Herança de Cinzas

6 Entre Lâminas e Segredos


"Alguns encontros mudam caminhos; outros apenas revelam o que sempre esteve à espreita."


Chego à sala cinco minutos atrasada, mas, por alguma sorte divina, o professor ainda não apareceu.

O resto do dia transcorre normalmente e, no início da tarde, já caminho para fora do campus.

Foi então que o vi.

Encostado no meu carro, Tobias parecia perdido em pensamentos, observando o Camaro como se estivesse catalogando cada detalhe — ou julgando. Não dá para saber o que se passa na sua mente.

Preciso admitir: hoje ele estava um espetáculo irritante.

Jeans preto.

Camisa cinza.

Casaco de couro com abertura diagonal.

Claro que tinha que vir uniformizado de 'perigo ambulante'.

Ele exala uma sofisticação casual — perigosa e calculada — que me dá vontade de virar as costas e ir embora, só para não lhe dar o gostinho da minha reação.

Respiro fundo, ajusto a mochila no ombro e me aproximo com a maior indiferença que consigo reunir.

— Belo carro.

Ele fala antes mesmo que eu consiga dizer qualquer coisa.

— Valeu. O que você quer? — pergunto, sem rodeios.

Tobias ergue uma sobrancelha, parecendo genuinamente ofendido com a minha frieza.

— Nossa, pensei que eu merecesse pelo menos um: "Obrigado, Tobias, por salvar a minha vida! Você é demais!"

Ele tenta imitar minha voz de um jeito tão exagerado e debochado que chega a ser ridículo. Ridículo ao ponto de me arrancar uma risada involuntária.

— Certo, valeu por me ajudar — falo, desviando o olhar. Gratidão não é exatamente algo que queira oferecer pra ele.

— Não foi como eu imaginei, mas dá pro gasto. — O sorriso que ele me lança quando inclina a cabeça deixa bem claro que está satisfeito. — Tá livre sexta à noite?

Franzo o cenho.

— Tá me convidando pra sair? — A incredulidade simplesmente escapa da minha voz.

— Ainda não, boneca. — Um sorriso de canto surge no rosto dele. — Temos que começar a trabalhar no seu projeto.

Sinto uma pontada de inquietação, não pela ideia em si, mas porque algo me diz que esse "trabalho" não vai ter nada de convencional.

— Na sexta a cafeteria funciona 24 horas, e eu faço expediente dobrado. Saio às seis da manhã de sábado.

Tobias não hesita um segundo.

— na frente da cafeteria às seis em ponto, então.

Ele passa por mim com a calma de quem sabe exatamente o efeito que provoca e me dá um beijo rápido na bochecha antes que eu possa protestar.

— Avisa ao seu cão de guarda que você vai passar o dia comigo. Até mais, boneca.

E então... ele se vai.

Fico parada por um segundo.

— Bastardo.

Bufo, entro no carro e dou partida rumo ao acampamento.

No caminho, tento ligar para o Kaique, mas o celular dele só cai direto na caixa postal. Solto um suspiro frustrado, meus dedos apertando o volante até meus nós dos dedos ficarem brancos.

A voz deliciosa do Adam Levine preenche o carro, This Love vibrando nas caixas de som me distrai enquanto acelero pela estrada.

O tempo é curto.

Estaciono o Camaro e vou direto para o meu quarto, trocando de roupa num piscar de olhos antes de correr para a sala de treinamento. Por sorte, decidi almoçar no campus hoje — ótima escolha, porque isso me dá alguns minutos extras de vida.

Como sempre, estou atrasada e como sempre, Thoth está descontando toda a irritação dele no saco de areia.

Assim que entro, ele não desvia o olhar do saco. Apenas fala:

— Está...

— Atrasada! Eu sei.

Completo a famosa frase antes dele, o que o faz bufar e finalmente me encarar.

— Vamos. Pode começar a se aquecer.

Começo um trote leve pelo salão, sentindo o impacto ritmado dos pés no tatame ecoar nos meus músculos já cansados. Aos poucos, passo para os golpes mais técnicos: sequências de jab-direto, variações de cruzado, chutes laterais rápidos e joelhadas curtas contra o saco. O couro devolve o impacto como uma vibração quente.

Cada movimento puxa a dor no meu abdômen como uma linha invisível, fina e insistente. Mas não tenho tempo para sentir nada disso. É só mais uma coisa para ignorar.

Thoth me chama para o tatame e joga um par de luvas na minha direção. Pego no ar.

Ele avança sem hesitar; seus golpes são calculados, precisos, testando meu reflexo mais do que minha força. Eu desvio, bloqueio, recuo, giro o quadril para estabilizar, mantendo a guarda alta enquanto meus pés deslizam pelo tatame com a memória automática de anos de prática.

Mas meu corpo não mente.

Apesar de eu tentar proteger a região ferida sem parecer óbvia, Thoth percebe o padrão em segundos.

Claro que percebe.

Então ele passa a pressionar mais. Aumenta a velocidade. Ajusta o ângulo dos golpes. Mira direto onde dói.

A cada investida dele, meu corpo reage um pouco mais lento do que deveria. Meus músculos reclamam. Meu abdômen arde. Minha respiração fica mais curta.

E Thoth vê tudo isso acontecendo.

Ele sempre vê.

— Algum problema no abdômen, Luna? — pergunta entre os golpes, sem suavizar a intensidade.

— Nenhum.

Respondo rápido, focada em desviar dos ataques. Aproveito um breve instante em que ele recalcula a postura e avanço, desferindo um soco direto na mandíbula dele.

Uma linha fina de sangue escorre da boca de Thoth. Mesmo convivendo com eles há anos, ainda me impressiona ver o ouro líquido deslizando por sua pele — é hipnotizante, quase bonito demais para ser sangue.

Os olhos dele brilham com desafio, e ele parte para cima de mim novamente. Dessa vez, revidar é minha única opção.

Giro o corpo, baixo a guarda dele com o antebraço e uso o impulso para derrubá-lo no tatame, prendendo seu braço numa chave de perna. Sinto os músculos dele tensionarem sob meu controle, buscando uma saída.

Mas Thoth não se rende facilmente. Ele usa o braço livre para atacar minhas costelas, os golpes afiados e certeiros atingindo exatamente a região próxima ao meu machucado.

O ar escapa dos meus pulmões num choque quente. Perco força por reflexo e sou obrigada a soltar a chave. Rolamos para lados opostos, ganhando espaço.

Recupero o fôlego em um segundo, o suficiente para atacar novamente. Avanço, deslizo o pé pelo tatame para ganhar impulso e aplico um chute frontal direto no peito dele, derrubando-o de costas.

Imobilizo Thoth com o peso do meu corpo, cravando os joelhos contra seus braços, e começo a distribuir socos nas costelas e no rosto. Só paro quando ele bate no tatame em rendição.

Levanto rápido demais, rápido o suficiente para sentir algo quente escorrendo pela minha barriga.

Droga. Rompi algum ponto.

Thoth massageia as costelas, depois me encara com um pequeno sorriso satisfeito.

— Está melhorando, Luna. Muito bem.

— Te machuquei? — pergunto, ainda ofegante.

— Não. Estou ficando velho.

A resposta me arranca uma risada curta.

Suspiro e olho para o relógio da sala. Preciso correr.

— Tô liberada?

Pergunto já calculando a rota até o estacionamento.

— Está sim. Pode ir. E cuidado com o carro.

— Sim, senhor!

Grito enquanto disparo para fora da sala. O som da risada dele ecoa atrás de mim quando passo pela porta.

Corro para o meu quarto e vou direto para o banheiro. Retiro a blusa e o curativo, avaliando o estrago.

Dois pontos rompidos.

Solto um suspiro frustrado — ultimamente isso é o que mais tenho feito. Pego minha maleta de primeiros socorros e começo a limpar o sangue do ferimento.

Depois de desinfetar a área, pego a agulha e a linha e refaço os dois pontos com movimentos precisos e rápidos.

O processo ainda causa dor, mas já estou acostumada.

Assim que termino, procuro os analgésicos, engulo um comprimido e sigo para o banho. O calor da água ajuda a relaxar meus músculos, aliviando a tensão acumulada.

Após o banho corro para me vestir, opto por uma a meia‑calça preta — porque aparentemente o inverno não pretende pegar leve — e a saia preta que combina com tudo, inclusive com a minha falta de paciência. O suéter vermelho de gola alta é praticamente um abraço quente, e os ankle boots pretos completam o look "não falo com estranhos antes do meu segundo café".

Prendo o cabelo em um rabo de cavalo, coloco minhas luvas e pego a bolsa antes de sair do quarto, trancando a porta atrás de mim.

Agora tenho meia hora para chegar ao café.

Se Thoth descobrisse que eu levo apenas 25 minutos do acampamento até a cafeteria, provavelmente tomaria minha habilitação. Nunca dirigi tão rápido.

Estaciono o carro na rua por trás do café, desço e entro no estabelecimento.

Guardo minhas coisas no armário do vestiário e pego o avental. Olhar para o banco me faz lembrar dos acontecimentos da noite anterior. Nada no ambiente entrega o caos que aconteceu ali. Respiro fundo, voltando para a realidade e sigo para a área de atendimento.

Assim que chego, percebo que ainda tenho um pouco de tempo, então preparo um mocha bem carregado de chocolate e me sento, esperando a Maia terminar um pedido antes de assumir o caixa.

Termino a bebida no exato momento em que ela fecha o caixa.

Ela sai, e eu começo a atender. O movimento mantém minha mente ocupada durante toda a noite e, quando percebo, já está na hora de ir embora.

À meia-noite em ponto, Becker fecha a entrada da cafeteria, hoje é o dia dela cuidar do fechamento.

Tiro o avental e volto para o vestiário. Pego minhas coisas e tomo outro analgésico, o ferimento ainda lateja um pouco.

Me despeço das meninas e sigo para o portão dos fundos, pronta para ir embora.

Não ví meu padrinho hoje; provavelmente saiu para resolver algo em outra loja do acampamento.

Saio do café sentindo o alívio do fim do expediente e pronta para voltar ao acampamento.

Mas então, meus olhos encontram uma silhueta escorada contra o carro. Minha expressão fecha na hora.

Pego meu punhal imediatamente, já preparada para arremessá-lo sem hesitação. A raiva ferve sob minha pele e, por um instante, eu realmente considero não errar o golpe.

— Não precisa disso, pequena. Sou eu.

A vontade de lançar o punhal não diminui, na verdade, só aumenta quando ouço a voz dele.

Então eu simplesmente lanço.

O punhal passa raspando pela cabeça de Kaique, abrindo um pequeno corte na orelha direita, antes de se cravar na parede atrás dele.

Kaique arqueja, chocado, e pressiona a mão contra o sangramento.

— QUE MERDA, LUNA?! POR QUE FEZ ISSO?!

A voz dele vem carregada de indignação e surpresa.

Cruzo os braços, olhando para ele com pura indiferença.

— Ah, desculpa. Não te reconheci.

Falo sem fazer esforço nenhum para soar sincera.

Kaique cerra os dentes; seus olhos estão cheios de frustração e exasperação.

— Como assim não me reconheceu? — Ele se interrompe, estreita os olhos. — Você tá irritada comigo porque eu furei contigo ontem.

Não nego. Também não confirmo. Estou irritada porque ele sumiu, porque eu me preocupei, falei com a Júlia hoje e ela disse que ele também não apareceu no pub. Então onde caralhos ele se enfiou? Por que não respondeu minhas mensagens? Por que não atendeu minhas ligações?

Estou irritada comigo por ficar tão chateada com isso. Por me sentir tão desamparada com a simples possibilidade da ausência dele na minha vida. Eu sempre fui o centro do mundo dele... talvez esteja na hora de aceitar que isso pode mudar.

Irritada com Tobias por estar no lugar certo, na hora certa, e me obrigar a sentir gratidão por ele. Ele podia simplesmente ter ido embora, como tantos já fizeram. Mas ficou. E me ajudou.

São muitos sentimentos disputando espaço dentro de mim, e eu não estou preparada para lidar com nenhum deles. Então só sorrio de lado, como se estivesse tudo bem.

— Da próxima vez que me deixar esperando, eu não vou errar.

Me aproximo, o empurro para o lado, puxo o punhal da parede e entro no carro sem dar explicações.

Kaique se vira, ainda pressionando a orelha.

— Espera aí, Luna, me deixa explicar!

Ele bate no vidro.

Suspiro, olhando para ele com puro tédio.

— É claro que pode. Mas hoje eu não tô a fim de escutar. Quem sabe na semana que vem você dê mais sorte.

Sorrio para ele e dou partida no carro.

— Espera, Luna! Vamos conversar!

Ele se coloca na frente do veículo, tentando me impedir de sair e eu acelero. Kaique precisa pular para o lado quando percebe que eu realmente não vou parar.

Continuo o caminho de volta para o acampamento apenas com o barulho dos meus pensamentos.

A raiva ainda queima devagar dentro de mim, mas agora misturada com a inquietação de que talvez eu esteja sendo um pouco dramática demais. Não é como se fôssemos casados.

Foda-se um contrato de compromisso.

Nosso vínculo é muito maior que isso. Ele escolheu ser minha família, e isso vale mais do que qualquer coisa.

Eu sei disso. Ele sabe disso.

Então, se apareceu algo mais importante do que a gente, eu espero sinceramente que seja o próprio armagedon.

Chego ao acampamento à uma da manhã; dessa vez não tive pressa nenhuma no caminho.

Estaciono o Camaro e avisto o carro do Kai logo à frente. Ignoro completamente.

Passo direto, entrando no prédio.

Minha fome finalmente resolve se manifestar, então sigo para o refeitório. Ainda há comida nos balcões, mas nada parece realmente apetitoso para o que estou sentindo.

Então sigo até a cozinha e encontro Rony — o chefe do refeitório — ainda por lá.

— Ei, Lua, ainda por aqui?

Sem comentários sobre esse apelido...

— Pois é. Acabei de chegar e vim atrás de alguma coisa pra comer.

Caminho até o freezer, procurando opções.

— E o que a mocinha deseja? — ele pergunta, se aproximando enquanto observa minhas escolhas.

Sorrio de forma travessa.

— Talvez aquela vitamina de morango que só você sabe fazer?

Faço a clássica cara do gatinho do Shrek.

Rony ri, balançando a cabeça.

— É claro, pequena Lua.

Ele pega os ingredientes e começa a preparar.

Me sento em uma cadeira próxima à bancada, esperando pacientemente. Nem todo mundo pode simplesmente invadir a cozinha assim..., mas claramente eu não sou "todo mundo".

Diferente dos outros semideuses, que normalmente chegam ao acampamento aos dez anos, eu estou aqui desde que nasci. Rony preparou minhas primeiras papinhas... e a melhor sopa cura‑ressaca do meu primeiro porre. Essas pessoas me viram crescer.

— Prontinho. Dia difícil? — ele pergunta, colocando um canudo e um enorme copo de vitamina na minha frente.

Pego o copo, satisfeita.

— Acho que não estou lidando com a nova rotina tão bem quanto imaginei. — Comento, refletindo sobre os últimos dias.

Rony cruza os braços, com aquele olhar sereno de quem já viu muita coisa.

— Você é apenas uma criança. Não se cobre para lidar com tudo como se nada te afetasse. Experiência e maturidade vêm de passar pelas turbulências com resiliência, e aprender com os machucados. Eles são parte importante do processo.

Absorvo as palavras e sinto um quentinho no peito.

— Obrigada, Rony. — Dou meu melhor sorriso. — Boa noite. Mais tarde trago seu copo.

— Tudo bem. Boa noite, menina.

Pego minhas coisas e sigo para o quarto.

Me acomodo na poltrona próxima à janela, bebendo a vitamina enquanto observo as estrelas. As palavras do Rony ainda acalentam meu coração conturbado.

Quando termino, deixo o copo sobre a mesa, tomo um banho rápido, refaço o curativo e finalmente me deito.

O machucado já está bem melhor, provavelmente poderei retirar os pontos no fim de semana.

Estou quase dormindo quando escuto batidas na porta. Suspiro e começo a levantar, mas então...

A pessoa se identifica:

— Luna, pequena, eu sei que você ainda está acordada. Abre a porta e vamos conversar.

Kaique tenta girar a maçaneta, mas eu tranquei.

Reviro os olhos, me acomodo novamente na cama e decido por ignora-lo.

Os minutos passam.

As batidas vão diminuindo... até cessarem por completo.

Aos poucos, o sono finalmente me domina.

***

A semana transcorre normalmente.

Não vejo nem Tobias nem Kaique durante todos esses dias.

Coincidência? Prefiro não pensar muito nisso.

Aos poucos, a rotina começa a entrar em um padrão agradável de normalidade.

Almoço com a Júlia na maior parte dos dias e acabo me aproximando da garota.

A energia leve e tranquila dela torna impossível manter qualquer distância, é como tentar evitar o sol entrando pela janela: você até fecha os olhos, mas ele continua ali, esquentando.

Na manhã de sexta-feira, acordo com o toque insistente do celular.

Atendo sem olhar quem é.

— Luna, acorda! Você tá atrasada!

Reconheço a voz do meu pai imediatamente.

Assim que escuto a palavra "atrasada", meu corpo desperta na hora.

— Ok, já estou de pé.

Ele desliga sem dar tchau, como sempre.

Suspiro e checo o celular. Ótimo. Atrasada, como sempre.

Levanto, tomo um banho rápido e escolho qualquer roupa sem pensar muito. Pego minha bolsa, colocando tudo o que preciso e saio do quarto correndo.

O percurso até o escritório do Thoth é apressado.

Entro sem bater e o encontro sentado atrás da mesa, lendo algo que parece extremamente importante.

— Pai!

Minha voz sai mais alta do que deveria, impulsionada pela correria.

Antes que eu possa falar qualquer coisa, ele me corta:

— O táxi já está a caminho.

Ele larga os papéis por um instante, olha para mim e me entrega algumas notas e um copo de café.

— Na verdade, eu ia pedir o carro emprestado..., mas isso ajuda.

Pego o café e deixo um beijo rápido em sua bochecha.

— Seu padrinho me pediu o carro emprestado hoje. O dele está na oficina.

— Certo. Tchauzinho!

Saio correndo de novo.

Antes que eu feche a porta, escuto a voz dele atrás de mim:

— Quando você vai tomar jeito, menina?

Olho por cima do ombro, dou um sorriso travesso e piscando um olho.

Ele bufa, mas não esconde o pequeno sorriso que aparece logo depois.

Corro pela trilha o mais rápido que posso e encontro o táxi já esperando. O motorista me deixa na entrada do campus, e eu disparo em direção à sala.

Vinte e cinco minutos atrasada.

Ótimo.

Chego, e a professora imediatamente me lança um olhar severo, a expressão dela me lembra as velhas videntes do Olimpo.

Me escoro na porta, escaneando rapidamente a sala até encontrar o Theo. Me aproximo discretamente e me sentando ao seu lado.

— Então, o que eu perdi? — pergunto em tom baixo.

— Nada muito importante. Ela só relembrou o que trabalhamos na aula passada. Como você está?

Alívio.

— Ok então. Bem, obrigada. E você?

— Melhor agora.

O sorriso brincalhão dele surge instantaneamente.

Conheci o Theo no segundo dia de aula. Ele se aproximou para conversar e, desde então, tem sido um amigo bem legal.

Ele me lembra um pouco a Júlia: otimista, extrovertido, animado. O charme descarado também faz parte do pacote, um dos pontos altos das minhas manhãs.

A manhã passa tranquila. Depois da última aula, caminhamos juntos para a saída do campus, ainda conversando. O braço do Theo está jogado preguiçosamente sobre meus ombros — um hábito que ele adotou desde a primeira semana de aulas. Mesmo depois de todos os meus empurrões, ele só ria e colocava de volta... então no fim, desisti e aceitei. Finalmente encontrei alguém mais teimoso que eu.

Estou rindo de uma piada idiota quando uma mão agarra meu braço e me puxa para fora do alcance do Theo.

A pressão dos dedos não é violenta, mas é firme, um aviso silencioso de dominância.

— Já chega de fugir, Luna. Nós precisamos conversar.

Kaique.

Antes que eu consiga responder, Theo dá alguns passos e se coloca entre nós.

— Algum problema, cara?

É quase fofo vê-lo tentar intimidar um semideus que poderia derrubá-lo sem nem precisar usar poderes.

Kaique mantém os olhos fixos em mim.

— Nada que seja do seu interesse.

O tom dele não é amigável — é direto, impaciente, resoluto.

Theo franze o cenho, encarando a mão de Kai ainda segurando meu braço.

Decido intervir antes que as coisas desandem.

— Tá tudo bem, Theo. Ele vai me dar uma carona pra casa. Até segunda.

Solto meu braço do aperto de Kaique e abraço Theo rapidamente em despedida.

— Certo. Se precisar, é só ligar. Até segunda! — ele diz, ainda com um toque de preocupação no olhar, mas respeitando minha decisão.

Observo ele se afastar por um instante.

Volto minha atenção para Kaique, que permanece parado como se tentasse analisar minha reação. Então começo a caminhar em direção ao estacionamento.

— Tá esperando o quê? O carro não vai vir sozinho até aqui.

Levanto uma sobrancelha, desafiando-o.

Kaique bufa e anda ao meu lado. Ele destrava o veículo, e eu entro sem cerimônia.

O silêncio preenche o carro enquanto ele dirige. Eu não tento puxar assunto.

Minha mente ainda ecoa tudo o que aconteceu naquela noite, e a verdade é que eu poderia não estar aqui se Tobias não tivesse aparecido.

A ferida ainda cicatrizando no meu abdômen é a prova disso.

— Finalmente encontraram uma forma de manter a boca mais esperta do Olimpo calada?

A pergunta dele rasga o silêncio, mas não me abala. Viro o rosto na direção do Kaique, mantendo a expressão impassível.

— Não tenho nada pra falar. Na verdade, você é quem quer falar comigo. Então pode começar.

O olhar dele se estreita.

— Primeiro de tudo: me desculpa por não ter aparecido. Eu tive um imprevisto.

Solto um suspiro audível, mas deixo que ele continue.

— Segundo: da próxima vez que você jogar a porcaria de uma das suas faquinhas em mim, eu vou descobrir onde você esconde todas e vou quebrar a ponta de cada uma.

Tento segurar a risada, falho miseravelmente. Ela explode do meu peito antes que eu consiga controlar. A lembrança de tê-lo assustado ainda é deliciosa.

Kaique bufa, fingindo irritação.

— E terceiro: eu odeio ficar brigado contigo. Me perdoa, pequena.

A sinceridade na voz dele é impossível de ignorar.

Solto um suspiro longo, sentindo minha expressão suavizar só um pouco.

— O que aconteceu naquele dia? A Júlia disse que você também não apareceu no pub.

A ruga que aparece entre as sobrancelhas dele é o primeiro sinal de que a resposta não será agradável. A tensão na mandíbula confirma.

— É complicado.

— É claro que é. Nada nunca é simples pra gente.

— Juro que não é desculpa. Só é... complicado. Eu não sei como explicar sem falar mais do que eu tô autorizado.

— É assunto do acampamento?

— Sim e não.

— Certo, vamos mudar a abordagem então. Onde você estava?

— Passei a noite e a madrugada inteira na clínica.

— É assunto oficial?

— Sim... e é tudo que eu posso falar, pequena.

— Você passou a semana fora. Mal vi seu carro no estacionamento.

Ele apenas concorda com a cabeça, nenhuma palavra a mais.

Assunto oficial.

Não é comum, mas de vez em quando Thoth e Apolo enviam alguns semideuses para missões oficiais do Olimpo. Nada muito grandioso, considerando que ainda estamos em treinamento. Na maior parte das limpar a sujeira do Olimpo.

Me pergunto que tipo de missão justificaria manter o Kai fora por uma semana inteira.

Se é oficial, Thoth sabia. E ele também sabia que algo estava errado entre a gente. Então, por não ter dito nada, provavelmente quer me manter fora do assunto.

As informações não resolvem tudo, mas explicam o suficiente, por enquanto.

— Tudo bem. Eu te perdoo.

Ele sorri, aliviado.

— Contudo, preciso deixar claro que a sua superimportante missão oficial me rendeu alguns belíssimos pontos novos.

O rosto dele muda instantaneamente — do alívio para puro choque.

Ele desvia os olhos da estrada por um segundo, me encarando, aterrorizado.

— Como assim?! O que aconteceu, Luna?!

Há preocupação genuína na voz dele.

Suspiro, sentindo um fiapo de normalidade voltar para a minha vida.

— Enquanto eu te esperava, uma criança da noite apareceu e me pegou meio desprevenida.

Levanto um pouco a blusa, revelando o curativo no abdômen.

— Mas ficou tudo bem. Só alguns pontos. Talvez a cicatriz não fique tão discreta, considerando quantas vezes me machuco nos treinos.

Omito a parte em que Tobias foi essencial para que tudo realmente ficasse bem.

Acabamos de começar a voltar para a nossa normalidade — não precisamos de um novo drama agora.

Kaique prende a respiração. Os olhos dele ficam fixos no curativo por vários segundos. Então ele respira fundo, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Eu sinto muito.

A culpa na voz dele é quase palpável.

Apenas balanço a cabeça e viro o rosto para a janela, observando a paisagem em movimento do lado de fora.

O silêncio se prolonga.

Seguimos o restante do caminho assim — calados, cada um preso aos próprios pensamentos.

— As coisas estão meio caóticas — ele diz enfim quando paramos em frente ao acampamento. — Provavelmente vou pegar alguns plantões durante o fim de semana.

— Tudo bem. Não se esforce demais. E toma cuidado.

— Pode deixar, pequena.

Ele se inclina na minha direção e encosta nossas testas por um momento. Fecho os olhos, aproveitando o contato.

As coisas ainda parecem frágeis entre nós.

— Você é a minha única família. E eu faria qualquer coisa por você. Não esquece disso.

— Eu sei.

Ele finalmente se afasta depois de deixar um beijo na minha testa.

Saio do carro, e ele me espera entrar no acampamento antes de ir embora.

Entro e sigo direto para o refeitório.

Não comi nada desde a manhã, e minha fome finalmente se manifesta. O salão está cheio, é horário de almoço. O zumbido de conversas se mistura ao som das bandejas deslizando, talheres batendo, risadas pontuais. O cheiro de comida quente me acolhe de um jeito agradável.

Pego meu prato, cumprimento algumas pessoas e procuro uma mesa vazia. Sempre prefiro comer em paz, sem plateia nem perguntas.

Ainda é cedo; tenho tempo para mastigar devagar e convencer o estômago de que o dia não vai me engolir inteiro.

Depois do almoço, sigo para o quarto. Troco de roupa pro treino e pego tudo que vou precisar no automático: faixas de mão, luvas de couro, garrafa d'água, uma das adagas reservas, elástico de cabelo. Aproveito para arrumar a mochila para mais tarde, tenho dois turnos no café, e no sábado vou resolver as coisas do projeto com o Tobias. Enfio tudo que vou precisar sem pensar demais — pensar demais tem sido minha ruína.

Assim que termino, fecho a mochila e saio.

— Isso é raro. Você chegou na hora.

Thoth me lança um olhar surpreso assim que entro na sala. O saco de areia balança num pêndulo pesado atrás dele.

Sorrio.

— Pois é. Melhor aproveitar então.

Chego perto e encosto um beijo rápido no rosto dele.

— Vamos usar a floresta hoje — diz, já caminhando para a saída.

Sigo atrás, ajustando as faixas de treino enquanto atravessamos o corredor e saímos. O ar frio do lado de fora morde a pele dos meus braços descobertos. A trilha começa logo depois da clareira; o chão é um mosaico de raízes, folhas úmidas e trechos de terra batida. A floresta tem um jeito próprio de observar, como se cada árvore fosse uma testemunha silenciosa.

Aquecemos correndo entre as árvores. Thoth define o ritmo e eu acompanho. Passos curtos nas subidas, amortecidos nas descidas; desvio de troncos, salto raízes, ajusto a respiração. O suor nasce na nuca e escorre pela coluna. O abdômen fisga a cada movimento brusco, uma lembrança teimosa de que eu não estou inteira. Basta ignorar.

— Muda a passada. Curta. Rente ao chão. — A voz dele vem por cima do ombro, sem perder o fôlego.

Obedeço. O corpo lembra. Sempre lembra.

Voltamos para a clareira. A luz do sol fura a copa das árvores em lâminas diagonais, cortando poeira no ar. Thoth aponta três troncos a distâncias diferentes, com marcas antigas de lâmina.

— Arremessos. Pegada martelo. Depois invertida.

Pego a adaga reserva. O metal frio encaixa na palma com intimidade antiga.

Primeira sequência. Respiro, firmo a base — pés na largura dos ombros, joelhos soltos, quadril encaixado. O ombro gira, o cotovelo vem junto, a lâmina sai limpa. Toc! Cravo a ponta na casca. Corrijo o ângulo mentalmente. De novo. Mais baixo. Toc. Melhor. Terceiro tronco, mais longe. Toc. Seguro o impulso de sorrir.

— Sem pressa — Thoth diz, caminhando entre os troncos. — Lembra que a mão obedece ao quadril, não ao contrário.

Fazemos variações: troco para a pegada invertida, lanço de perto, recuo dois passos, lanço de novo. O couro da luva esquenta; a madeira devolve cada impacto com um eco seco que vibra nos ossos da mão. O abdômen lateja.

— Onde está a sua adaga?

A pergunta dele vem sem drama, mas carrega peso.

Engulo em seco.

— Guardada. Mantenho na bolsa pra não esquecer.

Mentira.

Quando acordei depois da criança da noite, não encontrei a minha adaga. Desde então, ando com uma reserva. Ele me deu aquela adaga e admitir que eu perdi... não hoje.

Thoth me olha por um segundo a mais do que o normal. Não insiste.

— Combate.

Ele me joga uma lâmina de treino, peso simulado, sem fio, ponta romba. Eu giro o cabo na mão por reflexo. Martelo. Invertida. Martelo. O corpo responde antes do pensamento.

Thoth assume a guarda alta, queixo protegido. Avança com estocada curta e eu desvio o punho. Ele fecha a porta com o antebraço. Sinto a força. Ele sempre fecha todas as malditas portas antes mesmo de eu tentar abrir.

Ele testa meu tempo: finta no alto, corte diagonal simulado na minha guarda, busca meu centro. Eu respondo com jab–direto de mão vazia pra quebrar o ritmo, baixo a lâmina como se fosse um slap cut no antebraço dele. Ele captura meu pulso no ar — claro que captura — e tenta tracionar pro clinche, o contato do corpo dele grudado no meu para controlar meus braços e cortar minha mobilidade é sufocante. Giro o quadril, quebra de base no tornozelo dele, escapo para a lateral.

O abdômen protesta com uma facada curta. Ignora, Luna.

— Respiração — ele lembra, sem parar.

Eu respiro.

Ele acelera. Muda ângulo, entra em linha e me força a recuar. Sinto a casca de uma árvore nas costas por um milésimo. Ele avança. Eu troco a pegada no meio do movimento, puxo o cotovelo rente à costela e simulo um corte curto de baixo pra cima. Ele bloqueia com o antebraço, busca meu punho de novo, eu rolo o punho por dentro e quebro a pegada.

A gente segue nessa dança feia e bonita: passos em meia-lua, folhas esmagando sob a sola, respiração em estalos, o tilintar seco da lâmina de treino batendo no antebraço dele. O tempo se comprime até que tudo vira timing: um erro de meio segundo e eu estou no chão.

— Mais baixo o queixo — ele corrige. — E para de proteger o abdômen antes do golpe. Eu vejo você proteger primeiro e golpear depois.

Droga.

Ele vem de novo. Eu deixo o tronco solto, faço ele acreditar que eu abri a guarda, avanço de ombro pra deslocar o centro. Ele cede um passo. Um passo é vitória.

Thoth ergue a mão. Fim.

Encosto as mãos nos joelhos por um segundo e deixo o ar entrar. O coração bate forte, mas disciplinado. O abdômen pulsa, porém inteiro. Melhor do que ontem.

— Suficiente por hoje — ele diz, medindo meu rosto. — Não force o machucado.

Nem me dou ao trabalho de pensar em quando ele descobriu, ele sempre sabe.

Assinto. Agradeço, em silêncio, por ele fingir que acredita na minha resposta sobre a adaga... e por não ter me feito pagar por ela agora.

No caminho de volta, a floresta devolve o próprio som: galhos rangendo leve, um pássaro que não sei o nome, o cheiro de terra molhada que gruda na pele. Prendo o cabelo num rabo alto e sinto o corpo inteiro conversar entre si: cansaço, alívio, fome outra vez, uma pequena paz que vem com a exaustão.

Agradeço aos deuses por não ter piorado o meu ferimento. Por hoje, já é vitória suficiente.

Após o banho, escolho uma calça preta de tecido firme com modelagem reta, uma camiseta listrada de manga curta, coturnos pretos de sola baixa e uma jaqueta jeans escura — perfeito para um dia agitado.

Penteio meu cabelo, deixando-o liso, com cachos sutis nas pontas. Aplico uma maquiagem simples e finalizo com batom vermelho. Pego minha mochila, ajusto as alças e saio do quarto.

Antes de ir, passo no escritório do Thoth para me despedir.

Depois sigo para o refeitório, pego um lanche e vou comendo pelo caminho até a entrada do acampamento.

Quando chego, encontro Kaique já me esperando no carro, mesmo sem eu ter avisado nada.

— Boa noite.

Entro e me acomodo no banco do passageiro.

— Boa noite, pequena. Como você tá? — ele pergunta, dando partida no carro. O tom é leve, familiar.

— Bem. Como foi no posto?

— Até que bem calmo hoje. Vou aproveitar e descansar um pouco, porque amanhã vai ser mais corrido.

Fim de semana sempre significa plantão intenso para o Kaique.

Solto um riso.

— Até parece que Apolo vai deixar. — Olho para ele com pura diversão. — Você perdeu uma semana de treino. Ele vai descontar tudo em uma única noite.

Kaique resmunga algo baixo, a expressão ficando tão cômica que eu começo a rir ainda mais.

Seguimos conversando o caminho inteiro, sem interrupções.

Quando ele finalmente estaciona em frente à cafeteria, já terminei meu lanche e pego minhas coisas.

— Bom trabalho, pequena. Te pego às seis amanhã?

— Na verdade, não precisa. Vou fazer um trabalho da faculdade com um colega.

Omito a parte de quem é esse colega.

Kaique arqueia uma sobrancelha, mas não insiste.

— Hum... Tudo bem. Até depois, então.

Ele beija minha testa antes que eu saia do carro.

Entro na cafeteria e vou direto para o vestiário. Guardo minhas coisas, pego o avental e sigo para a área de atendimento.

O lugar já está movimentado, mesmo ainda não sendo horário de pico.

Hoje, cheguei na hora — pequenos milagres.

A noite começa a cair e o movimento só aumenta. Afinal, somos o único café da região que funciona 24 horas, e no fim de semana isso faz toda a diferença em um bairro universitário.

Aos poucos, o pessoal do turno da madrugada vai chegando. O expediente está apenas começando.

— Ei, Luna, pode tirar seu intervalo. Eu assumo até você voltar.

Alex chama minha atenção enquanto finaliza um pedido no caixa.

— Certo, obrigada.

Dou espaço para ele assumir e me afasto.

Enquanto observo Alex rapidamente, noto o de sempre: ele é alto, a pele clara contrastando com o cabelo preto liso. Seus olhos azuis‑cristal chamam atenção e têm aquela intensidade silenciosa. O físico dele é equilibrado — nem forte demais, nem magro demais — e sua presença é discreta, mas marcante.

Alex sempre foi reservado. Depois de terminar o treinamento básico e alcançar a idade mínima, voltou a morar com a mãe e o irmão.

É praticamente tudo o que sei sobre ele.

Sem prolongar o pensamento, sigo para o escritório do meu padrinho. Já faz um tempo que não o vejo.

Bato na porta, e ele autoriza minha entrada.

— Oi, dindo.

Me aproximo e me sento no sofá da sala.

Dionísio fecha uma pasta de documentos, cruza os dedos sobre a mesa e me observa com leve curiosidade.

— Olá, Luna. Como você está? Tirando o intervalo?

— Yep, estou bem. Posso ficar por aqui?

— Claro. Eu lhe chamo quando for hora de voltar.

Sorrio.

— Obrigada.

Me deito no sofá, deixando meu corpo relaxar.

Apesar do lado divino não se cansar, o lado mortal precisa de descanso — comida, água, sono, tudo aquilo que os mundanos precisam.

A verdade é que nunca senti realmente essa necessidade.

Quando era mais nova, me perdi na floresta. Passei dois dias sem comer, sem água, sem dormir direito.

E, quando me encontraram, eu me sentia... perfeitamente normal.

Thoth sempre dizia que eu era jovem demais para perceber o impacto real dessas coisas.

Mas eu sabia a verdade: eu estava bem.

A voz de Dionísio me traz de volta.

— Luna.

— Hum...

— Está na hora de voltar, meu amor.

Ele está ao meu lado.

Abro os olhos, me sento e solto um suspiro suave.

— Sim, senhor.

Por um momento, encosto minha cabeça no ombro dele, curtindo a familiaridade do gesto. Ele me oferece um copo.

Pelo cheiro, já sei o conteúdo: mocha com chocolate extra.

Nego com a cabeça.

— Ainda sem vontade de comer? — ele pergunta, tomando um gole.

— Pois é. Não entendo por que vocês comem se não precisam.

Me refiro a ele, Thoth, Apolo e Ártemis.

Dionísio dá um sorriso pequeno.

— Força do hábito. No começo, precisávamos nos misturar. Não era muito normal para os humanos ficar dias sem comer.

Faz sentido.

— Entendi. Agora deixa eu ir.

Me inclino, deixo um beijo rápido no rosto dele e me levanto. Saio do escritório e retorno à cafeteria.

Falo com Alex e assumo o caixa novamente.

O movimento está cada vez mais intenso — parece que triplicou em trinta minutos.

A madrugada avança, e aos poucos um pensamento começa a dominar minha mente: o fim do expediente... e meu encontro com o Tirano.