Her.
6 Memórias.
Notas iniciais

Floresta Encantada. Muitos anos atrás.
Regina permanecia em silêncio, apenas observando as lágrimas caírem pela alva pele de Branca de Neve. Com certeza seria mais difícil para a garota superar a morte do pai, do que a Rainha.
A mão de Branca estava trêmula quando a apoiou no caixão e sussurrou com a voz embargada:
– Adeus, papai.
Soluçando ela se afastou novamente e se virou, caindo nos braços da madrasta, que também não conteve as lágrimas.
A morte abraçou Leopold no meio do jantar com um infarto.
Mesmo sendo forçada pela mãe a se casar, Regina acabou gostando do Rei, criando um afeto. O mesmo valia para Branca.
Quando a mais nova parecia mais calma, as duas se separam e foi a vez da Rainha ir até o caixão. Caminhou lentamente até ele e depositou uma rosa branca na superfície de mármore.
– Sentiremos sua falta. – disse enquanto seu braço escorregava de volta ao lado do corpo.
Ficaram por mais algum tempo velando o corpo do Rei e depois se separaram, indo cada uma para seus aposentos, sem dizer nenhuma palavra.
A Rainha estava sentada em sua penteadeira, focando sua visão no espelho, mas os pensamentos estavam bem longe dele.
Ela se perguntava mentalmente o porquê de todas as pessoas que amava saírem de suas vidas tão rapidamente. O primeiro foi Daniel, seu verdadeiro amor, que morreu em um acidente a cavalo. Depois, sua mãe, que pagou um preço bem caro por usar magia. E, agora, o Rei. Ainda lhe restava seu pai e Branca de Neve, e Regina tinha um medo enorme de perder os dois.
A morena só saiu de seus pensamentos quando ouviu uma voz rouca atrás de si e pôde ver o seu reflexo no espelho.
– A morte é engraçada, não? – a voz disse. Regina levantou uma sobrancelha e se virou para trás, observando a loira de pele escura e vestido verde caminhar pelo seu quarto.
– Quem diabos é você? – foi tudo o que disse, ainda observando a figura.
– Você não me conhece, mas eu sei quem você é, Regina. – comentou. Aquilo deixava a Rainha ainda mais confusa. – Meu nome é Úrsula, mas pode me chamar de Vossa Majestade.
Regina soltou uma risada e levantou ainda mais a sobrancelha, como se aquilo fosse possível.
– Vossa Majestade?! – debochou. – Que eu me lembre, Úrsula é só uma lenda criada pelas sereias e espalhada pelos piratas…
– É mais real do que parece, querida. – dizendo isso, Úrsula deixou seus tentáculos saírem por debaixo do vestido, assustando Regina.
– Como isso é possível? – se agarrou na cadeira em que estava.
– Longa história, deixamos isso para outra hora… – a Rainha dos Mares suspirou. – Não vim aqui para papo furado. – caminhou mais um pouco, sentando no divã vermelho sangue que ali tinha. – Vim aqui para negócios!
– Que tipo de negócios? – questionou e se levantou, arrastando seu vestido negro e parando a poucos passos de Úrsula.
A mesma sorriu e o olhou para a morena, que tinha uma expressão indecifrável.
– Eu conheci sua mãe antes dela ter aquele… Destino ruim. – Regina suspirou com aquelas palavras. – Portanto, sei que também possui magia.
– Possuo, não pratico! – respondeu ferozmente, como se tivesse sido ofendida. – Nem faço questão disso.
– Melhor mudar de ideia, queridinha. – Úrsula se levantou. – Não sabe o grande potencial que tem, não sabe o grande estrago que faria com ele… – se aproximou. – Não conhece o coração que carrega no peito. – quando fez menção de tocar no peito de Regina, a mesma se afastou e empurrou-a de volta ao divã.
– Do que você está falando? – Regina balançou a cabeça. Estava tão confusa e assustada.
Úrsula sorriu diabolicamente.
– Eu estou juntando aquelas pessoas que tem as mentes mais sombrias, ou os corações mais perfeitos. Aquelas que mais sofrem, para trazê-los a felicidade eterna. – se acomodou confortavelmente e subiu novamente o olhar. – E você, Regina, é uma delas!
A Rainha cruzou os braços e levantou o rosto, encarando aquela criatura mágica com seus olhos semicerrados. – Continue. Onde está querendo chegar?
– Você já sofreu muito, presenciou as trevas e nunca cedeu ao seu lado… Prefere ficar longe da magia, achando que assim será melhor, mas sempre derrama lágrimas de qualquer jeito. – voltou a se levantar. Regina nem se mexia. – Não está cansada? Não quer mudar isso? – deu dois passos, se aproximando. – Eu posso ajudar… Junte-se a nós, Regina. E nunca mais sofrerá novamente.
A morena suspirou e sussurrou no tom mais rouco que pôde:
– Nunca.
Úrsula estava embasbacada. Ninguém nunca negou nada a ela.
– Desperdício patético de habilidade. – riu nasalado. – Vou fazê-la pensar o contrário.
Assim que a ameaçou, ela sumiu em uma fumaça azul, deixando Regina parada no meio do quarto.
Que diabos ela faria?
Uma semana depois. Antiga casa de Regina.
A carruagem da Rainha parou em frente a sua antiga casa. Aquele lugar lhe trazia boas e más lembranças, e ela queria esquecer ambas.
O lugar não mudou nada desde que Regina saíra dali, tinha o mesmo clima cinzento de antes. E parecia mais cinzento agora.
Quando ela empurrou a porta, a madeira rangeu. A casa estava em um silêncio, o que deixava-a preocupada.
– Papai? – chamou, elevando o tom de sua voz, ouvindo-a ecoar pela residência.
O coração de Regina só sossegou, quando ela observou o senhor grisalho caminhar até ela com um lindo sorriso e lhe apertar os ombros.
– Minha filha. Eu senti sua falta! – ela sorriu ao ouvir sua voz.
– Eu também, pai! – se abaixa, encaixando-se no abraço do homem. – Que bom que está bem!
Regina solta um longo suspiro, que é ouvido por Henry, o mesmo desfaz o abraço e observa a face amedrontada de sua filha.
– O que está acontecendo? – Henry perguntou e Regina soube que teria de contar naquele momento, só estava criando coragem para tal.
– Eu preciso que você venha morar no castelo comigo. – assim que disse isso, ele tentou falar algo, mas ela o cortou. – Para a sua própria segurança, papai. Por favor, sem perguntas, só faça isso por mim?
Castelo da Rainha. Dois dias depois.
– Não! – grita a Rainha com toda a força que havia em seus pulmões. Úrsula havia ameaçado matar todos aqueles que ela amava, e agora, resolveu sumir do mapa. Boa coisa não vinha. – Achem-na! Procurem por céu, terra e, principalmente, mar! Mas, achem essa bruxa! – a última parte ela gritou ainda mais forte e bateu uma das mãos na mesa de reuniões. Os guardas se assustaram e correram para fora da sala, resolvendo agir.
Branca de Neve e Encantado permaneceram calados, apenas observando a cena.
– Regina… – Branca se pronunciou, com toda aquela sua calma. A Rainha parecia soltar fogo e não a encarava. – Fique calma. Úrsula deve estar blefando… Nunca faria o que disse!
– Não me venha com seus discursos agora, querida… Você não ouviu as palavras dela como eu ouvi. – Regina respondeu com os olhos cheios de lágrimas.
– Papai não gostaria de te ver assim! – a outra aumentou seu tom de voz e Regina finalmente a olhou.
– Seu pai está morto! Não quero que aconteça o mesmo com o meu!
Silêncio.
Branca de Neve apenas se levantou da mesa e saiu andando, o Príncipe foi forçado a ir atrás dela.
– Ótimo, que droga eu fiz? – agora ela se lamentava. Não queria ter gritado com a enteada.
Regina cruzou os braços sobre a mesa e a fundou seu rosto neles, se permitindo chorar.
Perder seu pai era a última coisa que ela queria.
Quando seus soluços e suas lágrimas cessaram, a morena ouviu uma pequena movimentação no pátio do castelo.
Se levantou da cadeira e andou até a grande janela, podendo observar seus guardas fazerem um rebuliço lá em baixo. Também tinha um homem sendo amarrado.
O que estava acontecendo lá em baixo?
***
Quando Regina desceu correndo as escadas do castelo, faltava muito pouco para que seus guardas atirassem as flechas que apontavam para o homem amarrado na madeira, mas bastou um grito da Rainha para que eles parassem o que estavam fazendo.
Ela mandou que lhes dissessem porque o rapaz estava sendo executado sem o seu consentimento, e teve um “Tentou roubar o castelo” como resposta.
Ela caminhou até ele e retirou a venda de seus olhos, seus lindos olhos azuis. E ela amava aquela cor.
Seus cabelos loiros escuros estavam bagunçados e sua aparência dizia que ele havia dormido no meio do mato. O cheiro de floresta que exalava de seu corpo apenas confirmava o fato.
Se não fosse por um dos homens ao seu lado, ela, com certeza, teria observado o loiro por mais algum tempo.
– Vossa Majestade, o que faremos com ele?
Oh, ela sabia o que fazer com ele…
– Levem-no ao calabouço. Terei uma conversa com esse rapaz.
***
Não importa se fosse sério, ou banal o crime cometido. Regina nunca mataria ninguém. Fato.
Ela via algo mais naquele sujeito sentado no chão de seu calabouço. Talvez o jeito como ele aceitou sua punição, ou como não a agrediu com palavras.
Aquele ladrão realmente a interessara.
A Rainha andou alguns passos para frente, fazendo com que os saltos de suas botas martelassem contra o chão de pedra, e despertasse o bandido de seus pensamentos.
Quando ele se virou, ela encarou aqueles olhos azuis e por muito pouco não perdeu a força em suas pernas. Tamanha era a intensidade do olhar.
– Posso saber o seu nome, ou devo simplesmente chamá-lo de Ladrão?
Ela ainda fitava-o, e não queria parar.
– Robin. – respondeu sem muita emoção. – Robin Hood.
– Ora, acho que não faz diferença, então… Ladrão. – Regina levantou uma das sobrancelhas enquanto sorria de canto.
– Por que todo esse papo furado se vai me matar? – ele verbalizou diretamente.
Ela parou de sorrir e suspirou.
– Não vou matar você.
Robin franziu o cenho.
– Não? – riu sem humor. – Então por que me mantém aqui?
Regina caminhou até as barras de ferro que cercavam a cela e falou para o homem:
– Porque preciso da sua ajuda. – ele continuava sem entender, então ela apenas continuou. – Ouça, estou com uns problemas e preciso de alguém que proteja a vida de meu pai.
– E acha que sou digno disso? – o loiro levantou-se do chão e encarou ainda mais a Rainha.
– Você é um ladrãozinho de meia tigela que tentou roubar o palácio. Tem coragem suficiente para tal. – ela sorriu mais uma vez e voltou a andar para fora do calabouço. – Começa amanhã!
***
Quando o ladrão começou a trabalhar para a Rainha, farpas eram trocadas a todo o momento. Qualquer coisa era motivo de piadinhas ou olhares flamejantes. Eles eram gelo e fogo.
Ou, pelo menos, pensavam assim.
Não perceberam quando as ofensas viraram gracinhas de duplo sentido, e nem quando não conseguiam mais ficar longe um do outro.
Começou com um beijo demorado no corredor.
Há algumas semanas eles estavam nessa, e não queriam parar mais.
Robin e Regina estavam sentados diante a lareira do quarto da morena, conversando sobre qualquer coisa e tomando uma taça de vinho, quando uma batida na porta os interrompeu.
– Vossa Majestade? – o soldado parecia assustado, e Regina logo o reconheceu.
– Diga, Berkley. – sua voz saiu mais alto, para que ele pudesse ouvi-la do outro lado da porta.
O homem nada disse, apenas cochichava algo com alguém do outro lado. A Rainha, bufando, levantou do tapete e abriu um pouco a porta, revelando Berkley e seu companheiro, Rivers, com olhos arregalados. Um era mais baixo e mais magro que o outro, chagava a ser engraçado.
– Andem. Abram a boca. – ela mandou, perdendo um pouco de sua paciência.
– Úrsula. – Rivers soltou. – Estamos sendo atacados.
***
Regina nunca pensou que enterraria seu pai. Para ela, ele era imortal. Um verdadeiro herói.
O homem que lhe acalmava a noite quando tinha pesadelos, que lhe ensinou a cavalgar e a dançar tão bem. Que lhe contava histórias e fazia o melhor cordeiro assado que ela já comera na vida.
Agora restavam apenas memórias. Memórias de um bom pai que se foi cedo demais.
Naquele momento, a Rainha só pensava na cena que presenciou: O vermelho e pulsante coração de Henry sendo esmagado pelas mãos de Úrsula.
E a vadia do mar ainda ria.
Aquela bruxa tirou tudo que ela mais amava, só lhe restando vingança em seu coração.
A morena não reparou quando tempo velou o corpo de seu pai, apenas parou quando sentiu uma mão em seu ombro. Era Robin.
– Eu sinto muito. – sua voz começou baixa. – Falhei com meu compromisso e minha honra. Entendo se quiser me punir.
Regina sabia que aquela não era uma conversa de duplo sentido que eles costumavam ter.
– Você não teve culpa. – ela se virou e ele abaixou sua mão até a dela. – Eu o mantive ocupado, se isso aconteceu ao meu pai, a culpa é minha.
A Rainha abaixou seu olhar até suas mãos entrelaçadas e sorriu. Estava começando a gostar do ladrão. Quem diria?
Porém, parou de sorrir quando notou algo um pouco acima de seu pulso direito. Ela virou o braço para ter uma visão mais clara e quase caiu pra trás quando se deu conta do que era.
– Algo errado? – Robin perguntou, se aproximando ainda mais da mulher.
Naquele exato momento, uma conversa com uma fadinha muito amigável lhe veio a mente.
“Você precisa de amor!” Ela dizia. “É possível encontrar o amor novamente.”
Aquela duas frases ecoavam por sua mente. E a coisa mais sensata que Regina fez naquele momento foi correr para longe, como da primeira vez.
Ela estava com medo de perdê-lo também, não podia deixar que Úrsula ganhasse.
“Ali, o homem com a tatuagem de leão!”
Quando estava longe o suficiente de Robin, ela só pretendia matar a bruxa do mar, assim como ela fez com o seu pai. Esmagar o seu coração.
Ali, uma nova fase começava. Nem Branca e muito menos Robin poderiam parar isso.
Sorrindo diabolicamente, mais uma frase lhe veio a mente:
“O pó de fada nunca falha!”
***
Aquela maluquice de vingança despertou um lado de Regina que ninguém nunca tinha visto.
Aprendeu a controlar sua magia, tendo aulas com Rumpelstiltskin e começou a espalhar terror pelo Reino, achando que assim Úrsula teria algo a temer.
Regina causou o caos por um bom tempo, chegando a ser chamada de Rainha Má por alguns. Amedrontando as pessoas, ficando fria, fechada e escurecendo seu coração com trevas, sem deixar espaço para o que ela mais precisava: Amor.
Branca de Neve não aguentava mais ver a madrasta assim e tentou por um fim nisso, mas apenas conseguiu se magoar ainda mais.
– Regina não tem mais jeito. – foi o que a moça de pele alva falou ao ladrão. – E eu fico muito triste por isso… Ela só foca nessa vingança e acaba se esquecendo que tem pessoas que a amam… – dizendo a última frase, ela olhou para Robin, que sorriu fracamente.
Um estalo surgiu na cabeça do arqueiro.
– Acho que já sei o que fazer!
Antes que Branca perguntasse o que era, ele já estava longe.
Quando Robin encontrou Regina, ela estava sentada na sala do trono olhando para o nada.
Berkley e Rivers estavam ao seu lado, suando frio e sem dizer uma palavra.
– Regina! – ele chamou, sem delongas. – Precisamos conversar.
– Não estou disposta, ladrão. – revirou os olhos. – Quer se retirar?
– Não! Você vai me ouvir! – ele já estava em sua frente e cruzou os braços.
Ela apenas levantou o olhar e uma das sobrancelhas, e abanou o ar para que os dois soldados fizessem qualquer coisa.
Os dois correram sem parar para pensar.
– Espero que isso valha a pena depois… – resmungou. Robin nem deu ouvidos.
– Não acha que está levando isso tudo a sério demais? – Regina suspirou.
– Estou começando a me arrepender.
Ele, mais uma vez, a ignorou.
– Só pensa nessa vingança idiota! Você quer acabar com Úrsula, mas está acabando é consigo mesma!
– Ela matou o meu pai! – Regina gritou.
Aquela frase ecoou por todo o cômodo e, com certeza, por todo o castelo.
Robin nem se mexeu.
– Você quer que eu faça o quê? Deixe-a passear por aí? Ela merece o mesmo destino! – lágrimas ameaçavam cair por aqueles olhos cor de chocolate.
– Eu quero que você pare de se culpar e de planejar essa coisa estúpida! – ele também gritou. – Você não está só se machucando com isso, está machucando todos que AMAM você! Não percebe como Branca de Neve está arrasada? – Regina abaixou o olhar. – Não percebe como eu estou me sentindo?
– Como? – ela pareceu não ter ouvido.
– Que droga, Regina! Eu vou ter que dizer com todas as letras? – ele já estava irritado e falava sem parar. – Eu me importo com você e… Eu gosto muito de você para te ver se autodestruindo.
Uma lágrima da Rainha foi derramada.
– Ouça… – ele pediu. – Pare com essa loucura, se não for por mim, que seja por Branca de Ne…
Antes que ele terminasse, Regina se levantou do trono num pulo e tomou os lábios dele contra os seus. Iniciando um beijo calmo e apaixonado.
Ela chorava ainda mais agora. Não precisava de palavras.
Seus lábios se separaram, mas eles permaneceram juntos, ofegantes.
– Esqueça-a. – ele sussurrou. – Vamos ser felizes! Dar a ela o nosso desprezo é a melhor vingança!
Ela assentiu e soluçou, beijando-o mais uma vez.
Os dois casaram-se uma semana depois.
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