Hecatombe
4 Regras
Notas iniciais
Nas primeiras horas nos deram alguns medicamentos para evitar doenças devido a exposição ao cheiro ácido que descobrimos ser um tipo de gás, passamos por diversos aparelhos em telas que apitavam e nos espetavam com agulhas até encostar nos ossos. Foram exames dolorosos, e todos que tiveram contato conosco depois que voltamos, como os guardas que nos interrogaram na entrada, também tiveram seus corpos expostos aos remédios e ás substâncias químicas que nos rodearam. Estávamos todos em salas separadas, por isso levei uma eternidade para encontrar os aposentos de Humpty e invadir a mente dos médicos que cuidavam dele retirando qualquer suspeita de sua humanidade. Ele passou pelos mesmos processos que eu após ser mandado para a sala de higiene.
Retiraram tantas amostras de seu sangue e passaram por máquinas tantas vezes, que fiquei tonta ao tentar mudar a visão de todos os médicos de uma vez e tive uma hemorragia nasal grave, mas nada que eu já não esteja costumada, afinal, já fui para a enfermaria e sala de exames para fazer testes tantas vezes, que conheço esse lugar como a palma de minhas mãos, com exceção dos corredores onde se situavam as salas descontaminação, onde estou agora.
Me deram um roupão, e nos proibiram de ter contato com os outros por três horas, o tempo estimado para que os remédios fizessem o efeito.
Aprendi a contar as horas pelo sol, e a janela de vidro me permite agora uma exatidão de quase seis horas da tarde. Assim, entra uma das médicas no quarto e me entrega roupas limpas. Uma calça de moletom cinza, uma regata preta e o casaco da mesma cor, vou descalço para fora do quarto, calçando as botas apressadamente pelo caminho e amarrando o casaco na cintura, intrigada com a "Conversa" que pretendiam ter comigo e com Aodh. Um fio de apreensão toma meu peito e sinto ter feito algo errado, uma súbita vontade de me esconder entre os milharais como um ladrão se esconde em seu covil me toma, e paro de correr.
Tudo está acontecendo por minha culpa, se eu for expulsa das atividades militares e levar Aodh junto comigo, nunca mais me perdoarei. Talvez eu acabe cuidando dos porcos de meus tios junto com os escravos, mas Aodh não podia ter o mesmo destino, a culpa disso é toda e exclusivamente minha.
Um burburinho me chama atenção e presto atenção no barulho, que vem do andar de baixo, mais específicamente no refeitório. Me apresso para descer as escadas e encontro uma visão que me faz revirar os olhos.
Humpty Dumpty está sendo a uma das longas mesas de madeira enquanto devora de forma voraz um guizado de pato, ele não parece engolir os pedaços dos legumes e da carne, por isso a nossa cozinheira, a idosa Lucrétia o olha com empolgação e felicidade nos olhos, aconselhando o homem a comer devagar, pois pode sentir dores estomacais, mas claro que ele não dá ouvidos a ela e continua a comer como um animal.
Do outro lado da mesa, estão algumas poucas pessoas, não mais que dez, entre elas reconheço Enzo, Genoveva, a garota de cabeça raspada e Aodh. Os três primeiros se escondem discretamente atrás da militar que vigia Humpty, os presentem o observam como olham um animal que foi morto brutalmente.
Enzo que o olha com repulsa, dirige sua atenção a mim quando me percebe.
— Chad? — Ele vem até mim e me abraça. — Como você está? Está ferida?
— Estou bem. — Observo Aodh em uma cadeira apertando os olhos, ainda com o roupão vermelho. — Aodh? Porque não está usando as suas roupas?
— A enfermeira gentil que me atendeu agora há puco, disse que eu poderia procurar se quisesse me vestir. — Sorriu com desdém e se levantou, passando por mim. — Só estava tomando conta dele até que você viesse.
Percebi o que ele quis dizer, estava cuidando para que ninguém passasse o verificador por Humpty. Se ele estava cuidando disso, significa que nós dois estamos muito ferrados se souberem da mentira, que agora era nossa.
— Gen? — Genoveva me olhou indiferente. — O que houve?
— Ahn... Melhor não. — Enzo me avisa, mas ela já caminha em minha direção. — Já era.
— Você Chad! Você sempre faz tudo errado! Falta pouco para a lua cheia e você traz um homem para Temiscira? A deusa da lua irá nos castigar por dar-lhe uma oferenda não consagrada! — Todos nos observam, enquanto o albino na mesa come desesperadamente, sem tirar os olhos da refeição, e Lucrétia sorri satisfeita enquanto passa as mãos, acariciando os cabelos brancos agora cortados de Humpty. Quase ri, mas as unhas de Genoveva fincam em meu braço.- Quer acabar com os costumes de nosso povo?
— Essa nunca foi minha intensão e não será agora!
— Mas você- Coloco os dedos apertando o alto do nariz, odiando a dor de cabeça que está vindo.
— Genoveva, eu acabei de voltar de uma série de exames, espetaram várias agulhas em minha pele e estou anêmica de tanto sangue que tirei. Não tenho cabeça, tempo e lugar para seus sermões.- Observo suas mãos me arranhando- E me solte! Qual o problema das pessoas com meu braço? — Ela me olha com os olhos azuis arregalados e passa por mim saindo da cantina.
Albino coloca a enorme vasilha de argila na mesa, Lucrétia quase pula de felicidade, ela adora nos ver comendo, mas parece que ela adotou Humpty, pelo modo como que ela apertou suas bochechas sujas de molho até ficarem vermelhas. Ele não fez nenhuma expressão, mas não a afastou.
— Mas que garoto bonito! — Ela sorri. — Que garoto forte! Qual o nome dele?
— Er... — Todos olham para mim, dou de ombros e coço a nuca. — Bom, eu o apelidei de Humpty Dumpty.
— E por que esse nome? É estranho. — A garota de cabeça raspada cruzou os braços e Enzo riu.
— Ah Elvira, e por que mais seria? — Enzo começou. — Para combinar com a bizarrice dele.
Todos gargalham com a provocação do moreno. Estranhamente Albino parece entender o que meu amigo disse, tanto que pega um guardanapo e limpa a boca, logo em seguida o fulminando com o olhar da pupilas vermelhas, o sorriso de Enzo logo se desfaz quando vê o olhar de Humpty sob si.
— Por que ele está me olhando?
— Talvez porque você está sendo rude. — Ele me olha pela primeira vez desde que cheguei ao refeitório. Ele está completamente diferente, sim ele está. Não há sinal algum de que um dia ele tenha tido a barba longa, os cabelos oleosos e encardidos deram lugar a fios albugíneos e seu rosto não está mais sujo, apenas consigo ver as clavículas salientes expostas e algumas cicatrizes altas em seu pescoço, a que me chamou mais atenção corta o final de sua sobrancelha rala. A chuva me chama atenção e o frio é imediato, mas logo que olho para albino, sinto que o sua blusa é fina demais e seus braços permanecem expostos. Retiro o casaco da cintura e me aproximo de Humpty, entregando-lhe a peça de roupa.
— Mas ele não fala. — A de cabeça raspada que reconheci como Elvira fala novamente.
— Isso não quer dizer que ele seja surdo. — Olho para suas mãos, que continuam descansando na mesa. — Vamos, pegue! Vai ficar com frio.
Ele balança a cabeça, negando minha afirmação.
Antes que eu pudesse dizer algo, Victória e Ciara aparecem no recinto, me olhando com uma careta de reprovação que nunca mais quero ver na vida. Aodh está atrás delas com uma roupa parecida com a minha, mas diferente de mim, ele usa o casaco. Assim que eu as vejo, viram as costas e saem do refeitório.
Jogo a peça de roupa estendida para Humpty, que a pega no ar. Corro atrás deles e vamos nós quatro saindo do recinto, o vento úmido me atinge com tamanha brutalidade, que quase me arrependo de ter entregue minha única fonte de aquecimento para o albino.
Algumas pessoas param o que estão fazendo pela rua e nos olham, espantados e preocupados. As notícias correm rápido aqui, mas será que fiz algo tão terrível assim? Ao longo do caminho vejo Allen, meu tio, junto de Morganna. Ao contrário dela, ele me olha com pena.
Quando chegamos ao quartel, sento em uma das cadeiras ao lado de Aodh e elas em suas mesas.
— O que vocês têm a dizer? — Victória começou, parecendo decepcionada. — Desrespeitaram uma das leis mais importantes. Sabem bem que não se deve interromper um ritual de magia! Têm noção disso?
— Sim senhora. — Respondemos em uníssono.
— Então por que fizeram? Estamos nos preparando para isso há meses! — Ciara suspirou e continuou. — Nós negociamos a punição de vocês com as anciãs, sabem quanto esporro nós levamos? Vocês sairão de suas atividades militares por enquanto, sinto muito, mas depois o destino de vocês é incerto.- Senti o ar de meus pulmões se esvaírem. Aodh segura as pernas das cadeiras enquanto suas mãos tremem violentamente.
— Seremos exilados? — Aodh pergunta.
— Claro que não, isso não é o suficiente para um banimento. — Soltamos o ar armazenado. Nem percebi, mas não respirei durante todo aquele tempo. — Mas até a lua cheia, serão responsáveis por... Aquilo.
Eu e Aodh voltamos juntos pelo caminho. Ele não diz nada e fica com a cabeça baixa durante todo o percurso.
— Por que não disse?
— Não disse o que? — Junto as sobrancelhas.
— Que ele era diferente. Sabemos que ele não é um anjo e nem um possuído, mas não reage á sua telepatia. Podia ter dito isso a elas, talvez descobrissem o motivo.
— Você é maluco? — Paro de andar e o encaro. — Ele seria como um porco para o abate! Seria entregue à deusa sem nem passar pelo início do ritual.
— Mas você não foi! — Ele sussurra.
— Você sabe que a deusa não aceita mulheres! Por isso ainda estou viva! — Viro as costas e ando mais rápido,tentando evitar as perguntas inconvenientes de Aodh e mais ainda, evitar minha família. — Você deve ir até Humpty, fique com ele por hoje. Tenho coisas a fazer.
Ando mais rápido, evitando cruzar o olhar com quem quer que fosse, por isso olho para o chão a maior parte do tempo, observando o tamanho das pedras que revestem o chão.
Morgana irá me matar quando souber que fui afastada do serviço militar, ela se preocupa muito, mas não comigo, sim com o nome da nossa família. Não sei o motivo de tanta importância a um nome em meio ao mundo sendo destruído.
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