Heaven's Door
2 Capítulo 1 - Os olhos do diabo
Notas iniciais
Capítulo 1
Os olhos do diabo
Peter não era um assassino.
Aconteceu tudo tão rápido. Agora estava encobrindo pistas e enterrando um corpo. Cavou uma cova bem funda e embrulhou o corpo em uma lona, amarrando com cordas para que o “pacote” (era como estava se referindo ao cadáver) não se desfizesse. Jogou corpo no buraco e começou a cobrir.
O sol brilhava forte e devia estar fazendo mais de trinta graus. O suor escorria pelo rosto de Peter e esquentava seu sangue, aumentando o sangramento do ferimento em seu abdômen. A camisa branca suja de terra já estava grudando na pele. Precisava de alguns pontos e não poderia esperar muito tempo. Terminado o serviço, tentou deixar o solo de maneira que não ficasse aparente que foi remexido, pegou sua mochila e saiu daquele lugar como se nada estivesse acontecido.
Seu carro estava parado a alguns metros. Um Honda Civic azul estacionado as pressas no encostamento. Entrou no veículo e dirigiu como um louco para o hospital mais próximo. Não estava se sentindo nada bem, fosse pela ferida ou pelas imagens que do corpo que não paravam de surgir em sua mente. Lamentou por isso, não era assim que devia ter acontecido. Resolveu se mudar para Heaven’s Door para recomeçar, quis deixar tudo para trás, mas só o que havia conseguido até agora eram sérios problemas.
Peter era um assassino.
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Jake ainda estava desfazendo as malas em seu novo apartamento quando recebeu uma ligação da central de polícia da cidade. Uma nova vítima surgira, porém esta não estava morta, fora encontrada em estado grave em uma rua de pouca movimentação e levada para o hospital. O comunicado dizia que ela já havia recobrado a consciência, portanto estava apta a responder algumas perguntas.
Parou a viatura ao lado de um carro azul no estacionamento e dirigiu-se para a recepção. Uma das coisas que mais gostou da nova cidade era a possibilidade de patrulhar sozinho. O número de policiais era escasso e uma medida para contornar esta situação era a não formação de duplas.
A recepcionista era uma bela mulher, na casa dos trinta anos. Seus cabelos negros estavam presos e seus olhos azuis fitaram Jake através dos óculos assim que ele passou pela porta. Usava um terninho branco por cima de uma camisa cinza. Ela interrompeu suas atividades e dirigiu sua atenção para ele.
–Posso ajudar, policial?- sua voz tinha um tom desafiador misto com nervosismo. Por um momento pensou se ela realmente queria ajudar.
–Jake Banner- Ele mostrou o distintivo, como sempre fazia.
–Muito prazer, Jake- ela levantou-se da cadeira e esticou a mão para ele, que retribuiu com um aperto- Meu nome é Amanda.
–Então, Amanda, preciso ver uma paciente- ele conferiu algumas anotações no smartphone. Tinha anotado o nome da vítima em algum lugar- Seu nome é Annie Foster.
–Claro. Annie Foster- procurou o nome no computador- Terceiro andar, quarto 313
–Obrigado- agradeceu e foi em direção ao elevador.
A tal Annie estava deitada na cama e ligada a vários aparelhos. Também recebia medicação constantemente e anestésicos para aliviar a dor. O cabelo castanho claro estava carinhosamente arrumado e os olhos exibiam uma expressão cansada. Havia um arranhão um pouco fundo em seu rosto que estava sem curativo. Ela olhava através da janela, como se estivesse com medo do que estava lá fora, mas se virou para Jake assim que ouviu as batidas na porta.
–Oi- exibiu um sorriso fraco e forçado.
–Oi. Policial Benner- ele a encarou por alguns segundos, imaginando o que a garota passara- Entendo que possa estar cansada e que tem o direito de se recusar, mas gostaria que você respondesse algumas perguntas.
Ela concordou com um movimento com a cabeça.
–Quando exatamente aconteceu?- perguntou, abrindo um bloco de anotações e dando um clique na caneta.
– Eu saí do trabalho por volta das dezenove horas de ontem, mas minha ficha médica- ela apontou para um papel preso na porta do quarto- diz que o horário de entrada aqui foi as sete e meia.
Ele assentiu.
–Consegue descrever quem te atacou?
–Estava escuro e chovia muita. Eu voltava para casa pelo mesmo caminho que sempre faço quando escutei um barulho atrás de mim, acho que eram latas de lixo. Continuei andando, mas com a sensação de que algo me perseguia e então comecei a correr. Foi aí que cai no chão- ela levou a mão a testa e tentou se esforçar- Não lembro de muita coisa a partir daí, acho que desmaiei. Quando acordei já estava aqui no hospital.
–Entendo. Não pude deixar de notar esse arranhão, lembra de algum som metálico ou algo do tipo?
– Não, mas não acho que ele tinha uma faca- ela levantou a camisa do pijama hospitalar e mostrou mais um machucado. Era como se garras a tivessem tentado rasgar seu abdômen, mas foram interrompidas antes de penetrar mais a fundo na carne.
– Posso ajudar?- perguntou uma voz vinda de trás. Era o médico responsável por Annie, Doutor William Mather.
–Estou apenas fazendo algumas perguntas para Annie...
–Então deve voltar depois, ela passou por um grande trauma e não deve ser perturbada- o médico foi até ela e aplicou uma injeção em um dos seus braços.
–Eu já estava terminando- explicou- De qualquer forma, aqui está o meu cartão- deixou do lado da cama- Me ligue se lembrar de alguma coisa.
–Então vai terminar outra hora- indicou a porta para Jake, fechando-a assim que ele saiu.
Embora achasse o comportamento do Doutor Mather um pouco estranho, aceitou de bom grado. Não era médico e temeu estar perturbando ainda mais a garota.
Percorreu o caminho de volta para o elevador, passando novamente pelos quartos, alguns fechados e outros abertos, olhando com curiosidade para dentro de cada um, até que um em especial chamou sua atenção: Um homem cerca de dois anos mais novo estava sentado em uma das camas mexendo em uma mochila. Sem camisa, usava ataduras enroladas em volta do tronco.
– Peter?- o policial chamou, e o homem se virou- O que está fazendo aqui?- Peter ficou em dúvida se ele se referia ao hospital ou à cidade. Então considerou as duas hipóteses. Jake foi até ele e o abraçou. Encontrar o irmão foi uma grande surpresa, só não sabia será era boa ou ruim
–Acidente de moto- mentiu aceitavelmente bem- E você?
–Trabalho. Foi grave?- apontou para o machucado.
–Não, não foi nada demais. Er... Eu já estava de saída. Vou me hospedar no Munk Hotel, se precisar de mim, me procure lá- Peter colocou a mochila nas costas. Agora estava mais preocupado ainda. E se seu próprio irmão descobrisse que ele havia matado alguém? Precisava sair dali e de um tempo para pensar na melhor maneira de agir.
Jake assentiu.
–Até mais então.
–Até.
Peter saiu primeiro e entrou no elevador. Jake resolveu descer pelas escadas. Foi abordado por Amanda quando passou pela recepção.
–Como vai a investigação?-perguntou curiosa.
–Não muito bem- respondeu sem parar para uma possível conversa e voltou para a delegacia.
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Já era noite quando Annie dormia tranquilamente no hospital. Conseguiu um pouco de sossego em meio aos pesadelos que tinha com a coisa que a atacara um dia antes. Mas este sossego duraria pouco.
Um homem entrou no quarto escuro. Desligou os monitores e outros aparelhos.Segurava uma seringa com 1ml de uma substância misteriosa. Foi até a garota e espetou a fina agulha embaixo de uma unha da mão. Annie acordou com a picada, mas logo desfaleceu novamente. Seu pobre coração pararia de bater em questão de segundos, sem luta, sem vitória.
Estava morta.
O homem saiu do quarto e discou um número no celular. Ouviu chamar duas vezes antes de uma voz feminina atender.
–Sim?
–Está feito- não sentia culpa, sabia que era necessário.
–Ótimo.
–Faço qualquer coisa por você. Agora confia em mim?-perguntou, mas a resposta não veio de imediato. Esperou alguns segundos.
–Claro- ela foi sincera, ele era quem não devia confiar nela. A mulher sabia que o seu comparsa era descartável. Tinha planos maiores, os quais não possuíam espaço para mais ninguém.
–Você é má. Eu gosto disso.
–Que bom, porque eu olhei nos olhos do diabo e entreguei minha alma- sorriu do outro lado da linha- E você fará o mesmo.
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