Hefesto
3 Corredor do Hospício

– Não são as motivações que fazem um herói, e sim os atos.– Como os seus? Seus medicamentos naturais salvam vidas. Você será um orgulho para os filhos que teremos.– Não tanto quanto você, Heitor. Sua contribuição para os cavaleiros reais será lembrada por gerações.– Ninguém se lembra do ferreiro. – Eu me lembrarei, e amarei esse ferreiro até que a morte nos separe.– Sempre achei “até que a morte nos separe” pouco tempo demais. Eu juro viver por mil anos pra te amar.– Eu juro que viverei por mil anos pra ser amada. E aquela foi uma das várias vezes que sonhei com Lavínia, e mais uma vez me culpei por sua morte. Ela não pôde cumprir nossa promessa, pois foi morta com uma arma que eu mesmo forjei. Aquela era o meu melhor sonho, e por isso eu detestava tanto tê-lo. Sonhos são demônios traiçoeiros que aparecem para nos fazer odiar a nossa realidade. Odeio ilusões de todos os tipos, por isso, odeio Rick, o ilusionista. Meu nome é Heitor Magma, eu sou o ferreiro real, ou melhor, fui. Porque hoje, eu sou apenas mais um fugitivo. Depois daquele sonho, abri lentamente meus olhos. O ambiente a minha volta não parecia em nada com o lugar que imaginei que estaria. Minhas últimas lembranças me levam ao deserto de Lamuran, onde depois que Rick caiu inconsciente, me vi obrigado a puxar sozinho o vagão, com Rick e dois alazões de grande porte dentro. Após uma difícil caminhada pelo deserto puxando peso, chegamos a cidade de Canis. Um homem adulto com uma criança vieram ajudar. Fizeram muitas perguntas, mas não tive folego para responder. Logo, eu não vi mais nada, e assim como Rick, eu me joguei inconsciente no chão. Considerando o que aconteceu, o mais lógico seria que eu estivesse sendo julgado ou levado de volta a Lamuran, entretanto, estou em um quarto modesto de uma casa da cidade de Canis. Havia uma jarra d’água por perto. Me levantei, e bebi rapidamente toda a água que encontrei, a sede era demais para pensar em pedir permissão a alguém naquele momento. Coloquei a jarra vazia de volta e comecei a tentar entender aquela situação. Por que ajudariam um prisioneiro? De qualquer forma, não acho que queriam meu mal, do contrário, não me salvariam, e muito menos deixariam uma jarra prevendo minha sede. Resolvi que deveria falar com os meus salvadores. Abri a porta e saí. “Olá, tem alguém aí”. Sem resposta, continuei andando até encontrar alguém naquela casa. Ouvi sons, eram vozes de adultos e de crianças, então eu me aproximei calmamente das vozes.– Olá, alguém aí? – repeti. Um garoto foi me recepcionar, mostrou entusiasmo ao me ver e logo me convidou para cear a mesa onde estavam todos da família. Por educação, fui me apresentar:– Obrigado pela hospitalidade. Eu sou...– Heitor – interrompeu o menino – Não precisa se apresentar, Sir Alan Rivail nos contou sobre você. Fiquei surpreso, meu contato com Alan Rivail era pouco mesmo na época em que eu trabalhava para o exército real.– Alan esteve aqui? – perguntei– É claro que sim – disse o pai — Inclusive era ele que estava no vagão que o senhor carregava. Como você não sabe disso?– Lembre-se do que o cavaleiro disse, meu bem – disse a mulher da família ao marido cochichando – Esse escudeiro é louco, ele pensa ser um ferreiro. Naquele momento, tudo fez sentido. Obviamente Rick disse que era um cavaleiro e que eu era o seu escudeiro louco. Por isso nos ajudaram, por não saberem que somos fugitivos de Lamuran. Graças a Rick, eu era o louco daquele lugar.– Vocês sabem onde Sir Rivail está agora? – Perguntei– Ele saiu, mas disse que volta logo – responderam. Agradeci a comida e a estadia e saí procurando aquele maldito ilusionista contador de histórias. Um pouco longe da casa, pude ver o nosso vagão do lado da casa e os cavalos sendo alimentados. Perguntei para várias pessoas da cidade se sabiam onde poderia encontrar Sir Rivail, apontaram para um mercado ali perto, dizendo que ele havia passado por ali. Entrei, e fui falar com o mercador:– Olá, senhor. Viu Sir Rivail passar por aqui?– Vi sim. Rapaz bondoso. Me vendeu uma espada valiosíssima por um excelente preço.– Como sabia que aquelas espada não era falsa?– Porque nela havia o símbolo do ferreiro real. Além do mais, por que o líder do exército mentiria?
“Por que ele mentiria”, os mentirosos sempre agradecem a esse tipo de pensamento. Qualquer mentira pode ser sustentada com um argumento sim, e o pior de tudo é que ele não tem resposta. Rick era um manipulador, vendeu uma espada feita a partir de sucata na prisão como se fosse uma arma da realeza. Ainda preciso explicar o motivo de não me dar bem com Rick?– E onde ele foi? — Perguntei– Ele saiu acompanhando duas crianças, ouvi que iriam falar com o médico da floresta. Agradeci e sai com uma expressão de fúria que era possível perceber de longe. Enquanto andava, escutei gritos e gemidos de um jovem. Era possível ver vários rostos apavorados na multidão. No centro da praça havia um velho fazendo de refém um adolescente, ele estava com a faca quase tocando o pescoço do rapaz, e com a outra o prendia. Gritos e mais gritos por toda parte. “Ajudem-no”, “Socorro”, “Alguém”. Estarrecido, o rapaz demonstrava seu medo desde a ponta dos dedos até o suor frio que escorria em seu rosto. O senhor de tão magro era possível ver seus ossos, sem muito cabelo e com uma longa barba grisalha. “Para trás, eu não estou blefando”, gritava o velho com uma expressão determinada a todos que se aproximavam. – O que você quer? – Perguntavam ao velho algumas pessoas na multidão.– O sábio, onde ele está? – Respondia o velho esbravejante – Eu sei que vocês o escondem de mim. Onde ele está? O povo se mantinha aflito assistindo a cena sem saber o que fazer. Qualquer tentativa de ação poderia terminar mal naquele momento. Em contrapartida, se ninguém agisse, também poderia ocorrer algo aterrorizante. Engoli seco, dei um passo à frente, e gritei para ele:– Eu sou quem procura. Eu sou o sábio. Tinha medo de me tornar um mentiroso do nível de Rick, mas a vida do rapaz era mais importante que o meu senso de moralidade. Era uma mentira necessária. E na balança, pesa menos que uma morte.– Diz a verdade? – Perguntava espantado o velho – O sábio é você mesmo? Então diga aquilo que só o sábio sabe!– Não posso dizer aqui – respondi — Se eu dissesse perto de tanta gente, todos saberiam o segredo que me define sábio. – Terminei, e desejei fortemente que ele fosse burro o suficiente pra cair naquela mentira mal contada. O velho parou em uma expressão pensativa e permaneceu nela por alguns segundos, enquanto o garoto mantido de refém quase soltava o coração pela boca.– Você está certo – respondeu o velho – seria loucura contar o segredo sábio em público, não é mesmo?! Você é mais sábio que eu pensei. – Se dirigiu ao garoto e pediu educadamente – Olha aqui, eu vou ali falar com o sábio e já volto, tá bom? Não saia daí.– Cla... C... Claro, senhor. – Respondeu apavorado. O velho largou o jovem rapaz e deu um salto para o meu lado, começou a andar lentamente em minha direção. Prevenindo um ataque, gritei a todos.– Vamos, ele já largou a vítima. Ataquem-no. A multidão ficou quieta e imóvel.– O que esperam? – dizia eu – Juntos conseguiremos desarma-lo. Vamos. Mais uma vez ninguém quis agir. – Então isso tudo não passou de um plano contra mim? – O velho olhou para trás e nem viu mais sinal do refém. – Você fez isso para o rapaz fugir? – Apontou a faca pra mim – Você vai ter que passar por três testes agora. Se passar nos três quer dizer que é o sábio que procuro, mas se falhar eu vou mata-lo com essa mesma faca. Ouviu bem? Naquele momento a multidão se desfez e cada um foi para um canto. Ninguém estava realmente preocupado comigo. Acho que para eles, eu deveria sair da situação que eu mesmo me coloquei. Não vendo outra escolha, aceitei.– Está bem – respondi – pode começar o teste.– Então, comecemos – aproximou ainda mais a faca de mim – Você está numa ilha sem animais e frutas, e pode morrer a qualquer momento. A única comida na ilha é um pedaço pequeno de pão. Um amigo irá te buscar em sete dias de barco. Não importa qual dia você coma o pão, vai acabar morrendo de fome um dia ou outro. O que você faria, sábio.– Tenho tempo para responder?– Não, tem que responder agora. Um sábio responderia algo simples assim rapidamente. Vamos!– Bom, como você disse, o pão não mataria uma fome de sete dias. O mais lógico seria dividir o pão em pedaços pequenos e usar esses pedaços como isca para peixes, talvez os peixes que eu consiga pescar me deixem vivo nesse período de tempo.– Está certo – ele respondeu enquanto tirava a faca do meu rumo – Agora o próximo teste. Eu sou um ser imortal, e poderia ter os mesmos poderes que o guardião celeste. Posso dizer que sou um deus como ele. Acredita no que digo? Naquele momento o velho não me amedrontava mais. Abaixei meus braços, respirei normalmente e respondi:– Não, não acredito que seja um deus. Você é apenas mais um louco entre tantos nesse mundo. – disse olhando firmemente para ele. O velho abaixou a faca, deu meia volta e disse de costas para mim:– Você não é o sábio que procuro. Mas isso não impede que você se torne ele um dia.– O sábio responderia que acredita que você é um deus? – perguntei com um tom de sarcasmo.– Não necessariamente – ele respondeu – Talvez sim, talvez não, talvez talvez. Se encontrar esse sábio, digo que Leonard o procura. Infelizmente nem eu sei como esse sábio é. Ele começou a se afastar e andar na direção oposta a minha.– E o terceiro teste? – perguntei .– Do que está falando? Você já fez os três. O primeiro era salvar a vida de um desconhecido que não seja uma linda donzela.– Você é o mendigo mais louco que eu conheci. Em vez de pedir esmola, obriga a fazer joguinhos.– Já disse que sou um deus, sou imortal, não preciso de dinheiro, aliás, só preciso pra convencer certos jovens a fingirem que são meus reféns. E depois de dizer isso, ele se foi. Voltei na casa que me abrigou, peguei a espada que forjei em Lamuran, um dos cavalos do vagão e parti para a floresta. No caminho, eu parava para conferir os rastros, as pegadas guiavam meu caminho. As armadilhas desarmadas me diziam que alguém havia passado por ali há pouco tempo. A noite estava prestes a cair, mas a casa estava próxima. Desci e bati na porta, a garota que atendeu se apresentou como Chelli.– Oi, Chelli. Estou procurando Rick, você o conhece?– Não tem nenhum Rick aqui, senhor. Até mais. A menina quase bateu a porta, mas impedi empurrando com um dos braços.– Tudo bem, senhorita. Pode me dizer os nomes das pessoas que estão nessa casa.– Não, eu nem conheço você. Nos deixe em paz. Empurrei a porta com toda a força, olhei em seus olhos e falei firmemente.– Não precisa me dizer. Um homem de cabelos longos, e pouca barba chegou dizendo ser um cavaleiro real e vocês acreditaram?– Bom, sim. Mas por que ele mentiria? Antes da minha resposta a garota começou a olhar pra si mesma e questionar a própria inteligência.– Posso, entrar? – perguntei. Ela se afastou e me deu passagem.– Onde ele está agora?– Ele entrou na sala do médico. Um outro garoto que estava lá dentro ficou espantado ao me ver.– Como deixou um homem estranho estrar?- Perguntou ele a menina.– Já confiamos em estranhos piores. – Chelli respondeu se referindo ao Rick. Minutos depois, Dimitri saiu da sala e me cumprimentou.– Olá, senhor – disse ele – é um convidado das crianças? Rick apareceu logo em seguida tentando explicar a situação.– Na verdade esse é...– Sou Heitor. – interrompi – Sou o um ferreiro. E esse que entrou dizendo ser um cavaleiro na verdade é Rick, um mentiroso por profissão.– Esse tempo todo fomos protegidos por um ilusionista? – perguntou o menino– Sim. Não precisa agradecer – disse Rick. – Qual é o seu problema, Heitor? Saiba que tudo o que eu disse foi para salvar a nossa pele. Se não fosse por mim, você estaria na Torre de Lamuran agora.– Se não fosse por você, estaríamos rumo à biblioteca profana agora.– Ah, até agora você não me desculpou por eu não ter levado cenouras para os cavalos? Esquece isso, e lembre-se, você ainda precisa da minha ajuda pra chegar à biblioteca. – Então ele vai com você, Rick?- perguntou o médico – Espero que entendam bem o meu mapa. Boa sorte.– Mapa? – perguntei – Você pediu para fazerem um mapa? Na prisão você disse que sabia o caminho. Olha, me dá esse mapa aqui, eu vou sozinho.– Nem pensar, eu consegui o mapa e ele vai ficar comigo. Eu serei o guia dessa viagem e você fará armas pra mim em troca, esse era o trato. – Que seja, vamos.– Eu vou junto – disse a menina– Isso é para adultos. – Respondi
– Meu nome é Chelli. E eu não estava pedindo. Eu vou junto e meu irmão também.– Na verdade eu prefiro ficar aqui – respondeu o menino – Quero que o senhor Dimitri me ensine tudo o que sabe. Eu também quero ser o médico da cidade um dia. Vai me ensinar, senhor Dimitri.– Bom, eu preciso passar os meus conhecimentos pra alguém, não é mesmo?! – respondeu Dimitri – Afinal, eu não vou viver para sempre, mas os habitantes de Canis sempre vão precisar de um médico. Espero que seja um bom aluno, Saulo.– Eu serei. Você irá se surpreender comigo.– Cuide bem do Saulo por mim enquanto eu estiver com o homem que fingiu ser cavaleiro e o outro que diz ser ferreiro. – disse Chelli – Eu volto pra te visitar em breve.– Já disse que você não vai com a gente, Chelli.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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