Hefesto

3 Corredor do Hospício


– Às vezes, não entendo o que viu em mim. Eu só forjo armas, ganho a vida com a morte.

– Às vezes, não entendo o porquê de se menosprezar tanto. Seu trabalho é árduo, mas alguém deveria fazê-lo.

– O que diríamos aos nossos filhos?

– Que você é importante para o exército, e o exército protege a todos. Você é um herói.

– Sou um covarde. Só fortaleço o exército porque sei que se eles morrerem, civis como eu serão convocados.

– Não são as motivações que fazem um herói, e sim os atos.

– Como os seus? Seus medicamentos naturais salvam vidas. Você será um orgulho para os filhos que teremos.

– Não tanto quanto você, Heitor. Sua contribuição para os cavaleiros reais será lembrada por gerações.

– Ninguém se lembra do ferreiro.

– Eu me lembrarei, e amarei esse ferreiro até que a morte nos separe.

– Sempre achei “até que a morte nos separe” pouco tempo demais. Eu juro viver por mil anos pra te amar.

– Eu juro que viverei por mil anos pra ser amada.

E aquela foi uma das várias vezes que sonhei com Lavínia, e mais uma vez me culpei por sua morte. Ela não pôde cumprir nossa promessa, pois foi morta com uma arma que eu mesmo forjei. Aquela era o meu melhor sonho, e por isso eu detestava tanto tê-lo. Sonhos são demônios traiçoeiros que aparecem para nos fazer odiar a nossa realidade. Odeio ilusões de todos os tipos, por isso, odeio Rick, o ilusionista.

Meu nome é Heitor Magma, eu sou o ferreiro real, ou melhor, fui. Porque hoje, eu sou apenas mais um fugitivo.

Depois daquele sonho, abri lentamente meus olhos. O ambiente a minha volta não parecia em nada com o lugar que imaginei que estaria. Minhas últimas lembranças me levam ao deserto de Lamuran, onde depois que Rick caiu inconsciente, me vi obrigado a puxar sozinho o vagão, com Rick e dois alazões de grande porte dentro. Após uma difícil caminhada pelo deserto puxando peso, chegamos a cidade de Canis. Um homem adulto com uma criança vieram ajudar. Fizeram muitas perguntas, mas não tive folego para responder. Logo, eu não vi mais nada, e assim como Rick, eu me joguei inconsciente no chão. Considerando o que aconteceu, o mais lógico seria que eu estivesse sendo julgado ou levado de volta a Lamuran, entretanto, estou em um quarto modesto de uma casa da cidade de Canis. Havia uma jarra d’água por perto. Me levantei, e bebi rapidamente toda a água que encontrei, a sede era demais para pensar em pedir permissão a alguém naquele momento. Coloquei a jarra vazia de volta e comecei a tentar entender aquela situação. Por que ajudariam um prisioneiro? De qualquer forma, não acho que queriam meu mal, do contrário, não me salvariam, e muito menos deixariam uma jarra prevendo minha sede. Resolvi que deveria falar com os meus salvadores. Abri a porta e saí. “Olá, tem alguém aí”. Sem resposta, continuei andando até encontrar alguém naquela casa. Ouvi sons, eram vozes de adultos e de crianças, então eu me aproximei calmamente das vozes.

– Olá, alguém aí? – repeti.

Um garoto foi me recepcionar, mostrou entusiasmo ao me ver e logo me convidou para cear a mesa onde estavam todos da família. Por educação, fui me apresentar:

– Obrigado pela hospitalidade. Eu sou...

– Heitor – interrompeu o menino – Não precisa se apresentar, Sir Alan Rivail nos contou sobre você.

Fiquei surpreso, meu contato com Alan Rivail era pouco mesmo na época em que eu trabalhava para o exército real.

– Alan esteve aqui? – perguntei

– É claro que sim – disse o pai — Inclusive era ele que estava no vagão que o senhor carregava. Como você não sabe disso?

– Lembre-se do que o cavaleiro disse, meu bem – disse a mulher da família ao marido cochichando – Esse escudeiro é louco, ele pensa ser um ferreiro.

Naquele momento, tudo fez sentido. Obviamente Rick disse que era um cavaleiro e que eu era o seu escudeiro louco. Por isso nos ajudaram, por não saberem que somos fugitivos de Lamuran. Graças a Rick, eu era o louco daquele lugar.

– Vocês sabem onde Sir Rivail está agora? – Perguntei

– Ele saiu, mas disse que volta logo – responderam.

Agradeci a comida e a estadia e saí procurando aquele maldito ilusionista contador de histórias. Um pouco longe da casa, pude ver o nosso vagão do lado da casa e os cavalos sendo alimentados. Perguntei para várias pessoas da cidade se sabiam onde poderia encontrar Sir Rivail, apontaram para um mercado ali perto, dizendo que ele havia passado por ali. Entrei, e fui falar com o mercador:

– Olá, senhor. Viu Sir Rivail passar por aqui?

– Vi sim. Rapaz bondoso. Me vendeu uma espada valiosíssima por um excelente preço.

– Como sabia que aquelas espada não era falsa?

– Porque nela havia o símbolo do ferreiro real. Além do mais, por que o líder do exército mentiria?

“Por que ele mentiria”, os mentirosos sempre agradecem a esse tipo de pensamento. Qualquer mentira pode ser sustentada com um argumento sim, e o pior de tudo é que ele não tem resposta. Rick era um manipulador, vendeu uma espada feita a partir de sucata na prisão como se fosse uma arma da realeza. Ainda preciso explicar o motivo de não me dar bem com Rick?

– E onde ele foi? — Perguntei

– Ele saiu acompanhando duas crianças, ouvi que iriam falar com o médico da floresta.

Agradeci e sai com uma expressão de fúria que era possível perceber de longe.

Enquanto andava, escutei gritos e gemidos de um jovem. Era possível ver vários rostos apavorados na multidão. No centro da praça havia um velho fazendo de refém um adolescente, ele estava com a faca quase tocando o pescoço do rapaz, e com a outra o prendia. Gritos e mais gritos por toda parte. “Ajudem-no”, “Socorro”, “Alguém”. Estarrecido, o rapaz demonstrava seu medo desde a ponta dos dedos até o suor frio que escorria em seu rosto. O senhor de tão magro era possível ver seus ossos, sem muito cabelo e com uma longa barba grisalha. “Para trás, eu não estou blefando”, gritava o velho com uma expressão determinada a todos que se aproximavam.

– O que você quer? – Perguntavam ao velho algumas pessoas na multidão.

– O sábio, onde ele está? – Respondia o velho esbravejante – Eu sei que vocês o escondem de mim. Onde ele está?

O povo se mantinha aflito assistindo a cena sem saber o que fazer. Qualquer tentativa de ação poderia terminar mal naquele momento. Em contrapartida, se ninguém agisse, também poderia ocorrer algo aterrorizante. Engoli seco, dei um passo à frente, e gritei para ele:

– Eu sou quem procura. Eu sou o sábio.

Tinha medo de me tornar um mentiroso do nível de Rick, mas a vida do rapaz era mais importante que o meu senso de moralidade. Era uma mentira necessária. E na balança, pesa menos que uma morte.

– Diz a verdade? – Perguntava espantado o velho – O sábio é você mesmo? Então diga aquilo que só o sábio sabe!

– Não posso dizer aqui – respondi — Se eu dissesse perto de tanta gente, todos saberiam o segredo que me define sábio. – Terminei, e desejei fortemente que ele fosse burro o suficiente pra cair naquela mentira mal contada.

O velho parou em uma expressão pensativa e permaneceu nela por alguns segundos, enquanto o garoto mantido de refém quase soltava o coração pela boca.

– Você está certo – respondeu o velho – seria loucura contar o segredo sábio em público, não é mesmo?! Você é mais sábio que eu pensei. – Se dirigiu ao garoto e pediu educadamente – Olha aqui, eu vou ali falar com o sábio e já volto, tá bom? Não saia daí.

– Cla... C... Claro, senhor. – Respondeu apavorado.

O velho largou o jovem rapaz e deu um salto para o meu lado, começou a andar lentamente em minha direção. Prevenindo um ataque, gritei a todos.

– Vamos, ele já largou a vítima. Ataquem-no.

A multidão ficou quieta e imóvel.

– O que esperam? – dizia eu – Juntos conseguiremos desarma-lo. Vamos.

Mais uma vez ninguém quis agir.

– Então isso tudo não passou de um plano contra mim? – O velho olhou para trás e nem viu mais sinal do refém. – Você fez isso para o rapaz fugir? – Apontou a faca pra mim – Você vai ter que passar por três testes agora. Se passar nos três quer dizer que é o sábio que procuro, mas se falhar eu vou mata-lo com essa mesma faca. Ouviu bem?

Naquele momento a multidão se desfez e cada um foi para um canto. Ninguém estava realmente preocupado comigo. Acho que para eles, eu deveria sair da situação que eu mesmo me coloquei. Não vendo outra escolha, aceitei.

– Está bem – respondi – pode começar o teste.

– Então, comecemos – aproximou ainda mais a faca de mim – Você está numa ilha sem animais e frutas, e pode morrer a qualquer momento. A única comida na ilha é um pedaço pequeno de pão. Um amigo irá te buscar em sete dias de barco. Não importa qual dia você coma o pão, vai acabar morrendo de fome um dia ou outro. O que você faria, sábio.

– Tenho tempo para responder?

– Não, tem que responder agora. Um sábio responderia algo simples assim rapidamente. Vamos!

– Bom, como você disse, o pão não mataria uma fome de sete dias. O mais lógico seria dividir o pão em pedaços pequenos e usar esses pedaços como isca para peixes, talvez os peixes que eu consiga pescar me deixem vivo nesse período de tempo.

– Está certo – ele respondeu enquanto tirava a faca do meu rumo – Agora o próximo teste. Eu sou um ser imortal, e poderia ter os mesmos poderes que o guardião celeste. Posso dizer que sou um deus como ele. Acredita no que digo?

Naquele momento o velho não me amedrontava mais. Abaixei meus braços, respirei normalmente e respondi:

– Não, não acredito que seja um deus. Você é apenas mais um louco entre tantos nesse mundo. – disse olhando firmemente para ele.

O velho abaixou a faca, deu meia volta e disse de costas para mim:

– Você não é o sábio que procuro. Mas isso não impede que você se torne ele um dia.

– O sábio responderia que acredita que você é um deus? – perguntei com um tom de sarcasmo.

– Não necessariamente – ele respondeu – Talvez sim, talvez não, talvez talvez. Se encontrar esse sábio, digo que Leonard o procura. Infelizmente nem eu sei como esse sábio é.

Ele começou a se afastar e andar na direção oposta a minha.

– E o terceiro teste? – perguntei .

– Do que está falando? Você já fez os três. O primeiro era salvar a vida de um desconhecido que não seja uma linda donzela.

– Você é o mendigo mais louco que eu conheci. Em vez de pedir esmola, obriga a fazer joguinhos.

– Já disse que sou um deus, sou imortal, não preciso de dinheiro, aliás, só preciso pra convencer certos jovens a fingirem que são meus reféns.

E depois de dizer isso, ele se foi. Voltei na casa que me abrigou, peguei a espada que forjei em Lamuran, um dos cavalos do vagão e parti para a floresta. No caminho, eu parava para conferir os rastros, as pegadas guiavam meu caminho. As armadilhas desarmadas me diziam que alguém havia passado por ali há pouco tempo. A noite estava prestes a cair, mas a casa estava próxima. Desci e bati na porta, a garota que atendeu se apresentou como Chelli.

– Oi, Chelli. Estou procurando Rick, você o conhece?

– Não tem nenhum Rick aqui, senhor. Até mais.

A menina quase bateu a porta, mas impedi empurrando com um dos braços.

– Tudo bem, senhorita. Pode me dizer os nomes das pessoas que estão nessa casa.

– Não, eu nem conheço você. Nos deixe em paz.

Empurrei a porta com toda a força, olhei em seus olhos e falei firmemente.

– Não precisa me dizer. Um homem de cabelos longos, e pouca barba chegou dizendo ser um cavaleiro real e vocês acreditaram?

– Bom, sim. Mas por que ele mentiria?

Antes da minha resposta a garota começou a olhar pra si mesma e questionar a própria inteligência.

– Posso, entrar? – perguntei.

Ela se afastou e me deu passagem.

– Onde ele está agora?

– Ele entrou na sala do médico.

Um outro garoto que estava lá dentro ficou espantado ao me ver.

– Como deixou um homem estranho estrar?- Perguntou ele a menina.

– Já confiamos em estranhos piores. – Chelli respondeu se referindo ao Rick.

Minutos depois, Dimitri saiu da sala e me cumprimentou.

– Olá, senhor – disse ele – é um convidado das crianças?

Rick apareceu logo em seguida tentando explicar a situação.

– Na verdade esse é...

– Sou Heitor. – interrompi – Sou o um ferreiro. E esse que entrou dizendo ser um cavaleiro na verdade é Rick, um mentiroso por profissão.

– Esse tempo todo fomos protegidos por um ilusionista? – perguntou o menino

– Sim. Não precisa agradecer – disse Rick. – Qual é o seu problema, Heitor? Saiba que tudo o que eu disse foi para salvar a nossa pele. Se não fosse por mim, você estaria na Torre de Lamuran agora.

– Se não fosse por você, estaríamos rumo à biblioteca profana agora.

– Ah, até agora você não me desculpou por eu não ter levado cenouras para os cavalos? Esquece isso, e lembre-se, você ainda precisa da minha ajuda pra chegar à biblioteca.

– Então ele vai com você, Rick?- perguntou o médico – Espero que entendam bem o meu mapa. Boa sorte.

– Mapa? – perguntei – Você pediu para fazerem um mapa? Na prisão você disse que sabia o caminho. Olha, me dá esse mapa aqui, eu vou sozinho.

– Nem pensar, eu consegui o mapa e ele vai ficar comigo. Eu serei o guia dessa viagem e você fará armas pra mim em troca, esse era o trato.

– Que seja, vamos.

– Eu vou junto – disse a menina

– Isso é para adultos. – Respondi

– Meu nome é Chelli. E eu não estava pedindo. Eu vou junto e meu irmão também.

– Na verdade eu prefiro ficar aqui – respondeu o menino – Quero que o senhor Dimitri me ensine tudo o que sabe. Eu também quero ser o médico da cidade um dia. Vai me ensinar, senhor Dimitri.

– Bom, eu preciso passar os meus conhecimentos pra alguém, não é mesmo?! – respondeu Dimitri – Afinal, eu não vou viver para sempre, mas os habitantes de Canis sempre vão precisar de um médico. Espero que seja um bom aluno, Saulo.

– Eu serei. Você irá se surpreender comigo.

– Cuide bem do Saulo por mim enquanto eu estiver com o homem que fingiu ser cavaleiro e o outro que diz ser ferreiro. – disse Chelli – Eu volto pra te visitar em breve.

– Já disse que você não vai com a gente, Chelli.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.