Heaven's Door
3 Capítulo 2 - Feller, o Reverendo
Notas iniciais
Capítulo 2
Feller, o Reverendo
Jake acordou com o barulho de uma pequena multidão. Havia parado a viatura perto do hotel em que o irmão estava hospedado e acabara dormindo ali mesmo. Sabia que Peter escondia alguma coisa e torcia para que ele não estivesse envolvido nos recentes assassinatos.
Esfregou os olhos, ainda se acostumando com a luz do sol lá fora. Pegou um par de óculos escuros e colocou no rosto a fim de disfarçar a expressão cansada. Saiu do carro e observou ao redor.
A pequena praça que havia ali estava lotada com pessoas assistindo uma espécie de culto ao céu aberto, gritando e aplaudindo hora ou outra. Se aproximou mais e conseguiu ver um homem falando através de um megafone. Usava um terno preto que, combinado com o forte sol, o fazia suar. Usava óculos quadrados e cabelos perfeitamente penteados para o lado. Gritava com tamanha convicção que fizera Jake ficar quase convencido de toda a ladainha.
– Ouçam meus irmãos! A besta está entre nós para levar os impuros. Busquem a salvação o quanto antes – houve várias conversas entre as pessoas que estavam assistindo e o homem sorriu, contente – Venham para nosso culto.
O policial quis sair daquele lugar. Estava faminto e com pouca paciência para escutar tudo aquilo, mas ficou tentado a saber mais sobre o homem que as palavras sobre salvação.
– O fim dos tempos está próximo – continuou – arrependam-se para que sejam salvos!
Jake sentou em um banco um tanto distante do tumulto e organizou os pensamentos enquanto esperava. Tinha uma ligeira impressão que cada lugar, cada pessoa, escondesse um segredo macabro. Algo que fariam qualquer coisa para manter escondido- até matar quem fosse preciso.
Os minutos não demoram muito para passar. A multidão já havia se dissipado e o homem que antes estava tentando convencer o povo agora estava juntando seus pertences e preparando para partir. Jake se aproximou em uma abordagem direta.
– Bom dia. Policial Jake Banner- ele mostrou o distintivo.
– Reverendo Feller. Posso ajudar?
– Sim, na verdade. Sabe de alguma coisa sobre a série de assassinatos que vem ocorrendo- foi direto ao ponto, sem se preocupar em parecer rude.
– Tudo o que sei foi o que eu acabei de falar. Esta besta foi enviada para levar os pecadores para o inferno.
– Conhece Annie Foster?
– A garota que foi atacada? Está suspeitando que eu tenho alguma coisa a ver com isso, policial Jake? — havia um tom desafiador em sua voz, que poderia ser apenas nervosismo, afinal estava sendo interrogado, mas se havia uma coisa que Jake aprendeu durante o curto tempo que exercia esta profissão, era que não devia tirar conclusões precipitadas.
– Apenas responda, por favor- pressionou.
– Sim, eu a conheço...
– E acha que Annie é tão pecadora ao ponto de merecer tal destino?
– Você está a pouco tempo na cidade para perceber, mas ninguém nesta cidade é o que aparenta ser. Quer uma dica? Não confie em um rostinho simpático. Tenho mais o que fazer. Mais alguma pergunta, policial?
Jake achou estranho a súbita mudança de rumo que a conversa tomou e estranhou mais ainda a maneira de como o reverendo falou, mas resolveu deixa-lo. Não queria nenhum desentendimento, ainda mais com alguém com tamanha influência e que poderia atrasar as investigações.
– Não, é o bastante. Muito obrigado, senhor Feller- e virou-se, voltando para a viatura.
O celular tocou. Ele o tirou do bolso e olhou para o número na tela. Era uma ligação da centra da polícia.
– Alo?
– Jake? Pare o que está fazendo e vá para o hospital. Annie está morta.
Morta? Jake falara com ela na noite anterior e, apesar do seu estado físico e emocional, a garota já não corria risco de morte mais. Parecia que Heaven’s Door não parava de surpreende-lo.
– Estou indo – desligou.
Entrou no carro, apertou o cinto e dirigiu em direção ao hospital. Não demorou muito para que ele chegasse, uma vez que a cidade não era muito grande. Estacionou de qualquer jeito no estacionamento da parte de trás e entrou pela porta dos fundos, a fim de evitar a simpática e estranha recepcionista Amanda.
Subiu as escadas e foi em direção ao quarto de Annie, mas ela não estava mais lá. Ao invés dela, ele encontrou o Doutor Mather conversando com uma mulher. Ela usava uma roupa quase inteiramente preta, com exceção do dos sapatos, que eram azuis, e de uma blusa cinza com um emblema da uma organização ligada aos animais. Tinha os cabelos castanhos claros e olhos azuis profundos, que fitaram Jake assim que ele chegou a porta.
Ela encerrou a conversa com o médico e saiu do quarto, encontrando com o policial no corredor.
– É o encarregado pela investigação? – questionou.
– Sim. Quem é você?
– Kate Hoffman, especialista em comportamento animal. Fui enviada pela polícia de Saint Adan para ajudar na investigação e identificação do animal responsável pelos ataques.
– Se é que foi uma animal?- ele pensou alto.
– Não acha que foi um animal?- ela falou logo em seguida. A pergunta carregada com um tom de curiosidade.
– Algumas pessoas acham que não – a imagem do Reverendo Feller veio à cabeça, juntamente com todo aquela papo de punição divina – Mas o que mais poderia ser?
– É isso que vamos descobrir. Venha comigo – Kate saiu com passos rápidos pelo corredor. Jake permaneceu no mesmo lugar por alguns segundos, ponderando se devia ou não segui-la.
– Para onde vamos? – perguntou após apressar o passo para alcançá-la.
– Examinar o corpo de Annie. Alguma coisa nesses hospital não me cheira bem.
– Mas não temos um mandato ainda... – era preciso que o departamento emitisse uma guia solicitando o exame do corpo de delito para família. Caso ela não autorizasse, um mandato era emitido.
– E quem disse que eu preciso de mandato?
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