Her.

2 Dèjá-vu.


Emma encarava Elisabeth dormir no sofá. Decidira não mandar a menina de volta para o sistema, ela é uma deles, a xerife só precisava descobrir o que aconteceu com a vida dessa menina.

Mary Margaret aninhava o pequeno Neal em um canto da sala, David bebia uma xícara de café na cozinha e Emma não parava de olhar o livro quando a porta do apartamento foi aberta, revelando uma Regina afobada. A moça tinha os cabelos pretos um pouco abaixo do ombro, e seu olhos eram tão intensos quanto uma floresta sombria.

– Desaprendeu a bater? – Emma perguntou se levantando e indo até a moça. Regina revirou os olhos e colocou as mãos na cintura.

– Descobri uma maneira de trazer as fadas de volta e é assim que me agradece?

Emma fez um sinal de silêncio e apontou para o sofá.

– Quem é essa? – a morena indagou, franzindo o cenho. – Não interessa, não temos tempo. – abanou o ar. – Precisamos juntar a devoradora de livros, o pirata mascote e fazer o que eu disse.

– O nome dele é Killian. – Emma cerrou os olhos e andou até uma das cadeiras no balcão, pegando sua jaqueta de couro e vestindo-a.

David jogou o resto do café na pia e Mary Margaret colocou Neal no berço, dizendo que ligaria para vovó cuidar do bebê.

– Temos um probleminha aqui. – David comentou. – Elisabeth. – e apontou para o sofá.

– Do jeito que correu para chegar aqui, quando voltarmos ela não terá saído do terceiro sono. – Emma riu.

***

Emma, Regina, Killian, Bela, Mary Margaret e David faziam uma pequena rodinha em uma parte da floresta. A caixa com o chapéu do feiticeiro estava em cima de uma pedra e Regina segurava a adaga de Rumpelstiltskin com as duas mãos.

– Tem certeza que isso vai dar certo? – Killian questionou, balançando a cabeça. – Não parece seguro.

– Estava no feitiço, ok? – Bela o olhou. – Não tem como dar errado.

Regina respirou fundo e passou a adaga por cima da caixa, a mesma começou a brilhar, logo, uma fumaça azul saiu e dela, as fadas apareceram.

A Fada Azul ainda estava meio atordoada e agradecia a todo mundo, enquanto abraçava cada uma de suas companheiras. Regina revirou os olhos, muita demonstração de carinho lhe dava ânsia.

– Ficar presa naquele chapéu com aquela coisa foi… – suspirou.

– Esperem, que coisa? – Regina perguntou.

No mesmo instante, uma fumaça preta saiu do chapéu e foi levada pelo vento em direção a cidade.

– Acho que temos um problema, parceiros. – Killian fitava a fumaça começar a criar forma.

Todos começaram a correr seguindo a fumaça, eles chegaram a cidade e aquilo virou um monstro, enorme, com asas e chifres, que começou a berrar e voar na direção de todos que passavam pelas ruas. Storybrooke virou um caos.

– Eu já li sobre ele. – Bela comentou. – Chernabog. Ele está atrás de um coração com maior potencial para as trevas.

Todos olharam para Regina.

– Eu me arrependi de tudo o que fiz. Não devia estar na hora dessas coisas pararem de acontecer?

Chernabog gritou mais uma vez, fazendo todos eles se esconderem em uma parede ali perto. Esse tempo daria para pensar em alguma coisa.

– Será que a Salvadora e a Rainha Má não podem dar um jeito nisso? – Killian fez um gesto com a mão, apontando para as duas.

– Pode tirar a palavra com M? – Regina se virou para Emma, como quem perguntasse se ela estava pronta.

As duas foram para frente e começaram a chamar o bicho, quando ele olhou, elas lançaram suas magias, fazendo-o virar poeira.

– Mas o que foi isso? – uma jovem voz indagou.

Todos se viraram e viram Elisabeth totalmente assustada na esquina seguinte. Ela estava com a mochila pendurada em uma das mãos, a boca aberta e os olhos arregalados, intercalando entre Emma e Regina.

– Vocês duas… Vocês estavam… O que era aquela coisa? – ela agora gritava, estava muito confusa.

– Lizzie, eu… – Emma tentou se aproximar.

– Não toque em mim! – exclamou. Emma voltou a se afastar. – O que são vocês? Algum tipo de aberração?

– Elisabeth, se acalme. – Mary Margaret tocou o braço da menina. – Vamos conversar…

– Conversar? – ela berrou mais uma vez. Um pequeno grupo de gente já se formava em frente a lanchonete da vovó. – Eu estou na frente de dois monstros e você quer conversar?

– Já chega! – foi a vez de Regina gritar, então, lançou uma magia em Elisabeth, que caiu adormecida no colo de Mary Margaret.

– Regina! – Emma ralhou.

– O que queria que eu fizesse? Ela me chamou de monstro! – deu de ombros. – Ela não está morta, só vai achar que sonhou com tudo isso…

Mary ainda tentava aguentar o peso de Elisabeth quando Regina passou andando por ela, Emma gritou seu nome mais uma vez.

– Por que está agindo assim?

Regina se virou, lágrimas se formando em seus olhos.

– Emma, todos os dias eu tenho que encarar você e sua família encantada feliz, enfrentar monstros e afins, sabendo que não interessa o quanto eu mude, o quanto eu admita os meus erros… As pessoas sempre me verão como a Rainha Má. – Regina passou a mão pelos cabelos, dando as costas novamente e indo em direção a prefeitura.

Emma deu dois passos a frente, na intenção de seguir Regina, mas Killian a parou.

– Agora não, amor. – o moreno com um gancho no lugar da mão disse. Ele segurava seu braço com delicadeza. – Ela precisa desse tempo.

A loira apenas concordou com Killian enquanto observava Regina se afastar.

A morena esquentada deslizava pela rua, seus saltos faziam um barulho irritante, mas ela pouco se importava com isso, só queria chegar no seu gabinete e poder desabar.

Assim que entrou, trancou a porta, encostou-se a mesma e fechou os olhos, permitindo que as primeiras lágrimas escorressem pela sua bochecha. Deu um longo suspiro e abriu novamente os olhos, encarando uma certa pintura que ela preferia evitar há algum tempo.

Ela e Robin na floresta encantada. Ela sentada em seu colo, recebendo um beijo na bochecha e sorrindo de orelha a orelha.

Mais uma lágrima derramada.

A saudade que Regina sentia era tão grande, que parecia que ela estava morrendo aos poucos. A dor no seu peito era tanta, que ela tinha vontade de arrancar seu coração e guardá-lo em algum lugar bem longe.

Tantos anos separados, tantas noites mal dormidas, tantos sorrisos forçados.

Regina estava cansada de sofrer.

Ela encontraria Úrsula de qualquer maneira, a torturaria até que soltasse seu amado. E, depois, esmagaria o coração daquela bruxa do mar como se esmaga uma noz.

***

Já passava das uma da manhã quando Mary Margaret acordou de seu sono para tomar um copo d'água e observar o bebê Neal. Isso já havia virado rotina.

Ela passou pela bancada da cozinha e a mochila de Elisabeth estava ali, pedindo para ser aberta.

A menina chegou na cidade de uma hora para a outra, e ninguém sabe quem ela é. Precisavam descobrir alguma coisa.

Mary olhou para a menina dormindo no sofá e foi abrindo os bolsos com muito cuidado. Haviam roupas, algumas coisas pessoais, dinheiro, e um objeto que lhe chamou atenção: uma pulseira de corda preta, escrito Elisabeth e uma coroa em madeira.

Ela passou seus dedos pela pulseira e sorriu, aquilo era como um déjà-vu.

– Isso é a única coisa que tenho dos meus pais. – Mary Margaret se assustou ao ouvir a voz por trás dela, isso a fez derrubar a pulseira no balcão.

Olhando para trás, ela observou Elisabeth segurar os dois braços, como se estivesse com frio, os cabelos castanhos desgrenhados e o rosto inchado.

– Me desculpe, eu não queria xeretar as suas coisas. – Lizzie se aproximou e deu de ombros, pegando o objeto caído.

– Não há problema. Eu imaginei que fosse acontecer algo do tipo, vocês não me conhecem, só querem saber mais sobre a estranha que entrou nessa cidade que mais parece estar presa nos anos oitenta. Sem ofensa. – Mary Margaret riu baixo. – Eu posso te contar sobre mim, se quiser…

– Sabe, Lizzie… – ela começou, olhando para a pequena se sentar no balcão ao seu lado. – Pode fazer isso enquanto me acompanha numa boa xícara de chocolate quente.

As duas sorriram e a mais velha piscou, se levantando do balcão.

Alguns minutos se passaram e Mary colocou as duas xícaras na frente da menina. Aquilo fez Lizzie pensar o quanto trabalho deveria dar para ela, David e Emma.

Pegou a bebida com as duas mãos e assoprou por alguns segundos.

– Eu estive pensando… – essas três palavras fizeram Mary Margaret tirar os olhos de seu chocolate e olhar para Lizzie. – Eu devo dar trabalho para vocês três, quer dizer, eu preciso ajudar em alguma coisa!

A mais velha riu e colocou sua xícara de volta ao balcão.

– O que gosta de fazer? – essa pergunta fez Lizzie pensar por um momento.

– Eu gosto de animais, flores, crianças, livros e… Ah, arco e flecha! – ela aumentou o tom de voz e depois o diminuiu rapidamente, percebendo que poderia acordar alguém. – Eu nunca usei um, mas, sempre gostei de assistir filmes com essas armas… – deu de ombros.

Mary fez uma careta. – Acho que não temos aulas de arco e flecha em Storybrooke… – as duas riram juntas. – Mas, acho que a Bela precisa de ajuda com a biblioteca.

Elisabeth abriu um sorriso enorme.

– Sério? Acha mesmo que ela me aceitaria no emprego? – Lizzie perguntou entusiasmada e a mais velha assentiu, levando sua xícara aos lábios. – Eu nunca trabalhei antes, mas não deve ser tão difícil.

Depois das xícaras vazias e algumas risadas baixas, Mary Margaret levou Lizzie de volta para o sofá e esperou que a menina se deitasse para cobri-la com o lençol.

– Mary Margaret… – a pequena a chamou, quase se levando pelo sono. – Eu sonhei com vocês hoje.

A mais velha não pôde deixar de sorrir. Pelo menos o feitiço de Regina havia funcionado.

– Boa noite, Lizzie. – se inclinou, dando um beijo na testa da mesma, que murmurou alguma coisa antes de cair no sono novamente.