Hecatombe
3 Garoto Perdido
Notas iniciais
ELES NÃO cumpriram o juramento, assim que os demônios atacaram, correram como cães sarnentos e me deixaram para trás junto com Aodh em um buraco após o chão abaixo de mim desmoronar. Não importa o quanto eu grite, eles não vêm me buscar, nem ao menos sons de passos eu podia ouvir. Temo por Aodh, tentou me ajudar mas acabou se ferrando.
Eu estou em um corredor escuro, iluminado apenas por algumas lâmpadas amareladas que em três dias queimarão com toda a certeza. Levantei a Lanterna que Victória me deu, graças a Deusa eu não perdi, mas não digo o mesmo do verificador, que após os demônios atacarem, a máquina acabou em em pedacinhos após escombros caírem sobre ela. Coloco as mãos no fuzil preso a mim e aponto para frente,retiro minha máscara quebrada, agradecendo por nenhum caco furar meus lhos. Olho para frente, e decido que qualquer pessoa que aparecer, seja humano, anjo ou possuído, eu irei matar sem hesitar.
Haviam várias portas de ferro espalhadas pelo corredor e algumas delas estavam destrancadas com ratos e lacraias correndo a todo vapor. Não me arrisco a entrar e continuo andando, repreendo o medo que ameaça tomar conta de meu ser e respiro fundo, limpando o suor de minha testa.
Quando chego ao final do corredor, percebo uma porta maior e a abro com a ponta do fuzil, fazendo o máximo para que as minhas pernas mantenham a compostura e não vacilem com o ranger do metal. Mais um corredor imenso se revela, e aos lados várias outras portas, suspiro quando não vejo nenhum sinal de luz do dia, mas as luzes deste corredor são mais brilhantes e brancas, nada comparadas a de Temiscira. Peter gostaria de saber que baterias estão alimentando a energia deste lugar. Continuo andando pelo labirinto de paredes enferrujadas, um bolo começa a se formar em minha garganta, dificultando a passagem da saliva, aperto o punho e finco as unhas na palma da mão, tentando esconder de mim mesma a tremedeira, o medo de permanecer aqui para sempre e encontrar a morte, ou pior, a possessão.
Um vulto quase me derruba e faz o fuzil disparar, me recomponho e miro o fuzil novamente com o coração na mão. O vulto passa novamente, mas desta vez me derruba e rouba minha arma, retiro a pistola do cinto em minha coxa esquerda e miro novamente, mas para minha infelicidade, o vulto aparece em minha frente e quando atiro, nada acontece, ele apenas continua andando na parte sombria do corredor em minha direção, e percebo o formato de meu fuzil em sua mão, segurando o objeto desajeitado, como se não soubesse o que era e como se usava aquilo. Logo lembrei de Genoveva, queria que fosse tudo uma simples piada de mau gosto, e que ela e Enzo rissem de mim após ver a minha cara de susto, mas o que veio a seguir, me deixou completamente atordoada.
Dizem que fantasmas não existem, vários dividem opiniões sobre isso, mas eu poderia facilmente fazer alguém acreditar, se visse a mesma coisa que eu vi. O vulto é um homem, não aparenta ser muito mais velho que eu, apesar da barba e cabelos brancos que descem até a altura do estômago, sua altura me intimida, mas logo percebo as leves ondulações dos ossos das costelas aparecendo sob sua blusa maltrapilha e a clavícula saliente demais, sua pele branca como leite indica desnutrição, mas logo repreendi o sentimento de pena quando senti um metal encostando em meu pescoço, apontei a pistola para sua testa antes que pudesse me acertar com a faca, mas um grunhido me arrepiou.
O estranho olha para trás e eu acompanho o seu olhar, observando as silhuetas destorcidas andando desajeitados, maltrapilhos e chiando a respiração enquanto tentavam nos farejar no corredor á direita. É um bando de possuídos e estão vindo em nossa direção. Tomo o fuzil da mão do indivíduo e armo para atirar, mas ele pega o objeto novamente de minhas mãos, leva o indicador aos lábios secos, indicando silêncio e me joga dentro de uma das portas, fechando-a vagarosa e silenciosamente, posso até ouvir um suspiro de alívio.
— Quem é você? — Pergunto, ele estende a mão aberta para mim para que eu espere, enquanto mantém a orelha colada ao ferro. Após três suspiros ele se vira para mim e larga o fuzil no chão.
Coloco a mão na faca em minhas costas quando ele se aproxima demais e a puxo, ele se assusta com o brilho do ferro e levanta as mãos em posição de rendição, mas mesmo assim, não abaixo a arma branca.
— Quem é você? — Coloco a faca em seu pescoço ossudo e ele não reclama e nem recua, parece até se divertir um pouco, mas se afasta dois passos e fura a parede três vezes fazendo o mínimo de barulho. — Responda!
Ele passa por mim, checando uma caixa com várias velas e as acende com um isqueiro.
— Onde achou isso? No mercado? Como fugiu dos demônios? — Ele acende a segunda vela. — Você não fala?
Ele suspira e me encarara enquanto coça a cabeça oleosa, faço uma careta.
— Eu posso te chamar... De Humpty Dumpty? Você parece ele, é um personagem que... Ah, esquece. — Ele balança a cabeça para os lados como se tentasse entender, mas acho que não faz a mínima ideia do que eu digo. — Então Humpty, como saímos daqui? — Abaixo a faca lentamente enquanto aponto para a porta trancada. O albino balança a cabeça negativamente e com um pânico absoluto nos olhos. Ele está com medo.
— Temos armas. — Continuo apontando para o que me parece uma katana que está no chão e levanto o fuzil ao seu lado. Pelo visto ele está muito fraco e faminto, mas o medo está atrapalhando tudo. Quando baixa os olhos e vai até o outro lado da saleta enquanto cruza os braços, a minha esperança se esvai. Levanto as sobrancelhas e tento abrir a porta, mas ela emperra. — Você eu não sei, mas eu preciso sair daqui.
— Chad! Onde você está? — Ouço a voz de Aodh no corredor, me desespero com a altura de sua voz, que pode atrair os milhares de demônios para o lugar onde ele está.
Eu não iria ficar ali, isso é óbvio. Ando até o albino, fico em sua frente e respiro fundo uma, duas, três vezes até me concentrar e eliminar tudo de minha mente. Eu evito o máximo entrar na cabeça das pessoas e eu não gosto nem um pouco disso, muito menos controlá-los, faço isso apenas em caso de necessidade. Sinto cada pelo do meu corpo de eriçar, e meus ouvidos são preenchidos com um som semelhante ao de um objeto de alumínio arranhando um quadro negro, os meus ossos pulsam, mas eu não consigo entrar. O Albino se apoia na parede e seus olhos arregalam, a ponto de quase saltarem das órbitas, ele arranha a parede quebrando suas unhas, provavelmente ele sente a mesma dor que eu, mas aprendi a suportar enquanto não podia controlar.
Tento mais uma vez, mas o homem está fraco e completamente exausto, segurando nas paredes e com uma ruga formada no meio da testa. Se eu tentasse novamente, ele não poderia resistir ou desmaiaria e eu precisava dele bem acordado já que ele despertou minha curiosidade.
— Por que não consigo? — Levo minha mão até seu braço, mas ele toma meu pulso antes e me afasta, olhando para mim como se eu fosse um monstro.
Puxo meu braço de maneira ríspida e caminho novamente até a porta, antes que o Albino possa ver, dou uma série de tiros de fuzil na fechadura que logo abre, fico feliz, dou até um sorriso, mas Humpty mantém os olhos arregalados, alternando o olhar da tranca da porta e para a arma em minha mão. Suas sobrancelhas se abaixam e ele coloca as mãos na nuca em sinal de desespero.
— Olha, eu sei que você não faz idéia do que eu digo, mas nós temos que sair daqui. Quer dizer, olhe para você. — Aponto para seu corpo decadente. — De onde eu venho temos água, comida e camas quentes, se você for comigo, posso te mostrar esse lugar. E meu parceiro está lá fora, não posso deixá-lo morrer.
Ele me olha atento, mas parece que entende o que eu quis dizer, porque ele pega a katana do chão e sai primeiro, não antes de revirar os olhos.
As luzes antes brancas e brilhantes, agora piscam incansáveis, como se acompanhassem o rítimo de nossa corrida. Alguns demônios fazem guarda perto dos corredores e eu os elimino sem hesitar nenhuma vez, pintando as paredes de vermelho. Por outro lado, Albino corta várias cabeças com empolgação, embora esteja com medo.
— Aodh! — Gritei fazendo eco. Humpty fecha os olhos como se minha voz o incomodasse. Talvez ele more há muito tempo aqui e não esteja acostumado com sons altos. Sinto muito por ele, mas preciso encontrá-lo. — Aodh!
— Chad? Chad! Onde está você?
— Siga a minha voz! — Continuamos correndo, até que o corredor acaba e alguns demônios nos cercam. Era um beco sem saída. Albino prepara o facão, apesar de suas mãos tremerem ligeiramente. — Aodh!
Barulhos de fuzil preenchem o ambiente, fazendo com que Albino tampe os ouvidos.Os demônios em nossa frente são todos aniquilados e estamos desagradavelmente ensopados de sangue. Aodh nos achou, e está de pé atrás dos cadáveres recarregando o fuzil, quando olha para o Albino, aponta a arma.
— Espera! — Me coloquei na frente da arma. — Ele é uma pessoa comum.
— Como sabe? Está com o verificador?
— Uh, não, mas usei minhas habilidades pscíquicas, ele é... Apenas um cara que se perdeu e não se lembra da saída. — Minto sem dó, mas parece que o cara não acredita. — E além do mais, se ele fosse um demônio, me possuiria.
— Ele pode ser um anjo. — Eu não havia pensado nisso. Ele é enorme, extremamente alto, até mais do que eu e tem cabelos brancos... Mas não tem asas. — E você não sabe mentir. Saia da frente.
— Espere! Ele... Ele não reage à minha habilidade, não consigo ler sua mente, quero descobrir o porquê. E ele me salvou, eu iria morrer nas mãos dos demônios. — O que não é uma mentira, se ele não me colocasse dentro daquela saleta, eu não estaria mais aqui contando história. Mas por outro lado, se os demônios não aparecessem, ele iria passar aquela faca no meu pescoço.
— E você me conta isso esperando que eu mude de ideia? — Apenas dou um sorriso amarelo. Ele abaixa o fuzil e pega o verificador da cintura, coloca no rosto de Albino, que encara a máquina com curiosidade. Aodh aperta o botão e a parte de vidro analisa a íris vermelha do homem. — Indefinido?
Coloca a máquina novamente perto dos olhos de Albino e o objeto dá a mesma resposta.
— O que você é? — Aodh encara bem o homem, que mantém sua cara de paisagem.
— Ele não fala.- Aodh vira Humpty de costas e algema suas mãos. Ele não luta e aceita ser levado pelo soldado.- Vamos resolver isso em Temiscira antes que mais demônios apareçam.
Caminhamos todo o trajeto de volta, na verdade Aodh nos guia novamente e quando saímos do subterrâneo, Albino grita de dor pelos seus olhos em contato com a luz, tento tirá-lo do sol, penso que sua pele queimará como os dos albinos normais, mas nada disso acontece. Suspirei aliviada e continuamos a caminhada até chegarmos nos portões de Temiscira. Eu assobio e a guarda dos muros nos observa, abrindo o portão com as armas apontadas um minuto depois.
Presto atenção nos soldados que usam os aparelhos em nós, vendo se estamos ou não possuídos. Olho para a soldada que coloca a máquina no rosto de Albino e desesperadamente abro minha mente, conectando nós duas em uma mesma linha, absorvendo tudo de sua cabeça. Ela é a soldada Evelian , vinte e um anos. Por um momento, somos uma só pessoa, e vejo por seus olhos, a palavra "indefinido" escrita na tela do vidro, mudo em sua cabeça e troco a palavra por "humano". Ninguém vê o resultado, e ela repete fazendo todos saírem de cima dele após a verificação.
Uma substância quente desce de minhas narinas e acompanho com o olhar Aodh ser trazido para o meu lado com as mãos amarradas para frente.
— Onde estava esse homem? — Capitã Ciara pergunta, limpo meu nariz sujo de sangue e Aodh responde por mim.
— Em um estacionamento, senhora.
— Como chegaram lá?
— Fomos atacados por demônios em um de nossos treinos fora dos muros. — Um burburinho em meio aos soldados se espalhou quando eu falei. — Eu o encontrei perdido em corredores subterrâneos. Vasculhei sua mente, ele é um homem perdido da família há muitos anos.
Ela olha para Aodh, depois para mim e por fim para Albino. Ela fica horrorizada com algo, talvez até desesperada.
— Pois bem, vocês dois, Chad e Aodh, estão ,afastados dos deveres militares até que a lua cheia chegue. — Ela vira as costas e começa a andar para longe.
— O que? Não! Por que? -Vou atrás dela, mas alguns soldados e me impedem de continuar.
— Vocês trouxeram este homem até aqui há poucos dias antes do ritual.- Olhamos todos juntos para o albino, que parece intertido com uma borboleta azul que insiste em pousar no seu nariz. Eu riria, se a situação não fosse trágica. — Sabem bem das regras!
— Olhe para ele, é mais inofensivo que o rebanho de ovelhas que tenho em casa. — Solto sem querer uma risada e ela me repreende com o olhar.
— Sou sua capitã, me dirija a palavra com mais respeito. — Aodh me cutuca com o cotovelo.
— Sim senhora, desculpe. — Abaixo a cabeça.
— Encaminhem-se para suas respectivas salas de treinmento, Victoria e eu iremos visitá-los.
As outras portas para entrar na resistência são abertas e andamos escoltados com todos os olhares sobre nós.
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