Herança de Cinzas

5 Caçada na Noite


Nem toda escuridão é ausência de luz; algumas carregam presenças que não deveriam existir.


Só pode ser brincadeira!

Os deuses devem estar conspirando contra mim. Fico olhando para aqueles olhos incríveis pôr o que pareceu uma eternidade até que Tobias dá um sorriso de lado e abre a boca, me acordando do meu pequeno momento de distração.

— Um expresso duplo.

— O quê? — pergunto, tentando entender o que ele estava dizendo.

— Café, é isso que vocês vendem aqui, não é?! — diz com um pouco de deboche misturado com impaciência e, talvez, uma ponta de diversão.

— Bastardos é que não é… — murmuro, registrando o pedido dele.

— O que disse?

— Obrigada pela preferência e volte sempre! — dou meu melhor sorriso cínico ao entregar o recibo do pedido.

— Claro. Aqui tem coisas deliciosas. — Me lança um sorriso de canto antes de se afastar.

Sério que ele falou isso!? Bastardo! Olho para o relógio na parede que marcava quase dez da noite, um pouco tarde para alguém resolver tomar um café desse. Tobias pega seu pedido e se senta em uma mesa mais afastada, de frente para mim. Continuo atendendo os outros clientes, mas, de vez em quando, meus olhos voltam para aquele homem com pose de dono do mundo, concentrado no notebook e tomando seu café como se estivesse diante de um assunto de grande importância.

Já era quase meia noite quando o movimento diminui, e senti como se estivessem me observando. Levanto o olhar, procurando meu observador. Meus olhos encontraram os dele. Está sério, fixo em mim por um longo tempo antes de finalmente voltar sua atenção ao notebook.

Meus dedos apertam a bandeja em minhas mãos. Por que ele parece tão à vontade aqui? Como se estivesse exatamente onde deveria estar… e, ao mesmo tempo, se destacasse demais, quase deslocado. Há algo nele que me incomoda, mas não consigo definir o quê.

Antes que possa refletir demais sobre isso, sou chamada por uma das meninas perguntando se eu iria fechar o café. Respondo que sim e, quando volto a olhar para sua mesa, ele já não está mais lá.

Meia noite em ponto começamos a fechar o café. A maioria dos funcionários já foi embora. Depois de terminar tudo, vou para o vestiário pegar minhas coisas.

— Ei, Becker, ainda aqui? — Becker trabalha na cozinha e era sempre uma das primeiras a ir embora.

— Oi, Luna, pois é. Já tinha ido embora, mas esqueci meu celular no armário e tive que voltar para pegar. — Explica, balançando o celular.

Apenas concordo a cabeça e pego as minhas coisas enquanto ela tranca seu armário.

— Vai embora sozinha, Luna? Se quiser, te dou uma carona.

— Valeu, Becker, mas o Kai vem me buscar. Obrigada mesmo.

— Tudo bem, só tenha cuidado. Essa área é um pouco perigosa nesse horário.

— Sim, senhora! — respondo, fazendo uma pequena continência e arrancando uma risada dela.

Após Becker sair, começo a trancar o vestiário e os cômodos que ainda faltavam. Fecho a porta dos fundos da cafeteria e caminho em direção a calcada da frente da cafeteria para encontrar o Kai.

Quando chego à frente do café, ele ainda não está aqui. Estranho. Já faz quarenta minutos do horário que combinamos e ele sempre é pontual. Sento na calçada, pegando meu celular para ligar pra ele. Um desconforto começou a se formar. Kai não se atrasa. Não sem avisar.

A chamada é encaminhada para a caixa postal. Meu instinto afiado grita que algo está errado.

Um calafrio percorrer minha espinha. Olho para o lado enquanto continuo ligando para ele e vejo um ser pequeno se movendo na minha direção. Como a rua está escura, não dá para saber se é homem ou mulher, mas, pelo tamanho, parece uma criança.

Ela continua se aproximando, rápida e desengonçadamente. Isso não está certo.

Alcanço a lateral da minha calça pegando minha adaga, presa à minha perna por dentro da roupa.

— Obrigada, Zeus, por mais esse presente para tornar meu dia ainda mais perfeito! — murmuro, já imaginando o que está por vir.

A "criança" se aproxima mais, revelando uma menina branca, de cabelos loiros ondulados. Usando um vestido amarelo com rosa, ela caminha olhando para o chão. Me levanto e tento falar com ela.

— Oi, princesa, o que você está fazendo aqui?

Ela continua olhando para o chão, balançando a cabeça.

— Você tá sozinha? Cadê sua mamãe? — insisto.

A garota permanece calada, mas dessa vez levanta a cabeça olhando diretamente para mim.

— Merda! — Não tenho tempo de praguejar novamente.

A maldita menina começa a se transformar. Filhote de cão infernal.

Maldito Cérbero que resolveu ter filhotes, e maldito glamour que esconde esses demônios caninos.

Preparo minha postura, recuando um pouco, e quando a criatura avança não perco tempo, lançando minha adaga. O metal se cravando no olho esquerdo do filhote.

Enquanto o corpo monstruoso se debate, sinto a adrenalina ainda pulsando em meu sangue. Minha respiração não alterou. Nada muda no meu ritmo. Isso não é um desafio para mim. Ainda não.


A menina, agora com a aparência de um cachorro preto deformado, com a cabeça quase se dividindo em duas, tenta arrancar a adaga cravada em seu olho esquerdo. Quando finalmente consegue, dispara em minha direção.

Recuo, tentando alcançar minha lâmina, que havia caído próximo à entrada do café. O tempo parece se mover mais rápido do que minha capacidade de reação, porque no momento em que minhas mãos finalmente se fecham ao redor do cabo da adaga, tudo o que consigo fazer é me virar.

O filhote infernal pula sobre mim com força suficiente para me derrubar no chão. O peso da criatura me prende ali por um instante. Sinto algo quente e molhado contra minha pele. Sangue.

Com um movimento brusco, empurro o corpo do monstro para longe, observando-o se debater por mais alguns segundos antes de finalmente parar.

— Puta mãe de Hades!

Me sento, arfando, e percebo um corte fundo no meu abdômen. O pequeno demônio conseguiu me atingir antes de morrer. O sangue escorre, quente, pintando minha pele com um líquido espesso e vermelho.

Levanto e caminho até minha bolsa. Alcanço a blusa reserva que sempre carrego comigo e pressiono sobre o ferimento. Que droga!

Hades tentou criar filhotes do Cérbero há alguns anos, expandindo sua guarda infernal para proteger outros locais. Mas a experiência fracassou. Nenhum deles nascia completo, alguns com uma cabeça, outros com duas, todos completamente insanos.

Sem chance de treinamento, ele acabou por exterminar todos. Exceto pelos poucos que conseguiram fugir e se esconder nas profundezas do submundo. Eles não deveriam estar aqui, não sem um motivo.

Às vezes, Thoth me enviava atrás de criaturas que escapavam para a superfície. Mas o que eu quero saber é como esse maldito teve acesso ao glamour. Seres místicos usam glamour para mascarar suas verdadeiras formas, misturando-se aos humanos. Esse filhote não deveria ter essa capacidade por conta própria.

Sento na calçada e começo a procurar meu celular que caiu em algum canto perto de onde eu estava. Kai ainda não chegou. O idiota tem explicações para dar.

Quando encontro meu celular, vejo doze chamadas perdidas: duas de Júlia e dez de Thoth.

— Tô ferrada.

Decido que ligo para Júlia depois. Começo a ligar para Thoth, mas antes que eu pudesse completar a ligação, um motor ecoa na rua vazia.

Olho na direção de onde a "menina" havia aparecido. Nada. Viro para o outro lado e avisto uma luz distante, vindo em alta velocidade.

Começo a pensar em formas de matar o Kai pelo atraso, quando percebo que não é um carro, e sim uma moto.

Uma Harley Davidson preta surge diante de mim, parando com precisão.

— Noite agitada, hein, boneca. Nunca lhe avisaram que não se deve brincar com crianças da noite?

Tobias tira o capacete, observando os restos do pequeno filhote do submundo

— Pois é, nunca gostei muito de seguir regras.

Respondo, desviando o olhar para o celular e retornando a chamada do meu pai.

— Cadê o teu fiel escudeiro?

— Sabe, eu não entendi o que você ainda tá fazendo aqui e nem por que se preocupa com quem eu brinco ou deixo de brincar! Afinal, não foi você quem abandonou o acampamento e deixou claro que não queria contato com nenhum de nós?

Fito seus olhos, e algo neles sempre me incomodou. É como se houvesse uma barreira invisível entre ele e o resto do mundo, como se nós fôssemos insignificantes demais para compartilhar o mesmo ar que ele respira.

Na primeira vez que o vi, tive a estranha sensação de que já o conhecia. Hoje de manhã, quando ele e Kai discutiram, tive um déjà vu.

E então durante a tarde eu lembrei. Ele é um semideus.

Há nove anos, um semideus abandonou tudo e todos. Deixou o acampamento sem levar nada consigo e se recusou a manter contato com qualquer pessoa ligada àquele mundo. Na época, surgiu o boato de que ele nutria um rancor profundo contra o Olimpo e, por isso, rejeitava qualquer vínculo com o acampamento.

Ele foi treinado por Ártemis, e desde sua partida, ela nunca mais treinou ninguém.

Eu era jovem demais na época para entender a situação, mas me lembro de vê-lo constantemente discutindo com o Kai nos corredores do acampamento. A lembrança não se encaixa completamente, mas algo dentro de mim grita que ela é importante.

Antes que eu pudesse me afundar mais nessas memórias, Tobias responde com naturalidade.

— Esqueci uma pasta com alguns papéis importantes em cima da mesa onde estava. Voltei para ver se ainda tinha alguém por aqui.

Seu tom é impassível e ele não responde a minha acusação, quase como se não ligasse. Era difícil imaginar qualquer emoção vinda dele.

Não digo nada, não é o momento ideal para mergulhar nessa espiral de sentimentos conflitantes, apenas foco em ligar para Thoth novamente. Chamadas recusadas. Kaique também não atendeu.

— Ótimo. Agora estou ferrada. — Murmuro desistindo das ligações.

Minha única opção é ficar na cafeteria até conseguir contato com alguém.

Suspiro cansada e decido entrar.

— Certo, vamos lá pegar essa tal pasta.

Quando me levanto, uma onda de tontura me atingiu com força, me fazendo cambalear enquanto tudo começa a rodar. Meu corpo está prestes a colidir com o chão quando braços fortes me seguram, impedindo a queda.

— Luna! Ei, garota, o que foi?!

Tobias me afasta um pouco para me examinar, seus olhos escaneando meu corpo. Então ele vê o ferimento.

— Droga, por que não falou que estava machucada? — Sua voz é autoritária, carregada de frustração.

— Porque você não perguntou, pode me soltar, Tirano.

— Teimosa.

Ele resmunga, mas sua voz parece distante. Começo a ter dificuldade para focar em seu rosto, tudo está embaçado.

Enquanto luto para não perder completamente a consciência, um pensamento fugaz atravessa minha mente: Por que sinto que conheço esses olhos há muito mais tempo do que deveria?

— Por que você tem duas cabeças? É um filhote do Cérbero disfarçado? — pergunto, enquanto sinto Tobias se movimentando para a parte de trás da cafeteria.

— Você perdeu sangue demais. Cadê a chave do café? — Ele se esforça para me segurar e mexer na minha bolsa ao mesmo tempo.

— Do lado. — Aponto para o bolsinho lateral. A dor não é mais tão intensa, mas minha consciência oscila perigosamente.

Ele abre a porta e segue direto para o vestiário. Quando consegue destrancar, me deita com cuidado no banco entre os armários e sai para algum lugar.

A sensação de abandono começa a se infiltrar no meu peito, não é um sentimento desconhecido, mas está longe de ser agradável. Será que ele me deixou aqui para morrer?

Pouco depois, ele retorna carregando uma maleta de primeiros socorros, a mesma que costuma ficar no escritório do meu dindo.

— Luna? — Ele me chama, abrindo a maleta.

Apenas olho para ele, hipnotizada, minha língua pesada demais para responder. Esses olhos…

Se eu for morrer agora, morreria em paz. Uma paz que só essas esmeraldas, que conheço há tão pouco tempo, me transmitem.

Como pode existir paz ao mesmo tempo em que me sinto totalmente consumida por uma inquietação esmagadora? É como uma coceira mental, sempre me lembrando de que há algo que não estou enxergando.

— Não me mate quando eu estiver consciente.

Antes que eu possa perguntar o que ele quer dizer com isso, o som de tecido rasgando ecoa pelo vestiário.

Ele rasgou minha blusa. O que restava do tecido foi jogado para algum lugar desconhecido.

Não tenho chance de reagir, ele começa a limpar o ferimento. Creio que é apenas soro, mas parece fogo líquido queimando minha pele.

Fecho os olhos e travo a mandíbula, tentando focar em qualquer coisa além da dor excruciante. Não que sentir dor seja algo novo para mim, mas ainda é um incomodo.

Meus olhos pesam e não consigo mantê-los abertos. Tento me concentrar na pressão das mãos dele sobre minha pele. No calor corporal que ele emana, mesmo sem estar muito perto.

Respiro fundo e abro os olhos, contemplando a imagem dele estava completamente focado na tarefa de me salvar.

Por um instante, apenas observo o jeito que sua expressão permanece concentrada e séria, os músculos de sua mandíbula tensos, a forma como seus olhos esmeralda analisam cada detalhe do ferimento.

Ele pega um vidro transparente com um líquido igualmente transparente. Se eu achava que o soro queimava, esse líquido derrete a pele.

Deve ser para esterilizar. Ele joga um pouco sobre a ferida, depois espalha sobre as próprias mãos. Com o canto dos olhos vejo ele pegar linha e agulha.

— Só para cargo de informação, você já fez isso antes? — indago, desviando sua atenção do meu ferimento.

— Várias vezes, boneca.

Ele levanta um pouco a própria blusa, exibindo uma cicatriz próxima ao quadril.

— Ok então. E para de me chamar de boneca.

O apelido me incomoda, mas não era um incômodo ruim. Era quase agradável.

Merda, Luna, o que você está pensando?!

Definitivamente é o sangue que perdi.

— Até morrendo, é teimosa… — Ele resmunga baixo, mas eu escuto.

Sinto a primeira picada da agulha e, depois disso, tudo parece anestesiado.

A dor desaparece e então, todo o cansaço do dia me atinge como uma avalanche.

Em algum momento sinto meu corpo ser levantado, depois sou colocada sobre algo macio.

Meu corpo relaxa novamente, quando estou quase caindo no sono escuto sua voz ecoando como um juramento distante.

— Pode dormir, deusa. Minha missão é proteger você, e desta vez, nada vai me impedir de cumprir isso.




Acordo meio desorientada. A primeira coisa que percebo é que não estou no meu quarto. Pisco algumas vezes, deixando minha visão se ajustar ao ambiente. Demoro um momento para reconhecer que estou no escritório de Dionísio.

O sofá onde me encontro é macio, e sobre mim há uma jaqueta cobrindo meu corpo. Me sento e sinto uma dor aguda no abdômen. Deslizo a jaqueta pelos ombros e a visto, só então percebo que estou apenas de sutiã, com um curativo cobrindo parte da pele. E é aí que as memórias começaram a retornar.

O atraso de Kaique.

A criança da noite.

O ferimento.

A Harley Davidson.

Tobias.

O curativo.

E depois… vazio absoluto. Eu não lembro de mais nada.

Antes de dormir, ele disse algo, mas por mais que eu tentasse puxar a lembrança, não consigo recordar suas palavras. Me sento devagar e procuro minhas coisas. Minha bolsa está no chão, ao lado do sofá. Pego ela e busco pelo meu celular, quando o encontro observo a hora, quase quatro da manhã.

Resolvo ir embora. Ainda preciso limpar a bagunça lá fora e encontrar Tobias. Me levanto e avisto as chaves da cafeteria sobre a mesa. Ao pegá-las, encontro um bilhete junto.


Espero que esteja melhor.

Desculpe pela blusa.

Tirano.


Bastardo. Junto ao bilhete, havia um copo de café ainda morno. Ele não deve ter saído há muito tempo. Guardo o bilhete no bolso da calça, pegando as chaves e o café, e começo a trancar tudo novamente. Quando chego à frente da cafeteria, o local está limpo. Tenho que lembrar de agradecer ao Tirano.

Chamo um táxi e dou o endereço do acampamento. Como ele fica no meio da floresta, o motorista me deixa no fim da pista. Pago e começo minha longa caminhada pela trilha. Meia hora depois, passo pelos portões do acampamento. Vou direto para o meu quarto. Já estou fechando a porta quando escuto uma voz me chamar.

— Luna?

Droga. Tô ferrada.

— Oi.

Respondo, abrindo a porta novamente e vendo Thoth parado ali, vestindo calça moletom cinza e regata branca. A expressão nada feliz dele denunciava que eu teria problemas.

— Por que demorou tanto e por que veio sozinha?

— Por que o senhor acha que eu vim sozinha? — Tento desconversar.

— Porque você foi a única pessoa a passar pela barreira nas últimas seis horas. Então, vai me falar o que aconteceu?

Ele ergue uma sobrancelha, aguardando minha resposta.

— Ótimo motivo. — Suspiro, escolhendo bem minhas palavras. — Não aconteceu nada. Tive que fechar a cafeteria, e Kaique não pôde me dar uma carona. Acabei dormindo lá até conseguir chamar um táxi para voltar. Ele me deixou no começo da trilha, e caminhei o resto do percurso.

Meia verdade, mas convincente o suficiente.

— Entendi.

Foi a única coisa que ele disse antes de fechar a porta do próprio quarto sem se despedir. Deixo escapar um suspiro aliviado, pronta para finalmente descansar, mas então ele reaparece, parando na porta mais uma vez.

— Não esqueça de lavar a jaqueta antes de devolver ao seu dono.

E então, ele desaparece no quarto novamente. Fico estática.

Será que ele sabia quem era o dono da jaqueta?

Entro no quarto e tranco a porta antes de seguir diretamente para o banheiro.

Retiro minhas roupas com cuidado para não magoar o ferimento, desfaço o curativo e tomo um banho rápido. Depois de me limpar, pego minha maleta de primeiros socorros refazendo o curativo e finalmente me deito para descansar.

Meu corpo pede por descanso urgente.

Alcanço meu celular e checo o horário, cinco da manhã. Ótimo. Tenho pelo menos uma hora e meia de sono pela frente.

Coloco o celular sobre o móvel ao lado da cama, apago o abajur e fecho os olhos. Aos poucos, o sono começa a me dominar.

Abri os olhos assustada, não reconheço o lugar onde estou.

Parecia a entrada do acampamento, mas está destruída.

Chamas e fumaça dominam o cenário. Por onde eu olho, só há destruição.

Tento lembrar como cheguei ali, mas tudo parece confuso demais. Sigo pelo caminho que leva ao alojamento. Não encontro ninguém.

Minha voz não saí. O desespero começa a crescer dentro de mim.

No alojamento, o prédio está reduzido a ruínas. Em meio aos destroços, reconheço um corpo. Corro até ele e sinto um alívio imediato ao vê-lo vivo, mas extremamente machucado.

— Por que fez isso, Luna? Nós lhe demos tudo que podíamos, educação, treinamento, carinho, uma família e você destruiu tudo! Por quê?!

Thoth.

Minha mente não consegue processar o que ele está dizendo. Ele está me acusando de causar a destruição ao nosso redor.

Eu tento falar, mas minha voz não saí.

— Do que você está falando? Eu não fiz nada!

Ele não me escuta.

— Nós confiamos em você. Todos nós! Olhe para suas mãos.

Minha mente rejeita a sugestão antes mesmo de processá-la, mas mesmo assim eu olho.

Estão banhadas de sangue.

— Não, não, não! NÃO FUI EU! Não pode… não pode ter sido eu!

Meu corpo desaba no chão.

Eu quero gritar que não tive nada a ver com isso, quero chorar sobre o corpo agora desfalecido de meu pai, mas…

Não consigo fazer nada.

Quanto mais eu tento respirar, mais me sinto sufocar.

O peso da culpa esmaga meus pulmões, e pela primeira vez, eu percebo o inevitável.

Esse é o nosso fim. O meu fim.

Eu vou morrer asfixiada pelo peso da minha culpa.

Sozinha.




Acordo com o barulho infernal do despertador. Desativo o alarme e pego o celular para olhar a hora. Merda. Preciso me levantar, ou iria me atrasar ainda mais. Mas meu corpo ainda está paralisado pelo terror do último pesadelo.

Desde que me lembro, sempre tive sonhos assim, fragmentos de destruição, caos e sombras sem rosto. Mas agora… agora, eles estavam se tornando mais frequentes.

No começo, eu era apenas uma espectadora, observando tudo ruir ao meu redor. Agora… eu era a protagonista do caos. Balanço a cabeça, espantando o peso da lembrança e passo a mão no rosto sentido as bochechas ainda úmidas das lágrimas derramadas durante a madrugada.

Tomo um banho rápido, refaço o curativo no abdômen e passo uma pomada para aliviar a dor. Tinha esquecido o quanto esse tipo de ferimento arde.

O frio me faz apostar em algumas camadas extras de roupa: uma legging preta, regata da mesma cor por baixo de uma blusa listrada de gola alta e mangas compridas. Por cima, um sobretudo vermelho que desce até a metade das pernas. Nos pés, ankle boots pretos.

Depois de me vestir, faço um coque frouxo no cabelo e passo uma maquiagem leve para disfarçar as olheiras de uma noite complicada, pego minhas luvas e um cachecol vinho.

Coloco a mochila no ombro, conferindo se tem tudo o que preciso durante o dia, e saio do quarto, trancando a porta atrás de mim. Guardo as chaves na bolsa e sigo para o quarto de Kaique.

Bato na porta várias vezes. Nenhuma resposta.

Ele provavelmente curtiu a noite e ficou no apartamento que tem na cidade. Parece mais perda de tempo insistir, então sigo para o refeitório, não perdendo tempo em pegar algo para comer.

Alcanço um chocolate quente e alguns biscoitos antes de buscar um lugar para sentar.

Noto Thoth sentado em uma mesa com Apolo. Caminho até lá, tentando não demonstrar dor, o que era difícil, já que o ferimento insiste em latejar.

Definitivamente preciso passar em uma farmácia e comprar um analgésico.

Me sento ao lado de Apolo e de frente para Thoth.

— Bom dia.

— Bom dia, Luna, como você está? Faz tempo que não lhe vejo. — Apolo sorri amigavelmente.

— Estou bem.

Retribuo o sorriso.

— Bom dia, querida. Está se sentindo bem? Percebi que está com dificuldade para andar. — Thoth me observava com um olhar inquisidor.

— Estou bem sim, apenas uma dorzinha de nada. — Dou um sorriso amarelo, desviando o assunto. — Apolo, sabe onde o desnaturado do seu pupilo se meteu?

— Na verdade, também estou curioso com isso, Luna. Ele não apareceu no treino ontem à noite e não dormiu no acampamento.

A expressão de Apolo se fecha. Ele odiava quando Kaique era irresponsável.

— Hum… certo.

— Já sabe como vai para a faculdade, já que Kaique não está aqui para te levar? — Thoth pergunta, terminando o café.

— Ainda não.

Checo a hora no celular, 6:58AM. Se eu precisasse caminhar até a estrada para pegar um táxi, iria me atrasar.

— Pode pegar meu carro hoje, não vou precisar dele.

Ele joga as chaves na minha direção. Pego no ar, olhando para ele com descrença absoluta. Thoth sempre foi incrivelmente ciumento com o seu bebê.

— Sério?

Ele ergue uma sobrancelha.

— Se perguntar demais, eu mudo de ideia. Tome cuidado!

Se levanta, encerrando o assunto.

— Pode deixar! — Respondo alto o suficiente para ele escutar.

Termino meu café e me despeço de Apolo.

— Até mais, Apolo. Tenha um bom dia!

— Você também, Luna.

Ele ri da minha empolgação. Jogo o copo do chocolate na lixeira e vou para o estacionamento.

Encontro o "bebê" do Thoth e destravo as portas. Um belíssimo Camaro SS 68 preto. Me permito um pequeno sorriso, antes de entrar.

Ligo o motor e sinto a vibração da máquina percorrer minha pele. Pego a estrada, parando no caminho para comprar um analgésico em uma farmácia.

Estaciono na faculdade exatamente faltando dez minutos para minha primeira aula.

Saio do carro, percebendo olhares curiosos ao meu redor. Pego minhas coisas e começo a caminhar até a minha sala.

Mais um dia, espero que melhor do que ontem.