Hefesto

2 Caminho para a cura


Olá, meu nome é Rick H. Rodani. Eu sou um feiticeiro... Bom, na cabeça do povo, sim. É melhor eu explicar do início. Eu nasci em Nova Gaema, um lugarzinho pacato no Norte do continente. Com oito anos eu comecei a praticar ilusionismo, só pra impressionar as garotas da vila, algumas coisas bobinhas como fazer animais pequenos desaparecer, ou tirar uma moeda da orelha. Com o tempo fui ganhando prática, e meus truques passaram a ser mais complexos. “Vou andar sobre a água”, “Vou teletransportar minha assistente”, “Quando eu tirar o pano, esse cavalo irá desaparecer diante de seus olhos”. Conquistei mais e mais seguidores no decorrer dos anos. Ironicamente, a pessoa que menos me admirava era a que me jurou amor eterno, minha esposa Victoria. Isso porque ela era a minha assistente, ou seja, ela fazia todo o truque enquanto eu recebia os aplausos, o que a deixava insana. Tivemos discussões sérias sobre Victória receber mais espaço nos shows, até que ela resolveu me deixar. Assim como fui abandonado, eu resolvi que devia abandonar a mágica e encontrar um trabalho mais simples, mas antes, eu devia fazer o maior truque da minha vida. E assim foi, aquele foi o meu maior público, todos atentos esperando o perigoso truque. Fui arremessado ao lago em um casulo de metal preso a várias cadeados e correntes. As pessoas que assistiam quase entraram em desespero, eu pude ouvir gritos e chouro. E quando menos esperavam, eu, Rick Rodani, apareci sorrateiramente atrás do público em uma pose majestosa. Fechei meus olhos, ergui meus braços, e com a cabeça inclinada em direção aos céus e um largo sorriso no rosto exclamei em voz alta:

– É a mim que procuram?

Esperei pacientemente os aplausos e gritos de louvor, mas só pude ouvir o som do lago e o sopro do vento. Meu sorriso foi se desfaendo, olhei para os espectadores e só enxerguei rostos sérios e expressões de medo. De pernas trêmulas e olhos arregalados, uma senhora de idade apontou em minha direção.

– Este rapaz é um bruxo.

Logo, todas as vozes repetiam a frase. Quando dei por mim, estava em um vagão em direção a Lamuran. Após. Após um ano eu seria executado, mas felizmente, um louco e um ferreiro me ajudaram a fugir, e agora o homem que salvou minha vida tem ódio de mim, isso porque eu não trouxe comida para os cavalos.

– Mas, Trouxão, eu já pedi desculpas – Dizia eu – Ficar aí emburrado não resolve o nosso problema.

– Só sabe ficar aí pedindo desculpas, mas faz ideia do tamanho desse deserto? E se os cavalos não aguentarem a viagem toda com fome? Vamos todos morrer nesse deserto.

– Antes de me matar, lembre-se que eu sei o caminho para a biblioteca profana. — Na verdade eu não sabia, mas aquela mentira me salvava.

– Sim, você ainda é útil, Rick. Alguém já conseguiu chegar na biblioteca profana antes de nós?

– Eu soube de um caso, houve uma expedição uma vez com um grupo de cavaleiros. Todos desapareceram. Depois que o caso se espalhou, o Guardião Celeste decretou que se mais alguém tentasse entrar na biblioteca profana, toda a humanidade seria amaldiçoada.

– Ele tem medo do que possamos descobrir lá, e tenta combater esse medo com mais medo. Isso só me motiva ainda mais a chegar naquela biblioteca. Espero que esses cavalos não morram de fome até lá.

– Você se preocupa demais, Heitor. Dá uma boa olhada pra eles, eu diria que eles aguentariam cruzar o planeta.

– Assim espero.

A viagem continuou, e em alguns minutos conseguimos avistar uma cidade de longe. Entretanto, os cavalos começaram a se mover mais lentamente, até que simplesmente pararam e permaneceram deitados na areia. Heitor olhou diretamente para mim como quem diz “eu avisei, não foi?!” Depois olhou em direção a cidade e ficou pensativo.

– Você tem força nos braços? – Heitor perguntou.

– Eu?

– Estamos em um deserto.

– Ah... Sim, acho que sim, mas não muita. Por que? – Respondi sem entender muito bem a pergunta.

– Então me ajude a colocar os animais dentro do vagão.

– Obedeci sem questionar para não aumentar a raiva que ele sentia naquele momento. Os animais estavam no vagão, e nós fora. Ainda sem entender eu perguntei:

– Ótimo! Agora quem vai puxar o vagão até a cidade próxima, nós dois? – Perguntei sarcasticamente.

Heitor sorriu de lado e acenou com a cabeça.

– Está maluco, Trouxão? Isso é trabalho para os cavalos. – Gritei – Se eles não foram capazes de chegar até lá carregando o vagão, que chance temos? Se quisermos ter a mínima chance de sobreviver teremos que abandonar os cavalos aqui e ir até a cidade sem eles.

– Isso é crueldade, Rick. Eu não vou deixa-los morrer por um erro seu. Agradeça por eu te ajudar a puxar o vagão, eu deveria deixar todo o trabalho pra você.

E então os cavalos se tornaram os passageiros do vagão, enquanto Heitor e eu éramos os cavalos. Até que isso era uma boa promoção, se levar em conta que não prisão de Lamuran os guardas nos chamavam de baratas.

Assim foi até chegarmos à cidade mais próxima, o Trouxão e eu puxando o pesado vagão. Estávamos nos aproximando da cidade, mas eu estava praticamente sem folego. Olhei para o lado esperando ver um homem igualmente exausto, mas me surpreendi. Não sei ao certo se a motivação dele era chegar na cidade ou salvar os animais, mas sei que era nítida sua determinação. Me espelhando em Heitor, também prossegui puxando o vagão com toda a força. Já era possível ver mais claramente algumas casas e algumas pessoas. Minha visão ficava cada vez mais embaçada, meus braços sem força. Antes que tudo ficasse completamente escuro eu vi alguém na cidade apontando em nossa direção. Tudo apagou e eu perdi os meus sentidos.

Horas depois eu abri os meus olhos e olhei ao meu redor. Vi uma jarra de água, uma janela, uma porta, paredes e a cama em que eu estava. Não era difícil presumir que eu estava na cidade e alguém estava cuidado de mim. Meio zonzo, tentei levantar mas acabei derrubando a jarra d’água. O barulho ecoou por toda a casa. Consegui me manter em pé, fui em direção a porta, mas antes que eu tocasse na maçaneta alguém abriu a porta. Era um garoto de pouca idade. Oito, nove, ou talvez dez anos. Ele me olhou sorrindo e demonstrou entusiasmo em me ver acordado.

– Que bom que está bem, senhor... Ah, perdão. Devo chama-lo de Sir?

– Hã? Sir?

– Sim. Afinal, o senhor é um cavaleiro, não? Foi o que o meu pai deduziu ao ver o vagão que traziam, era um vagão que cavaleiros usam para transportar prisioneiros. Além do mais, encontramos duas espadas dentro do vagão que aparentavam ter sido forjadas pelo ferreiro real. O senhor não é um cavaleiro?

– Ah... sim, claro! Me perdoe, é que ainda estou um pouco tonto. Sou Sir Alan Rivail.

– O quê? Sir Rivail, o líder do exército real?

– Sim. Exatamente. Esse aí sou eu. E antes de mais nada, peço desculpas por derrubar a jarra. É que eu acordei meio desajeitado e...

– Não se preocupe, Sir Rivail. A água era para o senhor, mas tem mais na mesa. A propósito, estamos ceando no momento. Gostaria de se juntar a nós?

– Sim, seria uma honra.

No caminho até a sala de jantar ouvi o menino cochichar algo como “Si Rivail está na minha casa, meus amigos não vão acreditar”. Chegando a mesa, o garoto me poupou o trabalho de me apresentar, as pessoas a mesa ficaram deslumbradas ao escutar o garoto dizendo o nome de Alan Rivail e apontando pra mim. Rapidamente, o pai de família se levantou da cadeira e estendeu as mãos.

– Não se preocupem, eu posso usar uma cadeira desocupada. – Eu disse puxando uma cadeira vazia. – Eu não mereço tamanha gentileza. – Essa foi uma de minhas poucas verdades.

Enquanto tentava fazer minha refeição, fui constantemente surpreendido com perguntas que eu não sabia a resposta. “Aquela é a espada que usou para vencer as ultimas doze guerras?” “É verdade que ela tem poder para abrir uma cratera?” “Pode contar como foi aquela vez em que decepou uma lobo gigante?” E eu tentei fugir das perguntas:

– Esses assuntos não são adequados para o almoço, crianças.

Deixem o general em paz, crianças. – Repreendia a mãe – Ele deve estar farto de repetir essas historias.

A propósito, Seu Alan – Começou o pai – Quem é o Homem que encontramos com o senhor? Também é um cavaleiro?

– Na verdade ele é o meu fiel escudeiro. Rapaz dedicado, forte, pena que não é muito são. Não acreditem em histórias sobre ele ser um ferreiro e eu um mágico. E já que tocaram no assunto, onde ele está?

– Deixamos ele dormindo em outra cama. – Disse o menino. – Posso acorda-lo?

– Não será necessário – Respondi – Ele fez mas esforço que eu, peço que o deixem descansar bastante.

– Temos ciência do esforço dele. – Disse o pai – Quando encontramos vocês, ele estava puxando o vagão sozinho. Você e dois cavalos brancos estavam dentro do vagão. E não se preocupe, Seu Alan Rivail, também estamos cuidando dos animais. Demos água e comida, seria muita crueldade deixar que aqueles animais morressem de fome.

– Sim... Claro... Que ser desnaturado faria algo dessa natureza, não é mesmo? – Dizia eu, tropeçando em minha fala. – Mas se não se importam, senhores, vou partir para explicar minha situação aos meus superiores Contarei sobre o acidente no vagão e claro, contarei o quanto vocês foram bons comigo e com meu escudeiro. Logo eu volto para buscar meus cavalos, o vagão e meu escudeiro.

– Que o guardião celeste te proteja. Mencione nossos nomes para o rei – Pediu o menino – Somos a família Galloti.

– Falarei sobre vocês com orgulho.

Peguei a espada forjada por Heitor e saí, obviamente não para explicar minha situação ao meu superior, até porque eu nem ao menos sabia onde vivia o superior de Sir Rivail. Entrei em um mercado e voltei levando um saco de ouro, foi fácil vender a espada, bastou dizer o que eu escutei, que a espada cria crateras, foi usada em doze guerras e esse tipo de mentiras que eu nem precisei inventar. Enquanto saia do estabelecimento, vi uma criança correndo em minha direção. O menino agarrou minha calça e começou a implorar. Era um menino gordinho com cabelo de tigela, tinha umas manchas na pele e espirrava constantemente.

– Senhor, por favor me ajude. – Disse enquanto espirrava – Eu estou muito doente.

– Me desculpe, filho. Mas eu não sou um médico.

– Eu sei disso, o senhor é um cavaleiro, e quero que me proteja na caminho até o caminho para o médico da floresta, dizem que ele pode curar qualquer doença, mas nunca mostra seu rosto.

– Você é um bebê chorão – Disse uma garota mais velha enquanto se aproximava. – Eu já disse que vou te proteger, sou forte e corajosa.

– Bem que eu queria ajudar vocês, crianças. – Dizia eu tentando escapar. — Mas infelizmente eu não sei o caminho.

– A gente sabe! – Respondeu a garota – Por isso não precisamos de um cavaleiro.

– Não liga pra ela, a gente precisa de você, senhor. Por favor. – Respondeu o menino com olhos húmidos.

Pensei seriamente em recusar, mas não parecia certo, além do que isso poderia estragar o meu disfarce.

– Está bem – Respondi – Eu ajudo vocês. Prazer, meu nome é Alan.

– O meu é Chelli

– O meu é Saulo. Vem, a gente te mostra o caminho.

O caminho não era longo, mas realmente haviam alguns perigos. Primeiro foi uma armadilha de cordas que prendeu Chelli, eu fui ajudar mas ela recusou e disse que não precisava de mim. Após algumas horas roendo e tentando cortar a armadilha ele conseguiu sair. A outra foi uma armadilha de chão falso, Saulo caiu nessa, conseguimos tirá-lo com as cordas da armadilha de Chelli. E o ultimo foi enquanto anoitecia, fomos surpreendidos por dois lobos. Eu os espantei com bombas de fumaça que uso em truques. Para as crianças, o que eu fiz foi lançar fogo pelas mãos.

– Como fez isso, senhor Alan? – Perguntou Saulo.

– Esses são poderes de cavaleiro, meu jovem. – Respondi – Sinta-se privilegiado por vê-lo, pois evitamos mostrar esses dons.

– Pff... Grande coisa. – Disse Chelli — Eu poderia espantar os lobos com os meus punhos.

Eis que finalmente chegamos a casa do médico, o menino mais uma vez agarrou na minha perna morrendo de medo, a garota olhou pra ele com descontentamento e bateu na porta de madeira. Um homem atendeu. Era um sujeito com uma túnica azul e preta ou branca e dourada, não me lembro ao certo. Usava luvas longas e uma máscara com bico de pássaro.

– Bom dia, meu nome é Dimitri. Em quê posso ajuda-los? – Não era possível ver seus olhos, mas pela inclinação da máscara era possível perceber que ele olhou diretamente para o garoto. – Bom, acho que não precisam explicar. Entrem logo.

Dimitri levou Saulo para uma sala fechada, enquanto eu e Chelli ficamos esperando em alguns assentos perto da sala. Chelli ficava me encarando com um olhar de desconfiança.

– Onde está sua espada. Perguntou a garota.

– Eu vendi, logo o ferreiro forjará uma nova.

– E sua armadura?

– Não achei que fosse precisar de armadura nessa cidade pacata, qual é o nome mesmo?

– É Canis. E os cavaleiros não costumam vir aqui. Você não é como os outros.

– Às vezes é bom ser diferente, Chelli.

O médico saiu da sala trazendo o menino.

– Olha quem está aqui. – Disse Dimitri – Nosso Saulo está novinho em folha.

Saulo aparecia mais corado, sem as manchas na pele e sem espirrar.

– Muito obrigado, senhor Dimitri. – Eu disse agradecendo. — Irei lhe pagar com ouro puro. Já pode tirar sua máscara, queremos ver o rosto do herói.

– Lamento, mas eu não posso arriscar. A vila cidade depende de mim, não posso ficar doente.

Mas não há mais com o que se contaminar. – Insisti – todos estamos saudáveis.

– Senhor, Alan. Se insistir eu terei que ser rude.

Aquela altura eu já estava ciente do que estava acontecendo, e decidi interrogar o rapaz.

– Dimitri, podemos ter uma conversa a sós?

– Não temos sobre o quê conversar.

– Temos sim, e você não quer que eu fale perto de Chelli e Saulo, quer?

Dimitri ficou parado, infelizmente eu não sabia o que estava pensando, e era impossível ver sua expressão.

– Acompanhe-me, cavaleiro.

Entramos na sala onde ele curava os doentes enquanto as crianças ficavam esperando de fora. Era um lugar bastante empoeirado e cheio de anotações. Haviam poções que eu nunca vi antes, e nem ao menos ouvi falar. Dimitri travou a fechadura da porta e se dirigiu a mim.

– Você já sabe de tudo?!

– Sim, e não foi tão difícil descobrir. Você era um dos homem que foi para a biblioteca profana com outros cavaleiros. – Cochichei. – E é com o conhecimento profano que cura os doentes. Por isso não deixa que ninguém veja seu rosto, pois sabe que vão te reconhecer e te denunciar. E se distancia de todos para evitar que alguém te investigue.

– Sim, é tudo verdade. Mas não se preocupe com o menino. O meu conhecimento profano nunca matou ninguém. Outras pessoas da cidade também já descobriram, mas preferem se calar, porque sabem que sou útil. Vai me denunciar.

– Seria irônico se eu te denunciasse – Respondi gargalhando. – Considerando que eu também não sou exatamente quem acha que sou.

– Então o que quer? Veio apenas se vangloriar por ter descoberto a verdade?

– Na verdade, como eu sei que você encontrou a biblioteca profana, eu quero que você faça um mapa pra mim.