Her Sweet Revenge
7 We all hope you do the same, aw sugar.
O barulho irritante do aparelho que controlava minha respiração e meus batimentos cardíacos, enquanto abria meus olhos devagar, como um drogado ou bêbado que acaba de acordar. Quando me toquei onde estava, dei um pulo para trás, assustado. Notei que não sentia mais minhas pernas, e imaginei que fosse culpa do sedativo, mas quando olhei para baixo, notei que não era o sedativo que tinha me deixado sem sensibilidade: Minhas pernas estavam cheias de pinos, e tinha uma espécie de gaiola em torno delas. Senti meus olhos marejarem, mas engoli o choro ao ouvir uma risada conhecida, que me fez tremer.
– Como você está se sentindo, Harold? – Perguntou Lotte com o costumeiro cinismo na voz. – Ou melhor, o que você não está sentindo? – Riu mais e sorriu, mostrando-me os dentes.
– Minhas pernas estão “mortas” e imagino que a culpa seja sua não é? – Perguntei irritado.
– Pelo visto esses médicos fizeram um ótimo trabalho com você. Eu devia ter te dado uns tiros, estaria poupando meu trabalho e já teria acabado logo com isso. – Resmungou.
– O QUÊ?! – Exclamei. – VOCÊ ESTÁ MALUCA, SUA VADIA? – Sabia que ela iria me punir pelo que disse, mas eu estava cego de raiva, e não aguentava mais esses joguinhos. Se fosse pra se vingar, que se vingasse logo e me deixasse em paz. Ela quer ver até onde eu aguento, mesmo sabendo que eu não tenho paciência para esse tipo de coisa.
– Você me chamou de que? – Ela perguntou, olhando para meus olhos. Pude notar que sua pupila dilatou quase que por completo, deixando seus olhos mais negros que verdes. – Você me chamou do que, Harold? – Perguntou novamente, cerrando os punhos com força, e rangendo os dentes. Fiquei quieto novamente, olhando para o chão. Ela fez um gesto com a mão, que me fez olhar para ela, e falar novamente o xingamento.
Charlotte me encarou com um sorriso maléfico, e se virou em uma velocidade sobre-humana para os aparelhos que me ajudavam a respirar – que na verdade estavam lá para enfeitar, já que eu estava bem melhor da cintura para cima.
– Vamos ver quanto tempo o peixe fica fora da água. – Ela disse sorrindo, antes de desaparecer.
No mesmo instante em que Charlotte sumiu, os aparelhos explodiram como mágica, em um estampido ensurdecedor. Os estilhaços voaram em meu rosto, fazendo leves escoriações. Cinco minutos depois, a enfermeira chegou e quis me sedar. Relutei, e quando ela me transferiu de quarto, tive uns minutos para pensar no plano de Charlotte. Era tão obvio, que nem sei como que não descobri antes. Eu precisava fugir, antes que ela me impedisse de escolher o que eu quero. Mas pra isso, precisava falar com alguém, qualquer pessoa. Mas quem me ajudaria? Clair não pode nem sonhar que é Charlotte que está fazendo isso tudo conosco. Eu não tenho ninguém, além do meu antigo amigo. Acho que só ele poderia me ajudar...
[Charlotte]
– Hey Frank, eu cheguei. – Exclamei antes de entrar no apartamento. Estava exausta. Essa coisa de vingança estava me desgastando muito, ainda mais por não poder contar para ninguém o que eu estava tramando.
Ouvi algumas risadas, e abri um largo sorriso ao notar quem era o dono delas. Gerard, meu amigo de Newark, veio visitar Frank e me ver também. Corri para abraça-lo, e ele me rodopiou no ar.
– LOTTE! COMO VOCÊ ESTÁ LINDA! – Ele exclamou antes de me roubar um selinho rápido, e segurar meu rosto com as duas mãos.
– Olhe para você, senhor Lee! Está maravilhosamente bem, e lindo, como sempre! Se não fosse homossexual... – Disse brincando enquanto ele dava uma piscadinha pra mim.
– Você sabe que se eu preferisse as meninas, o anão aqui não teria chances com você. – Piscou para Frank e gargalhou. – Mas que saudade, minha irmãzinha!
– Nem me fale Gezzy. Vamos nos sentar que eu preciso te contar muitas coisas! – Disse o pegando pela mão, e puxando-o para sentar no sofá. Frank me acompanhou um tanto quanto rubro de ciúmes. Achei um pouco estranho, porque ele sabia que Gerard era como um irmão para mim. Além do mais, Gerard era o único que sabia da minha condição atual. Foi o único que me mandou cartas em meu “exílio” na Itália. E o único que me apoiou quando eu disse que iria me vingar. Então, era por isso que eu precisava mesmo conversar com ele. Eu precisava muito saber se eu devia – ou não – contar para Frank sobre meus poderes, ou se eu devia continuar escondendo dele tudo o que eu podia fazer, e tudo o que eu era – e estava – sendo capaz de fazer. São tantas dúvidas, que acho que vou levar Gerard para um passeio amanhã, só nós dois.
– E então, me diga princesa... Como estão as coisas em Verona?
– Do mesmo jeito de sempre, você sabe... Mamãe anda bem ocupada com a imobiliária, papai trabalha feito louco naquele banco... Andam bem assim. Sua avó, como está?
– Bem... Ela está de cama, você sabe. Mas Jessica e eu estamos cuidando bem dela. Estamos até nos dando melhor, sabia? Vovó acabou por nos unir mais. – Riu um pouco. – Mas eu não estou aqui para falar disso, você também sabe bem. – Piscou para mim. – O assunto é bem mais delicado... – Suspirou. – Queria falar sobre a sua... Vingança.
Eu suspirei fundo por umas três vezes seguidas.
Já era a hora. Eu teria que contar para Frank como eu estava fazendo isso, e não teria outro jeito. Ele estava se envolvendo demais: acabou por me infiltrar no hospital, falsificou documentos, colocou sua vida em risco... Estava sendo injusto eu não contar a ele toda a verdade.
Lembro que li no livro que quando se ama alguém, o segredo deve ser compartilhado. Eu amava Frank, e ele tinha o direito de saber.
– Gerard, você vai ouvir essa história de novo, então se prepare. – Falei baixinho e apertei sua mão.
“Vai dar tudo certo, confie em mim” – Gerard sussurrou mentalmente para mim e eu assenti com a cabeça levemente, antes de começar a falar.
– Frank, meu amor. Venha aqui. – O chamei para sentar ao meu lado, e ele veio rapidamente com um sorriso leve nos lábios. – Você sabe de toda aquela coisa da vingança, não sabe? Que eu te disse que fiquei um tempo em Verona para planejar ela, certo? Bem, eu meio que menti. Meio porque eu realmente estava planejando a vingança, mas não do modo que eu te disse no início... Em Verona, a família Manfredini tem uma tradição antiga: toda mulher, se torna ajudante da Morte em certa época da vida. Antes de eu ir para a Itália, já tinha pensado em uma vingança convencional, mas esse pequeno detalhe, veio muito bem a calhar. Recebi uma carta dos meus pais, dizendo que tinha que viajar imediatamente. Obedeci, obviamente, e fui para Verona. Lá chegando, houve uma reunião – só de mulheres, devo ressaltar – em que me foi explicado, tudo o que eu deveria saber sobre a minha nova condição. Entregaram-me o livro, e me deram as regras para ler. Colocaram-me em um tipo de quarentena, e eu teria que ficar sozinha, e passar por toda a minha transformação... Eu ganhei poderes, fiquei mais bonita, mais forte. Entendi como funcionava, achei uma brecha nas regras, e tratei de pensar em uma boa vingança. Sabia que você ia me ajudar, mas precisava contar para alguém antes, alguém de fora, que pudesse me ajudar caso você não pudesse, e esse alguém foi Gerard. O único amigo que me mandou cartas no meu exílio. Ele soube primeiro e foi um grande alivio contar. Saber que eu poderia fazer as coisas mais livremente. E agora, você sabe, e isso deixa a minha consciência mais leve, nesse ponto. – Discursei e ele ficou boquiaberto.
– Então... Tudo isso que ocorreu com Harold foi sua culpa? – Perguntou.
– Sim. – Respondi.
– GENIAL! COMO EU NÃO TINHA PENSADO NISSO ANTES! Você é um gênio, meu amor! – Ele exclamou e me beijou de surpresa.
– Tá, mas... Não te assusta esse fato, não? – Gerard disse em meio tom de voz. – Sabe, sua namorada pode matar pessoas.
– Gerard! – O repreendi.
– Ora, é verdade, Lotte!
Frank riu. – Sei que a mim, ela não vai machucar. – Acariciou meu rosto.
Gerard gargalhou. – Você está deitando ao lado de uma pessoa que matou pessoas inocentes para se vingar. Como você se sente? – Perguntou sorrindo com certa maldade.
– GERARD! – Gritei e ele gargalhou mais.
– Só quero saber como ele se sente, ué... – Frank olhou para baixo e só balançou a cabeça.
– Eu a apoiei desde o começo nisso tudo, então não vejo problemas. Aliás, tudo pareceu um acidente, e eu prefiro pensar que foi assim. – Ele segurou minha mão. – E eu confio nela.
– Awwwwwwwwwwwwwwn. – Gerard colocou as duas mãos no rosto. – Você são o casal mais lindo que eu já vi! – Disse com uma voz bem afeminada.
– Você é uma vergonha para os Lee, Gerard. – Resmunguei.
– Ah, ora! Não elogio mais... – Ele fez bico e eu ri dele.
– Duvido não elogiar. Você me ama maninho. – O abracei.
– Hmpft. Sorte a sua. – Revirou os olhos.
– E aí, cambada. Vamos sair pra comer? – Meus olhos e os de Gerard brilharam ao ouvir ‘sair para comer’. O encarei e ele sorriu, pegando fôlego junto comigo:
– CLAAAAAAAAAAAAAARO!
Eu, Frank e Gerard saímos para comer uma pizza, mas não contávamos com um encontro inesperado no caminho de volta...
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