Dia 29 de Março de 1989. Deviam ser quase meio dia, a aula de patologia estava por terminar e naquele dia não haveria mais nada na faculdade. O professor estava falando sobre os relatórios feitos pelos alunos na nossa última visita ao necrotério, a tarefa que ele nos propôs após fazermos a autópsia de um corpo, um para cada pessoa da sala. O que mais me enchia o saco nas aulas era quando os professores paravam para fazer comentários sobre as atividades feitas por nós, era sempre aquela conversinha de \"fulano fez um bom trabalho\" e \"ciclano viajou legal\". Eu nem sabia porque aquilo me irritava, não é por me gabar, mas eu sempre fui um excelente aluno, os elogios sempre vinham até mim, mas eu realmente não gostava daquilo, acho que é porque eu sempre preferi ser mais discreto, mesmo em casos como este. Talvez por isso, estivesse tão distraído que nem percebi que desta vez o professor, Daniel Goldberg como era conhecido, não havia pronunciado meu nome, exceto na hora em que estava devolvendo os relatórios e dispensando os alunos após entregar o de cada um.

- Isaac Thompson – chamou-me ele.

Levantei-me pegando minhas coisas e preparando-me para ir embora.

- Isaac, eu lhe dei um B, mas você sabe que merecia mais, porém também sabe que sou um professor exigente. O que achei, foi que você descreveu demasiadamente sobre as condições sangüineas do corpo e descompensou isto nas outras partes. Não que você tenha relatado mal o resto, pelo contrário, só não devia ter detalhado tão minuciosamente o sangue, é totalmente desnecessário, exceto em casos de envenenamento que se faz uma averiguação mais precisa, mas nesta situação só gasta seu tempo.

- Uhum... – minha expressão mesclava indiferença e reprovação, acho que o professor tinha percebido nela tentando me consolar com um sorriso.

- Olha, ser prolixo demais com coisas desnecessárias não é uma coisa boa. E você sabe que tenho que ser mais exigente contigo, afinal tenho certeza que ainda será o melhor médico de Glasgow.

- Mmm.. Obrigado – disse sem muito ânimo.

É claro que B não era o tipo de nota que eu costumava tirar, aquilo me incomodava, mas não o suficiente para que fizesse com que me importasse, da próxima vez seria mais atento.

Eu iria para a casa dos meus pais, eles ficariam felizes em me ver, desde que me mudei para um apartamento mais próximo da universidade era raro vê-los. Em seguida tinha que ir para o hospital, apesar de não passar de um aprendiz-de-médico, eu era muito útil por ali. Hoje eu tinha duas cirurgias para acompanhar – uma retirada de um tumor benigno e uma curetagem – ambas de suma importancia para mim.

Enquanto eu dirigia não deixava de pensar naquele maldito relatório, eu ainda não me importava, mas não podia deixar de ficar irritado com aquilo. O problema não era a nota, tampouco as palavras do Dr. Goldberg, o problema estava em mim; de uma certa forma eu sabia que estava acontecendo alguma coisa comigo, toda aquela descrição exagerada sobre o sangue não era normal da minha parte, tudo bem que eu nunca tive medo de cenas mórbidas e achava aquele líquido vermelho de uma beleza excitante, mas nunca fui de ficar reparando e fitando o sangue como agora fazia, com um certo encantamento, uma certa fome.

Meus olhos azuis agora encaravam a faxada da casa em que vivi por tantos anos; a parede branca-esverdeada com a varanda no andar superior cercada por grades de ferro formando espirais, a trepadeira que enfeitava todo seu lado exterior, as pedras de mármore bruto e cinza que contornavam sua diagonal; quanto nostálgico podia ser aquela imagem. Toquei o sino ao lado da porta, meu pai veio atender com uma garrafa de vinho branco na mão, sua expressão surpresa, apesar de ter-lhes avisado antes.

- Isaac! Pensamos que não viesse! Olha, Agnes, quem está aqui... Isaac desta vez cumpriu sua promessa.

- Não lhe disse que ele viria, minha intuição de mãe não falha – gritou a mamãe como resposta de algum lugar da casa.

- Eu não lhes disse que viria?!

- Você sempre diz, Isaac, mas raro é vir mesmo. – disse-me o papai sorrindo.

Eu ri também, dei-lhe um abraço de leve, sem fechar meu braço por inteiro, só lhe dando umas batidinhas nas costas, então entrei na casa. Tudo parecia o mesmo, exatamente como na última vez que os vim visitar, tudo bem que não fazia tanto tempo, mas papai e mamãe, desde que eu saíra de casa, pensavam em milhares de reformas por todos os cantos. A salinha aconchegante era a mesma, o conjunto de quatro sofás brancos com uma mesinha de vidro ao centro, a janela oposta a porta principal e que trazia toda a luminosidade do quintal interno, – no centro da casa, onde estava a piscina quase nunca usada – à oeste a mini-ádega particular de meu pai, à leste a mesa de jantar feita de vidro e seguindo ao sul, após a mesa, havia a cozinha – onde estava minha mãe.

Eles também não tinham mudado, meu pai com os mesmos cabelos brancos que ele insistia em dizer que eram grisalhos, minha mãe com os dela sempre loiros dos quais se orgulhava ao dizer que nunca havia pintado. Dona Agnes sempre orgulhosa, de mim então nem se fala, vivia dizendo o tanto que era feliz por ter tido a sorte de um filho como eu. Veio correndo me abraçar, largou a faca e a cebola que cortava compenetrada e veio para meus braços.

- Aí, como é bom te ver! Você não pode nos abandonar assim – minha mãe baixinha e eu alto, ela vindo tão fulgás, saltando para cima de mim, quase me jogava no chão, logo já estava me soltando, segurando minhas mãos e me olhando nos olhos – eu já lhe disse o quanto me sinto honrada em ser sua mãe?

- Já... Um milhão de vezes, mãe!

- E quando a Agnes vai parar de repetir isto? – rebateu o papai.

- Isaac, estou preparando aquele frango com nozes que você tanto ama. O resto já está todo pronto, se estiver com fome não precisa se preocupar que a comida já está saindo.

- Não precisa se preocupar, mãe, hoje eu estou com tempo de sobra.

- Tá bem, mas é melhor eu ir logo para a cozinha.

- Como você quiser.

- Droga! – resmungou meu pai – Era para este vinho estar gelado, todos os vinhos brancos ficam guardados no freezer da ádega, não sei porque este está quente!

- Posso ver? As vezes pode ser só impressão sua, pai.

- Claro.

Eu averiguei e parecia que meu pai estava correto, eu poderia ter sido mais gentil e ter-lhe dito que estava em boa temperatura, mas em relação a vinhos eu era tão exigente quanto ele e vinho branco quente é péssimo.

- É pai, você está certo, este vinho está quente.

- É, deve ter dado problema no freezer de novo. Mas espero que você esteja disposto a tomar um vinho tinto!

- Desculpe, pai, mas não vou beber, hoje ainda tenho que trabalhar, é melhor que não tome nada.

- Não acredito Isaac, você custa a vir nos ver e quando vem não prova de um vinho meu?!

- Desculpe-me.

- Mesmo assim vou abrir uma garrafa, se mudar de opinião.

Meu pai saia da sala de jantar e ia para a ádega, analisar qual vinho era o mais apropriado. De onde eu estava dava para ver a mamãe colocando as nozes descascadas no processador e voltando a conversar comigo.

- E você, Isaac? Como anda a... – Minha mãe era bem distraída, ela ia conversando comigo e ligou o processador, como se eu conseguisse escutá-la.

- O quê?

- Isaac, como ................. porque sua ................... e eu ............

- Mãe, eu não estou ouvindo nada! É melhor eu ir aí. – me levantava na direção dela – Pronto agora pode dizer – Lhe disse encostado ao seu lado.

- Como anda a faculdade? Sua madrinha... Droga! – ela se interrompia ao desligar e olhar dentro do processador – Eu e seu pai precisamos urgente trocar os eletrodomésticos dessa casa! Esse processador está uma porcaria, toda vez gruda alguma coisa no fundo.

- Quer ajuda para tirar as nozes?

- Não precisa, querido, eu faço isso. Me conte sobre você.

- Tem certeza?

- Sim! Vai, me conta como estão indo as coisas...

Minha mãe era teimosa, não ia me deixar ajudá-la. Ficamos conversando enquanto ela tirava as nozes e as colocava na panela já com os demais ingredientes. Ela ia fazendo distraída sem nem notar que o copo do processador já ficava vazio.

- Sério?! Nossa, este professor foi bastante bondoso. Mas, pensando bem, você até já deve estar acostumado com elogios...

- É, de certa forma. Mãe, agora deixa eu te ajudar, você vai acabar se ferindo se não prestar atenção no que está fazendo!

- Isaac, já falei que não preciso! Continue me contando sobre as coisas na faculdade...

- Não, mãe, presta atenção nas nozes!

- Aí, Isaac, não precisa disso, eu sei o.... AÍ!

O grito de minha mãe foi abafado, pouco sonoro, mas sua expressão era de dor. Minha primeira iniciativa foi a de levantar com um salto da cadeira em que estava sentado, de segunda iria gritar \"mãe\", num tom assustado , porém fui impedido, antes de poder dizer qualquer coisa, a mão que saia do processador me calava. O corte havia sido profundo, pelo que pude analisar mais tarde, se seguia da liga entre o polegar e o indicador indo até a parte frontal do pulso, o suficiente para estancar bastante sangue. Enquanto eu seguia estagnado, meu pai veio ver o que havia acontecido e também para desligar o fogão como Agnes havia lhe pedido. Ela foi esperta, lavou o local do acidente, não por muito tempo para não evitar a formação de coágulo, depois cobriu o machucado com um pano de prato limpo.

Eu consegui ver tudo, mas não pude me mexer. O sangue mais uma vez me abalava, deixando-me sem reação, sem saber o que fazer. O que acontecia era bizarro, era semelhante a algo que acontece a um alcoolátra quando sente cheiro de bebida e não pode cair em tentação, a diferença morava em que alcool é um vício perfeitamente humano, sangue não. Não sei bem por quanto tempo fiquei imóvel, completamente intacto, sentindo milhões de hormônios se espalharem por mim, ouvindo o bater descompassado do meu coração e algo por dentro que me dizia, como um diabinho, \"vá, vá, vá, Isaac!\". Eu me sentia eufórico, como se para me controlar tivesse que ficar parado, assistindo uma luta interna entre a moral e o desejo.

- Isaac! Está tudo bem com você? – minha mãe disse de longe, percebendo meu estado – Victor, o Isaac está pálido! – alertava a meu pai, aumentando seu tom de voz.

- Isaac? Isaac? Fale comigo! Agnes, você o assustou!

Lentamente eu inspirei pela primeira vez após aquele surto, era como se eu tivesse desmaiado e o mundo inteiro houvesse girado em minha cabeça enquanto estava desacordado, o mundo e o sangue, eu não respirei mas não conseguia parar de sentir cheiro de sangue. Logo eu voltava a tomar minha consciência, girando calmamente minha cabeça para minha mãe, respirando ofegante por ter perdido o ar por tanto tempo.

- Mãe, você está bem?

- Querido, eu que lhe pergunto se está bem? Você está pálido... Victor, pegue um copo d’água para o Isaac!

- É Isaac, você pregou um susto em mim e em sua mãe.

- O que houve, filho? Você me pareceu tão assustado... Espero que não seja por mim. Além do mais, você tem que começar a se acostumar com isso, Isaac, afinal um médico não pode se pasmar com um fato como este.

- Ah, mãe, foi só um susto. Isso não acontece sempre, é porque você é minha mãe. E tinha muito... sangue. – Acho que minha mãe percebeu na sútil diferença em meu tom de voz ao pronunciar a última palavra.

- Sim, meu bem, cenas com sangue não tem nada de mais. Tem?!

- Não! Lógico que não, mãe!

- Que bom, filho! Achei que você podia estar ficando hemofóbico!

- Toma este copo d’água, Isaac. Você ainda está pálido. – Ofereceu-me meu pai.

O resto do almoço foi tranqüilo, a medida do possível, aquele corte era mais uma prova de que aquele não era meu dia. Acabei tomando uma taça de vinho, já que o sangue aguçou bastante meus sentidos e eu precisava de alguma coisa para relaxar. Nem pude aproveitar o dia e ficar com meus pais, nossa conversa ficava estranha pela minha parte e também fiquei com medo que minha mãe percebesse que meus olhos não se desviavam de sua mão. Eles me pediram para ficar mais, devem ter achado meu comportamento esquisito, mas eles poderiam achar ainda mais esquisito se eu tivesse permanecido por mais tempo.

Depois de ir embora, com o ocorrido, ficava difícil conseguir dirigir com a atenção devida. Eu mal conseguia fixar os olhos no trânsito, minha mente estava coberta de vergonha, como se eu tentasse esconder de todas as maneiras que esse tipo de coisa vira e meia aconteciam comigo. Quase bati em uma moto ao atravessar um sinal fechado, era evidente meu esforço mental tentando omitir minha fraqueza diante do sangue. Quando já estava estacionando meu carro no hospital, abri um sorriso, ainda que aquela situação tivesse sido deverás constrangedora havia ainda uma coisa irônica, a causa de meu sorriso, minha mãe a me dizer \"achei que você podia estar ficando hemofóbico\". Ah, se ela soubesse que eu temia acontecer justamente o contrário!

Acabei por chegar adiantado no trabalho, o que foi bom para um sujeito chamado Neil Miller, assistente do doutor Phillip Greenlees, ambos responsáveis pela área do plantão naquele horário. O Dr. Greenlees era um homem importante, conhecido por sua maestria em causas urgentes, necessitado em termos de assistência. Ocorria que Neil não era tão habilidoso quanto parecia ser, acho que porque ele nunca foi interessado em medicina, porém fazia parte de uma família de médicos conhecidos por toda a Escócia; como eu, ele ainda não era graduado, mas estava em seu último ano como universando, mesmo assim eu conseguia ser melhor médico que ele, acho que a influência de seus parentes o fazia ter uma posição melhor que a minha dentro do hospital.

O Dr. Miller era um cara desastrado, aflito quando diante de algum problema, não serviria para ser médico autônomo, já que só conseguia trabalhar mediante instruções, o que provavelmente desapontaria seus pais quando descobrissem que o filho não conseguiria passar de um mero assistente. Por estes motivos o semi-graduado rapaz me fitou com olhos alegres quando percebeu que eu poderia ocupar o lugar do Dr. Grenlees, já que este ficaria ausente por mais ou menos uma hora.

Graças a Deus, o movimento estava fraco naquele dia, além de que o outro não tardou a chegar, deixando-me aliviado visto que não faltava muito para a minha primeira cirurgia do dia. Uma voz anasalada e feminina ecoava do sistema de som chamando-me para junto da equipe médica.

O procedimento seria simples, o paciente sofria de um tumor benigno, de tamanho médio, no rim esquerdo. O cirurgião responsável era o Dr. Lewis McCullough, acompanhado pela Dra. Amanda Parker, o anestesista deveria ser o Dr. Peter Berg, porém o mesmo contraiu uma virose sendo trocado pela Dra. Charlize Drummond, haviam também mais duas enfermeiras envolvidas no caso; além de mim é claro. Eu com certeza iria ser bem útil nesta operação, meu pai e o Dr. McCullough eram velhos conhecidos o que decerto me privilegiaria, tinha esperanças que seria até mais útil que a Dra. Parker.

O processo anestésico foi muito bom, curto e eficiente, a Dra. Drummond era muito competente em sua profissão, o que por vez já acelerou a duração da cirurgia. Assim que o paciente entrou na sala, o Dr. McCullough alcançou o primeiro objeto usado — um bisturi. O corte iniciou-se paralelo ao umbigo descendo em aproximadamente um centímetro e meio. O tumor se localizava na parte inferior do rim, abaixo do pâncreas para a nossa sorte.

Por acaso, antes de sequer tocar no paciente, percebi um pequeno furo em minha luva, ausentando-me por poucos segundos do círculo médico ao redor do senhor a ser operado. Quando retomei minha posição um súbito embaçamento tomou conta de minha vista, mais uma vez naquele dia sentia o torpor da atração vindo à minha mente.

- Dr. Thompson, segure aqui para mim por um instante — pediu-me a Dra. Parker.

Por um segundo vislumbrei a face da jovem doutora, apenas seu olhar azul de mulher sofrida aparecendo em seu rosto tampado pela máscara médica. Então fixei meus olhos diretamente no que ela me pedia para segurar — as bordas do corte cirúrgico — ali permaneci com meus orbes, perplexo e paralisado, tentando recuperar meu fôlego diante daquela náusea tão peculiar e rara para outras pessoas.

- Dr. Thompson, está se sentindo bem? — ela me questionou.

Foi semelhante ao ocorrido na casa de meus pais, senão idêntico. Eu estava completamente estagnado; porém sensitível podendo enxergar, ouvir, cheirar, exceto me mover. Explicando-se é como se houvesse dois tempos na minha perplexidade, um deles real em que se percebe tudo o que se passa ao redor e outro que se resume em hemácias e leucócitos paranóicos e tentadores. Eu sentia aquela sensação sedutora me dominando de mansinho, fazendo minhas pupilas se dilatarem ao olhar fixamente para o aglomerado de sangue em minha frente. Eu estava tomado por completo torpor, sem sequer responder às perguntas da Dra. Parker, a deixando preocupada com seus olhos carregados de uma certa amargura.

- Dr. McCullough, acho que o Dr. Thompson não está passando bem.

- Isaac? Isaac, está tudo bem com você?

- Acho que ele não está apto para permanecer aqui. — alertava-o a Dra. Parker.

- Juliette, tire o daqui. Peça para que alguém lá fora cuide dele e volte para a sala, precisamos de você. — disse o Dr McCullough a uma enfermeira sem se desconcentrar de seu trabalho, competente e brilhante aquele médico.

Juliette me levou para fora da sala de cirurgia, porém não seguiu a segunda recomendação de seu chefe, ela apenas me sentou em uma cadeira do corredor e retornou, visto que não havia ninguém por perto para ela pedir que tomasse conta de mim.

Não tardei a recuperar minha consciência, estava sem fôlego, a minha impressão era de ter ficado uns dez minutos sem respirar. Assim que pude, inspirei todo o ar que consegui para dentro de meus pulmões, ia repetindo este movimento rapidamente, respirando ofegante, recuperando o oxigênio. Eu suava frio, minhas mãos tremiam como se eu estivesse apavorado; encostei minha cabeça no azulejo duro da parede atrás de mim, sem saber como reagir.

Eu era um bom mentiroso, não que isso seja uma qualidade honrável, mas era inegável que eu sabia fingir situações muito bem, porém eu tinha medo que alguém percebesse o que realmente estava acontecendo comigo. É claro que eu iria dizer que tive um mal estar repentino, mas eu estava em um hospital cheio de médicos que eu conheço há um bom tempo, se alguém insistisse em me examinar à fundo poderia descobrir que meu psicológico era quem agia, e aí o que eu iria dizer? Logo iriam apontar uma doença psicossomática para mim assumir. E eu a assumiria como? Como hemofobia? Um médico com uma futura carreira brilhante como a minha não poderia ser hemofóbico. E eu lhes diria ser hematomania? Sim, pois pelo menos a mim mesmo tenho de assumir isso como hematomania, afinal já não há mais como negar que toda essa obsessão vem me dominando ultimamente, mas e para os médicos? Para eles não há como admitir uma mania assim. Jamais, antes hemofóbico do que hematomaníaco.

Mas não. Eu era orgulhoso demais para assumir uma compulsão assim até para mim mesmo. O que eu estava temendo era apenas paranóia. Eu me enganava dizendo não ser hematomaníaco, não ser doente, não ter nenhum desvio psicológico; foi tudo apenas um súbito mal estar. Mas lá no fundo o medo me convencia da verdade, e por tal motivo eu deveria sair imediatamente daquele hospital, pois eu estava perfeitamente normal, mas eles, todos aqueles médicos invejosos poderiam acusar hematomania; só eles, eu sabia que tudo estava em harmônica sinfonia. E foi por essa paranóia que eu sai correndo da cadeira que estava, se é que tudo isso pode ser fácil de compreender.

Pela pressa, e talvez por sorte também, encontrei o Dr. Gordon em outro corredor. Seu nome era Albert Bashevis Gordon, descendente de judeus poloneses por parte da mãe e de família tradicional britânica por parte do pai, ele era um homem de extrema importância, um dos diretores do hospital e também o que mais nos era presente.

- Boa tarde, Dr. Thompson! Com pressa? — perguntou-me ele.

O Dr. Gordon era extremamente respeitado e mantinha a reciprocidade com todos. Nos tratava de igual para igual como se não houvesse hierarquia na medicina e que fossemos todos comparáveis a ele. Também era um dos poucos que me chamava por \'Dr. Thompson\', eram raros os que usavam o prefixo \'Dr.\' para médicos-aprendizes como eu. Nem o fracasso de estagiário Neil Miller me chamava de tal forma.

- Aham, é estou, estou — respondi afobado esquecendo-me de responder ao \'boa tarde\', mas o olhar intimidador do Dr. Gordon logo me fez relaxar e pensar que racionalmente era melhor fingir o mesmo mal estar de antes — Desculpe-me Dr. Gordon, boa tarde. É que não estou me sentindo muito bem, eu gostaria de pedir ao senhor licença para me retirar por hoje.

- Você tem muita coisa para fazer por aqui hoje?

- Na verdade, não. As duas cirurgias que eu tenho para acompanhar são mais importantes para mim do que para a equipe médica. E um estagiário também não muda muita coisa.

- É, mas você não é simplesmente \'um estagiário\'.

- Obrigado — agradeci encabulado.

- Bom, mas eu sei o quanto você gosta de medicina e o quanto você gostaria de comparecer as cirurgias. Você é um médico responsável, eu sei que se estivesse em boa condição, se esforçaria para ficar. Pode ir então, eu aviso para arrumarem alguém para substituí-lo.

- Obrigado, Dr. Gordon. Eu ficaria se estivesse bem, mas creio que nem será preciso alguém para me substituir.

- Ora essa, Dr. Thompson, deixe de falsa modéstia, você sabe que nos faz falta. — eu ri encabulado do comentário de tão importante médico.

- Bom, eu vou indo, Dr. Gordon. Obrigado, mais uma vez. — Disse já de longe, apressado para sair do hospital.

Eu não queria responder perguntas, pelo menos não agora. Se eu ficasse ali muito tempo, o Dr. McCullough viria me procurar para saber como estava me sentindo e isso eu não queria, aliás ficar naquele ambiente era a última coisa que eu queria. Eu precisava fugir para algum lugar, sair por aí sem rumo para procurar um refúgio e parar, somente parar, nem pensar eu queria. Algumas perguntas iriam surtir de mim mesmo para ajudar a esclarecer o que estava acontecendo, mas no momento eu não queria respondê-las, apenas sumir para tentar me encontrar.

Peguei o carro, sai dirigindo sem nem prestar atenção em ruas e placas, tudo ia passando despercebido enquanto eu extravasava a cidade sem rumo algum. Eu queria me perder, eu tinha um dia inteiro para fazer isso e depois tentar encontrar minha casa de volta. Glasgow é enorme, nem eu que nasci ali conseguia saber todos os lugares que tinha, ainda mais considerando que toda a minha rotina se localizava em uma única região da cidade; a faculdade, o hospital e meu apartamento ficavam próximos, os lugares que eu frequentava também não se distanciavam do meu círculo cotidiano. E mesmo assim eu saia por aí, destemido de encontrar um lugar nunca visto.

Não tardou muito para que eu chegasse em um lugar que me atraísse, acho que eu tinha rodado Glasgow inteira, pelo que eu conhecia e pelo tempo em que eu havia rodado, era de fácil intuição que eu tinha chegado ao outro lado da cidade. Por ali havia um bosque, aquele lugar que tinha me atraído, o árduo era encontrar um local próximo para estacionar, nem sei quanto eu rodei para encontrar uma vaga e nem quanto andei a pé até chegar aonde me interessava, mas enfim estava distante de todas as coisas que eu não queria ter por perto.

O bosque era um lugar comum para mim, talvez fosse porque era um desses parques arbóreos que as cidades costumam ter para enfeitar a paisagem urbana. Mas fora a semelhança artificial, aquele lugar era encantador, eu sei lá porque se era somente um bosque de árvores sazonais descuidadas, mas a minha impressão era de estar fora de todo meu cotidiano quando lá dentro. As árvores rodeavam tudo ali, no centro havia um lago, em sua margem haviam vários banquinhos comuns à cenas românticas, além dos pedalinhos convidativos para casais apaixonados, mas não havia nenhum casal ali. Aliás, não havia ninguém, estava tudo deserto, raramente aparecia algum estranho sozinho ou acompanhado por crianças, era o local perfeito para botar a cabeça no lugar.

Deitei próximo à margem da lagoa, uma dor de cabeça tomava conta de mim de forma turbulenta relembrando tudo o que aconteceu naquele dia, até que o sono substituiu tudo, de repente dormia profundamente na grama úmida do bosque. Nem sei por quantas horas permaneci por ali, só sei que eu desmaiei por completo, fechei os olhos, dormi profundo e por um bom tempo, quando despertei o dia já tinha ido embora.

Acordei com o cabelo úmido e sem saber direito onde estava, calmamente as lembranças foram clareando e o que eu jurava ter sido um pesadelo já estava guardado na memória como fato passado. Achei ridículo ter fugido do hospital daquela forma, eu tinha agido emocionalmente, mas foi fácil perdoar a mim mesmo, afinal de contas eu precisava mesmo refrescar a cabeça. Fui levantando do chão, minhas costas doíam por ter dormido tão desconfortavelmente, minhas roupas estavam úmidas e sujas de terra, acima de tudo estava faminto. Minha maleta médica eu havia tirado do carro e deixado no guada-volumes na entrada do parque, foi a única precaução que eu havia tomado, mesmo assim somente por não conhecer direito aquele lugar e ter medo de que a roubassem dentro do carro.

Em frente ao parque havia um café, era simples mas higiênico e mesmo que não fosse eu estava com tanta fome que comeria em qualquer lugar. Atravessei a rua e entrei no local, optei por sentar no balcão, mas asssim que sentei me senti desconfortável com a garçonete que volta e meia me encarava.

- Moça, me passa o cardápio. — pedi a ela.

- Aqui está. — me entregou pelo balcão abrindo um meio sorriso sem mostrar os dentes.

- Me dá um mate e um sanduíche de frango desfiado com queijo, por favor.

- Gostaria do mate quente ou frio?

- Quente, por favor.

Mesmo depois de pedir, a garçonete continuava a me encarar de minuto em minuto, seu olhar não indicava interesse ou alguma coisa do gênero, na realidade ela olhava estranho como se tivesse alguma coisa errada em minha aparência. Ela era uma moça bonita, ainda que de uma beleza simples; seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo, mas não parecia ultrapassar a altura dos seios; era evidente que ela também devia usar tintura, pois a raiz castanha já começava a transparecer por baixo dos fios ruivos claros; seus olhos eram de um castanho-mel ainda mais evidente pelo lápis marcando o contorno das pálpebras; ela tinha uma pintinha sobre a boca, mas não era vulgar como pintinhas na boca costumam ser, pelo contrário, combinava com ela; outra coisa peculiar era a ausência de maquiagem — exceto pelo lápis de olho — ainda que sua boca permanecesse constantemente molhada.

Não precisei vislumbrá-la constantemente para notar tais caracteristícas, até porque da forma como ela me encarava eu me sentia até desconfortável em olha-la. Assim que passei a mão no cabelo para tirá-lo da testa, pude notar o motivo dos olhares da garçonete, aliás foi neste momento que percebi que não era só ela que me encarava por ali.

- Moça, aonde fica o banheiro. — perguntei para ela.

- É só virar a esquerda ao lado do balcão e seguir reto. Não tem como errar.

- Obrigado.

Assim que encarei o espelho compreendi a garçonete e os outros que me olhavam, meu cabelo, além de duro, estava imundo, obviamente pela terra úmida em que estava deitado, e meu rosto também não estava no melhor estado, além de inchado ainda estava sujo. Tirei o casaco de lã, lavei meu cabelo e meu rosto na pia, com o casaco do lado avesso me sequei. Voltei apenas com a camiseta branca e limpa que estava por baixo.

Ao passar pela diagonal do balcão pude olhar melhor a garçonete, de lado era mais fácil perceber a forma como ela vestia, estilosa para alguns ou alternativa para outros; em seus pés a galocha preta, por baixo do avental uma saia jeans que decerto havia sido cortada por uma tesoura cega para ter seu tamanho diminuido, a regata que ela usava tinha uma estampa psicodélica dando alguma alegria ao resto do conjunto. Sentei-me novamente de frente ao balcão, guardando meu casaco dentro da maleta e pensando que eu provavelmente sentiria frio do lado de fora do café.

Eu não sei porque e nem o que exatamente me chamava atenção para aquela moça, eu sabia que não era por beleza e ela poderia ser deslumbrante, com o dia que eu tive, ainda não despertaria meu interesse. Sei lá, ela aparentava alguma coisa misteriosa, meio que uma coisa sinistra; desde pequeno eu ouvia os outros dizendo que é pelos olhos que se vêem certas coisas que o resto do corpo não mostra; mas não eram seus olhos, pelo contrário, seu olhar era amistoso, ou meigo, ou feminino, ou os três juntos. Eu só sei que ela me demonstrava confiança, parecia ser uma pessoa dessas que se pode confiar até o pior dos segredos. Mas ainda assim havia algo sinistro nela.

A ironia não me fugia, quando pensei em algo confiante quanto à ela e também em um segredo, logo pensei na minha situação. E um sorriso irônico surgiu em minha face, imaginei-me contando o \'meu segredo\' para ela, coisa que jamais faria. Aquela garçonete me atrairia se não fosse a situação, e olha que isso é uma coisa rara desde a faculdade de medicina, quando as garotas passaram a se tornar segundo plano e minha paixão era o estudo e nada mais, a não ser pelas moças de apenas uma noite que se encontra na noite de Glasgow, outra coisa que também acontecia raramente.

Não tardou muito para meu lanche chegar e eu devorá-lo tão rápido quanto pude. Paguei e fui embora, do lado de fora uma brisa em minha direção gelou minha espinha, e eu teria de aguentar a noite fria sem meu casaco imundo. Fora da lanchonete as coisas pareciam mais turbulentas, eu voltava a ficar perturbado pelas coisas que me aconteceram, acho que aquela garçonete me acalmava de alguma forma.

O custo para achar meu carro começou a me irritar, antes eu o procurava distraidamente, quando notei o que fazia e o tempo que já tinha levado, comecei a me estressar. Eu sabia que tinha estacionado longe, mas não fazia idéia do lugar. Tirei o relógio de pulso dentro da maleta e vi que já era pouco mais de onze da noite. Aquela situação estava me deixando pirado, no dia seguinte eu tinha faculdade e além de não saber aonde meu carro estava, eu ainda teria que me esforçar para encontrar o caminho de volta para casa.

Dei a volta na mesma rua diversas vezes até perceber que estava andando em circulos, então resolvi virar a esquerda e tentar outro caminho e encontrei uma rua que parecia ser a que tinha estacionado. Um conjunto habitacional cheio de prédios revestidos de tijolos e meu carro em seguida; em pensar que o problema estava tão próximo.

Minhas passadas agora eram muito mais velozes chegando perto do carro, então um bequinho entre dois edifícios iguais e meu olhar passando rápido por lá. E do nada parei, fiquei de pé logo após o beco para confirmar o que eu tinha visto; a rua completamente deserta, a noite que já havia caído há um bom tempo e a moça lá dentro sussurrando alguma coisa com bastante dificuldade.

Dei dois passos para trás e confirmei que meus olhos não tinham falhado, havia alguém ferido naquele bequinho imundo. Meus passos me dirigiram para lá e quando eu estava ao lado da garota ferida lembrei-me que apesar de médico, eu não era exatamente a melhor pessoa para estar ao seu lado. Era incrível como eu me transformava nestes momentos, minhas pupilas saltavam, minha boca ficava sedenta e eu deixava de ser tudo o que eu era.

Ela ainda sussurrava algo direcionado a quem lhe feriu, provavelmente tentando gritar, mas o corte na sua garganta devia ter danificado suas cordas vocais. Ela era uma moça bonita, aliás bonita demais, ainda que eu fosse um tanto suspeito para falar dela naquela situação, mas acredito que ainda assim ela fosse de uma beleza surpreendente. Tenho certeza de que ela nem percebeu a minha aproximação, o sangue que ela tinha perdido era suficiente para causar-lhe alucinações.

Seu corpo havia sido completamente esfaqueado, pelo que eu pude analisar não houve meticulosidade no assassinato, provavelmente ela recebeu golpes rápidos e profundos, porém não foram cortes precisos e sim algo feito com um objeto cortante impulsionado várias vezes contra seu corpo todo. A arma que a feriu era provavelmente larga e pesada, as marcas em sua pele mediam em torno de 4 cm. Desde seu pé até a extensão da cabeça, haviam ferimentos, a maior parte deles eram profundos e os que estavam localizados na área torácica devem ter atingido alguns orgãos.

Mesmo sendo um universitário de medicina, eu nunca havia visto tanto sangue em meus 21 anos de vida, e também não conseguia compreender como ela ainda conseguia estar viva. Em volta dela havia uma poça der sangue, aqueles golpes tinham provocado uma hemorragia e eu, que até então era um moço plenamente confiante, sabia que ainda tinha chances de salvá-la. Isto é, caso eu quisesse, naquele momento eu só conseguia ficar ajoelhado na frente do corpo e paralisado com as minhas próprias atitudes doentias.

É claro, para mim aquilo era um banquete, em meus momentos de alucinação eu desejava ter aquilo e agora eu tinha em minha frente. Eu estava incontrolável, em estado de transe, aquele cheiro me tirava os sentidos e de uma hora para outra eu comecei a me mexer descontroladamente. Foi a primeira mudança de comportamento relacionada àquelas experiências, eu parecia o Neil Miller, estava completamente aflito; em um segundo eu tocava compulsoriamente naquelas feridas, no outro eu encostava meu nariz para sentir o cheiro de sangue, no próximo eu pressionava o corpo da vítima e assim eu ia fazendo as loucuras que me davam vontade.

Até eu parar e tentar retomar a minha consciência, nesse instante pude perceber que a moça ainda não tinha notado a minha presença, todo aquele sangue que ela havia perdido tiraram sua lucidez também. Eu me forçava a agir normalmente e fazer o que era preciso, mas o esforço é muito maior quando uma parte de você lhe diz para fazer o contrário, e nem sei quanto tempo eu perdi até tomar a decisão.

Não foi correto, eu sei, mas eu não pude resistir, as minhas mãos pressionavam lentamente um corte no ombro esquerdo da vítima, minha língua também acompanhou o movimento e tocou-lhe a ferida sentindo aquele sabor e a razão já tinha ido embora por completo. Meu estado foi ao extase quando tirei a minha boca do machucado, o gosto ainda presente em mim, eufórico e satisfeito, era o que eu estava, ou louco, louco eu tenho certeza que estava.

Foi lentamente que eu começava a recuperar a minha conciência, mas eu sabia que eu não precisava ser politicamente correto o tempo inteiro, porém aquilo era muito mais do que politicamente incorreto. O senso me dizia para ir embora e procurar uma cura para essa doença, mas mesmo consciente eu ainda não sabia se queria me curar. A única coisa que eu queria era uma recordação a mais, por isso eu alcancei uma seringa em minha maleta e tirei um pouco de sangue puro ainda nas veias da moça agora morta, dentro de uma ampola eu guardei aquele líquido para sempre como uma lembrança, não sei se uma lembrança boa ou ruim, mas com certeza uma forte lembrança.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.