Hematomania
1 Prólogo
Havia muito sangue, muito mesmo, mais do que eu já tinha visto em todos os meus anos como universitário de medicina. Ela ainda estava viva, mas tinha diversos cortes em todo seu corpo, todos profundos e feitos por uma lâmina de 4 cm. Seu respirar era pouco, ofegante; seus olhos forçavam para permanecerem abertos e desfrutava de pouca consciência. Só conseguia detectar em sua voz um gemido baixo, quase um sussurro que se transformava em palavras: “Me deixe ir, me deixe ir”.
Minhas mãos estavam ensangüentadas, minha consciência também não era completa, eu sentia o torpor tomar conta do meu corpo. O engraçado é que não era um torpor relacionado a náusea, e sim à uma completa obsessão naquela visão. Era para eu estar tentando salvar a sua vida, eu era um estagiário-médico brilhante, conseguiria fazê-la durar até chegarmos ao hospital, mas não conseguia mover um dedo sequer. Eu continuava ali parado, estagnado com meus olhos perplexos na minha miragem, sem saber se seguia o correto ou caía em tentação.
Não havia ninguém ali, deviam ser mais de meia-noite e ela estava jogada no chão, caída em um beco totalmente deserto, quase morta e deliciosamente ensaguentada; tudo como eu precisava que fosse, tudo o que poderia tentar a compulsão mais nefasta que um homem pode ter. A culpa jamais cairia em mim, se eu bem me lembrava, aquele lugar nem era um dos que eu costumava frequentar. Eu poderia facilmente seguir o meu desejo e provar daquele líquido cor-de-escarlate que fluia livremente.
Eu estava perplexo, minha indecisão estava me corroendo e qualquer coisa que eu quisesse fazer, deveria ser logo. Então me resolvi, logo minhas mãos já pressionavam a abertura de um corte em seu ombro, fazendo jorrar mais sangue daquele ferimento, então toquei meus lábios e comecei a sugar o que podia. Aquilo não saciava a fome, mas matava um outro desejo mais mórbido, o que indicava que não era necessário chupar muito para me sentir satisfeito, além de que havia medo em ser pego naquela situação. Não pude desfrutar muito da sensação boa que era aquilo, devia ir embora rápido, o corpo em minha frente já estava sem vida, o que não me gerava o mesmo desejo do que se estivesse viva.
Peguei uma pequena ampola de minha maleta médica, era um frasquinho comum, desses que se usam em exame de sangue. Com uma seringa tirei uma pouca quantidade daquilo que fluia espontaneamente de suas veias para a calçada. O cheiro era bom, o sabor melhor ainda, em grande quantidade poderia ser enjoativo, mas em um vidrinho minuscúlo guardado com muito cuidado em minhas coisas, seria de dois um: ou uma recordação maravilhosa ou um arrependimento gigantesco.
E eu não sabia mais se era um maluco ou um médico, não sabia se depois daquela experiência continuaria com aquela lastimável obsessão, naquele momento só conseguia sentir o prazer eufórico do que tinha feito, e levaria uma amostra do mais profundo êxtase comigo. Então parti, parti de mim mesmo, para me tornar um hematomaníaco.
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