Herança de Cinzas
20 Enquanto Dormíamos
Notas iniciais
“No Reino dos Sonhos, verdade e mentira vestem a mesma pele. E às vezes... nos beijam com o rosto de quem amamos.”
***
— Luna!
Abro os olhos e a primeira coisa que vejo é o rosto da Hiyori, perigosamente próximo ao meu.
— Ainda bem que você acordou! Achei que teria que relatar a hora do seu óbito ao conselho... faz quase cinco minutos que tento te acordar.
— Desculpa... acho que apaguei. O que aconteceu? — Me sento na cama, tentando afastar a névoa do sono.
— Vão anunciar a última prova.
— Entendi. — Me levanto, passando a mão pelos cabelos emaranhados, ainda meio tonta.
— Posso? — Hiyori aponta com o queixo para meus cabelos.
— Acho que não temos tempo pra isso.
— Prometo ser super-rápida. — Ela faz aquele olhar pidão, e eu acabo cedendo.
— Ok. Mas se eu ouvir a voz de alguém do conselho, você para na hora.
— Combinado.
Me viro na cama, ficando de costas para ela. Rapidamente, Hiyori começa a separar mechas do meu cabelo e trançá-las. Antes que eu perceba, estou com duas tranças boxeadoras impecáveis.
— Pronto. Perfeita.
— Obrigada. — Agradeço, pegando minha mochila no chão e colocando-a nos ombros. — Você viu os outros por aí?
— Os outros...?
— Os outros semideuses.
Ela me encara com surpresa antes de balançar a cabeça, em puro deboche.
— Nunca imaginei viver para ver a briguenta Luna... tímida.
Antes que eu possa retrucar, ela continua:
— Ou talvez seja só orgulhosa demais pra admitir que está preocupada com os amigos com quem aparentemente está brigada.
— Que seja. Não me interessa.
— Ué..., mas foi você quem perguntou.
— Não importa. Eu... não quero mais saber.
Passo na frente dela saindo da tenda, seguindo em direção ao palco onde o conselho já começa a se posicionar.
— Desculpa, mas você assim é algo que eu nunca vi. Precisava aproveitar. — Hiyori me acompanha, rindo da própria audácia. — Enfim, Kaique saiu com Apolo logo depois da chegada de vocês, e da última vez que o vi estava conversando com o Alonsso.
— O filho de Ares?
— Isso. Pelo que entendi, ele estava tentando encontrar alguém. O filho do deus da guerra tem contatos que podem rastrear essa pessoa.
— Entendi. — Aguardo ela continuar, mas ela fica em silêncio… me encarando. — O que foi?
Paramos num ponto afastado, de onde consigo observar o conselho sem me misturar ao grupo de semideuses reunidos.
— Aconteceu alguma coisa durante a última prova? Depois que vocês atravessaram o rio?
— Por quê?
— Quando vocês saíram da tenda do conselho, você parecia irritada. O Kaique estava... chocado. E o Tobias? Nem saiu de lá ainda. A última vez que o vi, parecia prestes a vomitar.
— Muita coisa aconteceu. Mas nada com o que você deva se preocupar. — Faço um carinho no topo da cabeça dela, mas não consigo impedir a inquietação que me atravessa.
Tobias nunca demonstrou fraqueza. Jamais. Se ele está mal… Eu sou a causa. Só de pensar nisso, um calafrio me percorre a espinha.
— Boa noite, semideuses! — A voz de Ártemis ecoa pelo campo com firmeza. Mas seus ombros... seus olhos... gritam exaustão. — Aos nossos finalistas, parabéns. Espero que estejam descansados, pois esta será uma prova intensa.
Ela ergue o queixo, determinada.
— Nós prometemos ao campeão uma arma forjada por Hefesto, digna de um verdadeiro deus. Pois bem, a última prova de vocês é simples: só precisam ir buscá-la. Aquele que chegar primeiro será o portador da arma. Simples, não é mesmo?
Ela não espera resposta. Apenas continua:
— Há uma única regra: ninguém pode ficar para trás. O portal de retorno só será aberto quando todos os que entrarem estiverem juntos novamente no local. Dez de vocês chegaram até aqui. Se alguém desejar desistir, este é o momento. Porque, uma vez que a prova começar… Vocês terão que ir até o fim.
— Retornar de onde, exatamente? — Hemerson pergunta. Sua voz é leve, e me lembra o som do vento passando entre as árvores.
— O que vocês procuram está guardado em um mundo fora da nossa realidade. Devem ir ao encontro de Morpheu. Ele lhes dará o que desejam. — Responde Ártemis, observando a multidão em busca de qualquer sinal de hesitação. — Temos dez finalistas corajosos. Aproxime-se, cada um de vocês.
A multidão de semideuses se abre, formando um corredor. Em poucos segundos, estou parada diante do palco onde o conselho aguarda.
Logo à frente, uma mesa exibe dez frascos, cada um com um líquido de coloração estranha que brilha à luz das tochas.
— Como todos sabem, Morpheu, senhor dos sonhos, não habita este mundo. Há apenas uma forma de alcançá-lo: mergulhar em seu reino.
Ela aponta para os frascos.
— Nessa mesa estão as poções que os farão cair no mais profundo dos sonos. Mas não se enganem, sua consciência permanecerá desperta. As decisões serão reais. Esta prova não tem limite de tempo. Mas quanto mais tempo passarem no reino dos sonhos, mais difícil será distinguir o que é real… do que é ilusão.
— Quando ouvirem seus nomes, deem um passo à frente, peguem um frasco… e bebam.
Thoth ergue a voz, firme como um decreto:
— Sebastian, filho de Afrodite.
Observo o garoto caminhar com confiança até a mesa. Ele bebe o conteúdo em um único gole. Quase instantaneamente, seu corpo desaba, e galhos de trepadeira surgem da terra, envolvendo-o e o conduzindo suavemente para dentro do solo.
— Durante a prova, seus corpos estarão protegidos pela floresta. Nada poderá tocá-los. — Explica Ártemis, com solenidade.
— Helena, filha de Hades.
Minha meia-irmã.
Ela se aproxima com elegância. Alta, esbelta, carrega o tipo de presença que me lembra uma ninfa. Não temos absolutamente nada em comum.
Engole o líquido com uma careta contida e logo seu corpo é acolhido pela terra, como o anterior.
— Johny, filho de Ares.
O garoto parece ter minha idade. Há algo em sua presença que me traz calma. Uma sensação morna… como se eu tivesse voltado para casa.
Um a um, os nomes vão sendo chamados. Os corpos caem. A floresta os abraça. Até que…
— Tobias, filho de Poseidon.
Um arrepio me atravessa. Me repreendo mentalmente por ansiar vê-lo, mas não consigo evitar.
Meus olhos o procuram, e o encontram.
Na última vez em que o vi, havia dor em seu rosto. Agora...
A dor se foi, mas as olheiras fundas e o vinco entre as sobrancelhas ainda estão ali.
Ele caminha até o frasco, toma o conteúdo sem hesitar, sem sequer reagir ao gosto.
Antes de cair, lança um último olhar a Ártemis. E o que vejo no rosto dela me surpreende.
Tristeza.
Quase como uma despedida silenciosa.
— Luna, filha de Perséfone.
Os olhares recaem sobre mim.
Caminho com firmeza até o único frasco que resta.
Ao segurá-lo, um calafrio percorre minha espinha. Destampo. O cheiro faz o meu nariz arder.
Mas não hesito. Tomo tudo de uma só vez. Antes que tudo escureça, ouço a voz de Ártemis se erguer uma última vez:
— Que o sangue do Olimpo os mantenha firmes na batalha.
A escuridão me engole.
Abro os olhos, e minha cabeça está nublada.
Olho ao redor, mas não vejo nenhum dos outros semideuses.
Aos poucos, percebo o cenário: Estou na entrada do acampamento. Ou... em algo que se parece com ele. O sol está se pondo. A luz morre lentamente no horizonte. Não enxergo quase nada com clareza.
Começo a caminhar, tentando encontrar alguém — ou qualquer coisa — que possa me ajudar a entender por onde começar essa prova.
Passo pela entrada principal. Silêncio. Nenhuma alma viva. Entro no prédio dos dormitórios e começo a abrir as portas, uma a uma.
— Peter? Sebastian? — chamo na esperança de ouvir alguma resposta…, mas nada rompe o silencio ensurdecedor.
Estou olhando um dos quartos no segundo andar quando escuto um ruído estranho. Olho ao redor — vazio.
A pouca luz alaranjada do pôr do sol me impede de ver com clareza. Aparentemente, esse quarto pertence a alguma das crianças do acampamento. Os pôsteres de desenhos animados pregados na parede denunciam isso.
Volto ao corredor e o barulho ressurge — um som sutil, como o sibilo do vento passando por uma fenda estreita. Inclino a cabeça, tentando identificar a origem. Então ele volta…, mas, dessa vez, não está sozinho:
— Solte essa ponta e veja, a lâmina fria vai brilhar, então a história vai acabar.
A voz das Moiras me rasga por dentro. Um arrepio percorre minha espinha. Meus pés se movem sozinhos, guiados pelo instinto. Desço as escadas às pressas, acompanhando a melodia macabra.
— O tempo está acabando, Leptynis. Logo, logo… os fios serão cortados.
Esse nome. Leptynis. É a terceira vez que ouço.
Chego ao andar inferior e, novamente, não há ninguém. Apenas o sibilo.
Ele agora vem de uma porta entreaberta. O quarto de Kai. A mesma porta que tenho certeza de que fechei minutos atrás.
Me aproximo devagar. A janela está aberta, e o vento frio invade o espaço, cortando os corredores com murmúrios que mais parecem sussurros de outro mundo.
Entro no cômodo. E paro. Algo está errado. Tudo naquele quarto é familiar…, mas distorcido.
A cama king-size não está mais lá. A decoração mudou. O guarda-roupa foi substituído por uma cômoda pequena.
Como se fosse o mesmo lugar…, mas em outra realidade, em outra época.
A porta do banheiro se abre, e alguém sai de dentro. Imediatamente assumo postura defensiva.
— Quem é você? — exijo. Sem resposta.
A figura se aproxima lentamente. A luz fraca do crepúsculo não me permite vê-lo com nitidez.
— Se não responder por bem, juro que vai se arrepender. — Nada.
— Leptynis... — A voz das Moiras ecoa do lado de fora, uma última vez.
Olho para a porta por um milésimo de segundo. Quando volto os olhos para frente... A figura está a poucos centímetros de mim. Dou um passo para trás, mas uma mão firme me segura pela cintura.
— Está tudo bem, Luna. Sou eu.
Paro de resistir ao ouvir a voz. Tobias está à minha frente. Descalço, usando apenas uma calça jeans escura. O cabelo ainda molhado, a barba por fazer. Os músculos brilham onde a luz do pôr do sol os alcança.
Ele parece um anjo saído do céu ou talvez, de um julgamento divino. O brilho nos seus olhos me lembra o de um anjo vingador.
— O que está fazendo aqui? — pergunto, e me sobressalto quando sua mão toca meu rosto num carinho leve.
— Eu estava esperando você. — As mãos quentes espalham uma onda de tranquilidade pelo meu corpo. — Senti sua falta, Deusa. Por que demorou tanto?
— Eu estava tentando entender onde estamos… procurando os outros. Você já viu mais alguém?
Ele continua acariciando meu rosto. Me pego apoiando a cabeça em sua mão, como se fosse a única âncora segura no meio da tempestade. Então, ele coloca a outra mão na minha cintura — agora por dentro da minha blusa — e me puxa para mais perto.
— Não tem mais ninguém. Somos só nós dois.
— O quê? — Meus olhos se abrem num sobressalto. Nem percebi que os havia fechado.
Tento me afastar, mas ele me mantém colada ao seu corpo. O calor que emana dele se torna sufocante. Sinto gotas de suor começarem a se formar nas minhas têmporas.
— Me solta, Tobias.
— Por quê? Vamos aproveitar o tempo que nos resta.
Ele se move tão rápido que, quando percebo, sua boca já está na minha. Um beijo lento. Calmo.
A tranquilidade me envolve como uma névoa morna… e por um instante, cedo.
Sua língua encontra a minha, e é como se todos os sentimentos represados finalmente jorrassem.
Passo as mãos por seu pescoço. Uma delas desliza até o cabelo… E então meus dedos congelam.
Há algo errado. A textura não é a mesma. Não é o Tobias.
— Tobias, espera. — O empurro, encerrando o beijo e me afastando o máximo que consigo.
— Esse não é o melhor momento pra isso. Temos que encontrar os outros e terminar a prova.
— Que prova, Luna? — Sua pergunta me pega desprevenida.
— Como assim...? A prova... A prova do… — Tento lembrar que prova é essa, mas minha mente parece envolta em névoa.
— Tá tudo bem, Deusa. Você passou por muita coisa. Precisa descansar. Me deixa cuidar de você.
Tobias volta a me beijar, dessa vez com mais intensidade. Correspondo seu beijo, mas continuo tentando me lembrar de que prova eu estava falando, como eu cheguei até aqui? Porém todos os pensamentos somem quando suas mãos descem para minhas coxas e seguram com firmeza. Segundos depois ele me ergue do chão, no momento seguinte eu estou passando minhas pernas pela sua cintura.
Ele caminha comigo no seu colo nos encostando na parede ao lado da janela, nem mesmo o frio da parede conseguiu diminuir o calor de ter seu corpo colado ao meu e seus lábios me beijando, me sinto entrando em combustão.
Nossas bocas se separam por falta de folego e ele desce seus beijos para o meu pescoço, por onde sua boca passa é como se meu sangue estivesse entrando em ebulição. Minhas mãos passeiam pelo seu tronco, me deliciando com a textura dos seus músculos.
O vento entra pela janela, trazendo consigo aquele cheiro de terra molhada — o cheiro de Tobias.
— Somos só eu e você agora, Luna. — Sussurra em meu ouvido, e meu corpo inteiro responde ao som da sua voz.
— Sim… — meus pensamentos se embaralham ainda mais.
Ele volta a me beijar, agora com mais intensidade. Embora eu corresponda, ainda luto mentalmente para recordar como cheguei aqui. Qual era mesmo o objetivo?
Mas tudo se desfaz no calor do toque dele. Seu corpo próximo ao meu dissolve a lógica.
Aos poucos, parece que não existe mais nada além dele e de mim.
Me assusto quando ele me afasta da parede e me coloca suavemente sobre a cama com delicadeza, quase como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Seu corpo grande me cobre e volta a me beijar, suas mãos a percorrem meu corpo e ele para uma delas na minha coxa apertando com vontade, minha única reação é soltar um gemido contido, que é abafado pelo seu beijo.
— Fique comigo, Luna. — Ele pede ao mesmo tempo que movimenta seu quadril de encontro ao meu baixo ventre, meu corpo reage imediatamente a esse contato. Todas as minhas células clamam por mais contato, por mais dele. — Iremos atravessar tudo juntos. O mundo renascerá, e nós estaremos lá. — Escuto suas palavras, mas não consigo compreender nada, as palavras dele parecem se fundir com o vento.
Todo meu esforço para tentar entender o que ele está dizendo cai por terra quando ele volta a movimentar sua pelve. Consigo sentir seu membro rígido, me separo da sua boca para soltar um gemido sôfrego e a visão que tenho dele me faz ter certeza de que eu iria até o submundo se esse homem me pedisse. Seus cabelos assanhados, lhe dão um ar jovial e sexy, seus olhos escuros nublados de desejo, o mesmo desejo que preenche meu corpo.
— Eu te amo, Luna. Desde o primeiro instante em que te vi, eu te amei. Mesmo depois que eu morrer, cada partícula do universo saberá que cada célula minha ama você.
Seus olhos encontram os meus com intensidade, e por um segundo, me perco naquele olhar…
No carinho. No calor. No que eu queria tanto acreditar.
— Tobias, eu... — Meu coração se aperta de forma inexplicável. Tudo dentro de mim quer corresponder.
Ele me encara, com expectativa, aguardando minha resposta. Mas então algo chama minha atenção.
A pouca luz que invade o quarto, tocando o corpo dele e nesse instante, percebo.
— Onde ela está?
— Onde está o quê? — ele responde, confuso.
— A tatuagem. Ela deveria estar aqui.
Coloco a mão sobre o peito dele, onde o símbolo sempre esteve. E nesse momento, o calor do corpo dele desaparece por completo. Uma descarga elétrica percorre meu corpo e, como se acordasse de um feitiço, minha mente clareia.
Eu sei por que estou aqui.
Estou na prova do torneio.
— Quem é você?
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