Heartbeat

16 Family Care


Notas iniciais
O capítulo de hoje possui uma música, e eu gostaria que vocês ouvissem enquanto leem, que é Unsteady de X Ambassadors. Relevem qualquer erro que me passou despercebido, e boa leitura. Nos vemos nas notas finais

Mama, come here

Mãe, venha aqui

Approach, appear

Se aproxime, apareça

Daddy, I'm alone

Pai, eu estou sozinha

'Cause this house don't feel like home

Porque esta casa não me faz se sentir casa

But if you love me, don't let go

Mas se me ama, não me deixe ir

— Mamãe.

Emma largou a bolsa no sofá e se jogou nos braços de Mary, passava a mãe em altura, mas mesmo assim nunca deixou de caber dentro daquele abraço.

— Me deixa olhar para você. — Mary segurou o rosto da filha em suas mãos. A aparência que Emma tinha era de cansada, e de quem também tinha chorado, o nariz vermelho e os olhos irritados a entregavam.

Emma sorriu como pode, independente da confusão e da bagunça que se instaurava na sua cabeça e no seu peito, estava feliz por Mary estar ali, estava com saudades da sua mãe.

— O que você está fazendo por aqui? Não sabia que vinha, o papai também veio? — olhou para os lados em busca de David.

— Oh não, só eu que vim, ele ficou em casa por causa do trabalho, mas mandou um beijo e um abraço, para as duas, e disse vai tentar vir a Boston em breve.

— Ah, então veio para passear?

— Não Emma, a mamãe veio porque eu liguei. — Alice se aproximou delas.

— É, a Alice me ligou e contou sobre o que está acontecendo aqui. — passou um dos braços em torno dos ombros da filha mais nova.

— Contou o que, exatamente? — Emma perguntou cautelosa com medo da resposta.

— Tudo. — Mary respondeu.

— Tudo?

— Tudo o que você me contou, Emma. — Foi a vez de Alice falar.

— Acredito que precisamos conversar, todas nós, até porque eu não sabia que nenhuma de vocês estava namorando — Emma abriu a boca para dizer que não estava necessariamente namorando, não sabia definir o que estava tendo com Regina, e nem se ainda estavam tendo alguma coisa, mas Mary levantou o dedo indicador e continuou falando. —, e em uma ligação, eu descubro que as duas estão, e que são pessoas de uma mesma família. Então imaginem a minha surpresa quando eu soube de tudo isso. Nós vamos conversar, mas primeiro, Emma, vai tomar um banho, e Alice, vai lavar as mãos, eu vou terminar o nosso jantar.

Alice marchou para o banheiro social e Emma apanhou a sua bolsa que estava no sofá e foi para o seu quarto. Tirou as botas de cano baixo que usava e as empurrou para de baixo da cama, como costumava fazer, sentou na cama e puxou a bolsa de lado para tirar as câmeras de dentro e todos os aparatos que fazia parte da sua rotina carregar, tirou as câmeras, as lentes, os cartões de memórias, achou as chaves de casa no fundo bolsa, e junto delas o ziploc. O encarou, depois do susto no carro com o porteiro do prédio, tinha restado um pouco menos que a metade, ainda que agora podendo conversar com a sua mãe, duvidava que seria fácil falar sobre tudo, ou que de fato a fizesse se sentir melhor. Pegou de volta as botas que estavam embaixo da cama e colocou a metanfetamina de pé esquerdo e as levou para o armário, assim, caso a sua mãe tivesse um surto de limpeza, enquanto estava em Boston, não mexeria em algo que já estava organizado.

Estava fazendo aquilo de novo, inventando desculpas e mais desculpas para se manter com a droga, assim como fazia quando ainda era usuária, quando a última vez era sempre seguida de uma outra última vez, de modo que nunca parava de fato.

Isso é só uma precaução, repetiu para si mesma.

Colocou as botas na sapateira do armário e foi tomar o seu banho, quando terminou, Alice e Mary já estavam sentadas à mesa, que por sinal estava bem farta.

— Você não precisava fazer tudo isso, mãe. — Emma puxou uma cadeira e se sentou de frente para Alice, com Mary ocupando a cabeceira da mesa.

— Vocês estavam precisando de uma comida de verdade.

— Mãe, nós não temos passado fome, se é o que você quer saber. — Alice rolou os olhos.

— Emma, não está com fome? — Mary perguntou ao ver a filha apenas mexendo na comida com o garfo.

— Na verdade não muita. — suspirou.

— Você sabe que precisa comer, se alimentar bem, isso estava nas orientações dadas pela sua médica.

Emma olhou para Alice, que riu, lá estava a boa e velha Mary, sempre preocupada com as filhas. Sem dúvidas a mais velha das Swans teria se mudado para Boston assim que Emma decidiu morar lá, mas foi impedida por David, que disse que deveriam deixar Emma respirar, e que talvez tudo que ela precisasse fosse um pouco de espaço, e assim o deram, mas o repensaram muito, quando descobriram com o que a sua filha mais velha estava se envolvendo, e ainda mais quando drogada e fora de si, ela se envolveu em um acidente. Após o transplante, e necessitando de cuidados intensos e diários, Emma voltou para Norwood, para casa dos seus pais na sua cidade natal, onde teve suas crises de abstinência e todo o inferno que a acompanhou, e foram os seus pais e Alice que a ajudaram em todas as crises e os momentos difíceis.

— Comemos bem, mãe, acordo cedo, começo a preparar o café e a Alice termina, eu peço comida na revista ou almoço em algum lugar por perto, e ela come no refeitório da faculdade, e nós duas normalmente jantamos em cassa, tudo mundo alimentada e bem nutrida, mãe. — Emma contou.

— Mesmo?

— Mesmo! — Allie respondeu enfática.

Quando terminaram o jantar, Alice e Emma tiraram a mesa e lavaram a louça, e depois se juntaram a mãe na sala e se sentaram cada uma ao lado dela.

— Alice, você quer fazer as honras? — sabia que logo chegariam ao assunto que havia lhe tirado o sono na noite anterior, e tudo que não queria era cair em prantos novamente, o seu dia parecia ter se resumido aquilo, a lágrimas.

— Não tem honra nenhuma, Emma. — Alice falou emburrada, falar com a sua mãe sobre a sua namorada não era o assunto mais confortável de se conversar, mas pelo menos sabia que não haveria nenhuma aversão de Mary a ela namorar garotas, uma vez que Emma também namorava, mas não sabia se a Robin ser sobrinha de Regina seria um motivo para aversão.

— E então, quem é ela? — Mary perguntou se virando para Alice.

— O nome dela é Robin, e isso eu já te disse.

— Hum, quantos anos? Ela estuda? Trabalha?

— 17, vai fazer 18 logo, logo, e ela vai entrar na faculdade esse ano, vai cursar engenharia no MIT.

— Ela finalmente se decidiu? — Emma perguntou se encolhendo no sofá e abraçando os próprios joelhos. Achava bonito de ver o brilho no olhar da sua irmãzinha ao falar da Robin.

— E ela mora aqui, em Boston? — Mary continuou o interrogatório.

— Ela se decidiu sim, e não, ainda não, ela mora com a família dela no Maine.

— Com mãe, pai...?

— E irmão, e o avô dela mora perto também, são todos de lá.

— E a tia dela? — se virou para Emma e a encontrou abraçada aos joelhos e com a cabeça praticamente enterrada ali, deixando apenas dos olhinhos verdes para fora.

Emma suspirou.

— E a tia dela vive atualmente aqui. — sua voz saiu abafada.

— Ela também trabalha na revista?

— Ela é a minha chefe, mãe.

— E foi lá que vocês se conheceram. — concluiu.

— É, eu acho que sim.

— Acha?

— Não tem como ter certeza de nada, depois de tudo que aconteceu. — deu de ombros.

— A Allie disse que ela tem um filho.

— É, o Henry — sorriu sem que notasse. —, ele é um menino sem igual, inteligente, esperto, educado na maioria das vezes, e bem curioso.

— Ele me chama de “A Pintora”. — Alice adicionou.

— E quantos anos ele tem? — Mary perguntou.

— Cinco, e tinha apenas dois quando se envolveu no acidente de carro. — Emma respondeu.

— O seu acidente?

— É — disse se encolhendo ainda mais. —, o mesmo acidente que por um triz não tirou a minha vida, mas que tirou a vida da mãe dele, a esposa da Regina, e que por sinal, é a pessoa que foi a minha doadora. Em suma, mãe, eu recebi o coração da esposa da mulher que você acha que eu namoro, e que hoje parece nem querer ouvir a minha voz, e quem poderia culpa-la, eu sou o que? Uma aberração. — com os braços escondeu o rosto por completo.

— Não, é óbvio que você não é. — Mary a abraçou.

— E o que é que eu sou, então?

— Você é a minha filha.

— E a minha irmã. — Alice as abraçou.

— Eu só preciso saber o porquê, porque comigo, porque com a gente... eu só queria entender. — seus olhos tornavam a arder irritados pelo choro eminente.

— Filha. — Mary a chamou, mas ela se manteve encolhida em si — Emma. — devagar foi levantando a cabeça dela, até que pudesse olhá-la nos olhos. — Você quer mesmo saber? Você estaria pronta para saber o real motivo?

As sobrancelhas de Emma se aproximaram e a sua testa se enrugou, mas sim, queria saber.

— Eu mereço mãe, eu mereço, mereço saber se sou só uma piada de mal gosto como ela acha que eu sou e o que isso significa.

— E se o que aconteceu fosse exatamente o que deveria acontecer, você estaria pronta para só aceitar isso e seguir em frente? Emma, talvez as coisas realmente deveriam ser assim, entendo que foi lastimável para Regina, mas isso permitiu que você sobrevivesse, te deu mais uma chance filha, a chance de viver da forma certa dessa vez, de não se deixar ser coagida pelas drogas de novo e todo o resto.

Saber que agora Emma tentava viver bem, trabalhar de forma honesta e se manter distante de ópios, deixava Mary orgulhosa, ela e David nutriam o sentimento de terem falhado em algum momento, de não terem sido bons pais, e levaram um bom tempo para entenderem que suas filhas possuíam o livre arbítrio, e que mesmo muito preocupados, não deveriam se culparem tão severamente. E tendo consciência de tudo isso, Emma sabia que se ela descobrisse o que guardava na bota, decepcionaria os seus pais, e acima de tudo, Alice, para quem ela tentava, independente de tudo, ser um bom exemplo. Um nó se formara em sua garganta tornando doloroso deglutir até mesmo a saliva, e os seus olhos transbordavam o que a sua boca calava.

— Se nada disso tivesse acontecido, você não teria conhecido o Henry — Mary continuou. —, não teria se apaixonado de novo, você não estaria aqui. — o sentimento de poder perder uma das suas filhas de novo, adoecia o seu coração.

— Então eu só preciso aceitar que aconteceu por que tinha que acontecer? — disse chorando ao encarar os olhos verdes claro da mãe.

— Talvez isso seja uma ação de fé cega para você, mas acho importante que pelo menos intenda que se não tivesse acontecido, você não teria conhecido os dois, e eu conheço você, sei dos planos que fez para sua vida quando se desintoxicou, de conhecer alguém, de ter filhos, construir uma família, e te vendo agora, parecendo a minha menininha de quatro anos que soluçava aos prantos quando o seu peixinho dourado morreu, percebo o quanto são importantes e o quanto significam. Só você e ela sabem o quão doloroso e confuso isso está sendo, mas te peço que seja forte, que não se entregue, que talvez haja beleza em tudo isso.

Mary a abraçou e Emma se permitiu ser frágil se nos braços de sua mãe, exatamente como fazia quando era criança e se sentia estranha e indesejada pelas outras crianças da vizinhança. Alice se levantou e se juntou a elas também abraçando a sua irmã.

Por tempo indeterminado, Mary se manteve em Boston, dando assistência as suas filhas e acompanhando Emma de perto, quando Alice lhe ligou e contou o episódio no banheiro, mostrou também estar preocupada que Emma, em algum momento de fraqueza, cedesse a qualquer tentação e voltasse a se drogar, o que não sabiam, era que a “tentação” estava mais próxima do que elas poderiam imaginar.

No dia seguinte, Mary quis que Emma tirasse o dia de folga, para que pudesse respirar, tirar um tempo para pensar em tudo com mais calma, mas Emma fez questão de ir para a revista, estavam finalizando uma edição, e logo começaria a trabalhar nas fotos de um novo editorial, fazia parte do time da Gold’s Magazine, tinha as suas reponsabilidades, e era saudável cumpri-las, só que seria difícil fazer isso estando sob a chefia de Regina.

Quando chegou no prédio da revista, algumas crianças corriam pela recepção, estavam sendo deixadas pelos seus pais na creche, por um instante esperou ver Henry e Regina ali, não houve sinal de nenhum dos dois, então pegou o elevador com outros funcionários da revista, possivelmente por causa de todo o caos que ela, Regina e Jekyll causaram na redação, sentia que todos lhe lançavam olhares curiosos e acusativos, e teve certeza absoluta disso quando pôs os pés na redação, e todas as cabeças viraram em sua direção, o que fez com que ela tivesse vontade de enterrar a sua própria cabeça no chão.

— Alguma coisa para mim, Belle? — se encostou no balcão da recepção.

— A Kristin já chegou e pediu que você passasse na sala dela, ela disse que gostaria de algumas ideias para o layout.

— Sério? — a expressão de Emma era de descrença, duvidava que era isso que Kristin realmente queria, no mínimo faria comentários ambíguos sobre o dia anterior.

— Foi o que ela me pediu para te dizer.

— Ok, obrigada Belle.

— Você está bem, Emma? — Belle era empática a Emma, não só por ter recebido apoio dela quando ela e Gold estavam em crise, mas porque Emma sempre fora gentil e atenciosa.

— Uhum, mas e você e o Gold, como estão, estão bem também?

— Estamos sim, ele tem me apoiado em algumas decisões que estou pensando em tomar. Não me sinto à sombra dele como achei que seria, é como se caminhássemos juntos, e eu devo isso a você, por ter aberto meus olhos naquele dia, por ter me feito enxergar que o que de fato importa é o que sentimos um pelo outro.

Agora, para Emma, essa conversa parecia ter acontecido há anos, e os conselhos dados pareciam vagos e ingênuos, o mundo estava cada vez mais cruel e insano, duvidava haver espaço para contos de fadas e finais felizes, muito para menos um que dure para sempre.

— Eu não fiz nada Belle, mas estou feliz que vocês estão bem, e que estão felizes também.

Depois de se despedir de Belle, foi em direção a sala da designer gráfica, que ficava praticamente ao lado da sala da editora chefe. Emma se deteve um pouco, antes de bater na porta de Kristin e entrar, ficou encarando a porta da sala de Regina que estava fechada, mas não se atreveu a bater nela.

— Então, Kristin, você disse que me queria, e aqui estou eu. — Emma disse quando entrou.

— Ótimo, estou finalizando o layout da edição do dia das mães, e o nem a Regina e nem o Jekyll chegaram ainda, e como você sabe, o Gold quase não tem pisado aqui, então, você é a única que tem cacife para palpitar aqui, além de mim, é claro.

— Ok. — Emma se sentou, pegou o seu notebook na bolsa, onde continuava a carregar aquele peso, mas que mesmo com a conversa que tivera com a sua mãe, ainda não se sentia segura para largar, e começou a trabalhar com Kristin.

Trabalharam até o almoço, e ao meio dia fizeram uma pausa, Kristin iria aproveitar para mostrar o que tinha feito a Regina, e Emma desceu pra almoçar, quando voltou, foi direto para sala de Kristin, para saber quais tinham sido as orientações da editora chefe.

— E então, o que ela disse?

— Nada, ela não veio trabalhar hoje. Queria eu ter tirado o dia de folga — zombou, enquanto Emma se manteve séria — A propósito, você viu o que ela falou para o Jack ontem? A esposa dele foi embora porque quis, ela abandonou ele e a filha, ele não teve nada a ver com isso. — calada como estava, Emma permaneceu, voltou a pegar o seu notebook e se sentou para trabalhar — E eu não acho que você deveria ter tomado as dores dela — disse com um pouco mais de cautela —, ela chegou aqui ontem, não faz parte do grupo ainda. Vocês estão ficando ou coisa assim?

— Kristin, eu estou tentando a todo custo não ser grossa com você, mas você não colabora. Eu de fato não sei porque você e o Jekyll falam tanto de grupo, se são vocês que não fazem parte dele.

— É o que?

— Isso mesmo, você dois são isolados, não se envolvem com os outros, e quanto fazem isso, é para desrespeitar alguém, como fizeram ontem, então todo esse papinho de que nós somos um grupo e que ela não faz parte é pura hipocrisia e dissimulação de vocês, vocês são ridículos fazendo isso, e não sou só eu que tenho essa opinião ou que percebo, ou a Mills, todo mundo aqui vê isso, a falta de escrúpulos de vocês. — a medida em que Emma ia falando, o queixo de Kristin ia despencando, ela era alguém sempre tão na dela e amigável, que ver Emma dizendo aquelas coisas era quase que desconcertante — E eu não deveria ter tomado as dores dela? Isso se chama empatia, senso de humanidade, o Jekyll foi cruel, não desrespeito só a chefe dele, mas como também toda a família dela, uma esposa falecida e uma criança, uma criança Kristin, e ele também tem uma filha. E se eu e ela estamos tendo alguma coisa ou não, não importa a você, ao Jekyll ou a ninguém daqui, aliás, você e ele seriam as últimas pessoas com quem eu falaria sobre isso. Se não se incomodar, gostaria de voltar ao trabalho. — sentia raiva, muita raiva, sua boca estava seca e o seu coração palpitava, mas não perderia o controle novamente, como quando quase agrediu o Jekyll.

Trabalharam o restante do dia em silencio, Kristin não ousou dizer mais nenhuma palavra que não fosse sobre a edição da revista.

Nos dias que se sucederam e se aproximaram da impressão da edição do dias das mães e a finalização da edição da semanal, Regina não voltou a aparecer na revista, o que se tornou o assunto principal em toda a redação, sempre relacionando o sumiço da editora chefe com a discussão com Jekyll e a Emma, que cansou de ser parada nos corredores por Belle, Ruby, Cruella e os demais, que sempre perguntavam se ela tinha noticiais de Regina.

Com a edição para ser liberada na sexta, na quinta-feira pela manhã, antes de sair de casa para pedalar, Emma recebeu uma mensagem de e-mail, tendo como remetente o e-mail principal da revista, avisando que no primeiro horário da manhã teriam uma reunião. O e-mail estava endereçado a todos que faziam parte do corpo de funcionários principais da revista, menos para Regina Mills, então Emma imaginou que ela quem havia o enviado, o que não se confirmou, quando chegou para a reunião e encontrou Belle de pé, com alguns papeis em mãos, Gold sentado à mesa com os demais, e curioso, pois Belle não havia lhe dito nada, e a cabeceira da mesa vazia.

— Bom, agora que a Emma chegou, acho que podemos começar. — Belle disse assim que Emma entrou.

— Eu não estou entendo absolutamente nada. — Jekyll disse mexendo desconfortavelmente no seu terno, não sabia o que a recepcionista da redação estava fazendo ali frente, mas não arriscaria fazer nenhum comentário desagradável, uma vez que sabia da relação dela com Gold.

— Não se preocupe, vai entender agora. Bem, eu recebi um e-mail da nossa editora chefe ontem a noite, e nele ela me passava algumas instruções e pedia que eu as passasse para vocês. Primeiro, com uma edição importante para ser liberada em algumas semanas, a do dia das mães, ela pediu que você Kristin, mostrasse as opções de layout ao Gold, e cabia a ele aprova-las ou não, quanto aos textos, pediu que a Ruby continuasse com as revisão deles e das entrevistas, juntamente com o Killian, para edição dessa semana, ela me mandou o arquivo pronto, com o layout escolhido e os textos já revisados, pronto para impressão. A respeito da edição da semana que vem, e das futuras — frisou bem a palavra — é reponsabilidade do Jekyll — olhou para todos, vendo suas caras de espanto. —, então questões sobre fotos, convidados a entrevistas, designers e escolha dos modelos, tratar com o produtor executivo.

— Espera aí, futuras Belle? — Gold se levantou de pressa.

— Foram as palavras dela.

— E ela não disse quando que iria voltar? — Jekyll perguntou. Não que não estivesse feliz, finalmente estava conseguindo o que merecia, mas precisava fingir estar preocupado.

— Não, eu passei para vocês exatamente tudo o que ela me escreveu.

— Como que alguém se ausenta assim, do nada, com edições em andamento, deixando todo o trabalho e responsabilidades para trás? — Jekyll falou exaltado se levantando como Gold.

Todos o olhava, lembravam bem do que o Jekyll havia falado de Regina e de como ela havia devolvido, e pensavam que aquele era o motivo do afastamento dela, mas Emma sabia que não era aquilo, pelo menos não só aquilo, mas se manteve calada, apenas observando, e trocando olhares lascivos com Kristin, que encarava a fotografa desde o momento em que Jekyll abriu a boca.

Com a reunião encerrada, Gold saiu já com o celular na mão e digitando o número de Regina, em hipótese alguma poderia ficar sem a sua editora chefe.

— É, Belle — Emma esperou que todos saíssem para falar com a secretária, que permaneceu na sala de reuniões a organizando. —, ela realmente não disse mais nada no e-mail?

— Além de tudo o que eu disse, ela também pediu que eu não a incomodasse ou que repassasse e-mails de vocês para ela. Levando em consideração quão desagradável o Jekyll pode ser, eu achei melhor não falar dessa parte.

— Nada mais? — perguntou se sentindo ansiosa.

— Nada mais, desculpa não poder ser mais útil.

— Obrigada mesmo assim.

Emma passou o restante do dia distraída, inclusive levando várias chamadas de atenção de Cruella, enquanto decidiam os cenários dos próximos ensaios, sua mente estava longe, e os seus pensamentos distantes, mais precisamente no que Regina estava fazendo, uma vez que ninguém da revista a via há dias, e nem mesmo Gold tinha conseguido entrar em contado com ela. Ao final do expediente, se pegou parada em frente a entrada creche, tinha visto muitas crianças saírem de lá mais nenhuma delas era o Henry, então decidiu entrar.

— Boa tarde, você que é a diretora, não é? — Emma perguntou a uma mulher que conversava com outros pais, e acenava em despedida para as crianças.

— Sim, sou eu sim.

— Eu gostaria de saber se já vieram buscar o Henry, ele é aquele garotinho que fugiu outro dia, ele é o filho da editora chefe da revista. Você sabe quem ele é?

— Eu sei sim, é impossível não saber, mas acontece que ele não veio hoje.

— Não?

— Não, na verdade ele só veio dois dias essa semana. A professora da turma dele me comunicou isso hoje, tentei entrar em contato com a mãe dele, mas não consegui, deixei recado para ela na recepção, mas me disseram que ela também não veio esses dias, imagino que ele esteja doente, pois não é comum ele faltar assim, e ela deve estar cuidando dele.

— Ah, é possível que seja isso. — enfiou as mãos nos bolsos de trás da calça. Imaginava que não fosse.

— Você parece os conhecer.

— Eu trabalho com a mãe dele, e fui eu que o encontrei quando fugiu da creche.

— Achei que estivesse te reconhecendo mesmo. — Emma sorriu fraco. — Então por favor, caso a encontre, peça a ela que nos der um parecer, pois temos menos de um mês para as férias de verão, e o Henry precisa fazer as provas finais.

— Claro, eu digo sim.

Emma saiu do prédio mais preocupada do que nunca, sabia a quão boa mãe Regina era para o Henry, e que jamais permitiria que ele perdesse aulas assim, então para que isso tivesse acontecido, ela deveria estar mais fora de si do que Emma imaginava. Não conseguia não se culpar, Regina havia sumido e levado o Henry junto, Emma ainda pensou em ligar, mas ainda estava sem celular, e se nem o Gold conseguiu contatá-la, que foi quem consegui trazer ela a cidade de novo, quem conseguiria?

Parada no estacionamento mais uma vez, Emma encarava a sua bolsa enquanto considerava as suas opções, enquanto o seu mundo girava fora de órbita, enquanto algo lhe veio à mente. Pegou a sua bolsa de pressa e logo subiu para o seu apartamento.

— Meu Deus, para que tanta pressa? — Mary perguntou ao abrir a porta para Emma, depois dela ter tocado desesperadamente a companhia do apartamento.

— A Allie já chegou? — perguntou afobada jogando a bolsa no sofá.

— Ela está no quar... — antes que terminasse a frase, Emma se precipitou pelo apartamento em direção ao quarto de Alice.

— Eu preciso do seu celular. — disse assustando a irmã, que deitada na cama, mexia distraidamente no aparelho.

— Para que? Usa o seu.

— Eu... eu perdi o meu em um ensaio, e eu preciso do seu para ligar para a Robin.

— Para Robin? O que você quer com ela? — se levantou da cama.

— A Regina sumiu, faz alguns dias que ela não aparece na revista e nem o Henry na creche, e ela não atende ninguém. Acho que ela pode ter voltado para o Maine. — as palavras saiam atropeladas diante da exaltação dela.

— Você acha que isso é uma boa ideia, Emma? — Mary perguntou cautelosa.

— Eu preciso saber se ela está lá, se ela está bem, se o Henry está bem.

— Ela está lá — Alice confirmou. —, ela foi no dia em a mamãe chegou.

— E quando que você ficou sabendo disso? — Emma se aproximou da irmã como uma loba se aproxima da caça, sem movimentos bruscos, mas com todos os sentidos atentos.

— Um dia depois dela ter viajado.

— E porque você não me contou? — esbravejou e empurrou os ombros de Alice, fazendo com que ela caísse de volta na cama.

— Calma Emma. — Mary a pegou pela mão, mas Emma a puxou de volta.

— Como você não me contou nada disso? Para cada dia que ela não apareceu na revista eu pensei em uma coisa diferente, isso ficou me atormentado, e você — pôs o dedo na cara da irmã mais nova. —, tinha o poder de acabar com isso.

— Eu não sabia se devia te contar, n-não sabia se ia te fazer bem. — Alice gaguejou. Desde que se mudou e passou a morar com a irmã, Emma nunca havia levantado a voz para ela, não daquela forma ameaçadora.

Com as narinas dilatadas, Emma bufava, estava com tudo preso no peito e na garganta, Kristin, Jekyll, Regina se negando a ouvi-la e sumindo, a anfetamina que levava para todo lado como se a qualquer momento seu peito fosse explodir e só aquilo tivesse o poder lhe salvar...

— Chega, já chega. — Mary se interpôs entre as duas. — Acho melhor você se acalmar, Emma, não te faz bem ficar assim, e você está assustando a Alice.

Sem dizer mais nenhuma palavra, voltou para sala e se sentou pesadamente no sofá, agoniada esfregava o rosto com as mãos como se quando parasse tudo voltaria ao normal, ou pelo menos ao que achava ser o normal.

— Me desculpa, Emma. — a voz de Alice soou frágil e baixa.

Emma tirou as mãos do rosto e se deparou com Alice e a sua mãe, paradas na sua frente.

— Eu vou levar isso aqui lá para dentro e você vai tomar um banho e esfriar a cabeça. — Mary disse pegando a bolsa que Emma havia deixado na sala ao entrar.

— Não! — rapidamente tomou a bolsa das mãos da sua mãe e a colocou em seu colo — E-eu levo, eu levo. E sou eu quem tenho que pedir desculpas, precisei engolir alguns sapos no trabalho, e não ter notícias dela me deixou... tudo isso tem me deixado fora de mim, e eu ouvi mãe tudo o que você me disse antes, e eu estou tentando aceitar que tudo aconteceu exatamente como deveria e que eu não tenho controle nenhum sobre os porquês, é só que... que se ela voltou para o Maine, quer dizer que ela não está bem, mãe, porque ela já fez isso, ela fez o mesmo quando a esposa dela faleceu, quando tudo isso aconteceu, e ela se perdeu, assim como eu, e isso não pode acontecer de novo. — Emma já havia desistido de tentar controlar as suas lágrimas, elas afloravam e se derramavam com a intimidade de velhas amigas.

— Filha — Mary colocou uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha de Emma —, você não pode dar assistência a ninguém se você não receber primeiro, você não vai conseguir tratar das feridas de ninguém se as suas ainda estiverem abertas, e elas precisam de tempo e cuidado. Pelo o que entendi, a Regina foi para casa, como mãe sei que ela vai estar melhor lá do que sozinha aqui. Ela vai trabalhar nisso de lá, e você daqui, e quem sabe vocês não se encontram no meio do caminho.

E se apegando cegamente as palavras da mãe, Emma enfrentou as semanas que vieram.

Não houveram mais e-mails de Regina para Belle ou para ninguém da revista, mas todos seguiram trabalhando, inclusive Emma, que tirou fotos, as editou, preparou editoriais, ocupou a sua mente, mas sempre havia alguém para perguntar sobre Regina, ou acabava aparecendo no momento exato em que Kristin ou Jekyll estava a falar do sumiço da editora chefe, e que com o passar dos dias e a ausência de Regina, Emma começou a perceber que muitos outros passaram a concordar com eles dois. Gold também passou a estar na revista com mais frequência, e mesmo com todos os comentários, dia após dia parecia que passagem de uma editora chefe feminista por aquela revista, estava sendo apagada, e com ela, alguns números de venda também.

Aquele era o último dia da sua mãe na cidade, então quando levantou para começar a preparar o café, Emma fez questão de fazer um café da manhã especial para Mary. Haviam conversado muito durantes esses dias, ela ainda achava tudo aquilo insano, ainda tinha perguntas, muitas delas, mas por ora aprendia a lidar com aquela confusão no seu peito e em sua mente. Deixou tudo praticamente pronto, só faltava algumas coisas do café para terminar, e faria isso quando voltasse da sua pedalada matutina, também havia decidido algo, iria se desfazer da anfetamina que passava o dia dentro da sua bolsa e noite dentro dos seus sapatos, achava que se continuasse com ela, em algum momento cederia, e precisava estar bem, caso quisesse poder ajudar Regina, como de fato queria. Estava decidida, iria jogá-la na grama ou na areia, em algum lugar que não conseguisse pegar ela de volta.

Mother, I know

Mãe, eu sei

That you're tired of being alone

Que você está cansada de estar sozinha

Dad, I know you're trying

Pai, eu sei que você está tentando

To fight when you feel like flying

Lutar quando sente vontade de fugir

But if you love me, don't let go

Mas se me ama, não me deixe ir

— Oh, Regina? — Henry abriu a porta surpreso.

— Oi papai.

Com uma análise rápida, Henry pôde perceber que a sua filha mais nova não estava bem, trazia no rosto a expressão de quem tinha chorado recentemente, e ter Regina ali, parada na sua porta com o pequeno Henry nos braços, lhe trouxe a recordação de um momento difícil e nada feliz na vida da sua filha. A sensação de déjà vu nunca havia sido tão forte quanto como era naquele momento.

Sem se permitir demorar mais, Henry abriu os braços, e com Henry em seu colo, Regina se atirou aos braços do pai. Os motivos não eram agradáveis, mas era bom estar ali, sabia que conforto e amparo não lhe faltariam.

Com os olhos fechados, sentiu o afago do seu pai em seus cabelos, e ao abri-los, se deparou com uma mulher parada logo atrás, a assustando e fazendo com que ela se afastasse de Henry.

— É...Regina, esse é a Eva. Eva, essa é a Regina, a minha filha mais nova.

— O seu pai falou muito de você, Regina. — Eva se aproximou devagar, como se chegasse perto de animal que ela não conhecia, e civilizadamente estendeu a mão em direção a Regina. — É um prazer finalmente poder conhecer você.

Parada como estava próxima à porta, Regina permaneceu, ainda segurando Henry adormecido nos braços, encarava o seu pai.

— Bom, eu acho que já está um pouco tarde — Eva enfiou a mão que antes estava estendida em direção a Regina no bolso de trás da sua calça. —, é melhor eu ir.

— Eu te acompanho até lá fora. — Henry se prontificou.

Regina deu passagem e eles saíram. Próximo ao seu carro, Regina viu os dois se despedirem com um selinho. Depois que Eva se foi, Henry apanhou a mala de mão de Regina que ainda estava dentro do carro e entrou.

Em um outro momento, independentemente da idade dela, repreenderia Regina, onde já se viu ignorar alguém daquela forma, mas pelo histórico que tinham, ter Regina batendo à sua porta a noite depois de ter viajado com o seu neto de Boston para o Maine, aquilo jamais poderia significar coisa boa.

— Então ela que é a sua namorada? — na sala, Regina havia deitado o seu filho no sofá e encarava o pai de braços cruzados.

— Acho melhor deitar o Henry lá em cima, vou subir com a sua mala primeiro e depois desço para pegar ele. — Depois de levar a mala de viajem para o quarto que Regina e Zelena costumavam dividir quando moravam ali, ele desceu para pegar Henry e encontrou Regina estática, olhando pela janela. A casa era localizada em um ponto relativamente alto da cidade, e permitia que se visse, ao longe, a baía, onde algumas embarcações pequenas dançavam sutilmente sobre as águas. Sem dizer uma palavra, pegou o neto nos braços e o levou para o quarto, para que dormisse mais confortavelmente. Enquanto subiam as escadas, ele sibilou algumas palavras, mas concluiu que ele estivesse apenas sonhando.

— Filha? — a chamou quando voltou a sala.

— Você não respondeu a minha pergunta, pai. — se virou para ele, mas permaneceu com o olhar distante, a imagem do mar e dos barcos flutuando permaneciam em sua mente.

— É, e não achei muito educado o modo como você a tratou. É algo a ver com a sua mãe? Porque sou viúvo há anos, e não acredito estar cometendo pecado algum. — Henry se sentou no sofá, e com a mão bateu no acento do seu lado, indicando que ela se sentasse ali.

Talvez seu pai estivesse bravo, ou chateado, mas Regina sabia que ele nunca expressaria aquilo de forma explosiva, mesmo falando sobre algo sério, ou quando brigava com ela e sua irmã, Henry mantinha um tom de voz calmo, cortês. A própria aparência dele transmitia hospitalidade, era um senhor de barba e cabelos parcialmente grisalhos e feições afáveis.

— Não — também era viúva, mas acreditava haver um abismo enorme entre os dois casos —, você só não me contou — Regina modulou sua voz, a deixando como a dele. —, e nem deixou que Zelena me contasse, fiquei sabendo por que a Robin deu com a língua nos dentes.

Henry suspirou.

— Você havia acabado de se mudar com o Henry, depois de tudo estava finalmente voltando a viver a sua vida, não queria que se preocupasse com isso também. Me desculpe se de algum modo magoei você com isso.

— Você não precisa me pedir desculpas pai, mas eu farei isso assim que ver a... Eva?

— Eva.

— Farei isso assim que possível.

— Eu ficaria muito grato. Mas agora eu gostaria de saber o quê que te fez pegar a estrada a noite com o meu neto e vir de Boston para cá.

— E não sei como contar, não sei nem por onde começar. — baixou a cabeça.

— Que tal pelo começo? Tem alguma coisa a ver com a moça chamada Emma, que você também não me contou que estava namorando?

— Nós não estamos namorando. — respondeu enfática.

— Tudo bem, pelo que me contaram, parecia um namoro, mas se você diz que não é ou era, tudo bem. Ela magoou você, foi isso? Ainda não se sente pronta para estar em uma relação? — Regina negou com a cabeça. — O que aconteceu então?

— Eu nem me questionei se eu estava pronta ou não pai, parecia tudo tão certo, ela foi solícita comigo no trabalho, foi uma das poucas que não me olhou de nariz torcido quando cheguei na revista, não tentou me boicotar, muito pelo contrário, ela me ofereceu ajuda, me fez sair algumas vezes, sair de verdade como uma adulta... Quero dizer, você sabe quantas vezes eu fiz isso nos últimos anos?

A pergunta era retórica, mas Henry saia bem a resposta, e ela era nenhuma.

— E o Henry, ele a conheceu? Você apresentou ela para ele?

— O Henry a ama. Eu só consegui sair de casa e pegar a estrada quando ele dormiu, porque antes disso, ele se negou a vir enquanto não se despedisse dela, enquanto não desse tchau, e eu disse que não, e então ele começou a chorar. — E eu também, pensou, mas preferiu guardar para si — Ele até a chama de amiga, a incrível a amiga. — sorriu fraco.

Zelena já havia lhe contado todas aquelas coisas, e o próprio Gold também havia lhe ligado e contado sobre como Regina ia bem na revista e estava a administrando incrivelmente bem. Mas agora, com ela em sua casa, não conseguia entender o que havia dado errado.

— Até então tudo me parece perfeito, minha filha, mas o que aconteceu em Boston?

— Algo que eu não consigo entender e que tem me atormentado de um modo que acho que vou enlouquecer. — sentiu seus olhos inundarem. — Isso está tirando toda a minha sanidade, de novo. E sinto que estou retrocedendo e encolhendo.

— O que aconteceu, Regina? — preocupado, Henry se empertigou no sofá.

— A Emma...ela, ela se envolveu no mesmo acidente que tirou a vida da Felicity.

— Era ela quem dirigia aquele caminhão? — perguntou incrédulo.

— Não, ela estava na moto que o caminhão também acertou, e por causa disso ela teve umas complicações e o coração dela entrou em falência ou algo assim, e ela precisou de um novo, ela precisou de um transplante de coração, e ele foi feito, o transplante foi feito no dia seguinte ao acidente, quando o médico atestou morte cerebral e eu assinei um termo que permitia a doação dos órgãos da Felicity, e entre eles estava o coração. O coração que bate dentro do peito da mulher que eu achei estar apaixonada e que também achei que estivesse por mim, era o mesmo que batia dentro do peito da minha esposa, pai. — a essa altura, as lágrimas já lavavam o rosto de Regina novamente, que se perguntava se algum dia conseguiria contar aquilo ou até mesmo pensar, sem que lágrimas lhe aflorassem.

Henry estava ouvindo bem o que Regina dizia, enquanto esperava um desfecho completamente diferente do que havia recebido.

— Regina.... — definitivamente não sabia o que dizer, então a puxou para dentro do seu abraço apertado.

— Eu não sei o que fazer pai, não sei o que pensar. — sua voz saiu abafada por ter a sua cabeça deitada no vão do pescoço do pai.

— E quanto ao que você sente?

— Confusão? Eu não consigo olhar para ela e não ver a Felicity ali, a Emma não é ela, mas eu não consigo não ver a Felicity, junto. Eu também não sei se foi isso que fez com que tudo que aconteceu entre mim e a Emma parecesse tão certo, mas agora parece... parece esquisito, me causa aflição, eu não sei o que porquê disso. Parece que tem alguém brincando comigo, sendo cruel.

— Regina — Henry a afastou. —, não acho que você possa falar assim.

— Olha a minha vida pai, ela tem sido uma sucessão de desgraças, a mamãe, a minha esposa, isso agora...

— Talvez não seja a mesma coisa, mas quando a sua mãe nos deixou, eu também fiz o mesmo questionamento que você. Você tinha se assumido para mim, estava no ensino médio e eu preocupado com o bullying, e a Zelena terminando a faculdade e descobrindo que estava grávida da Robin, eu estava sozinho e logo teríamos um bebê em casa. Mesmo com o Robin com a sua irmã, eu sabia que teria que me desdobrar, fazer papel de pai e mãe, e avó e avô, então eu pensei ter sido abandonado, deixado ao Deus-dará. Mas aí a Robin nasceu, ela era a bebê mais linda de toda a maternidade, e você terminou o ensino médio e foi para faculdade, e toda vez que ligava para casa falava animada, feliz por ter se encontrado no curso, e eu descobri que não era bem como eu estava pensando.

— Você já me contou isso quando eu perdi a Felicity, e não é a mesma coisa. — enxugou o canto dos olhos tentando se conter.

— Não é filha, mas eu também perdi a minha fé, e eu não estou falando necessariamente de religião, mas sim de acreditar em algo. Mas acho que por agora você precisa descansar, dormir um pouco. — fez um carinho na bochecha dela.

— Eu não consigo, não sem ajuda. — confessou.

— Um Regina, só um. Zelena havia dito que era o suficiente.

— Tudo bem.

Antes que ela subisse a escadas, Henry a abraçou forte de novo. Era o pai dela, e sempre seria a pessoa dos discursos otimistas e motivacionais, mas a sua filha já havia passado por muito, tinha sofrido, se afundado, tudo o que não desejava para ela era outro baque como aquele.

Regina subiu para o quarto que costumava dividir com Zelena quando moravam ali, nele haviam duas camas de solteiro, e Henry dormia na que ficava encostada a parede. Ali havia sido sua torre alta, seu ponto de exclusão do mundo, seu local de imersão em um poço profundo, escuro e pegajoso, e o pior de tudo, era que se sentia abraçada por aquela escuridão e achava conforto na reclusão.

Ignorando o aviso do pai, quanto a tomar apenas um comprimido, engoliu dois, no seco, um de cada vez, tirou os sapatos os jogando para o lado, e deitou na mesma cama em que o seu filho estava, o ajeitou de modo com que ele ficasse de costas para o peito e que pudesse mexer nos cabelos castanhos dele, e se manteve assim, olhando para o vazio no escuro, com o seu filho junto de si até que os comprimidos fizeram efeito.

— Mamãe. Mamãe. Mamãe! — Henry levantou as pálpebras de Regina, já que ela insistia em continuar dormindo enquanto ele a chamava. Estava acordado há algum tempo, e estranhou a sua mãe inda estar dormindo, uma vez que ela sempre lhe acordava para ir para a escola.

— O que? — falou letárgica. — Que horas são?

— Eu não sei não, mas já é dia. — sentado na cama e encostado na parede, Henry observava o quarto iluminado apenas pela penumbra que entrava por debaixo da porta e por entre as brechas das cortinas que cobriam as janelas.

— Mas já? — cobriu os olhos com o braço.

— Eu com fome, mamãe.

— Eu acho que o vovô já deve estar acordado, porque você não vai comer com ele, hum? — balbuciou.

Debilmente ajudou o filho a descer da cama, os calmantes ainda faziam efeito, e quanto a porta se abri e se fechou, cobriu a cabeça com o lençol e voltou a dormir.

— Vovô! — Henry desceu correndo e o chamando.

— Mas o que foi? — surgiu apressado ao pé da escada, com um guardanapo da cozinha no ombro. — Ei, devagar, não corra nas escadas.

. — parou nos últimos dois quatro degraus, e os desceu devagar. — Assim bom, vovô?

— Assim está ótimo. — no último degrau segurou a mão do neto e ele o pulou.

— Eucom fome. — o olhou pidão.

— Eu estava fazendo o nosso café nesse instante. A sua mãe ainda está dormindo?

— Ela acordou, me mandou descer e dormiu de novo.

— Tudo bem. E o que você acha de sanduíches e suco laranja, ou bagel com geleia, hum?

— Eu quero tudo. — de mão dada com o avô, foi para cozinha com ele, e sentando balançando as suas perninhas, o assistiu preparar o seu café da manhã.

Comiam à mesa, Henry havia cortado os sanduíches ao meio para facilitar para o seu neto, e também tinha colocado o suco em um copo vermelho de algum super-herói que os meninos gostavam, mas que não lembrava o nome, eram muitos para lembrar, quando Zelena chegou.

— Tia Zelena. — Henry pulou da cadeira e abraçou as pernas da tia.

— Oi meu bem. — Zelena o abraçou enquanto olhava confusa para o pai.

— Cadê o Roland, tia?

— Ah, ele está na escola, acabei de deixar ele lá, eu passei aqui só para tomar o café do vovô antes de ir trabalhar. E a propósito, cadê a sua mãe? Não sabia que vinham nos visitar. — se serviu de uma xícara de café.

— Ela lá em cima, dormindo. — Henry voltou a se sentar.

— Nós podemos conversar lá fora, Zelena? — o mais velho dos Mills indicou com a cabeça o quintal.

— Claro.

— Come tudinho, filho. — Henry deu dois tapinhas no ombro do neto, que acenou positivamente.

— O que aconteceu? — Zelena perguntou quando se sentaram nas cadeiras da mesa de jardim.

— Algo difícil de digerir e de acreditar. — então contou a filha tudo que Regina havia lhe contando na noite anterior.

— Isso é... não gosto de usar essa palavra, mas isso é loucura, pai.

— Por mais que pareça ser, aconteceu, e tenho medo de como a sua irmã vai ficar agora que descobriu isso. Ela chegou aqui ontem à noite, com Henry dormindo nos braços, estava um pouco desnorteada e foi até fria com a Eva, mas levando em consideração que eu mesmo não contei a ela sobre a nossa relação, então isso talvez seja compreensível. Mas a sua irmã definitivamente não está bem, e ela está precisando de remédios para dormir de novo. Eu não posso deixar que aqueles três anos se repitam novamente.

— Pai, se é difícil para nós entendermos, imagina para ela que foi casada com uma um, a perdeu cedo, e quando finalmente se abriu, descobre tudo isso, então vamos dar um tempo a ela, deixar que ela respire. À noite, depois do meu último paciente, eu venho tentar conversar com ela, mas você a conhece, ela vai alegar que não precisa de uma consulta.

Antes de sair para ir trabalhar, Zelena prometeu ao sobrinho que levaria Roland para almoçar lá e para que pudessem brincar.

Sozinhos, uma vez que Regina estava no quarto, Henry aproveitou para sondar o neto quanto a vida deles em Boston e a respeito da famosa Emma. O garoto lhe contou sobre a creche, o trabalho da mãe, a Granny que cuidava dele quando ela estava ocupada, a sua incrível amiga Emma, sobre ela ter lhe ensinado a tirar fotos, o dia em que aprendeu a andar de bicicleta sozinho e sem rodinha, sobre quando foram para o parque de diversões com Robin e a pintora, a irmã mais nova de Emma, e sobre a Violet, a sua amiga da creche. E assim Henry pôde entender que a mulher que havia recebido o coração da sua falecida nora, era muito mais do que alguém próxima a Regina e ao seu neto, era alguém que estava inserida na rotina deles, que a julgar pelo tom saudoso do neto, era alguém de quem ele já sentia falta, e considerando a perturbação na qual Regina imergia, era alguém a quem ela parecia estar a amar.

— Vovô, a mamãe não vai tomar café? — Henry perguntou quando percebeu que o seu avô havia começado a preparar o almoço.

— Verdade, e o que você acha de me ajudar a preparar uma bandeja de café da manhã para ela?

A pedido do avô pegou umas frutas na fruteira o ajudou a montar a bandeja, e a levaram para o quarto.

— Filha? — Henry a chamou batendo na porta do quarto com os nós dos dedos, e quando não houve resposta, entrou da mesma maneira. Tinha sido exatamente assim da outra vez, e era essa similaridade que fazia com que temesse pela saúde mental da sua filha.

— Mamãe, nós trouxemos o seu café. — Henry disse quando entrou com o avô no quarto escuro, e como resposta obteve um gruindo da mãe.

— Está um dia bonito lá fora, filha, não é sempre que temos um dia de sol. O que você acha que abrir as cortinas e deixarmos o sol entrar um pouco?

— Não. — a voz dela saiu rouca e melancólica por debaixo dos lençóis. — Só deixa isso aí.

— Tudo bem — Henry colocou a andeja sobre a cama de solteiro vazia. —, vem Henry. — pegou na mão do neto e deixaram o quarto.

Regia que estava deitada virada para o lado da parede, se virou para o outro lado para ver o que o seu pai tinha trazido, mas estava escuro demais para isso, então acendeu somete a luz de um abajur que ficava em cima de um criado deixado entre as duas camas, o que foi suficiente para fazer com que os seus olhos ardessem, uma vez que já estavam acostumados ao escuro. Tinha uma xícara de café, maçã e uva, bagel e sanduíches, sentia fome biológica, mas não sentia vontade de comer alguma, então tomou apenas o café e voltou a se deitar, e assim ficou imersa na penumbra e no silêncio, até que começou a ouvir vozes de crianças, reconhecia bem a do filho, e a outra com certeza seria do seu sobrinho, Roland, os dois deveriam estar fazendo uma bagunça e tanto no andar de cima, mas então ouviu o seu pai pedir que os meninos descessem, e tudo voltou a ficar em silêncio novamente.

Olhando para o escuro, a sensação de que as paredes estavam se aproximando, o teto baixando e o ar acabando se apossou de Regina, estava se sentindo cada vez mais sufocada. Ofegante, Regina se sentou rapidamente na cama, suas mãos começaram a formigar e o seu rosto a suar, sentia tremores interno e então começou a hiperventilar, a gola da blusa lhe apertava o pescoço, o ar era rarefeito, insuficiente, sua garganta se fechava tornando cada vez mais difícil respirar, iria sufocar, sentia medo de morrer, morrer sozinha, deixar o Henry... Em agonia, levantou e saiu tropeçando por entre as camas e as coisas que estavam espalhadas pelo quarto até o banheiro, onde acendeu a luz, no espelho o seu reflexo estava embaçado, sua visão estava turva, o mundo começou a girar, e chão faltou sob os seus pés. No chão do banheiro sentia tudo, mas se sentia um nada, estava insegura e sobrecarregada, e então o mundo escureceu.

Quando voltou a abrir os olhos, uma cabeleira ruiva surgiu em seu campo de visão.

— Zel?

— Sou eu. — Zelena ajeitou a cabeça dela no travesseiro.

— Você está se sentindo bem? Se machucou? — Henry perguntou preocupado.

— A minha cabeça... ela dói.

— Você bateu ela no chão quando caiu, mas pelo menos não acertou na pia ou algo assim.

— Cadê o Henry? — tentou se sentar de pressa, mas o quarto começou a girar.

— Calma — seu pai fez com que ela deitasse novamente. —, ele está na fora com a Robin e o Roland, eu não quis assustar ele.

— Quem me colocou aqui? — havia caído no banheiro, e duvidava que o seu pai a tinha pegado nos braços e a colocado na cama.

— O Robin. — Zelena respondeu.

— Você nos assustou. — ele disse acenando por trás do sogro e da esposa.

Regina apurou a sua visão e então e o enxergou, sorriu em agradecimento.

— Vocês podem nos dar licença? — Zelena pediu e Robin e o seu pai saíram as deixando sozinhas — Lembra do que aconteceu antes de você desmaiar? — perguntou se sentado na beirada da cama.

— Eu não conseguia respirar, parecia que o quarto ia me esmagar, achei que fosse sufocar e morrer, não conseguia puxar o ar suficiente, e daí tudo ficou escuro.

— Pelo que me parece você teve uma crise de pânico, bem similar as que você já tinha apresentado, e a julgar pela bandeja praticamente intacta que vi quando cheguei, seu organismo também está fraco.

— Apresentado? Eu não estou te pagando por uma consulta. — se sentindo melhor, sentou na cama.

— O nosso pai me contou, contou tudo. — suspirou. — É realmente muito para absorver, para entender, é confuso para tudo mundo, em especial para você e para ela.

— Eu só quero que tudo isso acabe — enfiou os dedos nos cabelos e juntou os joelhos ao corpo. —, porque eu não posso suportar mais, não de novo.

— Você ficar tudo, está bem? — abraçou a irmã. — Você só não pode se entregar. Vai ficar tudo bem.

Naquela noite, por uma recomendação estrita de Zelena, Regina desceu para jantar com todos, Roland quando a viu se jogou sem pestanejar se jogou nos braços dela, conversaram sobre a ida de Robin em breve para faculdade ao final das férias de verão, e falaram sobre as novidades da cidade, que não eram muitas, uma vez que se o Maine era minúsculo, quem diria a cidade.

Nos dias que se seguiram, durante a semana, Regina ainda passou a maior parte do tempo no quarto, desceu algumas poucas vezes para comer com todos quando Zelena e a família estavam por lá, e também para ficar com o Henry, que sempre a chamava para brincar no quintal, mas se sentia cansada e sem ânimo algum para quilo, e quando as crises de pânico e a sensação de sufocamento voltavam, e não eram poucas as vezes que isso acontecia, acendia todas as luzes do quarto e fazia as técnicas de respiração que Zelena tinha lhe ensinado anos atrás, e assim, aos poucos, tentava assumir o controle, mas o que não ela não contava para ninguém, era que a linha entre desistir e prosseguir era mais tênue do eles podiam imaginar.

— E a revista, filha? — Henry perguntou em um dia que Regina só decidiu sair do quarto às 15h. Na cozinha, ele conversava trivialidades com a neta, tentavam abstrair, uma vez que a condição de Regina parecia adoecer a todos.

— Está lá, está tudo lá. — Robin se assustou com profundidade das olheiras que a tia trazia no rosto, aparentemente, não era dormindo que ela passava todo aquele tempo no quarto.

— Você ao menos avisou ao Gold? — Regina negou com a cabeça. — Não acha que deveria ligar, avisar que precisa de uns dias de folga, sei que ele não faria objeção.

— Depois, pai, depois.

— Você não pode deixar ele na mão, minha filha, não pode sumir dessa forma do trabalho de novo, especialmente trabalhando na revista dele. Ele confiou o trabalho da vida dele a você, desde que o conheço ele não faz outra coisa na vida a não ser trabalhar nessa revista. Sem filhos, sem esposa, só ele e um legado.

— Ok, tudo bem. — bufou irritada. — Robin, você pode me emprestar o seu celular, vou mandar um e-mail para revista e o meu está descarregado. — mentiu, havia deixado ele no silencioso e no fundo da mala de mão que tinha levado.

Robin que só acompanhava a conversa olhando de lado para o outro, acenou com a cabeça e entregou o celular a tia.

— E como tem sido lá na revista? — Henry perguntou enquanto Regina digitava no celular de Robin. — Tem gostado de ser editora chefe?

— É bom, quer dizer, se não fosse por algumas pessoas, seria bem melhor, digo, tem alguns funcionários que torcem para que tudo que eu faça dê errado desde o meu primeiro dia. — falou indiferente, como se aquilo não a incomodasse, quando na verdade fervia de ódio só em pensar na pessoa do Jekyll. Terminou o e-mail, o enviou e entregou o celular a sobrinha. — A propósito, você e a... e a Alice, tem conversado muito?

— Sempre que ela não está na faculdade. — corou ao dizer.

— É... eu queria pedir que você não falasse de mim, quero dizer... acho que você entende o que eu quero dizer.

— Como você quiser, tia. — o que era um pouco tarde, uma vez que já tinha contado a Alice que a sua tia estava ali com o Henry.

— Obrigada. E onde está o Henry, pai?

— Ele está com o Roland e o Robin, e ele pediu para ir brincar e eu deixei. Tudo bem?

— Uhum. E vou subir, ?

— Não vai comer?

— Eu desço e como mais tarde.

— Você acha que ela está melhor do que a última vez, vô? — Robin perguntou depois que a tia subiu as escadas.

— Acho que ela tem tentado estar. — suspirou, cansado e preocupado.

Duas semanas haviam se passado e Henry preparava o café da manhã juntamente com Zelena, era a manhã de domingo, e as refeições naquele dia de preguiça seriam todas feitas na casa do vovô, seus filhos ainda dormiam em casa e Robin havia saído com a lista de compras que ela e Henry tinham feito.

Após o café, todos com exceção de Eva, que havia decidido dar um tempo a família Mills para ela lidasse com os seus problemas, de Henry e Regina, se reuniram no jardim e aproveitaram o sol matinal, já que era quase certeza esfriar bastante a noite.

— Você viu o Henry? — Henry perguntou a Zelena pelo neto, lembrava de tê-lo visto comendo um sanduíche ao lado de Roland, mas o Roland também estava no jardim com eles.

— Acho que ele está lá em cima com Regina, ele é sempre tão grudado a ela...

— É, deve estar. — mas mesmo assim Henry se levantou e foi procura-lo, para caso ele não estivesse no quarto com Regina, mas sim aprontando algo.

E entrando pela cozinha, ou virar no corredor para subir as escadas, encontrou o neto sentado aos pés da escada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e cabeça apoiada nas mãos. Ele parecia chateado.

— Está tudo bem, filho? — se aproximou — Brigou com o Roland? — Henry negou com a cabeça. — O que aconteceu?

— A mamãe dodói de novo, vovô?

— Oh — Henry se sentou ao lado do neto na escada. —, porque você está me perguntando isso?

— Porque ela não quer descer pra ficar comigo, ela só quer ficar lá no quarto, no escuro. Dá medo vovô. E eu queria saber porque que eu não posso ir pra escola do Roland?

— A sua mãe está cansada, pois isso que ela passa esse tempo no quarto, e você tem a sua creche, a escola do Roland é de meninos mais velhos.

— E porque eu não posso ir lá pra creche também? Eu queria ir. — fungou chateado.

— Você está com saudades da escola?

— Uhum, e dos meus amiguinhos, e da Emma, e da Violet, e da Granny também.

Além de se preocupar com a filha, Henry temia que o neto também fosse envolvido na escuridão que parecia envolver Regina, e então decidiu que não iria mais ficar com os braços cruzados.

Regina estava dormindo de bruços quando o seu pai entrou no quarto acendendo as luzes e abrindo as cortinas das janelas, deixando que a luz do sol entrasse.

— Não! — grunhiu colocando o travesse sobre a cabeça.

— Regina, levanta. — mandou.

— Eu não quero.

— Infelizmente na vida nós não fazemos só aquilo que queremos. — tirou o travesseiro de cima da cabeça dela e se sentou na cama do lado. — Você vai levantar, tomar um banho, descer para almoçar conosco, e também vai se desculpar com a Eva por a forma como você a tratou naquela noite.

— Porque você está fazendo isso? — choramingou.

— Porque eu não vou deixar que aqueles três anos se repitam, não posso deixar que isso aconteça, que você perda de novo anos da sua vida.

— Pai...

— O Henry, o seu filho, ele está crescendo, ele não é mais aquele menino de dois anos assustado, ele está chateado porque você não sai daqui para brincar com ele, ele está com saudades da escola dele e dos amigos, ele está preocupado com a mãe. Ele acha que você está doente, e eu acho que concordo. Se não for por você, faça isso por ele.

— Tudo que faço é por ele. — se sentou na cama e enxugou o cantos dos olhos.

— O seu filho precisa de você, o Gold precisa de você na revista, e acho que mais alguém também, e talvez você também precise dela. Ela te fez sorrir, ela fez com que você se abrisse... Olha, acho que você esperava uma resposta melhor de mim na noite em que chegou, mas ninguém verdadeiramente sabe pelo o que Ele é responsável, estamos apenas supondo, mas mesmo que seja, ele não vai ser responsável pelo o que vai decidir fazer nesse exato momento, nesse instante, e eu espero que isso seja se erguer. Pelo que eu entendi, você a salvou, quando você permitiu a doação de órgãos, você salvou a vida Emma, a vida de alguém que você não conhecia, mas que a vida permitiu que conhecesse e que desenvolvesse sentimentos por ela. Sei que foi difícil perder a Felicity, perder quem se ama dói, fere profundamente, ainda mais ter tudo revirado depois do processo de cicatrização, mas foi justamente isso que permitiu que você a conhecesse.

Calada, Regina ouvia tudo o que seu pai dizia, enquanto finos caminhos molhados eram deixados em seu rosto pela passagem das lágrimas que escorriam. Nunca havia pensando no que as aconteceu daquela maneira, pensava ser um boicote pessoal à sua felicidade, à segunda chance que até então acreditava estar tendo com Emma, quando na verdade, só pudera tê-la porque tudo isso aconteceu. Tinha perdido as contas de quantas vezes desejou que nada daquilo tivesse acontecido, mas se assim fosse, se não tivesse autorizado a doação, se o transplante não tivesse sido feito, Emma não estaria viva, e pensar em perde-la de forma tão definitiva era terrivelmente assustador, um mundo sem a luz que ela emitia através da empatia, não era um mundo válido de se viver. E ainda havia Henry, que crescia e se tornava cada vez mais esperto e inteligente, que começava a entender as coisas em um estalar de dedos, não queria magoá-lo, não queria que a sua dor também se tornasse a dele, e seria exatamente isso que aconteceria, caso continuasse assim.

Ainda não entendia o porquê, e nem sabia se em algum momento conseguiria compreender como uma coisa afetava a outra, mas havia sido apresentada a uma nova perspectiva, uma que talvez parecesse lhe fazer mais sentindo do que as outras, e fez com que visse que não importava o quão caótico, confuso e insano tudo parecesse, uma certeza que persistiu, a de que os seus sentimentos por Emma eram ainda mais profundos do que imaginava.

Regina fez o que o seu pai pediu, levantou, tomou um banho e desceu, ninguém comentou nada, mas recebeu um sorriso de Zelena que lhe dizia que ia bem. Brincou com o sobrinho e com o filho, que adorava se exibir mostrando que já sabia andar sozinho de bicicleta e sem as rodinhas. Conversou com a Robin, sobre a faculdade e a mudança para Boston, e descobriu que ela considerava ficar em um alojamento do campus, mas ainda sim lhe ofereceu um lugar no seu apartamento.

Ajudava a preparar o almoço com Zelena quando o seu pai entrou na cozinha com Eva, sua namorada.

— Acho que você todas já se conhecem. — Henry disse.

— Mas não devidamente — Regina se aproximou e estendeu a mão para ela. —, também é um prazer finalmente poder conhecer você.

— Eu digo o mesmo. — Eva a apertou e sorriu.

Eva as ajudou a fazer o almoço, e quando ele finalmente ficou pronto, todos se sentaram à mesa para comer, Henry, seu filho, se sentou ao seu lado e ela o ajudou a comer cortando a carne em pequenos pedaços, e Zelena fez o mesmo para Roland. Enquanto comiam, Regina observou o pai e a namorada, precisava confessar que o ver com uma outra pessoa era... era diferente, mas ele parecia feliz, sorria toda vez que o seu olhar cruzava com o de Eva, e ela também.

Durante a tarde conversou com a nova madrasta, o que era um pouco difícil de se dizer, ninguém espera ter uma madrasta aos 30, mas descobriu que ela não tinha filhos e que morava sozinha, que os seus sobrinhos gostavam muito dela, e que o seu filho também estava caindo nos encantos de Eva, e estava tudo bem.

No dia seguinte, decidiu acordar cedo, antes que o seu pai, o que definitivamente o surpreendeu.

— Você quer ajudar? — perguntou.

— Não pai, está tudo bem. — ele se sentou e ela estendeu uma xícara de café quente para ele. — Eu estava pensando em... em voltar a revista.

— Sério filha? — tentou fingir não estar surpreso.

— É, eu deixei tudo nas mãos de alguém que eu não confio muito.

— Porque fez isso, Regina?

— Acho que fiz porque queria mostrar que ele não era bom o suficiente, mas se isso se confirmar, a revista é quem vai sair prejudicada, e não quero decepcionar o Gold. — sorriu um pouco para o pai.

— Vovô, cadê a minha mamã... — ouviram a voz de Henry ao descer correndo as escadas, mas ele parou o que dizia assim que entrou na cozinha.

— Eu estou aqui. — Henry correu e a abraçou pelas pernas e Regina deixou um beijo estalado na testa dele. — Já escovou os dentes?

— É...

— Eu acho que não, hein. — o avô o entregou.

— Eu deixei a sua escova com a pasta de dentes em cima da pia do banheiro, vai lá escovar, e depois desça para tomar o café.

bem. — Henry saiu correndo da cozinha.

— Sem correr pelas escadas, mocinho. — Regina o advertiu.

Regina servia panquecas para o pai e para si, quando Robin entrou correndo afobada pela porta da cozinha.

— Tia Regina, a... ela... — começou a falar mas estava ofegante como estava, as palavras saíram entrecortadas.

— Calma Robin, respira primeiro.

— O que aconteceu? — Henry perguntou preocupado.

— A Alice, ela me mandou uma mensagem agora, ela disse que a Emma tinha saído para andar de bicicleta de manhã cedo, e que passou muito mal no meio da rua.

— E ela está bem? — Regina se pôs de pé imediatamente.

— Ela está no hospital tia, a Emma está internada.

Notas finais
Acho que nós precisamos conversar. Essa entrega e imersão de Regina a escuridão, vamos dizer assim, nesse capítulo, foi exatamente a forma que imaginei que aconteceu quando ela perdeu a esposa, só que mais duradoura e bem intensa nos dois primeiros anos, e foi sendo amenizada quando, de casa mesmo, ela começou a trabalhar para o Gold. Pessoas que passaram por a depressão, podem apresentar quadros de reincidência facilmente, já que atingir a estabilidade é um trabalho contínuo, e foi isso que aconteceu com Regina, quando ela acreditou perder o controle de daquela situação, ela perdeu o controle sobre a própria mente, e acontece o mesmo com pessoas que são viciadas em substancias químicas, abalos emocionais são os principais gatilhos para recaídas e reincidências, e fora que as famílias, quando se importam, sofrem juntos, se desestabilizam também. Então é muito difícil e desgastante estar em qualquer uma dessas posições, seja na Emma ou na de Regina. E que com isso possamos ser mais empáticos com as pessoas que estão lá fora. Obrigada por todos os comentários nos capítulos passados, por os favoritos recentes, sou muito grata, um feliz natal atrasado, e um feliz ano novo adiantado, que ele possa ser maravilhoso para todos nós. Beijo grande e até o próximo Meu twitter é xnxruth, qualquer coisa, estou sempre por lá. P.S.: Não me matem por ter terminado ele desse jeito, o próximo vai terminar melhor, eu juro.