Heartbeat
22 The new executive director
Notas iniciais
Nas palavras de Emma, as semanas que se seguiram após a descoberta dos assédios de Jekyll cometidos contra as modelos foram as mais estranhas desde que começou a trabalhar na Gold’s Magazine. Os funcionários da redação não tocavam diretamente no assunto, pelo menos não em voz alta, mas mesmo assim as trocas de olhares entre uns e outros não deixava dúvidas do que se tratava. Mas uma coisa era certa, estavam todos abismados.
Os que simpatizaram com Regina logo a sua chegada na revista, notaram o descarado desagrado de Jekyll em tê-la ali e a sua falta de pudor em desdenhar dela na frente dos colegas de trabalho, mas até mesmo para eles foi algo irrelevante, uma vez que sabiam se tratar apenas despeito, pelo fato de alguém de fora da revista assumir o tão sonhado cargo de Jekyll.
Jekyll era um dos funcionários mais antigo de toda a revista, e pela grande maioria era considerado o braço de direito de Gold. Assim como para Emma, para todos também passou desapercebido o fato dele acompanhar tão religiosamente certos tipos de ensaios no estúdio, para muitos inclusive significava que ele estava fazendo o seu trabalhado bem e com afinco, sempre se certificando da melhor escolha quando o assunto era os castings.
E era justamente nesse ponto, na periodicidade com que ele visitava o estúdio, que fazia com que Emma tivesse vontade de acerta a sua cabeça contra a parede mais próxima vezes seguidas.
Se ela tivesse estado mais atenta aos ensaios, as conversas trocadas entre as modelos, talvez tivesse descoberto antes, talvez... Talvez Regina estivesse certa e ela não devesse se culpar, pois havia apenas um único culpado em toda essa história, em toda essa sujeira.
Era nisso em que pensava toda vez que o sentimento de culpa lhe surgia.
Pelo menos não estava em processo de negação assim o Kristin tinha ficado. Mesmo após Regina contar tudo para toda a revista, ela não acreditou. Dizia que apesar de tudo, de toda a sabotagem sobre Regina, onde ela contou coisas que haviam passado despercebido até mesmo para a editora chefe como a constante falta de papel e tinta nas prensas e os atrasos nas edições especiais, tudo orquestrado, ele não era aquele tipo de homem. Emma não queria esboçar reação alguma, mas não fora capaz de controlar os músculos do seu rosto que assumiram uma careta em descrença do que ouvia.
Depois Regina lhe contou sobre tê-la chamado para uma conversa particular, afim de descobrir se aquilo se tratava de alguma variação de síndrome de estoucomo e se Kristin também teria sido abusada de alguma forma. Mas não, era apenas amor cego e irracional. Quando a ficha dela de fato caiu, Kristin estava no meio da redação falando com Ruby sobre um layout. Emma não tinha outra palavra para definir aquele momento como “triste”. Kritstin podia ter assimilado tudo aquilo em seu apartamento enquanto assistia algo na Netflix, ou no banheiro enquanto tomava banho, mas não, tudo aconteceu bem ali, no meio da redação. Fora amparada pelas duas pessoas que menos esperava receber qualquer resquício de compaixão, Emma e Regina.
Apesar de tudo, nas últimas semanas Emma tinha passado um tempo que julgava ser de qualidade com Henry, em detrimento que via e passava menos tempo com Regina.
Alguns dias depois do incidente havia chegado na revista uma mulher que bem lembrava Regina em suas primeiras semanas na revista. Altiva, ereta, séria, e nenhum resquício de sorriso ousava ser esboçado naqueles lábios. Por Belle, ela fora conduzida até a sala de reuniões onde Gold e Regina já se encontravam. Ao ser questionada pelos colegas de trabalho quem era ela, Belle respondeu o que sabia, que aquela seria a nova diretora executiva, a substituta de Jekyll.
Os três passaram o restante da manhã, a tarde inteira e parte da noite trancados na sala. Nenhum deles saía de lá, e apenas Belle entrava com as refeições. Da redação via-se Gold constantemente enxugar a testa suada com um lenço, enquanto Regina ora ou outra se largava pesadamente sobre alguma cadeira após quase abrir buracos no piso da sala depois de andar de um lado para o outro enquanto parecia ter um brainstorm, mas a mulher convidada se mantinha impassível.
Nesse dia Emma praticamente não trocou palavra alguma com Regina. As primeiras só vieram por mensagem ao final do expediente.
“Você pode pegar o Henry e leva-lo para casa por favor? O porteiro tem uma chave reserva. Tudo bem também se não puder, posso ligar para Granny.”. Prontamente Emma respondeu que sim, que poderia. Então assim o fez, pegou o Henry na creche, que se jogou em seus braços ao lhe ver, e o levou para casa.
Enquanto Henry tomava banho, preparou o jantar para eles e para Regina, a qual esperava que chegasse faminta. Não tinha tantos dotes culinários quanto gostaria, mas ver o seu incrível amigo comer e pedir por mais foi empolgante. Depois do jantar e de ajudar o garoto a escovar bem os dentes, brincaram de super-heróis com os brinquedos de Henry. Com as luvas verdes no formato de punho que Emma havia lhe dado na vez em que foram ao parque diversões, Henry era o Hulk, e Emma decidiu que seria o Capitão América.
Lutaram contra dezenas de vilões até Henry das os primeiros sinais de estar sendo acometido pelo sono.
— Emma, a minha mamãe ainda vai demorar muito para chegar? — perguntou coçando os olhos.
— Não, daqui a pouco ela deve estar chegando. — falou conferindo a hora no relógio de pulso e vendo que passava das 09:30 p.m. — Que tal esperarmos por ela na cama?
Sugeriu e o garoto acatou.
— Emma, você faz carinho no meu cabelo até a mamãe chegar? — disse se aninhando embaixo das cobertas.
— Claro que eu faço.
Henry se afastou um pouquinho e Emma se deitou ao seu lado. Quando começou a fazer o cafuné sentiu aquele corpinho quente diminuto se aconchegando ao seu.
Seu coração se aquecia ao mesmo passo em que Henry caia no sono. Sentia que a cada encontro que tinha com o garoto, o seu instinto materno se aflorava ainda mais.
Havia uma infinidade de momentos como aquele nos quais queria estar presente, mas a sua questão mais pertinente era: Como dizer isso a Regina sem que eu me pareça precipitada, sem que aquilo depois se tornasse um gatilho para nós duas?
Estava quase cochilando quando ouviu o som de chaves tintilando umas nas outras, e antes que pudesse tirar o braço dormente debaixo de Henry, a cabeça de Regina surgiu na porta.
— Desculpa ter demorado tanto. — disse com um ar de cansada ao entrar no quarto e depositar um beijo de boa noite na testa do filho e depois dar um selinho em Emma.
— Tudo bem. — Emma sussurrou se levantando — Eu fiz o jantar, vou esquentar no microondas para você. — disse depois que saíram do quarto.
Regina estava pronta para dizer que não precisava, que Emma não deveria se dar a esse trabalho, afinal, já havia pedido coisas demais a ela, mas sentiu a sua barriga roncar tão alto, que achou que até mesmo Emma conseguiu escutar.
Agradeceu com um sorriso cansado.
— Pôr que você não vai tomar um banho enquanto eu esquento tudo? — Emma sugeriu.
Regina assentiu com a cabeça, deu outro selinho em Emma e se retirou para o seu quarto. Quando voltou estava vestida em seu robe e tinha os cabelos molhados penteados para trás.
Assim como quando pôs Henry para dormir, Emma sabia que não se importaria em ter aquela visão todos os dias da sua vida.
— Eu passei o dia inteiro sentada, mas estou tão cansada que parece que corri uma maratona hoje. — disse quando se sentou à mesa de jantar e começou a se servir.
— Você está mentalmente exausta.
— Até fora da revista ele só me traz problemas. — disse se referindo a Jekyll — Nossa, essa é a melhor coisa que comi durante o dia todo, tudo parecia ter gosto de isopor, de papelão. — falou quando começou a comer.
Emma sorriu, talvez os seus dotes culinários fossem melhores do que pensava, ou talvez Regina só estivesse com fome, muita fome.
— Eu sei da separação igreja e estado, mas na redação estava rolando uma conversa de que aquela mulher que estava em reunião com você e com o Gold seria a nova diretora executiva da revista. Isso é verdade?
Regina balançou a cabeça em positivo.
— Logo todos serão devidamente apresentados, mas essa não é a nossa prioridade agora. Estamos muito ocultados lidando com toda essa bagunça em que o Jekyll nos deixou. Contenção de danos.
— Está tão ruim assim? Tenho acompanhado a hashtag e as pessoas tem se engajado.
— A reação do público foi de fato como nós esperávamos, mas alguns anunciantes não ficaram muito felizes com esse tipo de mídia e cancelaram alguns contratos.
— Os advogados já tem alguma notícia sobre o processo?
— O Jekyll continua foragido. Não se tem registro dele em lugar nenhum. Ele provavelmente deveria ter algum dinheiro em espécie guardado, porque não há registro de uso dos cartões dele. Ele é esperto o suficiente para já estar bem longe daqui, mas ainda sim estão todos de sobreaviso quanto a verem ele por aí. A polícia deve ser acionada imediatamente.
— Você acha mesmo que ele saiu de Boston? Naquele dia enquanto era arrastado pelos seguranças ele gritou em alto e bom tom ameaças a você. — Emma falou pesarosa.
— A polícia também já estar ciente disso, das ameaças dele a mim. Não acredito que ele vai arriscar a liberdade dele por minha causa. Eu não devo valer o risco.
Emma esperava que Regina estivesse certa. Que Jekyll estivesse o mais longe possível delas e de Henry. O tom dele era odioso, e diferentemente de todas as outras vezes em que ele fazia ameaças veladas, aquelas foram suficientemente claras.
— Ainda tenho algumas caixas dos remédios aqui. — Regina disse quando terminou de jantar. — E tem pelo menos duas mudas de roupas limpas suas no meu closet.
Aquela era a sua forma de convidar Emma para passar a noite em seu apartamento.
— Achei que eu tivesse tomados os últimos antes de ontem.
— Eu comprei mais. A Alice me mandou uma via da sua receita médica.
— Vocês duas estão começando a me assustar. — brincou.
Na manhã seguinte, com o seu relógio biológico já programado para despertá-la cedo, Emma foi a primeira a acordar. Com a certa intimidade que já tinha com a casa e os armários da cozinha, começou a preparar o café da manhã para eles.
— Tinha espinhos no seu lado da cama? — Regina perguntou ao entrar na cozinha e encontrar uma Emma já desperta cozinhando.
Sentir o corpo quente de Regina colado ao seu, quando ela entrou no cômodo e a abraçou por trás, era umas das coisas mais deliciosas da vida. Mesmo quando havia tido ela sobre o seu peito a noite inteira enquanto dormiam, sentia que tinha sido pouco. Queria mais, muito mais. Queria uma vida inteira daquilo. Suspirou.
— É nesse horário em que eu normalmente saiu para pedalar. — justificou o fato de já estar de pé.
— Vou ter que compra uma bicicleta para deixar aqui também? — perguntou apoiando a cabeça no ombro de Emma e plantando um beijo no pescoço dela.
— Quem sabe?! Talvez você até saia para pedalar comigo qualquer manhã dessas.
— É, quem sabe, não é? Não sei se nessa encarnação, já que naquela tarde em que nós saímos para pedalar e fomos ao parque botânico eu precisei pedalar muito para te acompanhar, e olha que você ainda estava levando o Henry. Acho até que fiz a Bug chorar.
Emma gargalhou.
— Você nunca me contou isso. Lembro bem que você falou toda convencida “De forma alguma, estive o tempo todo logo atrás de você”.
— Eu não ia me dar por vencida, ia?! — disse fazendo um bico ala Henry quando perdia algum jogo.
Emma sorriu e a beijou provocando.
— Emma? — falou ainda abraçada a ela.
— Oi.
— Eu vou estar sendo muito inconveniente se eu te pedir mais um favor hoje?
— Claro que não. — disse virando uma panqueca.
— Você poderia levar o Henry para creche hoje?
— Você não vai trabalhar?
— Vou sim, na verdade eu preciso chegar bem mais cedo na revista hoje. Eu não quero ter que acordá-lo ainda mais cedo.
— Posso levar ele sim. Isso não é nenhum favor. Faço com prazer.
— Muito obrigada. — a abraçou ainda mais forte. — Eu queria tanto poder ficar aqui. Assim. Queria que pudéssemos voltar para cama e só sair dela quando tudo já estivesse resolvido.
Emma apagou o fogo e se virou para ela.
— Pudéssemos? Eu estou incluída nisso?
— Mas é claro que sim! Quem mais estaria?
Com a mão agora enterrada nos cabelos de Emma, Regina a beijou com volúpia. Não importava quanto tempo passasse ou quantas vezes fizessem aquilo. A sensação de um delicioso impulso elétrico sempre se fazia presente em seu corpo quando as suas bocas se uniam.
A sensação de estarem criando uma rotina era tão tangível, que as vezes temia que ela escorresse por entre os seus dedos. Mas esses eram os anseios da Regina pré-terapia falando, e sempre se esquecia dela quando a boca quente de Emma estava grudada a sua lhe lembrando de que ela não pretende ir a lugar a algum.
Quando chegou ao prédio da revista, deixou Henry na creche e subiu para a redação. Mas não sem que Henry perguntasse mais uma vez sobre a sua mãe e dizer que estava com saudades dela. Sabia o quanto Regina estava trabalhando nas últimas semanas, logo entendia Henry. Também sentia saudades dela as vezes.
No andar da redação, encontrou Regina no mesmo lugar do dia anterior e no dia antes desse. Em reunião com Gold e a nova diretora executiva. Mas dessa vez, diferentemente dos outros dias, haviam outras pessoas os acompanhando, os três advogados da revista, e mais meia dúzia de homens e mulheres. Um dos homens Emma reconheceu como um dos anunciantes da revista. Com esse time lá dentro, suspeitou que ninguém tinha ao menos a permissão de respirar próximo a sala de reuniões.
Naquele dia não havia ensaio algum para ser feito, todos para as edições já agendadas e pagas já tinham sido feitos, então dedicou a sua manhã na edição das fotos. Próximo ao horário de almoço bateram na porta da sua sala. Por um breve momento uma centelha de esperança se acendeu pensando que podia ser Regina, mas ela foi apagada assim que uma cabeleira mechada de vermelho adentrou a sua sala.
— Muito trabalho por aqui? — Ruby perguntou.
— Na verdade não.
— Também não está tendo muita coisa para os redatores. Vim aqui para perguntar se você não quer almoçar comigo hoje. Faz um bom tempo que não fazemos mais isso juntas.
Era verdade, e Emma se sentia um pouco culpada sobre isso. Haviam se afastado um pouco desde quando ela e Regina haviam descoberto sobre o transplante.
— Eu quero. Quero sim.
Ruby tinha sido a primeira pessoa com quem tinha interagido de verdade ao chegar na revista. A tática dela era sempre a mesma. Depois de um expediente exaustivo, o que era bem comum acontecer, ela convidava o novato para ir beber e cantar no karaokê do pub. Aquilo havia se tornado quase um rito de iniciação. Emma podia lembrar perfeitamente da cara de desapontamento de Ruby quando ela disse que não consumia nada que tivesse álcool.
Entre conversas indo e vindo, Emma explicou melhor a amiga sobre o fato da falecida esposa de Regina ter sido a sua doadora, e de como aquilo havia abalado os sentimentos e as emoções das duas, e claro, pulando as partes mais intensas.
— Todos nós na revista notamos quando as coisas entre vocês pareceram terem se complicado. Eu não posso dizer que entendo, na verdade nem posso imaginar como vocês se sentiram, essa história toda parece tão...
— Absurda?
— Eu não ia usar essa palavra. Mas digna de um livro do Nicholas Sparks? Sim. O que deve importar hoje é fato de vocês terem superado isso.
Fizeram os seus pedidos, e quando chegaram, comeram conversando trivialidades.
— Eu vou me casar.
Ruby disse praticamente esfregando a mão direita com um solitário no dedo anelar na cara de Emma. A fotografa agradeceu pela amiga ter tido ao menos a decência de esperar ela engolir a comida, caso não, com toda certeza teria se engasgado.
— Já? Mas como assim?
— A Elsa me pediu há uma semana. Eu não quis contar para ninguém por causa do clima pesado que está na revista, mas eu não podia esperar mais para te contar.
— Nossa Ruby, meus parabéns. — disse a abraçando por cima da mesa — Vocês estão juntas há o que? Três meses? — não sabia a quanto tempo elas estavam juntas exatamente, mas tinha certeza de que não era muito, pelo menos não o suficiente para um pedido de casamento ser feito.
— Cinco. — corrigiu. — Não é como se fossemos nos casar amanhã, Emma! Você está aparecendo a minha avó.
— É só que... você não está sendo lésbica certo se não for emocionada, não é? Eu estou feliz por você, muito mesmo. De verdade. Sei da sua queda por ela desde o ano passado. Eu só estou surpresa, mas muito feliz.
“Ou talvez com inveja”, o seu subconsciente respondeu.
— Isso eu aceito, porque eu mesma fui pega de surpresa.
— Quem diria, heim Ruby? Ontem mesmo estava dando foras no Killian e subindo em palcos para cantar no karaokê. Hoje está noiva.
— E em algum ponto entre essas duas coisas, a gente se afastou um pouco.
— Ruby...
— Tudo bem, tudo bem! Eu entendo. Trabalho. Namorada. Um enteado...
— Eu sinto muito se me afastei.
— A sua relação se complicou. Você ficou doente. O seu coração bugou. Você se afastou da revista. Parece que você ficou mesmo ocupada.
— Mas isso não justifica o meu relapso.
— Não, mas eu também estava ocupada ficando noiva. Então tudo bem.
— A Elsa tem muita sorte por ter encontrado você. Manda ela ficar esperta, porque se ela sair da linha, ela vai se ver comigo.
— Porque você mesma não diz isso a ela quando estiver sendo a minha madrinha de casamento com a Regina?
— O que? Isso é um convite?
— Que a Cruella e a Belle não me escutem, mas não consigo pensar em ninguém melhor do que você para isso.
— Você tem certeza?
— Mas é claro que sim. Você é uma das melhores pessoas que conheço. O seu coração é gingante, Emma.
— Obrigada. Muito obrigada. — disse levantando da cadeira e dando a volta na mesa para abraçar a miga.
— Agora saiba que não vale ficar mais bonita do que eu, ouviu? O casamento será meu!
— Isso é impossível.
Durante o restante do almoço Emma atualizou Ruby sobre como estava atualmente o seu namoro com Regina e a sua relação com Henry. Contou sobre o jantar onde os seus pais conheceram Regina e de como ela estava ansiosa pela sua intimação para conhecer o restante da família Mills, mesmo sabendo que não aconteceria nem tão cedo devido aos problemas com a revista.
Enquanto Emma falava, Ruby perguntava e demonstrava o maior apoio quanto a progressão da relação delas. Desde o dia em que começaram a trabalhar juntas, Ruby nunca tinha visto Emma com alguém, e também nunca tinha tido conhecimento de nenhum envolvimento causal da fotografa.
Estava verdadeiramente feliz pela amiga.
Na volta do almoço, encontram todos os responsáveis pelos setores da revista na recepção conversando com Belle.
— Estava faltando só vocês duas. — Belle disse assim que as portas do elevador se abriram no andar da recepção.
— O que está havendo? — Emma perguntou.
— O Gold pediu que assim que todos vocês voltassem eu os encaminhasse para a sala de reuniões.
— Parece que finalmente teremos um parecer da direção. — Ruby comentou com os demais.
Belle apenas assentiu. Gold lhe contava algumas coisas, também haviam separado igreja e estado.
— Boa tarde. — Regina falou quando todos entraram na sala de reuniões.
Quando chegaram, na sala já estavam Regina, Gold e mulher que sucederia Jekyll. Não passou despercebido por todos que Regina ocupava a cabeceira da mesa, enquanto Gold e a mulher ocupavam as cadeiras laterais.
— Boa tarde. — Gold também os cumprimentou. — Não sou de trocadilhos, mas espero que mantenham os seus almoços em seus estômagos.
— Imagino que não preciso usar de meias palavras para falar sobre o que temos lidado nas últimas semanas. Todos estão cientes das condutas do ex-diretor executivo, aliás, todos o viram sendo expulso por mim. Atualmente o Jekyll está sendo procurado pela polícia sob o crime de assédio físico e moral, e por estupro. — ao pronunciar aquela última palavra, Regina sentiu como se um tijolo se assentasse em seu estômago.
Aparentemente os colegas também sentiram. Alguns a encaravam enquanto negavam lentamente com a cabeça, outros encaravam o tampo da mesa. Kristin estava pálida, parecia que todo o sangue do seu rosto havia sumido. Emma a encarava.
Regina quase podia ler a mente dela, pensando que se caso tivesse notado algo antes, as coisas não teriam chegado aquele ponto.
— E de antemão, reforço que ele está foragido. Qualquer pessoa que venha a vê-lo deve comunicar diretamente a polícia. E caso isso não seja feito, poderá ser tratado com cúmplice.
— Dito isso — Gold se pronunciou. —, imagino que muitos de vocês devem ter nos visto nos últimos dias trancados nesta sala. Temos trabalhado com afinco tentando driblar os destroços dessa bomba que o Jekyll explodiu sobre as nossas cabeças. E a Regina tem feito isso desde o exato momento em que descobriu tudo. Se apressou em comunicar aos advogados e tomar as devidas ações jurídicas, assim como tratou do marketing da revista para com os nossos leitores, e atualmente tem trabalhado comigo em conter os danos com os nossos anunciantes e acionistas. Com a demissão por justíssima casa do Jekyll, o cargo de diretor executivo ficou vago. Confesso que depois do ocorrido fiquei receoso quanto a contratar um novo alguém para esse cargo. Mas em conversa com Regina, nós chegamos até a Fiona Fairy. Fiona, por favor.
Fiona limpou a garganta e se pôs de pé quando lhe foi dada a palavra.
— Bom, boa tarde. Como já foi dito por Gold, me chamo Fiona Fairy, e atualmente estou na Gold’s Magazine como a nova diretora executiva. Eu poderia fazer um discurso sobre como quero edificar a revista durante a minha estadia aqui. Que quero ajudar a torna-la maior. Que junto com a Mills irei aumentar o número de vendas e mais coisas assim que eu deveria prometer. Mas não. — as palavras proferidas por Fiona faziam com que todos a olhassem meio catatônicos. — A Gold’s Magazine já é uma revista conhecida no cenário nacional, que se reinventou nos últimos meses e aumentou consideravelmente o número de vendas. Se tornou uma revista inclusiva, e com isso passou a ser aceita nas mais amplas esferas sociais. A verdade é o que todos vocês sabem, eu estou aqui para lidar com a bagunça que foi deixada pelo meu antecessor. Mills juntamente com Gold lidaram muito bem com o estouro inicial, mas há mais coisas acontecendo por trás, coisas que cabem a direção desenvolver estratégias para resolver todos esses problemas.
Emma notava que cada palavra dita por Fiona era calculada, talvez até ensaiada. Mas todas elas eram frias, e cirurgicamente escolhidas. Com ela não haviam meias palavras, duplo sentido ou ambiguidades, deixando tudo bem claro para todos. Ninguém ousava piscar, muito menos Regina, que nem parecia respirar enquanto ela falava. O que fez com que Emma se perguntasse onde Regina e Gold haviam a encontrado.
— No mais, o que posso dizer é estou disposta a transformar prata em ouro para fazer com que a revista saia intacta desse tsunami.
Todos os demais que estavam na sala de reuniões se apresentaram, falaram de seus cargos e seus setores. Quando chegou a sua vez, Emma sentiu um olhar muito específico pesar sobre si.
Ao final da reunião todos saíram comentando sobre a nova diretora executiva, sobre o quão séria e até um pouco antipática ela parecia ser. Mas o que todos concordavam era que ela parecia ter gabarito pelo que falava.
Antes que o expediente acabasse, Emma subiu para o estúdio. Faziam dias que nenhum ensaio era feito ali. O estúdio estava largado as traças. Com a falta de trabalho na redação, Emma aproveitou para subir e checar os equipamentos. Lhe doía a alma ver o ambiente vazio e silencioso. Não era daquela forma que gostava de ter o seu estúdio.
Ao final do expediente, colocou todo o seu material na bolsa e pegou o elevador. Quando ele foi solicitado no andar da redação, imaginou que talvez fosse Regina quem entraria nele, mas não era.
— Então você que é a famosa Emma Swan. — Fiona disse quando as portas do elevador se fecharam.
— Hã... — Emma foi pega de suspensa. — Desculpa. Famosa?
— Sim. Que conseguiu despertar novamente o coração de Regina Mills. — Fiona falou sem olha-la, focada na linha que dividia as portas do elevador. — Ela era completamente apaixonada pela Felicity. Ficou totalmente fora de eixo quando a perdeu.
— Sim, eu sei de tudo que se sucedeu. Mas eu não estou entenden...
— Você deve ter mesmo algo de mágico, ou ela deve mesmo gostar de você, porque a Regina que eu conhecia deixou de existir logo depois daquele acidente. Mas agora parece até que vejo uma fração dela, de quem ela era.
Para Emma tudo aquilo soava confuso, as palavras de Fiona pareciam dizer que ela estava aliviada por Regina ter voltado a ser quem ela era antes da sua perda, mas o tom... o tom que ela usava parecia ser de escarno. Fiona parecia zombar de Emma. Como se desdenhasse da relação delas.
— Eu... Hã...
Antes que Emma pudesse pensar no que responder, as portas do elevador se abriram no térreo, fazendo com que elas dessem de cara com Regina e Henry que estavam sentados em uma poltrona no saguão.
Sentado no colo de Regina, Henry parecia assistir a alguma coisa no celular que segurava na horizontal.
Emma que assim que saiu do elevador começou a caminhar na direção deles, se surpreendeu quando Fiona também fez o mesmo.
— Então esse é o Henry? Faz muito tempo desde a última vez em que o vi. — Fiona disse no momento em que Emma abriu a boca para cumprimenta-los. — Ele tem os olhos dela.
Ele tinha mesmo, Regina pensou. Tinha os olhos, os cabelos, a doçura...
— Diz oi para a amiga da mamãe, Henry. — Regina disse.
— Oi. — Henry disse quando desviou a sua atenção do celular — Emma! — o menino gritou quando viu que a sua incrível amiga também estava ali.
O garoto devolveu o celular a mãe e pulou no colo de Emma.
— Oi amigão. — Emma disse o pegando nos braços.
— Ele realmente cresceu, mais do que eu esperava para essa idade. — Regina se pôs de pé ao lado de Fiona. — Já conseguiu algum apartamento na cidade? Se precisar posso ver se há algum vago no meu prédio.
— Aluguei um flat próximo da revista. Por ora atende as minhas necessidades.
— Que bom que já encontrou um lugar para ficar. Vejo também que já conheceu a Emma. — Regina observou que as duas haviam estado juntas no elevador.
— Oh, sim. — ela olhou rápido para trás vendo a fotografa com o garoto no colo. — Eu preciso ir. Estou esperando uma ligação e queria atender em casa.
Fiona se despediu de Regina, deu tchau ao Henry, e acenou com a cabeça para Emma, que repetiu o gesto.
— O que nós vamos fazer hoje? — Henry perguntou serelepe. — Vai ter pizza hoje?
— Se a Emma aceitar lavar a louça, eu posso fazer o seu prato favorito.
— Lasanha? — o garoto perguntou com os seus olhos brilhando.
— Sim, mas só se a Emma lavar a louça.
— Olha, eu posso até lavar. Mas essa lasanha tem que valer o preço.
— Essa foi a melhor lasanha que já comi em toda a minha vida. — Emma falou enquanto lavava a louça.
Regina riu enquanto tirava o restante da louça do jantar de cima da mesa.
— Henry dormiu tão cedo hoje. — Emma comentou.
— Quando fui buscá-lo a professora disse que hoje foi um dia de brincadeiras, como um prelúdio das férias. Só de pensar que daqui a pouco terei que procurar uma escola para ele... sinto falta de quando ele ainda nem engatinhava.
— Ele já vai para o primeiro ano?
— É, para a escola dos meninos grandes, como ele diz.
— Regina?
— Oi?
— Você parece já estar bem mais aliviada do que hoje de manhã quando saiu para a revista.
— Deu para perceber? Acho que estou mesmo. A presença da Fiona na revista tem me tirado um peso das costas.
— É mesmo? — Emma disse olhando pelo canto dos olhos. — Achei que você já estivesse dividindo o peso desse fardo com o Gold, afinal, ele é o dono, não é?
— Era o de se esperar. Mas o Gold tem mesmo estado cada vez mais afastado da revista, e voltar apenas para resolver problemas não acho que fez bem a ele. Ele com toda certeza preferia estar em casa esperando a Belle voltar do trabalho ou jogando minigolfe.
— É, acho que ele já tinha se acostumado com a aposentadoria. Mas como foi que você e o Gold chegaram até a Fiona mesmo? — perguntou como quem não queria nada. — Pelo que vi, ela aprece já conhecer você.
— Isso é verdade, já nos conhecíamos. Nós nos conhecemos quando eu me mudei para Boston para poder estudar. Nos conhecemos na faculdade.
— Mesmo? — Emma virou em busca de alguma expressão diferente no rosto de Regina. Mas não havia nada ali. Pelo menos nada que Emma esperava achar.
— Aham, fomos namoradas, ou o mais próximo disso, antes de eu conhecer a Felicity.
— Oh, namoradas?
De repente o tom de implicância na fala de Fiona no elevador pareceu fazer sentido.
Será que a Fiona havia procurado Regina nos anos em que ela esteve de luto buscando alguma reaproximação?
— E desde lá vocês têm mantido contato?
— Não. Nos falamos poucas vezes na verdade.
— Sei. Vocês namoraram por muito tempo?
— O que tivemos durou semanas poucas semanas, na verdade. Como eu disse, até conhecer a Felicity. — o tom que Regina usava era casual demais para quem falava de uma namorada que havia sido trocada por outra.
— E ela não ficou magoada por você ter terminado com ela para ficar com outra pessoa?
— Talvez um pouco.
— E ainda assim ela aceitou vir trabalhar na revista quando você a convidou?
— Ai Emma, faz anos que tudo isso aconteceu. — disse entregando o restante da louça Emma. — Tenho acompanhado o trabalho dela em outras empresas, e então eu não consegui pensar em ninguém melhor do que a Fiona para lidar com isso comigo.
Sabia que Regina estava falando de trabalho, mas ouvi-la declarar uma certa dependência a uma outra mulher que por a caso era a sua ex, lhe provocava sentimentos que não faziam questão alguma de sentir. Que provocavam insegurança.
— Mas porque tantas perguntas?
— Ah, por nada. Só queria saber quem ela era.
Menções a Felicity haviam se tornado algo natural. Quando Henry falava da mãe sentia tanta ternura na voz do menino que mal a conhecera, e que mesmo pesar de tudo, fazia com que Emma quisesse também tê-la conhecido em vida. Na verdade, era tudo que havia acontecido e que tinham descoberto que despertava esse desejo em Emma. Mas a Fiona, depois do episódio do elevador...
— Bom, acho que já vou. — Emma disse enquanto enxugava as mãos em um guardanapo.
— Mas já?
— A Alice tem passado muitas noites sozinha no apartamento. Não gosto muito. E mais, daqui a pouco ela vai se mudar para um alojamento da universidade, pouco vamos nos ver. Quero passar mais tempo com ela antes disso acontecer.
— Emma, por favor, sei que são apegadas e que você é uma irmã coruja, mas a Alice não é mais uma menininha.
— A Robin também não é, mas veja só. — disse se direcionando a porta.
— Não, espera. — disse alcançando Emma e a abraçando por trás — Como foi o seu dia? — perguntou roçando o nariz no pescoço de Emma. — Sei bem que tenho estado com a cabeça cheia e um pouco distante por causa de todos esses problemas com a revista.
Sim, Emma sabia, inclusive havia sentido falta dela nas últimas semanas.
— Regina, você e eu estávamos na mesma reunião. Esqueceu?
— Antes disso. Eu sei que os ensaios estão parados. Mas o que você fez? Onde almoçou? Comeu comida com gosto de papelão na revista também? Porque fazem dias que tenho comido isso. Aliás, fazem dias que não almoçamos juntas.
— Tudo bem, eu sei que você tem tido muitos problemas para resolver, e além do mais, tenho almoçado em boa companhia.
— Com quem, será que eu posso saber? — Regina perguntou girando Emma, fazendo com que ela ficasse de frente para si.
— Com o Henry. — falou como se a provocasse.
— E esse rapazinho tem se comportado?
— Praticamente um gentleman.
— Esse é o meu garoto. Vocês almoçaram juntos hoje?
— Hoje não. Hoje eu almocei com a Ruby. Ah — prolongou a vogal. —, esqueci de te contar. Fomos convidadas para algo muito importante.
— Para o que?
— Para sermos as madrinhas dela de casamento. — Emma falou empolgada.
— Com quem? Com a Elsa?
— Sim! Ela está tão feliz que mal cabe em si. Eu também. Já a ouvi tanto falar sobre essa mulher, que agora poder comtemplar esse momento é quase surreal. E eu nunca fui madrinha de casamento algum, mas também, que amigas eu tinha para isso?! Eu quis chorar quando ela nos convidou. — confessou.
— Chorar? Mas porque Emma? — ainda abraçada a cintura de Emma, Regina se afastou um pouco, o suficiente para pudesse olhar bem o seu rosto.
— Ah Regina...
— O que, Emma? — perguntou colocando uma mecha loira atrás da orelha dela.
— Eu não quero me vitimar e nem ser repetitiva.
— Me conta, meu amor.
Emma esquadrinhou o rosto de Regina enquanto procurava as palavras certas.
— Foi o que eu disse, que amigas eu tinha para isso?! Pelo menos não das que casavam e construíam famílias. E se tivesse, ninguém gostaria de ter uma morta viva, apática, com olheiras profundas no rosto e chapada no altar.
— Mas você não é mais essa pessoa.
— Ela parece apreciar a pessoa que eu sou hoje.
— E quem seria a louca de não apreciar? — disse selando os seus lábios com os dela. — Não é à toa que você é a incrível amiga do Henry. E também não foi à toa que me apaixonei. A sua é uma das mais almas belas que existem Emma. Você é uma das melhores pessoas que conheço.
— Você não deve conhecer muita gente, meu bem.
— Meu bem?
— Meu amor?
— Quando nos tornamos tão cafonas?
— Acho que no exato momento em que nós nos apaixonamos.
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