Herança de Cinzas
19 Especial - Os Deuses Também Sangram
Notas iniciais
POV THOTH
Não importa quantas lendas sustentem sua eternidade, ou quantos mitos cantem sua glória, mesmo a divindade tem limites. E quando a esperança escapa pelos dedos, tudo o que resta é o que antes ignoravam: o medo.
Agora, às portas da última prova, o Olimpo treme. E os que um dia foram adorados como eternos, enfrentam a única coisa que jamais aprenderam a dominar: o tempo acabando.
— Você está bem?
— Bem? Eu nem sei mais quando foi a última vez que pude dizer que estava bem. — Respondo à pergunta de Dionísio, parando do lado de fora da tenda montada para nós.
— São tempos difíceis, meu amigo. Às vezes penso que talvez tivesse sido melhor se nunca tivéssemos aceitado ajudá-lo. Mas, então, penso que nunca teríamos conhecido Luna ou qualquer uma das outras crianças… e percebo que não me arrependo da escolha que fiz.
Ele para ao meu lado, enquanto os outros seguem seus caminhos. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele começa a tossir. Pega o lenço que carrega no bolso do blazer e o leva à boca. Quando o afasta, vejo manchas douradas no tecido.
— Desde quando você está sangrando?
— Tem pouco tempo. — Responde, após recuperar o fôlego.
— Você deveria ter nos contado.
— E de que isso adiantaria? Já temos problemas demais para resolver. Isso seria só mais uma preocupação.
Não digo nada. No fundo… ele tem razão. Os últimos meses foram implacáveis. As tentativas de assassinato contra Luna, as ordens contraditórias do Olimpo, nossos garotos morrendo por uma luta que não é deles e agora essa praga, que finalmente chegou até nós.
— Não conte nada a ela.
— Não precisa se preocupar. Mas se as coisas não derem certo, você precisa contar. Luna sempre o considerou um segundo pai. Ela vai sofrer muito se o perder.
— Sempre tão preocupado…, mas lhe garanto, meu velho amigo: se as coisas derem errado, a última coisa com que iremos nos preocupar é com a morte de um deus há muito tempo esquecido.
— Por Zeus, desde quando você ficou tão sentimental assim? — Ele apenas ri. — Sabe, me pergunto o que teria acontecido se não tivéssemos cedido às vontades de Zeus.
— Ele teria matado Perséfone, Luna e qualquer outra pessoa que se colocasse no caminho dele. Depois, a previsão do Oráculo se realizaria, os Titãs retornariam e destruiriam o mundo mortal que tanto nos entreteve nos últimos séculos. E, por fim, nós seríamos aniquilados. Um destino que, aliás, não é tão diferente daquele que nos espreita agora.
Acabo rindo da forma crua como ele descreve nosso futuro iminente.
— No fundo, não escolhemos cuidar dela por bondade. Fizemos isso porque éramos egoístas demais para aceitar a morte… e covardes demais para enfrentar Zeus. Enquanto ele estivesse no poder, podíamos seguir nossas vidas como sempre, sem assumir nenhuma responsabilidade.
— Foi esse pensamento que fez com que os outros deuses se calassem.
— Exato. Todos se omitiram. Nenhum deles nos ajudou a enfrentá-lo.
— Não é à toa que você é o deus do conhecimento. Sabe de todas as coisas. — Dionísio debocha, mas sei que, no fundo, concorda comigo. — Eu sinto falta deles. Das festas. Dos deuses. De Afrodite... de casa.
— Estamos em casa.
— Não. Você sabe que não estamos, Thoth. Por mais que tentemos nos convencer, falta algo.
— O que está querendo dizer?
— Você sabe muito bem o que quero dizer. Falta poder, Thoth! Há quanto tempo não nos sentimos como deuses de verdade? Acho que nem me lembro mais da minha forma original. Tudo o que consigo lembrar… é desta forma mundana.
— Poder…
Algo que não ensinamos aos semideuses — um detalhe pequeno, mas que, segundo Zeus, seria o suficiente para fazê-los perder a fé em nós e na suposta onipotência divina.
O Olimpo é para nós o que o tridente é para Poseidon: um canal, um amplificador, uma âncora de poder. Quanto mais tempo longe dele, mais fracos nos tornamos. Talvez por isso Dionísio tenha sido o primeiro entre nós a ser acometido por essa maldita praga.
Não costumamos falar sobre isso, mas, aparentemente, a tensão dos últimos dias tem nos deixado mais dispostos a encarar a verdade.
— A sensação de ser invencível... o calor do poder circulando sob nossa pele, causando arrepios... a ansiedade em liberá-lo, o frenesi da adrenalina.
Sim, sinto falta disso.
Entretanto, me sinto abençoado por não lembrar mais daquela sensação de vazio que vinha logo depois. Acho que hoje entendo por que os humanos valorizam tanto a vida, sempre pedindo um pouco mais de tempo, um pouco mais de amor, um pouco mais de sabedoria, um pouco mais de poder. Quando se tem tudo, as coisas perdem o seu verdadeiro valor.
— Que seja. Eu rezo para que isso acabe logo e ela reivindique o trono que é seu por direito.
— Calado!
Olho em volta, atento a qualquer sombra que possa ter ouvido.
— Já conversamos sobre isso. Esse assunto é proibido fora do escritório.
E mesmo que uma parte de mim anseie por esse desfecho… A outra se recusa a aceitar o preço que teremos que pagar.
— Tanto faz. No fundo, você também reza para que tudo isso acabe logo.
Não respondo. Apenas solto uma risada curta, seca.
— Vamos. Temos que nos preparar para o anúncio da próxima prova.
APOLO
— Você está bem? — Saímos da tenda, e eu sigo ao lado de Kaique, que parece um tanto aéreo.
— Ele realmente pode morrer?
— Não temos como ter certeza…, mas a possibilidade é grande. Vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar isso. — Ele apenas concorda com a cabeça. — Achei que você não se importasse com ele.
— E quem disse que eu me importo?
— Primeiro, a sua postura defensiva. E segundo… eu não me preocuparia tanto com a morte de alguém de quem eu não gosto.
— Tem razão. Então por que eu me sinto tão apavorado com a possibilidade de perdê-lo?
— Não sei. Me diga você. O que mudou entre o momento em que vocês saíram para realizar a prova anterior e o momento em que voltaram?
Ele pensa por alguns segundos, provavelmente revivendo os últimos acontecimentos.
— Nós discutimos em Atenas.
— Sobre o quê?
— Eu sempre achei que a visita dele ao hospital foi o que causou a morte dela. Mas, na verdade, foi ela quem o chamou. — Percebo o peso nas palavras. A morte da mãe dos garotos sempre foi um assunto delicado. — Ele disse que achou que ela finalmente o aceitaria como filho…, mas ela só queria despejar nele todo o ressentimento por ter sido rejeitada por Poseidon uma última vez. Aparentemente, ela ainda estava viva quando ele saiu de lá.
— Entendo. E você acreditou nele?
— No começo, não. Mas… pensando bem, Tobias nunca foi um mentiroso. Muito pelo contrário. Ele sempre foi transparente como a água. No final das contas, o mentiroso da família sou eu.
— Pare com isso. Autopiedade não combina com você. — Digo, arrancando um riso leve dele.
Paramos de caminhar a poucos metros do painel de classificação.
— Mas por que eu sinto que isso não foi o que realmente mexeu com você?
— Porque realmente não foi. — Ele abaixa o olhar. — Enquanto discutíamos, ele disse que sempre soube que eu recebia dinheiro para cuidar da Luna. Mas… ele nunca contou pra ela. E logo depois que falou isso… ela apareceu. E aí tudo virou uma confusão.
— E por que ele nunca contou?
— Quando estávamos no carro, indo para o portal, a Luna ainda estava desacordada. Eu perguntei a ele por que guardou meu segredo por tantos anos. Ele disse que… todos nós somos suscetíveis a erros. Que, no início, pensou em contar. Mas logo percebeu que ela não era mais um trabalho pra mim. Ele viu que eu gostava dela de verdade. E ele não seria capaz de tomar de mim algo que eu amo, porque ele sabia como isso dói. Ele não poderia causar essa dor a alguém… da própria família. — Ele faz uma pausa e respira fundo, a voz tremendo. — Você acredita nisso? Ele me considera da família. Logo eu… que passei anos tentando ferrar com ele.
Ele se vira para mim, e as primeiras lágrimas caem.
— Nunca me senti tão ingrato e mesquinho na minha vida.
— Está tudo bem, garoto. — O abraço, tentando conter aquela dor que transbordou.
— Quando ela morreu, achei que estivesse sozinho no mundo. Achei que só tivesse a Luna. E o tempo todo… havia alguém ali que, mesmo sem eu perceber, prezava pela minha felicidade. — Sua voz sai abafada, apertada contra meu peito. — Agora que vejo isso… eu não posso perdê-lo, entende?
— Vamos fazer todo o possível para encontrar uma solução. — Me afasto, segurando-o pelos ombros. Ele já parece um pouco mais calmo. — Agora vá descansar. Assim que a última prova for anunciada, partiremos em busca da feiticeira.
— Entendido. — Ele começa a caminhar, mas para, virando-se para mim. — Você não vem? Achei que fosse ver a lista dos finalistas.
— Agora não. Tenho algo para resolver primeiro.
— Certo. Até logo então.
Eu o observo entrar na tenda reservada aos participantes. Em seguida, caminho rumo ao acampamento.
Nosso complexo é dividido em duas áreas: o prédio dos alojamentos e o setor de treinamento. Isolado delas, existe uma terceira seção, onde cultivamos uma horta e um pomar, de lá vem boa parte dos suprimentos usados em nossas refeições. Assim que entro, sou atingido pelo cheiro familiar das plantas. Paro ainda na entrada… e a vejo.
Ártemis está agachada, cheirando algumas folhas.
Desde o nascimento, sempre fomos apenas nós dois. Um apoiando o outro. Com o passar dos séculos, cada um seguiu seu caminho, mas nunca deixamos de nos preocupar se o outro estava bem. Talvez por isso eu entenda tão bem os sentimentos de Kaique.
Quando se é sozinho… e existe uma mera possibilidade — mesmo que remota — de perder alguém que se importa com você, é desesperador.
— Veio me ajudar a coletar as folhas? — desperto dos meus pensamentos com a voz firme da minha irmã. A deusa da caça caminha em minha direção com toda a firmeza e graça de uma leoa.
— O que foi?
— Nada. Só estou admirando a graciosidade da minha irmãzinha.
Ártemis é alta, a pele pálida está coberta por um vestido longo de um azul tão claro que quase se confunde com o branco. Uma faixa dourada, com pedras brilhantes, envolve sua cintura logo abaixo dos seios. O tecido, parecido com seda, desce solto até tocar o chão.
— Faz tempo que não a vejo vestida assim. Estou mais acostumado com as roupas de couro da caçadora.
Ela solta uma risada leve e gostosa.
— De fato, a praticidade do couro me agrada bem mais. Contudo… fazia tempo que não vestia meus trajes antigos. Resolvi usar hoje.
— O que está colhendo? — pergunto, observando as folhas em suas mãos.
— Ginseng. Ajuda no cansaço físico e mental. Vou adicionar um pouco de extrato de guaraná para dar energia.
— Ótima combinação.
— Por que você está aqui? — ela pergunta, arqueando uma sobrancelha. — Não me olhe assim. Sou sua irmã mais velha. Sei que não veio só para saber das ervas da emulsão.
— Só queria saber como você está. Sei que tudo isso já é suficientemente estressante… e você ainda carrega o bônus de se preocupar com a saúde de Tobias.
— Entendo… — ela pausa, os olhos voltados às folhas por um instante. Quando me encara de novo, vejo neles a determinação crua da deusa da caça. — Depois de todos os desterros do nosso nascimento, pedi a Zeus que me permitisse ser eternamente virgem, jamais tendo filhos. E não me arrependo disso. Mas… a vida me presenteou com o filho que jamais poderei ter. E não estou disposta a abrir mão disso sem lutar até a última grama de energia se esvair do meu corpo.
— Você quer saber se estou bem? Não, não estou. Me sinto cansada. Exausta. Preocupada ao extremo. Mas não vou deixar nada disso me desviar do meu objetivo.
— Não poderia esperar menos de você. — Digo, sorrindo com orgulho. E não minto. Ártemis sempre será uma das minhas maiores inspirações.
— E você, senhor do Sol… está tudo bem com você?
— Acabei de consolar meu pupilo aos prantos, após ele finalmente perceber que sempre teve um irmão mais velho cuidando dele.
— Oh, isso é algo importante. — Ela diz, e começa a caminhar para fora da horta. Eu a acompanho. — Eles crescem tão rápido, não é mesmo?
— Sim… sinto que nosso trabalho aqui está chegando ao fim.
— Achei que fosse só eu que sentisse isso.
Já faz quase duas décadas que estamos nessa jornada. Quando vivíamos no Olimpo, o tempo era irrelevante para nós — afinal, somos imortais. Mas… conviver com pessoas que têm o tempo contado faz com que cada minuto ganhe peso.
— Você está preparada para isso? Quero dizer… você sabe que precisamos voltar. E sabe o que precisa acontecer para que isso seja possível.
— Sei.
Ela precisa assumir o trono. E para que isso ocorra, todos nós teremos que sacrificar algo que amamos.
— Mas já lhe disse, meu irmão: enquanto tiver forças, farei o que for preciso para alcançar meus objetivos. E você sabe qual deles é o mais importante neste momento.
— Derrubar o rei. — Digo, e ela concorda com um aceno firme. — Por Hades… estamos prestes a dar um golpe de estado.
— Exatamente. Mas irei encontrar uma forma de fazer isso sem ter que sacrificar meu filho.
— Claro. Vá terminar sua emulsão. Eu… vou colocar ordem naqueles pirralhos.
— Você fala assim, mas todos sabemos o quanto você os ama. — diz, rindo enquanto segue em direção aos alojamentos.
Fico observando-a partir por um instante, antes de seguir meu próprio caminho.
A primeira cena do último ato dessa jornada está prestes a começar.
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