Her.
8 Ligando pontos.
Notas iniciais

O tique-taque do relógio era quase sincronizado com as batidas do pé de Mary Margaret contra o piso de madeira.
David e Emma haviam saído há quase duas horas e nada de voltarem com notícias de Regina. A morena não aparecia havia três dias, e ela não parava de pensar no que poderia acontecer.
Também não se sentia confortável ficando em casa, enquanto sua família saía por aí. A mulher se sentia uma inútil por não poder fazer nada. Mas alguém tinha que cuidar de Lizzie e do bebê.
– Mary, se bater esse pé mais uma vez no chão fará um buraco. – Elisabeth disse rindo.
A menina estava sentada no balcão e lia o livro do Henry.
Ela usava uma calça jeans preta e uma blusa listrada, enquanto a mais velha usava um de seus vestidos floridos.
– Me desculpe, não consigo ficar aqui sem ter notícias. – riu na direção da mais nova, que virou uma folha do objeto. – Mas, deixa isso pra lá… O que está lendo?
– A história da Chapeuzinho Vermelho. – respondeu animada. – Consegue acreditar que ela era o lobo? – arregalou os olhos e soltou uma risada. – Essa, com certeza, é a minha história favorita!
Mary Margaret sorriu e se aproximou da menina, lhe dando um beijo na testa e com um único pensamento na cabeça:
“Se ela soubesse…”
No mesmo instante, os dois loiros da família adentraram o apartamento. Emma tirou a jaqueta vermelha e se jogou no sofá, bufando.
– Ela não está em lugar algum. – David respondeu, confirmando o que a esposa suspeitava.
A moça de olhos verdes cruzou os braços e perguntou:
– Procuraram no cofre?
– Saímos da mansão e fomos direto pra lá. – Emma respondeu balançando a cabeça. – Regina não quer ser encontrada.
Elisabeth fechou o livro e levantou do banco, sentando-se ao lado de Emma.
– Ela pareceu bem abalada quando encontramos aquela mulher outro dia… Talvez, só precise de um tempo sozinha. – Lizzie deu de ombros.
Os outros três pareceram concordar com os pensamentos da garota. Talvez, Regina só precisasse de um tempo sozinha.
E eles sabiam o verdadeiro motivo.
Não muito longe dali, na sala escondida em seu cofre, Regina concentrava-se em um grande baú.
Roupas e acessórios da realeza voavam para qualquer canto do quarto, mas ela não ligava para a bagunça.
A conversa com Rumpelstiltskin fez Regina ficar com uma dúvida na cabeça. Seu pai não tinha magia, bom, era o que ela pensava.
Revirando o baú mais uma vez, e abrindo alguns livros que ali tinha, a morena encontrou um pedaço de papel. Uma carta, mais especificamente, e começou a ler.
“Querida Regina, minha filha,
Antes de lhes dizer qualquer coisa, peço que me perdoe. Me perdoe por todo o mal que te fiz, por cada palavra amarga que soltei em sua direção. Por cada gota de magia que usei contra você. Por todo o sofrimento que te fiz passar. E, principalmente, por ter guardado o segredo que aqui vou contar.
Se você está lendo essa carta agora, é porque eu paguei o meu preço e você precisa saber a verdade. Eu sempre te disse que o amor é uma fraqueza, que não se deve amar os mais fracos. Que não se deve amar ninguém. Mas, eu mesma amei alguém… E desse amor, surgiu um fruto.
Você, Regina.
Quando era criança, você sempre me perguntava por que possuía magia, se não queria usá-la. E eu sempre lhe respondia que se nós nascemos com algo, é porque devemos tê-lo.
Enquanto escrevo isto, tento achar uma maneira mais fácil de dizer as palavras, mas, não existe.
Rumpelstiltskin é seu pai, minha filha, por isso você é tão poderosa. E alguém, no futuro, será mais poderosa ainda.
Eu deveria ter lhe contado a verdade, ter contado a Henry… Mas o meu medo sempre foi mais forte. Seu pai te amava tanto, e eu não poderia estragar esse amor.
Meu último desejo é que não castigue Rumple por algo que eu omiti. Sei que está chateada agora, mas, deixe que o tempo curará tudo.
Um dia você será mãe, minha menina… E espero que possa me entender e perdoar.
De sua mãe,
Cora.”
Quando Regina levantou seus olhos do papel, eles estavam vermelhos e cheios d'água.
“Rumpelstiltskin é seu pai.” Essa frase ecoava em sua mente e parecia que nunca mais sairia. A morena não sabia o que sentia no momento. Se era raiva, por sua mãe e aquela besta terem mentido por todos esses anos, ou surpresa pelas tantas desculpas que Cora pediu.
Rastros salgados desciam por suas bochechas e caíam no chão, mas ela não se importava em limpá-las. Ela só se importava com o que falaria para Gold.
Colocando tudo em seu devido lugar, a Rainha saiu da sala e, sem poder esperar mais, ela se transportou para a frente da loja de Rumple, hesitando um pouco antes de empurrar a porta com força e ouvir aquele irritante sino tocar.
O barulho fez Bela se distrair de seus pensamentos e olhar diretamente para a porta, se surpreendendo e começando uma seção de perguntas.
– Regina? Você sumiu! Onde esteve? O que faz aqui? – a devoradora de livros acompanhava a morena andar em sua direção.
– Seu marido está? – ela foi direta, ignorando totalmente as perguntas da moça.
– Estou aqui. – a voz de Rumple surgiu no ambiente, e ele apareceu logo em seguida, saindo dos fundos.
Regina caminhou em sua direção e o encarou, sem qualquer expressão facial.
– Precisamos conversar, Gold. Ou, devo dizer… Papai?
Aquelas palavras saíram como um choque, tornando todo esse pesadelo ainda mais real.
Dois pares de olhos estavam ficando marejados.
– Regina, minha filha… – o homem tentou falar, mas foi interrompido.
– Não me chame assim! – ela ralhou, derramando as lágrimas que tentava segurar. – Eu não sou a sua filha e nunca vou ser!
Bela encarava os dois, torcendo para que não houvesse nenhuma briga, mas eles apenas se encaravam e derramavam lágrimas solitárias.
Depois de um longo minuto em silêncio, Regina perguntou:
– Quando soube?
Gold engoliu seco.
– Pouco tempo depois de Úrsula te ameaçar pela primeira vez… Seu pai a entregou pra mim.
Regina franziu o cenho.
– Meu pai? – ela soltou uma risada triste. – Minha mãe mentiu mais uma vez, ele sempre soube!
– Na verdade não. – explicou. – Cora pediu para que ele lhe entregasse quando fosse a hora certa. Mas ele não o fez.
– Por quê? – a voz da morena era baixa, quase um sussurro.
– Porque quando seu pai leu o meu nome naquele papel, tudo começou a fazer sentido. Era para que eu lhe entregasse aquela carta. – Regina o olhou, sentindo uma dor enorme em seu peito.
– E por que não fez isso?
– No começo, não acreditei que tinha uma filha. Eu fiquei com tanto medo de perder você como perdi Bealfire… – fitou a mulher, encarando os olhos fundos. – Mas, quando você me procurou para aprender magia, vi o quão parecida com Cora você era… E ainda é… Só que era tarde demais para qualquer coisa.
Regina soltou um longo suspiro e levou as mãos ao cabelo, deixando o mar de lágrimas molharem o seu rosto. Ela parecia que desmoronaria.
– Desculpe por isso, querida. – Gold tentou usar seu tom habitual quando disse a última palavra, mas aquilo acabou sendo a gota que faltava.
A morena se virou e seus olhos tinham um brilho diferente, o coração parecia pesar. Abriu a boca para falar, mas nada saiu.
Os dois só voltaram seus pensamentos quando perceberam uma terceira voz ecoar pelo ambiente:
– Desculpem atrapalhar o momento família, mas temos assuntos para resolver. – Bela, Regina e Rumple olharam na direção do som e se depararam com Úrsula, sentada em uma das bancadas de vidro, com o que parecia ser uma caixa de música nas mãos.
– O que veio fazer aqui? – Gold questionou, observando a mulher loira descer do vidro.
– Vim dar um oi, saber como estão as coisas… – ironizou. – Saber como está a nossa pequena Elisabeth.
Se não fosse pelo homem no recinto, Regina voaria no pescoço de Úrsula.
– Como sabe dela? – a Rainha perguntou e a outra riu.
– Eu os fiz esquecê-la, só não imaginava que a bastarda conseguiria voltar pra cá. – ela riu. – Também fui na sua mansão e vi que achou as páginas escondidas… Só juntei o útil ao agradável.
Regina se desfez dos braços do pai e levantou o rosto, encarando aquela aberração com tentáculos.
– Cansei dos seus joguinhos… Resolveremos as nossas pendências hoje!
A loira a olhou e sorriu de canto.
– Às seis da noite, torre do relógio. Não falte, ou vai ser pior para todo mundo. – a morena a fitou profundamente e respondeu com toda a coragem do mundo:
– Não vou perder isso por nada!
***
Já era perto das seis quando Henry foi forçado a sair do apartamento com Elisabeth. Todos na cidade já sabiam do pequeno show que aconteceria e estavam se preparando para qualquer tipo de surpresa.
Após algum tempinho caminhando, Lizzie se virou para Henry:
– Andamos pela cidade inteira pra você me trazer às docas? – soltou uma risada nasalada.
– Achei que seria um passeio legal. – ele deu de ombros.
– Tudo bem, Henry, o que está escondendo? – a menina cruzou os braços, esperando uma resposta. – Parece que todos estão escondendo algo de mim. Me diga o que está acontecendo!
O garoto respirou fundo e tirou a mochila do ombro, retirando dela o seu livro.
– Sabe o que é isso? – ele segurava o objeto de uma maneira em que as letras da capa ficassem de frente para ela.
– Seu livro. E daí? – revirou os olhos. – Só nesses três dias eu já o abri umas mil vezes…
Henry balançou a cabeça negativamente.
– Isso não é só um livro! Lizzie, eu preciso que você me escute nesse momento, certo? – ela franziu o cenho, mas assentiu. – Eu preciso que você acredite.
– Acredite em quê?
Ele respira mais uma vez.
– Acredite em magia!
Foram essas três palavras serem ditas, que toda Storybrooke começou a tremer, como se tivesse sido atingida por um terremoto.
Elisabeth saiu correndo de volta para a cidade e Henry foi logo atrás.
Na torre do relógio? Seis horas e três minutos.
Emma e David tentavam conter a população. Onde diabos estava Regina? Se ela se atrasasse mais, Úrsula mataria todos.
Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ela apareceu. E o bate-boca começou.
– Vamos acabar logo com isso! – a morena falou. – Me diga onde está Robin e posso pensar num destino melhor para você.
– Não vou entregar isso de mão beijada. E mesmo se fizesse, ele não se lembraria de você! – soltou uma risada, seguida de um suspiro satisfatório.
– O que eu fiz para merecer tudo isso? – a outra perguntou, quase implorando.
– Você me recusou. – disse dando dois passos para frente e encarando Regina. – E ninguém diz não pra mim! – rosnando, ela levantou um de seus tentáculos e agarrou Regina, levantando-a no ar.
Um pouco mais atrás, Lizzie e Henry chegavam juntos e se depararam com a cena.
O garoto tentou avançar, mas foi impedido pelo avô, e Elisabeth gritou, pedindo para que ajudassem. Ela estava pouco se importando que a mulher possuía tentáculos.
Úrsula, decidindo provocar, olhou diretamente para ela e questionou:
– Veio salvar a mamãe, criança?
Ela arregalou os olhos, que logo ameaçaram ficar marejados.
– Do que está falando? – a menor gritou.
A loira olhou para a morena e depois voltou a olhar para a menina.
– Isso mesmo que você ouviu. Regina é sua mãe biológica.
Lizzie fita pra Regina, que também estava com os olhos marejados. Mas o momento não foi aproveitado, Úrsula jogou Regina contra a parede, que bateu a cabeça e desmaiou.
Henry começou a gritar e David tentou segurar o garoto.
Lizzie estava sem reação assim como os outros, mas ela sentia algo a mais naquele momento.
Quando Úrsula se virou o sorriu em sua direção, a menina não controlou seu próximo ato. Uma de suas mãos começou a brilhar e uma magia branca muito forte e intensa, saiu dela e atingiu a Rainha dos Mares em cheio, fazendo-a cair desacordada. Mary Margaret agarrou Henry enquanto David e Emma seguiam até a bruxa e colocaram uma pulseira que cessava sua magia.
Olhando ao redor, pessoas amparava Regina e o mais novo chorava colado a avó.
Ninguém sabe se isso demorou a acontecer, ou se foi em uma fração de segundos.
A garota só voltou a raciocinar, quando sentiu suas pernas bambearem e foi ao chão assim que a primeira lágrima escorreu por suas bochechas.
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