Helena e outros contos
2 II - Helena
E mesmo que lá fora uma tempestade estivesse bradando todo seu esplendor para os meros humanos que fugiam dela, Cordélia não sentia nada menos que uma calmaria estupenda ao se enroscar com um garoto em sua cama, tudo bem que só tinha dormido com ele um par de vezes, mas ele transmitia uma sensação de leveza que outrora havia a irritado tanto, mas que mudara para algo reconfortante.
— Recite algo para mim — Disse o jovem moço em um dos seus primeiros encontros e um poema de Poe brotou, o riso do sardento tomou conta do lugar quando a mesma se embaralhou com as palavras.
— Teria ficado melhor se você não tivesse errado, Lia.
— Se tivesse recitado sem errar, não seria eu — Retrucou, ofendida.
— Se não fosse você — suspirou — Não seria mais ninguém.
A garota rolou para fora dos braços de Adrien, apenas para observá-lo melhor. Mesmo que seus olhos estivessem fechados não conseguia esquecer a profundidade deles, olhos que percebiam tudo ao redor, mas não devolviam nada. O quanto era sortuda por conhecer um cara como aquele? Na semana anterior havia encontrado os poemas que ele tanto tentara esconder e foi impossível não sorrir. Helena de Esparta geralmente era retratada como uma mulher manipulada, esquecida, uma bela face e nada mais, contudo o sardento resolveu retratar Cordélia e Helena de outra maneira e isso a encantou. Ainda sim sentia-se como um passarinho preso em uma gaiola enorme que mascarava a sensação de prisão.
— Eu sou uma babaca por te deixar ir — Murmurou baixinho sem acordá-lo, mesmo que tudo estivesse correndo bem e Adrien parecesse querer algo a mais com ela, sentia como se não estivesse fazendo a coisa certa.
Em um dos poemas ele havia usado a metáfora de "presente grego" e isso havia a intrigado de uma maneira... Parecia que as raízes de pensamentos ruins estivessem tomando conta de cada neurônio que lhe restava. Ela não era nenhuma Helena de Tróia, não havia Menelau e muito menos uma guerra pelo seu corpo tão comum, só esperava que ele não percebesse isso tarde demais. Com seus feitos e seus defeitos ele havia a conquistado pouco a pouco, talvez fosse seu sorriso cafajeste mesmo que de cafajeste ele tivesse pouquíssimo ou até mesmo os poemas que ele murmurava baixinho em seu ouvido enquanto a envolvia em abraços apertados.
— Volte para a cama — Adrien resmungou com sua voz rouca — Está frio demais sem você aqui — Lia ignorou seus pedidos e passou direito para a cozinha, precisava de um café forte. Mesmo que tentasse se acostumar com o fato de que primeiro ele se apaixonou por uma idealização de si mesma falhava miseravelmente.
Estava ele apaixonado realmente por ela ou só por aquilo que queria estar? Não sabia, por via das dúvidas, tomou café.
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