Herança de Cinzas

2 Primeiras Impressões


Notas iniciais
Eu já havia postado essa história a algum tempo atrás, mas acabei abandonando e recentemente decidi retomar e termina-la.
“Toda chegada carrega em si um mistério: o primeiro olhar, o primeiro silêncio e a promessa de que nada será igual depois.”

Já estamos há uns quarenta minutos no carro. O acampamento fica numa área afastada da cidade. A voz do Bruno Mars cantando Uptown Funk preenche o silêncio.

— Um chocolate pelos seus pensamentos — a voz do Kai se eleva acima da música.

— Vai precisar melhorar suas formas de suborno, Sr. Albuquerque.

— Não seja tão má, pequena. — E lá está aquele apelido idiota que ele me deu anos atrás, quando eu parei de crescer e ele continuou feito uma árvore. — E não mude de assunto. Você passou a viagem quase toda calada; algum problema?

— Não é nada.

— Animada para o primeiro dia de trabalho? — ele pergunta.

— Na verdade, não. — Dou de ombros. — Sabe quando você espera a vida toda por algo e, quando finalmente acontece, não sente nada?

Kai me lança um olhar intrigado e volta à estrada.

— Talvez a ficha ainda não tenha caído.

— É, talvez. — Viro o rosto para a janela, sem querer me aprofundar.

A paisagem da floresta começa a mudar; prédios surgem aos poucos.

— Essa é a segunda vez que você vem aqui, né?

— Sim. Mesmo com autorização para sair do acampamento após os 15, o Thoth nunca aceita vir comigo.

— Às vezes ele parece mais carcereiro do que tutor. — O comentário me arranca uma risada; não é qualquer um que teria coragem de falar assim do líder do acampamento.

Desde que chego ao acampamento, sou educada pelo querido Thoth. No início, ele não gosta muito — parece obrigado a cuidar de mim. Com o tempo (e um certo jeitinho), conquisto sua confiança. Hoje, a relação é fraterna.

Entramos no centro urbano de Ottawa; o trânsito é um caos. Meu Deus, como cabe tanta gente em uma cidade só?

— Idiota! — Kai xinga o motorista que fecha no cruzamento, e eu rio.

— Tem certeza do curso? — ele pergunta, de relance.

— Absoluta. — O suspiro resignado dele diz que ele não entende a minha escolha, mas vai respeitar — afinal, é a minha.

Nunca falo disso abertamente, mas sempre fui apaixonada por tudo que envolva programação.

Entramos numa avenida larga e movimentada. A fachada do prédio principal da universidade aparece. Ele estaciona perto da entrada e desliga o carro.

— Vamos? — pergunta, pegando as coisas no banco de trás.

— Sim.

Como um perfeito cavalheiro, ele sai do carro, dá a volta e abre a porta para mim.

— Senhorita — ele brinca, fazendo uma pequena reverência.

— Cavalheiro.

Rimos e caminhamos juntos até a entrada.

— Se importa de ir sozinha?

— Não. Por quê?

— Já estou um pouco atrasado e preciso terminar umas coisas antes do seminário.

— Tudo bem. Te espero na cafeteria — digo, observando o fluxo do campus.

— Certo. Sabe onde fica o bloco C?

— Claro… que não.

Ele ri e me explica o caminho.

— Não tem erro; vai dar tudo certo. — Quase não dá tempo de responder: ele encosta um beijo na minha testa e sai.

Fico um instante observando a segunda pessoa mais importante da minha vida se afastar. Saio do transe e começo a procurar o caminho. Ando pelos corredores tentando me localizar. Depois de uns dez minutos perdida, aceito o óbvio e abordo uma garota que vem na minha direção:

— Com licença, você sabe me dizer como chego ao bloco C?

— Claro: atravessa o pátio no final do corredor. O bloco C é o coração do campus, ao lado do administrativo.

— Obrigada. São tantos corredores que já estou tonta de rodar.

Ela ri, espontânea e estridente.

— É normal pra quem é novo. São mais de dez blocos interligados.

— Valeu de novo.

Sigo a orientação e chego ao bloco de Ciências da Computação. A entrada está tomada por alunos tentando ver o ensalamento. Um quadro de avisos exibe várias folhas presas por tachinhas. Enquanto tento me aproximar, esbarro em alguém; murmuro desculpa e sigo.

Paro diante da lista do meu curso:

Luna Hagne — Auditório

Hoje é só orientação inicial. Amanhã, as aulas começam de verdade.

— Ei, garota! Vai ficar paquerando o quadro por muito tempo? — O grupinho ao redor do idiota ri.

— Babaca — resmungo, viro e entro no auditório.

— Do que você me chamou? — o brutamontes vem na minha direção.

— Além de babaca, é surdo?

Os “amigos” dele começam a tossir, escondendo o riso.

— Qual é a tua, garota? Sabe com quem está falando?

— Com um monte de anabolizante ambulante?

— Ah, então é desejo por esse corpinho gostoso aqui? — ele sorri, achando que é sexy.

— Não se iluda, já vi melhores!

A pequena multidão ri. O brutamontes — ainda sem nome — fica vermelho, com cara de quem quer me matar, e vem para cima. Antes que ele se aproxime o suficiente, meu corpo já está pronto: pés firmes, mãos abertas, coluna alinhada.

Ele hesita — talvez não esteja acostumado a alguém que não recua. Antes que faça qualquer coisa, uma mão firme pousa no ombro dele: gesto calculado, sem força excessiva, só autoridade.

— Arranjando confusão no primeiro dia, Lancaster?

A voz é calma, quase casual, mas com uma intensidade que faz o garoto travar. Ele se vira ainda com raiva, mas algo muda. Eu também reconheço a figura ao lado — o cara em quem eu esbarro no corredor.

Ele é alto (pelo menos 1,90). Cabelo preto liso caindo na testa e olhos verdes intensos como esmeraldas — brilho frio, calculista. Não parece nervoso nem agressivo; parece no controle.

Lancaster grunhe, dá um passo atrás. O moreno não precisa ameaçar. Ele domina a cena sem esforço. Eu também teria dado conta, penso — mas algo nele me intriga.

O silêncio estica por um segundo. Lancaster dá as costas e sai pisando forte.

O desconhecido observa sem interesse. Nossos olhares se encontram: Rápido. Silencioso.

Intenso demais para ignorar.

Sustento o olhar — desafio mudo. Ele desvia primeiro e vai embora.

— Nooossa! É isso que eu chamo de duelo sem palavras! — a voz surge do meu lado. A garota é um pouco mais alta que eu, cabelo loiro cacheado, olhos castanhos, nariz afilado, boca grande, corpo mais para magro.

— Desculpa, mas quem é você? — pergunto.

— Falta de educação a minha! Júlia. Prazer! — estende a mão, empolgada.

— Luna — aperto a mão.

— Nome legal. Primeiro dia?

— Tá tão na cara assim?

— Só alguém no primeiro dia teria coragem de enfrentar o Leo — ela diz, com repulsa contida.

— Quem é ele?

— Filho do reitor. Acha que pode tudo.

— Idiota. E o outro?

— Hum… interessada?

Abro a boca para negar; ela me corta, rindo:

— Brincadeira. É o Tobias Telles. O “gostosão” da Universidade de Ottawa. Metade suspira, nenhuma passa de uma noite. Ele e o Leo nunca se deram bem.

— Que curso você faz? — ela muda de assunto do nada. Ela fala muito.

— Análise e Desenvolvimento de Software.

Júlia dá uma risada.

— Então se apressa: o senhor Anthony odeia atrasos.

— Valeu, Júlia. A gente se vê por aí.

— Se quiser, te mostro o campus depois das aulas.

— Adoraria.

Combinamos de nos encontrar no restaurante da universidade; ela segue e eu vou para o auditório. O senhor Anthony dá as boas-vindas e apresenta o curso; também será nosso professor de Introdução à Computação no primeiro semestre, além de coordenador.

Depois, passo na secretaria para finalizar papelada. Ainda falta mais de uma hora para encontrar a Júlia. Me acomodo em num banco perto da secretaria, depois decido ir à praça de alimentação.

Como a pessoa extremamente atenta que eu sou — só que não —, me perco cinco vezes antes de chegar. Peço algo e mando mensagem para o Kai.

Luna

Minha aula já terminou, o professor parece ser bem legal e acho que fiz uma amiga.

Kai

Que maravilha, pequena! Onde você tá?

Luna

Na praça de alimentação do campus.

Kai

OK, minha última aula foi cancelada. Tô indo te encontrar aí pra gente ir para o café.

Estou escrevendo a resposta quando escuto alguém me chamar:

— LUNA!! — Júlia vem correndo na minha direção, acenando e gritando meu nome.

Notas finais
E é isso, irei ficar postando todas as sextas feiras, então até o próximo! XOXO