é um desafio, e preciso me apoiar nas árvores para manter meu equilíbrio.

Estou quase sem forças quando finalmente atravesso a barreira invisível. Minha visão acende com a realidade. Diante de mim, as estruturas do torneio surgem com força absoluta.

Mas algo na entrada está estranho. Uma movimentação intensa, algo fora do esperado.

Meu coração acelera, e eu caminho mais rápido, sentindo minhas últimas energias se esgotarem completamente.

Não posso desistir agora.

— Luna!

Minha cabeça se ergue.

Diante de mim, três figuras ocupam meu campo de visão. Thoth. Kaique. E, por último… Tobias.

Ele está mais afastado, quase escondido na sombra, mas seu olhar me encontra no exato instante em que minhas forças finalmente se rendem.

Ele dispara na minha direção, seus olhos carregando algo urgente. E no instante em que seus braços me envolvem… Eu me permito desmoronar.

— O que eu perdi?

Minhas palavras são fracas, quase irreconhecíveis pelo cansaço.

Não escuto sua resposta. Porque, no instante seguinte…

O canhão dispara os dois tiros e então, eu apago.


Notas finais
Demorei, mas voltei <3 XOXO