Herança de Cinzas

21 O Peso de Acordar


“O mundo tentou nos curar com mentiras suaves.

Mas os pesadelos, disfarçados de amor, conheciam nossos nomes... e os usavam contra nós.”


LUNA

— Ah, Luna... nós poderíamos ter sido tão felizes juntos. Iríamos conquistar o mundo.

O olhar dele agora é vazio — uma imensidão negra. — Foi tão fácil envolver você.

Sua mão toca minha bochecha e é como ser tocada por um cubo de gelo.

— Pobre criança. Sempre ansiando por um pouco de amor. Sempre fazendo de tudo para ser aceita pelos outros.

— Cala a boca! — o empurro, mas é como se ele tivesse se tornado uma pedra de chumbo.

— Tão desesperada por afeto que não notou o circo armado ao seu redor. Todos aqueles que você achou que lhe amavam estavam apenas... te usando.

Cada palavra é uma agulha cravada no meu peito.

— O “pai” que você tanto admirava foi obrigado a viver longe da mulher que amava... por sua causa.

— Eu já mandei calar a boca! — acerto seu rosto. Ele cambaleia, e eu aproveito a brecha para me soltar. Tropeço nos próprios pés ao descer da cama, me equilibro e corro para fora do quarto.

— É por isso que eu gostei de você, garota. Esse espírito de guerreira. Mesmo tendo a chance de viver o resto da vida com o homem que ama... você decidiu continuar lutando.

Corro em direção às escadas e começo a subir. A voz dele já não soa como a de Tobias. Agora é como um sussurro vindo do fundo da minha mente, um convite sombrio e proibido.

— Traída pelo melhor amigo. Sabe… se eu fosse ele, também te odiaria.

As palavras me distraem. Tropeço num dos degraus.

— Aí está você!

Ele agarra minha perna e me puxa escada abaixo. Minha cabeça bate com força — tudo gira. Sou jogada no chão. Cada parte do meu corpo dói.

De repente, ele me agarra pelo pescoço e me ergue.

Ainda usa o rosto do Tobias…, mas eu sei. Eu sei que não é ele.

— Quem é você? — minha voz sai em um fiapo, sufocada pela mão dele.

— Por sua causa, Kaique foi separado da família. Você causou a briga entre ele e o irmão. E no fim de tudo... ainda foi rejeitado. Teria sido mais fácil se você simplesmente tivesse morrido, não é?

Minha visão embaça pelas lágrimas, mas me recuso a deixá-las cair. Reúno as últimas forças e o acerto com um chute no estômago.

Ele me solta. Eu desabo no chão. Meu corpo arde. Minha cabeça parece prestes a explodir.

— Só cale a boca. — Mal consigo sussurrar.

— Você sempre lutou tanto para viver... e isso sempre me fascinou. — Ele inclina o rosto. — É por isso que vou lhe fazer um favor. Vou mostrar como tudo isso termina.

Ele sopra.

O vento corta meu rosto e então... imagens me invadem:

O acampamento em chamas.

Todos os deuses mortos.

O Olimpo em ruínas.

E, no centro, eu.

Sentada no chão do salão sagrado, o sangue dos deuses espalhado ao redor.

Nos meus braços, o corpo de um homem, o homem que eu amo.

A dor que essa imagem provoca não tem nome.

Quando tudo se vai, o mundo à minha volta está distorcido. E as lágrimas... agora escorrem soltas.

— Está vendo? Não existe um futuro pra vocês. As Moiras já avisaram, ele vai morrer. Aceite a minha oferta, Luna.

Ele se aproxima. Os olhos... famintos.

— Fique comigo. Deixe que eu tire essa dor de você. Pode passar o resto da eternidade aqui, com ele.

As lágrimas caem silenciosamente, pesadas.

— Eu sei quem você é.

Minha voz mal chega aos meus próprios ouvidos.

— E por mais tentadora que seja sua oferta... eu sei que ele jamais deixaria de lutar por mim. Então eu também não vou deixar de lutar por ele.

Ele sorri. Os olhos negros… desapontados.

— Está na hora de eu acordar, Ícelo, filho de Nix. Deus dos pesadelos.

— Você não cansa de me surpreender. Hora de acordar, Luna, filha de Hades... Herdeira da escuridão.

Ele sorri, mostrando dentes afiados. Então sopra. E meus olhos pesam.

Minha mente afunda na inconsciência.

Acordo assustada. Me levanto de uma vez, mas cambaleio e acabo me apoiando no braço do móvel onde estava deitada.

É uma espécie de divã — feito de ouro, com entalhes trabalhados em alto-relevo. Reconheço um nome gravado: Perséfone. E abaixo dele, o número X.

Outros semideuses também estão aqui. Consigo ver Tobias a alguns metros — sua pele está pálida, o rosto coberto por suor. Estamos dispostos em meia-lua, como peças posicionadas diante de algo que ainda não entendi.

Olho ao redor. Não reconheço o local.

É um salão amplo no topo de uma montanha, aparentemente. O céu parece nublado — não há sinal do sol, nem da lua. As paredes são abertas, com colunas espalhadas por todos os lados. Trepadeiras floridas se enroscam nelas, perfumando o ar com um aroma levemente adocicado.

— Finalmente, temos a nossa campeã!

Me assusto com a voz e me viro para encarar quem falou.

— Não poderia esperar menos da filha de Hades.

O dono da voz sorri com uma animação contida. Ele se ergue do trono onde estava sentado e começa a caminhar em minha direção.

— Perséfone. — Corrijo.

— O quê? — Ele para confuso.

— Sou filha de Perséfone.

O sorriso retorna ao seu rosto e ele retoma a caminhada.

— É claro. Você é a finalista da décima casa do Olimpo, a casa da mais amada das filhas de Zeus, Perséfone. — Posso sentir o desdém contido em sua fala.

— Não me leve a mal, mas o título de filha de Hades soa muito melhor. A herdeira do submundo. Eu, como filho da escuridão, me entusiasmo muito mais com esse honorífico.

— Onde estou? — pergunto.

— Que deselegância da minha parte. Esqueci de me apresentar.

Ele para diante de mim, e agora consigo observá-lo melhor.

É alto, pálido, magro.

Os cabelos negros, lisos, descem até os ombros.

Veste uma túnica preta. Os pés estão descalços.

— Eu sou Morpheu, filho de Nix e deus dos sonhos.

Assim que termina de falar, um par de asas negras se abre às suas costas. Me assusto, e ele solta uma risada divertida.

— Então a prova acabou?

— Direta ao ponto. Gosto disso. Venha, menina. Deixe-me mostrar algo a você.

Ele estende a mão. Apesar do receio, eu a pego.

De repente, ele me puxa pela cintura. As asas se abrem e num piscar de olhos, estamos voando. O chão desaparece sob meus pés e, instintivamente, me agarro a ele.

Passamos por uma das aberturas do salão. Subimos. Ele plana no meio do céu. De onde estamos, consigo ver com mais clareza.

Estamos no centro de um imenso fosso vertical, e bem no centro dele se ergue uma montanha estreita. No pico dessa montanha… o salão onde estávamos.

— Bem-vinda ao Reino dos Sonhos.

Antes que eu possa responder, ele se inclina — e começamos a descer em alta velocidade.

A força do vento aumenta. Meus dedos estão brancos, agarrados com força aos ombros dele.

Quanto mais descemos, menos luz há. A escuridão começa a engolir tudo à nossa volta.

Mas então... Um ponto luminoso aparece na parede do fosso.

— O que é aquilo? — pergunto, apontando.

Ele reduz a velocidade e se aproxima. É uma entrada de caverna.

Ele pousa suavemente na entrada e me solta.

A única iluminação vem de uma tocha fixada à parede. No centro da caverna, há um divã.

Alguém dorme sobre ele.

Um perfume doce preenche o ar — o mesmo aroma das trepadeiras do salão acima. As paredes da caverna estão cobertas por essas plantas. Me pergunto que espécie seria.

— Dormideiras. — Morpheu responde à pergunta que nem cheguei a formular. — São elas que permitem a entrada no sono profundo. E foi delas que se fez a poção que os trouxe até aqui.

— Por que ela está aqui? — pergunto, olhando a mulher que dorme.

— Esta é, de longe, a prova mais difícil que vocês já enfrentaram, Luna. — Ele observa a figura adormecida com um olhar que quase poderia ser… pena?

— A vida pode ser cruel para vocês, humanos. Até mesmo para semideuses. Viver todos os dias enfrentando adversidades. Carregando dores que não passam — a fome, a miséria, as guerras, as doenças. Tudo isso leva vocês a buscar uma única coisa: fuga.

Ele pausa. Me encara.

— Imagine como seria bom adormecer… e acordar num mundo onde tudo está perfeito. Do jeito que você sempre quis.

— Então ela está aqui porque quer?

— Jane chegou há bastante tempo. Lutava há anos contra um câncer de pele. Cirurgias e mais cirurgias… dores físicas, angústias mentais. Ela estava cansada. Um dia, simplesmente adormeceu e me chamou. Eu lhe ofereci uma saída: a utopia de ser feliz, ter uma família, saúde, um bom emprego, uma carreira bem-sucedida. Não importa qual fosse o sonho... eu poderia realizá-lo aqui. Não foi difícil para ela escolher.

— Você fala como se estivesse salvando-a. Mas isso parece mais uma prisão mental.

— Prisão? — Ele ri, um som abafado e gélido.

— Me diga algo mais aprisionador do que a esperança, Luna. Viver uma vida inteira acreditando que as coisas vão melhorar…, mas deixa eu te contar um segredo, garota: elas não vão. Todas essas pessoas chegaram aqui em busca de salvação, e eu as dei exatamente isso.

Ele se vira. Só então percebo quantas outras cavernas existem ao nosso redor. Muitas mais do que posso contar.

— Por que aquela tocha se apagou? — aponto para uma caverna escura.

— Os mortos não sonham.

Por mais que suas mentes estejam aqui, os corpos ainda pertencem ao mundo mortal. Quando as Moiras cortam os fios… eles partem.

— Viver para sempre dentro do seu maior desejo. Parece bom demais para ser verdade, não acha?

— Tudo tem um preço, Megala Thea. — Ele faz um leve carinho nos cabelos de Jane. O gesto quase denuncia compaixão. — Desistir da vida real por um sonho… muitos chamam de covardia. Mas eu te digo: requer uma coragem imensa. É um caminho sem volta. Depois que aceitam permanecer, seus sonhos passam a me pertencer. E se, em algum momento, desistirem da minha oferta… passam a pertencer ao Ícelo.

— A vida inteira sonhando com o que se mais deseja… ou a eternidade de pesadelos. Que doce veneno.

— E mais comum do que imagina. Não é à toa que todos os outros semideuses ainda não acordaram. Inclusive, um deles está muito perto de se tornar meu. — Morpheu ergueu os dedos, contando como quem marca pontos em um jogo. — E a única coisa que ele deseja… é você.

Foi como se o chão sumisse sob meus pés. Como se, pela primeira vez, eu estivesse caindo, não fisicamente, mas em mim mesma.

O nome não foi dito, mas não precisava ser. Ele estava lá, em algum lugar, lutando contra a própria vontade. E o inimigo era eu.

Eu, que sempre temi não ser amada, agora era a âncora que poderia arrastar alguém para uma prisão eterna. Eu, que queria lutar por ele, podia ser justamente o que faria ele desistir.

Morpheu começa a caminhar para a entrada da caverna. A luz da tocha projeta sombras duras em seu rosto, como se ele fosse esculpido em mármore.

— Imagine que inferno seria… viver eternamente a um passo de alcançar o que mais se ama, mas jamais poder tocá-lo.

— Do que está falando? — Sinto um peso no estômago. A náusea sobe sem aviso.

— Vocês humanos veneram o amor como o sentimento mais nobre, mas esquecem que ele também pode ser uma prisão perversa.

Ele me encara. Há um lampejo de emoção em seu olhar, mas desaparece tão rápido quanto veio.

— Esse tempo todo, você se ressentiu pelas supostas traições daqueles que ama. Mas já pensou no que eles enfrentaram para protegê-la durante todos esses anos? Talvez… eles também tenham sido vítimas.

— Acho que isso não lhe diz respeito.

— De fato. Mas ainda assim, passei os últimos anos vendo você ser o único sonho daquele garoto. Mesmo em meio aos pesadelos, Tobias nunca desistiu de proteger você. E agora… vê-lo tão perto de aceitar a minha oferta me faz pensar no quanto esse amor o feriu. A ponto de fazê-lo querer parar de lutar.

As palavras me atingem como estilhaços.

Sinto o gosto amargo da bile.

Minha garganta fecha. Minhas mãos tremem. O suor é frio.

O quanto minha dor me cegou para a dor daqueles que amo?

— Mas nada disso me diz respeito. — Ele vira o rosto, a voz mais distante. — Que vocês humanos façam suas escolhas… e arquem com as consequências. Essa é a única lei verdadeira. Vamos. Parece que mais alguém acordou.

Ele estende a mão. Demoro um instante, mas aceito.

Voávamos de volta ao salão, mas minha mente ainda se arrastava atrás das palavras de Morpheu, cambaleando entre culpa e urgência. O vento batia forte, cortava minha pele como se quisesse arrancar cada memória indecisa.

Entre a névoa que envolvia as paredes do fosso, eu as vi.

Três figuras encapuzadas, imóveis sobre uma saliência esculpida na pedra. Não falavam, não gesticulavam. Estavam ali. Apenas… ali.

As Moiras.

Mesmo à distância, mesmo sem rostos visíveis, eu soube. Seus corpos estavam envoltos em sombras, mas algo entre os dedos tremulava: linhas. Fios tensionados como cordas prestes a serem rompidas.

Olhei por reflexo para o salão lá em cima. Para Tobias. Para mim.

E soube, sem que ninguém dissesse: Elas já começaram a cortar os fios.

Morpheu pousa comigo no salão.

Vejo os divãs. E em um deles… Sebastian.

Reconheço seus cachos negros, o olhar perdido nos próprios pés. Imagino o quão apavorante deve ter sido o seu sonho.

— Sebastian? — chamo. Nenhuma reação.

— Sebastian! — Me aproximo, toco seu ombro. — Sou eu. Luna.

Ele me olha. Os olhos cor de mel estão úmidos. Ele parece ter voltado de um lugar do qual ninguém deveria voltar.

— Você está bem?

— Acho que sim… vou ficar. — Ele passa a mão pelos cabelos, afastando os fios do rosto. — Onde estamos?

— No Reino dos Sonhos.

Notas finais
Até o próximo <3 XOXO