Herança de Cinzas
3 Além dos Muros
Notas iniciais
Espero ela chegar mais perto para responder.
— Oi, Júlia.
— Então, pronta para o tour?
— Então… sobre o nosso tour…
— Algum problema? — ela pergunta, o entusiasmo diminuindo um pouco.
— É que eu venho de carona com o meu amigo e a aula dele vai acabar antes do esperado. Ele está vindo me buscar pra irmos embora.
— Tudo bem, a gente deixa o tour pra amanhã! Suas aulas começam amanhã, não é?
É incrível como ela consegue ser uma companhia extremamente agradável mesmo eu conhecendo por tão pouco tempo.
— Sim, sim. Às 8 horas.
— Ótimo! Então te encontro aqui às 7h30?
— Claro. Aliás, que curso você faz?
Os olhos dela brilham ao responder:
— Medicina.
— Sério? Meu amigo também. Talvez você o conheça.
— Qual o nome dele?
Antes que eu responda, uma voz surge atrás da Júlia:
— Júlia?
Ela se vira rapidamente, encara o Tobias por um instante.
— Pelo visto, já conheceu a minha pequena — Kaique finalmente quebra o silêncio.
— A Luna é a sua pequena? — Júlia pergunta; eu poderia jurar que ela está um tanto surpresa… na verdade, até parece decepcionada.
— Sim. Então, vamos?
Pelo que conheço do Kaique, ele está nervoso e visivelmente incomodado com a aproximação entre mim e a parceira de faculdade dele.
— Claro, até amanhã então, Júlia.
— Até, Luna.
Ela acena rapidamente para o Kaique antes de se virar e sair com passos acelerados.
Kaique dá um pequeno aceno de despedida e nós começamos a caminhar para o estacionamento. Ele destrava o carro e abre a porta pra mim.
Assim que liga o motor, nos distanciamos da universidade. Eu ligo o som e a voz do One Republic cantando Counting Stars preenche o carro. Odeio silêncio.
Kai está calado, aparentemente prestando atenção no trânsito, mas eu sei que é só fachada.
— Certo, agora pode me explicar que cena foi aquela no restaurante?
Ele desvia os olhos da rua por um instante antes de responder com a maior cara de pau:
— Que cena?
Cínico filho da mãe. Se fazendo de desentendido.
— Talvez aquela entre você e a Júlia no restaurante da universidade?
Ele me olha relutante, mas depois se dá por vencido:
— Não teve cena nenhuma, só fiquei surpreso de ver você com ela.
— Vocês são da mesma turma?
— Somos, por quê?
— Por nada, é só que você nunca comentou nada sobre ela.
Faço uma pausa antes de perguntar:
— Por que demora tanto pra chegar, então?
Ele suspira, claramente relutante em responder:
— Tive que resolver umas coisas antes de te encontrar.
— Que coisas?
Meu tom sai levemente divertido. Isso está ficando cada vez mais interessante.
— Do curso. Nada importante.
— E a Júlia não teve que resolver também?
Vejo o rosto dele ficando vermelho.
— Eu não sei, Luna! Talvez ela tenha resolvido antes das aulas. Por que você está tão interessada nisso?
A impaciência começa a transparecer na voz dele.
— Por nada.
Levanto as mãos em rendição, mas meu sorriso entrega minha satisfação por tê‑lo tirado do sério.
Não levamos nem dez minutos pra chegar ao Café dos Deuses. Dessa vez, não espero o Kaique abrir a porta pra mim: assim que ele desliga o carro, eu pulo pra fora.
Kaique acelera o passo pra me acompanhar, segurando meu pulso assim que consegue.
— Desculpa, pequena, não quis ser rude. Estou me sentindo sobrecarregado; o semestre mal começa e eu já estou atolado de coisas pra fazer. Ainda tem o estágio e o acampamento. São muitas coisas ao mesmo tempo, e isso tem me deixado no limite.
Paro na porta de entrada e respiro fundo antes de responder:
— Você sabe que pode falar comigo, né? É pra isso que serve a família.
— Eu sei, desculpe. Você estava tão animada com as mudanças… não queria simplesmente jogar tudo isso em cima de você.
— Eu não me importo. Você esteve ao meu lado nos meus piores momentos. Eu também quero estar aqui pra você.
Ele não responde, apenas acena e me puxa pra um abraço rápido.
— Vamos entrar; seu padrinho já deve estar esperando.
Assim que entramos, o cheiro de café recém‑preparado me atinge — quente e reconfortante. Há uma mistura envolvente de grãos torrados, baunilha e um leve toque de chocolate, típica do lugar.
Nós nos dirigimos ao balcão, onde a Maia entrega um pedido.
Maia é uma semideusa que trabalha na cafeteria há um bom tempo. Filha de Hermes, a pele morena e os cabelos pretos cacheados a tornam quase uma cópia da mãe — fato do qual ela se orgulha bastante. Muita gente prefere esquecer suas próprias ligações com o Olimpo.
Ela sorri ao nos ver, a alegria genuína fazendo o castanho dos olhos parecer âmbar líquido.
— Olha só a dupla implacável! Que bom que chegaram, o senhor Dionísio está esperando por você, Luna.
— Certo, obrigado, Maia.
Kaique responde por nós. Eu só sorrio pra ela antes de seguirmos pelo corredor.
Kaique bate duas vezes na porta do escritório e entra depois de um barulho que a gente aceita como autorização.
Dionísio está sentado atrás da mesa, os olhos vermelhos brilhando sob a luz do ambiente. O cabelo comprido da cor de vinho cai sobre os ombros, e o sorriso traquina que ele sempre carrega está ali, como de costume.
— Olá, meninos. Que bom que chegaram.
Ele faz um gesto para que eu me sente.
— Olha só a minha afilhada favorita.
— Eu sou sua única afilhada, dindo.
— Pequenos detalhes — ele ri. — Então, ansiosa para começar?
Apesar da autoridade que carrega, sempre que está comigo ele é assim: descontraído, divertido e relaxado.
— Um pouco. Queria falar com a gente?
— Sim, claro. Era só pra saber como foi na universidade e dar as instruções básicas pra você começar.
Eu faço um pequeno resumo do meu dia, menciono a papelada e o início das aulas no dia seguinte. Dindo sorri, satisfeito.
— Que maravilha. Bom, então vamos lá. Kaique, você não está atrasado?
Ele olha pro relógio e solta um palavrão baixinho. Além da cafeteria, o acampamento conta com lojas de outros setores. Kai trabalha numa clínica de saúde, e a maioria dos pacientes não é mundana.
— Droga, tenho que ir. Passo pra te pegar quando seu turno acabar, pequena.
— Tudo bem.
Kaique sai do escritório, e eu fico encarando a porta por um momento antes de voltar minha atenção pro Dindo.
O dia está só começando.
Dindo se levanta e faz um gesto para que eu o acompanhe.
— Vamos lá, então.
A voz dele carrega aquela energia descontraída de sempre.
— Como a Clarinha não está mais com a gente e a Maia vai ter que sair hoje à tarde, você fica no segundo horário. Amanhã já assume o terceiro turno.
Nós caminhamos de volta para a cafeteria; o cheiro de café fresco e pão assado preenche o ambiente à medida que nos aproximamos.
— Maia?
Dindo a chama, e ela imediatamente se aproxima.
— Pode ir. Vou explicar tudo pra Luna.
— Tudo bem. Até amanhã! Bom trabalho, Luna!
Ela me entrega um pequeno avental antes de sair. Eu tiro meu sobretudo e guardo junto com a bolsa no pequeno vestiário dos funcionários. Assim que visto o avental, volto para o café.
O movimento está intenso. O horário do almoço sempre faz o lugar parecer um formigueiro de clientes em busca de café e refeições rápidas.
Dindo me observa por um momento e pergunta:
— Pronta?
Eu só assinto.
— Certo. Você só precisa registrar os pedidos, receber o pagamento e entregar o recibo. Se houver muito movimento, o Alex assume o caixa e você pode ajudar a preparar e entregar os pedidos.
Ele me guia pelas máquinas e pela caixa registradora, explicando como funciona cada uma. Até que não é tão difícil.
Depois de trocar alguns pedidos, derramar café e queimar as mãos algumas vezes, meu expediente finalmente termina.
Suspiro e me sento no vestiário, massageando os dedos doloridos. Estou perdida nos meus pensamentos quando uma voz fala ao meu lado, me assustando.
— Até que você não foi tão mal. No meu primeiro dia, entupi a máquina de café e foi um verdadeiro caos.
Eu levanto os olhos e sorrio.
— Fico feliz em saber que não fui a única a ir mal.
Kelvia ri suavemente.
— Como você está?
Ela retira as coisas do armário e ajusta a bolsa no ombro.
— Um pouco cansada. O dia foi cheio.
— Imagino. Vou indo nessa. Até amanhã.
— Até.
Kelvia sempre é prestativa, mesmo sem sermos próximas. Ela aluga um apartamento na cidade há uns dois anos pra sair do acampamento, mas continua trabalhando na cafeteria, mantendo a própria independência.
Pego minhas coisas e saio do vestiário.
Enquanto passo pelo café, dou um breve aceno para as meninas que assumem o turno seguinte. A cafeteria tem um esquema bem estruturado: funciona 24 horas de sexta a domingo e até meia‑noite durante a semana, com trocas a cada seis horas pra todo mundo conseguir estudar, trabalhar, treinar e descansar.
Assim que saio, o Kai já está me esperando encostado no carro, sempre pontual. Ele me observa atentamente antes de soltar uma risada.
— Pela sua cara, vejo que o primeiro dia foi ótimo.
— Maravilhoso.
Meu tom sarcástico o faz rir ainda mais.
— O que aconteceu com a sua mão?
O olhar dele cai sobre a minha mão enfaixada.
— Me queimei com café quente. Kel passou pomada e enfaixou pra não piorar.
A testa franzida deixa clara a preocupação dele enquanto abre a porta do carro pra mim.
— Tenha mais cuidado, pequena. Quando a gente chegar em casa, eu dou uma olhada nisso.
Ele dá a volta, entra e dá partida no carro. Pegamos a estrada de volta para o acampamento; a escuridão começa a se instalar no horizonte.
— Então, vai ficar nesse horário mesmo?
— Não, foi só hoje porque a Maia precisou sair. A partir de amanhã eu assumo o turno da noite.
O aperto dos dedos dele no volante deixa claro o quanto isso o incomoda.
— Não gosto desse horário. É perigoso pra você voltar sozinha. Como vai fazer?
Eu suspiro, ansiosa por ainda não ter uma resposta.
— Eu sei me defender, grandão. Sobre a volta pra casa, ainda não pensei, mas vou conversar com o Thoth quando a gente chegar.
Ele fica em silêncio por um momento antes de responder, com a voz mais branda:
— Bom, posso te deixar e te buscar até você encontrar outra forma.
Eu olho pra ele, analisando a expressão.
— Tem certeza de que não vai te atrapalhar?
— Você nunca vai me atrapalhar, pequena.
Eu sorrio.
— Bom, sendo assim, não vou fingir modéstia. Eu aceito.
Faço uma pausa antes de mudar de assunto:
— Como foi no posto hoje?
Ele relaxa no banco, claramente falando de algo que gosta.
— Foi até calmo. Não tivemos nenhum caso grave.
— Que bom. E os seus treinos?
Ele solta um suspiro exausto — a resposta óbvia.
— Cansativos. Apolo não me dá descanso.
Eu rio, porque eu sei o quanto o tutor dele pode ser um cretino nos treinos.
— Ele sempre foi carrasco com você.
Kaique revira os olhos.
— Vai treinar à noite também hoje?
— Vou, mas amanhã volto ao meu horário normal. Prefiro treinar à tarde.
O carro segue pela estrada, o barulho do rádio embalando o percurso.
Eu aproveito o momento pra tentar relaxar. Minha mão ainda dói um pouco; o dia foi puxado, mas incrivelmente satisfatório. Eu sinto que, de alguma forma, sobrevivo ao meu primeiro dia na minha nova vida.
Sem perceber, acabo pegando no sono. Acordo com uma voz conhecida me chamando:
— Ei, pequena, chegamos.
A voz do Kai soa suave, e ele me cutuca de leve. Eu abro os olhos aos poucos, piscando pra afastar o sono.
— Já?
Ele solta uma risada gostosa.
— Já sim. Vem, vamos entrar.
Eu pego minhas coisas e descemos do carro, caminhando para o alojamento.
Kai me deixa na porta do meu quarto antes de seguir para o dele, que fica no começo do corredor.
O acampamento é formado por vários prédios; um deles é o alojamento — uma espécie de pensão para semideuses.
Cada andar tem uma função específica: no térreo ficam o refeitório, a enfermaria e a sala de arquivos; no primeiro, os quartos dos tutores; do segundo ao quarto, ficam os semideuses; no quinto, os quartos destinados a visitantes.
O meu quarto e o do Kai ficam no primeiro andar. Eu nunca entendo muito bem o motivo, mas o Thoth diz que, quando a gente chegou, só esses quartos estavam prontos. Fomos alguns dos primeiros a morar aqui.
Tomo um banho rápido e visto minha roupa de treino — um short com aquecedor, sutiã de academia confortável, regata folgada e chinelo. Mesmo com todas as repreensões do Thoth, eu sempre opto por treinar descalça, só com o protetor de peito de pé; é mais prático.
Faço um rabo de cavalo e saio do quarto, descendo para o refeitório. Não como nada à tarde e treinar com fome não é uma opção.
O refeitório está tranquilo; poucas pessoas circulam por ali. A maioria já subiu para os quartos. Eu pego uma maçã e sigo para a área de treinamento, que fica em um prédio um pouco afastado do alojamento.
No caminho, lembro que não passo no quarto do Kai pra ele refazer meu curativo. Na volta, eu passo. Não está tão feio; só um pouco vermelho e com algumas bolhas.
Entro na sala de treinamento, dando mais uma mordida na maçã. Metade já foi.
Assim que atravesso a porta, dou de cara com o Thoth. A expressão dele não é das melhores.
Lá vem bronca…
— Está atrasada.
Eu olho no relógio. Apenas meia hora de atraso — um recorde.
— Boa noite também, pai.
A carranca aprofunda, mas ele não rebate.
A verdade é que o Thoth sempre foi uma figura paterna pra mim. Nunca tive notícia dos meus pais biológicos, então ele acaba assumindo esse papel na minha criação. Na primeira vez que o chamo de pai, ele fica furioso e me coloca de castigo. Mas isso não me abala e eu continuo chamando, ignorando a irritação dele toda vez que faço. Com o tempo, ele aceita. E agora, vez ou outra, até me chama de filha.
— O que é isso na sua mão?
O tom dele soa mais preocupado do que irritado. Eu levanto a mão, e ele balança a cabeça.
— Me queimei na cafeteria.
— Vem, vamos cuidar disso.
Nós vamos até o armário no canto da sala, e ele pega um kit de primeiros socorros.
— Está doendo muito?
— Só ardendo um pouco.
Ele limpa a queimadura e pega uma pomada de cheiro estranho, espalhando sobre a pele.
O efeito é imediato.
— Que porra! Isso está queimando!
Eu tento puxar a mão — a ardência é absurda —, mas ele segura firme e me impede.
— Calma, filha, já vai passar.
É ridículo o quanto eu amo ouvir ele me chamar de filha. Por mais que o Thoth tente manter a fachada durona, eu sei que, no fundo, ele se importa comigo tanto quanto eu com ele.
— Pronto, está melhor?
Eu olho para a minha mão.
— Por incrível que pareça, sim. Parece nova em folha.
Ele sorri, satisfeito.
— Ótimo. Vamos lá, temos um treino pra executar.
O treino segue o plano padrão: corrida básica na parte aberta para aquecer; depois vamos para a parte fechada, onde treinamos táticas de defesa, combate corpo a corpo e arremesso de adagas.
Eu nunca manifesto nenhum dom herdado, como os outros semideuses. No começo, penso que só estou demorando um pouco mais do que o padrão, mas, com o tempo, simplesmente não acontece nada. Nenhum traço da minha ancestralidade divina.
Se não fossem os exames laboratoriais confirmando que eu sou semideusa, eu poderia passar por mundana.
Por conta disso, meus treinos são ainda mais pesados para compensar a falta de aptidão natural. Contudo, hoje o Thoth pega leve.
Quando terminamos, já é quase meia‑noite. Exausta, eu me deito no chão do salão, descanso a cabeça na perna do Thoth. Ele começa a fazer cafuné no meu cabelo, em silêncio, e por um instante tudo parece em paz.
Thoth mantém aquele olhar observador.
— Como foi seu dia?
— Bom. Eu resolvo tudo na universidade e minhas aulas começam oficialmente amanhã. — Eu suspiro, lembrando das horas de burocracia e papéis. — A cafeteria está tranquila também, mas amanhã começo a ir à noite.
Thoth assente.
— Certo, é até melhor pra você. Como vai ficar indo e voltando?
— Ainda não sei. Quero ver isso com você.
Eu olho pro teto alto por um instante antes de continuar:
— O Kai disse que, até eu arranjar um jeito, ele pode me levar e me buscar.
Thoth arqueia uma sobrancelha, insinuante.
— Não é muito contramão pra ele?
— Também acho, mas ele disse que não tem problema.
— Até parece que algum dia ele vai negar algo pra você.
Ele fica pensativo por um momento e dá de ombros.
— Tudo bem. Vou ver uma solução melhor e te aviso.
E então, como se adivinhasse minha urgência, completa:
— Aposto que você ainda não comeu nada.
É impressionante como ele me conhece.
— Sim. Estou acabada e faminta.
Nós vamos ao refeitório. O cheiro de comida quente se espalha pelo ambiente, aconchegante depois de um dia cheio.
Assim que chegamos, eu pego um grande pedaço de lasanha, suco de laranja e um pedaço de torta de limão. Thoth, por outro lado, escolhe um sanduíche de bacon acompanhado de suco de limão.
Nós nos sentamos e eu sinto algo molhado e quente nas minhas costas.
— Hum… lasanha. Que delícia.
A voz do Kaique surge atrás de mim antes de eu sentir o abraço exagerado.
— Tire suas mãos suadas da minha filha, garoto.
Thoth reclama, mas o Kai só ri.
— Ah, qual é, Thoth, ela me ama. Olha como ela gosta de mim.
Eu reviro os olhos.
— Tira seu corpo suado de perto de mim, seu puto. — Eu respondo com a boca cheia, o que deixa o Kai enojado e me solta.
— Que nojo, Luna! Vou pegar alguma coisa pra comer.
Ele sai ainda com a cara de nojo.
Thoth observa por um momento antes de comentar:
— Ele gosta muito de você, não é?
Eu assinto, meio melancólica.
— Sim. E eu dele.
Thoth me encara um pouco mais, mas decide não dizer nada. Volta a comer.
Poucos minutos depois, o Kai se senta ao meu lado, mastigando o sanduíche como se tivesse passado fome o dia inteiro.
— Como foi seu treino?
— Bem. — Eu dou o último gole no suco antes de continuar. — O velho pega leve comigo hoje.
Kai balança a cabeça.
— Você teve sorte que o Thoth ficou com pena da sua mão e pegou leve.
Eu rio e balanço a cabeça, concordando. É verdade. Meu tutor normalmente não alivia pra mim, mas hoje ele não exagera tanto.
Kai volta a comer em silêncio, e eu vou deixar meu prato no balcão. Quando retorno, ele já está terminando a comida. Espero enquanto ele deixa o prato, e seguimos para o alojamento.
Caminhamos pelo corredor em silêncio até pararmos em frente à porta dele. É a segunda do lado direito. Ele gira a maçaneta e olha pra mim.
— Vai entrar?
Eu olho pro relógio. Penso por um segundo e, por fim, dou um pequeno sorriso.
— Vamos lá.
Assim que entro no quarto, me jogo na cama do Kaique.
O espaço é amplo e bem distribuído. No centro, a cama king size fica de frente para a porta. Ao lado da janela, com vista para a entrada do acampamento, um guarda‑roupa embutido ocupa boa parte da parede. Perto da porta, uma escrivaninha organizada exibe um notebook, enquanto prateleiras acima dela se enchem de livros. Ao lado do guarda‑roupa, quase discreta, uma porta leva ao banheiro.
É quando um tecido cai sobre o meu rosto.
— Sai da minha cama, sua porca suada.
A voz dele carrega provocação ao jogar a blusa suada em mim. Eu jogo o tecido longe e rebato:
— Não me chama de porca, seu Bob Esponja.
A resposta vem imediata:
— Você não falou isso!
Ele se vira, me encara.
— Disse e repito. Bob Esponja.
Ele arregala os olhos e ameaça:
— Agora você vai ver, atrevida!
Kai dispara em direção à cama e se joga sobre mim. Segundos depois, explosões de cócegas tomam conta do meu corpo.
— AHHH… PARA! KA… EU… EU ME RENDO! SAI!
Minha risada sai aos tropeços entre tentativas desesperadas de me livrar. Eu tenho muita cosquinha. Tipo… muita mesmo.
Depois de alguns segundos, ele para e se deita ao meu lado. Nós dois estamos rindo feito idiotas.
O tempo passa e ele finalmente levanta pra tomar banho. Quando volta, é a minha vez.
O problema é que, ao sair do chuveiro, percebo um detalhe: não tem roupa limpa no quarto dele. Eu levo tudo pra lavar e esqueço de trazer de volta.
Eu encosto na porta do banheiro e chamo:
— Kai…
— Diga.
— Me empresta uma roupa?
Eu o ouço resmungar antes de responder:
— Espera um pouco.
Pouco depois, ele me entrega uma cueca boxer nova — que fica consideravelmente frouxa em mim — e uma blusa preta que chega até metade das minhas coxas.
Eu saio do banheiro secando o cabelo com a toalha e me deito na cama ao lado dele.
Kaique está olhando pro teto, completamente perdido em pensamentos. Eu deixo um beijo leve na bochecha dele.
— Obrigada pela roupa.
O toque quebra o transe; ele pisca algumas vezes.
— Sem problemas. Mais relaxada?
Eu faço que sim com a cabeça, sentindo os dedos dele deslizarem suavemente no meu cabelo em um cafuné tranquilo.
— Muito.
Eu fecho os olhos, aproveitando o momento confortável. Sem perceber, adormeço ali mesmo.
Quando acordo, o relógio da parede marca perto das duas da manhã.
Eu olho pro lado e vejo o Kai dormindo serenamente; a mão dele descansa sobre a minha cintura. Com o máximo de cuidado, retiro a mão e saio da cama, pego minhas coisas e vou pro meu quarto.
Eu não lembro a última vez que durmo sozinha no meu quarto. É sempre assim. Toda noite eu acabo dormindo no quarto do Kai, pra só depois ir pro meu, quase de manhã.
A luz do quarto ao lado do meu ainda está acesa. Por instinto, eu entro pra ver se o Thoth ainda está acordado.
Ele está descalço, vestindo calça de moletom cinza, blusa azul e óculos — uma visão quase humana do grande deus. Parece completamente imerso na leitura dos papéis espalhados sobre a mesa.
Cruzo os braços e brinco:
— Não deveria trabalhar tanto.
Sem tirar os olhos dos papéis, ele rebate:
— E você deveria dormir no seu quarto.
Eu sorrio — já espero essa resposta.
— Eu acabei pegando no sono antes de chegar nele.
Minha desculpa de sempre.
Ele ergue uma sobrancelha, claramente não acreditando.
— Os pesadelos continuam te atormentando?
A pergunta me pega um pouco desprevenida, mas eu forço um sorriso.
— Não muito. Eu vou ficar bem, não se preocupe.
Mentira. Eu não quero deixá‑lo preocupado.
Ele me analisa por um instante, mas não insiste. Ele nunca insiste.
— Certo. Se precisar de ajuda, é só chamar.
Eu me aproximo e deixo um beijo na bochecha dele.
— Boa noite, pai.
A resposta vem com um beijo na minha testa:
— Boa noite, filha.
Eu respiro fundo antes de finalmente ir para o meu quarto.
Coloco a roupa suja no cesto, me deito e pego no sono rapidamente.
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