Enquanto fumava o último cigarro que tinha comprado Adrien observava a passagem tediosa de pessoas a sua frente, a única coisa que lhe restara para aquele fim era o sentar-se enquanto as pessoas corriam apressadas para seu destino. O centro sempre era movimentado no fim de tarde, mesmo nos dias mais frios. Desde pequeno o garoto com olhos grandes e de sardas no rosto tinha uma mania: Dar nome e histórias para desconhecidos.

Quem eram? Será que tinham filhos, cachorros, esposas ou sequer uma família? Seus ancestrais poderiam ter sido rainhas, reis, mercenários, putas, pobres e ainda sim estavam ali, caminhando em filas como formigas.

Helena foi uma das poucas a quem o sardento tinha se afeiçoado, ainda era verão quando ele a viu pela primeira vez em seu vestido florido, seus olhos tinham um quê de selvageria que o corpo delicado contratava tão bem, parecia uma moeda com duas faces distintas. Por fora: brisa leve, por dentro: furacão. E nem por mil prostitutas praticantes de yoga Adrian trocaria a memória daquele dia. Os cabelos castanhos dela se revoltavam contra sua face por causa do vento, mas ela não parecia se incomodar, é como se o mundo estivesse conectado aqueles olhos ameaçadoramente sexys. A única coisa que podia pensar enquanto tragava o cigarro era o quanto sua beleza poderia ter afrontado a deusa Afrodite, assim como a antiga Helena de Tróia. Páris havia sido esperto em escolher a deusa da beleza como a melhor e assim ostentou a mais bonita garota para que todos pudessem ver. Mas não há nada que torture mais um homem do que ter algo de si tomado e assim Menelau tentou tomar o que era seu de volta com sangue banhado em suas espadas. As vezes Adrien questionava se a Helena atual tinha um triângulo amoroso tão ridículo quanto aquele, todas as vezes que ela passava na rua era sozinha, apenas uma ou duas estava ao telefone e ainda sim matinha-se afastada demais para que qualquer palavra pudesse ser ouvida. Mesmo sem saber seu nome a achava maravilhosa e quando a comparava-a com a espartana aí é que tornava as coisas mais interessantes. Esqueceram que a espartana era uma rainha, que tinha vontade própria e ele esperava que ninguém fizesse isso com a tempestade de olhos castanhos que o encantara tanto.

Era sexta-feira, a chuva assolava e as ruas pareciam cada vez mais desertas, mas um garoto com o rosto cheio de sardas continuava no mesmo lugar de sempre, com um cigarro entre os dedos e os cabelos negros ensopados. Faziam mais de duas semanas que sua musa não aparecia e perguntava-se se o Menelau havia tomado-a de volta, impedindo que suas curvas servissem de inspiração para os poemas escondidos no fundo de uma caixa, mas exatamente naquele dia ela rompeu pela esquina, correndo da chuva que caía, mesmo toda ensopada ainda parecia maravilhosamente encantadora e ainda sim quando uma das poças junto à uma pedra solta a fez tropeçar e cair, ela riu e seu riso...

Por Zeus, será que estava apaixonado por uma de suas personagens? Era ele Páris, querendo algo apenas superficialmente? Mas não, não era só aquele corpo, era sua alma.

Jogou o cigarro quando levantou-se para ajudá-la, iria tomar controle sobre sua história pelo menos uma vez.

Um presente grego para si mesmo.