Blaine tentava ignorar aquele som de alarme irritante vindo do seu celular que repousava na mesa de cabeceira de sua cama. Por mais que o despertador fosse sua música favorita preferia mil vezes continuar na cama do que se levantar para mais um dia de aula.

É claro que um dos motivos da reluta do Anderson em acordar era o aconchego que tinha ali deitado em seu peito. Em um abraço, Blaine podia sentir o peso do corpo de Kurt sob seu peito, em uma respiração calma como se estivesse no lugar mais confortável do mundo.

— Desliga isso. – Kurt murmurou ainda de olhos fechados.

— Bom dia, flor do dia. – Blaine respondeu com um sorriso, encarando o colega levantar sua cabeça e se sentar na cama, com olhos ainda cerrados do sono.

— Bom dia. – Respondeu curto.

Não que estivesse de mal humor ou nada do tipo, Kurt geralmente era uma pessoa matutina. Acontece que, quando você está nos braços de Blaine Anderson, acordar vira uma das tarefas mais complicadas a se fazer em uma manhã aparentemente fria.

Blaine pendeu sua cabeça encarando o castanho. Ele conseguia ser ainda mais bonito ao acordar. Cabelos despenteados, um rosto um pouco inchado do sono e aqueles olhos azuis ainda tentando se acostumar com a luz do dia que invadira o quarto pela cortina. Sentiu um frio na barriga e uma palpitação estranha ao ficar encarando o amigo.

— São sete horas de uma sexta-feira, Blaine. – Comentou Kurt, ainda esfregando seus olhos. – Por que você acorda quase de madrugada quando as aulas de sexta começam apenas às 9?

— Eu costumo correr pelo Central Park. – Disse trazendo o Hummel pra perto em um abraço. – Mas hoje eu bem que poderia ficar por aqui.

— Não vou fazer você mudar sua rotina. – Kurt encontrou os lábios de Blaine em um breve selinho. – Preciso terminar umas coisas do desfile de moda também... Te vejo na faculdade? – Disse enquanto levantava e começava a recolher suas roupas espalhadas pelo chão daquele quarto.

— Você já vai? – Tentou disfarçar o tom de tristeza na pergunta. – Não quer nem tomar um café, ou algo do tipo?

— Blaine. – Kurt parou, encarando Blaine. – Acho que seria um pouco demais me sentar na mesa com seu pai e Chandler para tomar um café, não acha? – Gargalhou baixo ao ver Blaine concordar.

— Deixa eu te levar em casa então.

Queria, queria muito. Porém sabia que não seria uma boa ideia.

— Eu pego um taxi. – Kurt começou a vestir suas roupas.

Blaine apenas o encarava, vendo a delicadeza do castanho em colocar seus acessórios, abotoar cada botão de sua camisa... Sorriu ao se lembrar que na noite anterior ambos pouco se importavam se danificariam as peças ou não, queriam apenas o corpo um do outro.

— Então... – O moreno engoliu seco. – Quando eu te vejo de novo?

A pergunta fez o corpo de Kurt se arrepiar. Não havia nem ido embora e Blaine já tinha vontade e planos para se encontrarem novamente? Não diria que não gostou de ouvir aquela pergunta, porém não sabia ao certo como processar todas aquelas informações.

— Estarei hoje na sala 206, sem falta. – Sorriu.

— Você não quer participar do aquecimento? – Blaine se levantou, vestindo sua cueca que estava jogada por ali e se cobriu com o roupão preto que usara na noite anterior. – Hoje faremos prática de piano, então provavelmente muitas músicas se encaixariam com sua linda voz. – Caminhou até o castanho.

— Vou pensar no seu caso. – Disse com um sorriso de canto de boca, se aproximando de Blaine também, passando seus braços em volta do pescoço do menor. – Você me leva até a porta?

— Eu quero te levar de volta pra cama. – Blaine gargalhou baixo. – Mas eu faço esse esforço, vem.

Os meninos caminharam até a entrada principal. Não demorou muito até o motorista de aplicativo chegar e Kurt começar sua viagem de volta. Blaine se encostou no batente da porta, vendo o veículo sumir nas ruas do condomínio.

Não sabia ao certo, mas ver Kurt ir embora parecia deixar algo preso em sua garganta.

— Buenos dias, Sr. Anderson. – Disse Rosa chamando sua atenção. – Já está acordado? Gostaria de algo especial para o café?

Sim, queria Kurt. E queria muito. Porém apenas caminhou com a governanta até a cozinha para ter sua primeira refeição do dia.

[...]

Kurt tinha sua fiel bolsa sem seu ombro enquanto caminhava pelos corredores. Não havia tido nenhum problema a chegar em casa, aparentemente Quinn nem havia percebido que o primo não dormira por ali. Após uma extensa preparação e sessões de troca de roupa onde nenhumas pareciam certas, ficou pronto e se prontificou em ir cedo para a faculdade.

Até queria participar da prática de aquecimento que Blaine o convidara, porém foi chegar no bloco de sua sala que já havia sido convocado pelo seu grupo para uma reunião de emergência sobre o planejamento de detalhes do trabalho que teriam que entregar até a próxima semana.

— O que temos até agora? – Marissa tinha as mãos sobre a mesa, tentando organizar seus pensamentos. Todas as aulas agora eram sobre o desfile, porém mesmo assim era como se faltasse tempo para toda a organização.

— Certo... – Chandler tentava olhar suas anotações. – Inverno chique... De peças já prontas temos o sobretudo, verde chartreuse, que era a peça de Chloe.

— Temos também o conjunto de ombreiras e saia mid marrons minhas e suas. – Kurt lembrou o loiro, que agradeceu com um sorriso sincero.

— Isso! Então três peças totalmente prontas. Temos o macacão de couro grinalda, que falta ainda pregar as taxas, que era da ideia de Alex. E a calça de franjas de Marissa é o que está mais inacabado. – Concluiu.

— Você acha que consegue terminar a costura até terça-feira? – Perguntou Chloe.

— Dificilmente... Meu pai planejou esse final de semana comigo. – Revirou os olhos como se já soubesse que não gostaria dos planos do Sr. Anderson em se reconectar com o filho.

— Eu sou péssima em costurar. – Marissa afirmou e Alex concordou.

— Eu consigo. – Kurt interviu. – Eu termino até terça. Passo o final de semana adiantando muita coisa. É tranquilo. Só preciso dos tecidos e moldes, que estão na casa de Chandler.

— Eu mando pra sua casa, peço pro motorista deixar lá. Me passa seu endereço

— Perfeito, resolvido. – Alex pegou sua vez de fala. – Modelos. Temos um problema. Estávamos com a minha namorada confirmada, porém... – Engasgou rapidamente.

— Porém vocês terminaram. – Chloe completou.

— É... – Coçava a cabeça tentando ignorar os olhares dos colegas, que sabiam exatamente o motivo do término: Alex havia traído a menina com várias garotas. Qual é o problema com os garotos daquela faculdade? – Enfim. Precisamos de uma garota. Magra, alta. Loira pra combinar com a cor bege da roupa.

Kurt não precisou pensar muito. – Deixa comigo, eu tenho Quinn.

— Kurt, você não pode pegar tudo pra resolver. – Chandler sorriu.

— Prometo que vou dividir tarefas. – Cruzava os dedos.

— Certo, o que mais precisamos?

.:.

A reunião do grupo de moda tomou o dia letivo inteiro, tendo que almoçar pequenos lanches rápidos comprado em uma lanchonete qualquer do campus. Os estudantes do grupo estavam exaustos depois de tanto pepino para resolver, porém após o desfile descansariam nas pequenas férias do fim do semestre. Agora não era hora de descanso.

Inclusive, era hora de trabalhar. Kurt chegou em casa com o intuito de convencer Quinn a ser uma das modelos do projeto, e esperaria a entrega de Chandler para terminar as peças incompletas. Seria um final de semana inteiro de trabalho, contrariando qualquer tipo de plano que o Hummel tivera para esses dois dias.



[...]

Blaine teve um dia não tão produtivo assim. Após a prática do piano os alunos do curso de música foram dispensados, uma vez que o professor da aula do dia não havia chego no campus. Algum problema com seu carro, ou algo do tipo.

Até mandou mensagem para Kurt, vendo se conseguia ter o castanho com ele para alguma atividade juntos, porém recebeu uma breve mensagem dizendo que estava em reunião sobre o projeto de moda e demoraria muito até alinhar as necessidades do trabalho. Isso acabava descartando Chandler também.

Então sua opção agora era um dia de preguiça na casa de Puck. Chegou um pouco depois do meio-dia, e se esperasse ser recebido com algum tipo de almoço ou coisa parecida, Blaine teria se decepcionado. Não era de Noah Puckermann ser um anfitrião muito bom.

A casa onde Puck morava com BigJ era um caos. Latas de energético e cerveja por todo canto, algumas embalagens de delivery se acumulando pelos balcões... Típico quarto de república de dois garotos.

— Blaine, chega aí. – Puck não chegou a encarar o amigo, seus olhos eram fixos no jogo de videogame que jogava online.

Trocaram um breve soquinho como aperto de mão e Blaine se jogou naquele pufe enorme que tomava lugar perto do sofá onde Puck estava. O garoto de moicano usava fones e eventualmente gritava com alguém que estava do outro lado da tela, seu parceiro de jogo. Demorou um pouco até receber a notificação de vitória na tela e largar seu controle e fones, dando atenção à Blaine.

— Come um pouco, cara. – Sorriu enquanto oferecia um pedaço de pizza duvidoso, qual Blaine não sabia ao certo de quando era.

— Essa pizza é de quando, Puck?

— Sei lá... Ontem?

Blaine gargalhou. Eram tão diferentes, porém tão iguais em alguns pontos. O amigo era o YIN do seu YANG, aparentemente. Se sentia bem. Pegou um pedaço de pizza e comeu, tendo certeza que aquele item era de muito mais tempo do que apenas 1 dia anterior.

— Você tá sumido, não responde mais as mensagens. – Puck falava enquanto mastigava sua fatia. – Ontem nós fomos para a festa de boas-vindas às novas calouras do curso de farmácia. Foi bem proveitoso, viu. E hoje tem das calouras de estética. Muitas gatas.

— Eu estava com Kurt, fomos pra Bridgeport. – Falou.

— Com... Kurt? – Puck encarou o amigo como se ele fosse um fantasma. – De novo? – Blaine assentiu, sem ver problema. – Cara...

— O que foi?

— Você está há semanas sem pontuar. Eu achei que era só porque você estava tendo uma fase ruim que não estava conseguindo sair com ninguém... Mas pelo visto isso tem um motivo e um nome: Kurt.

— Não viaja. – Blaine se ajeitou em seu pufe.

— Ah, não? – Puck sorria com o desconforto do amigo. – Então me conta, com quantas pessoas você saiu depois de conhecer Kurt? — Blaine precisou pensar, então o amigo completou. – Viu? Você nem sabe. Você não tá saindo com ninguém, cara.

— Tá, e qual é o problema?

— O problema é que você vai perder a nossa competição.

Era isso então, a competição. A famigerada aposta que os amigos tinham desde o primeiro ano de faculdade. Era um desafio qual fazia sentido na época que foi criado. Queriam sair com pessoas, conhecer os alunos do campus, e Blaine sempre fora o campeão de todos os semestres. Mas pensamento nessa competição no dia de hoje: teria realmente sentido? O Anderson já estava no último ano de faculdade, já havia saído com muitas pessoas e não sentia mais o frio na barriga em conquistar mais pessoas. Esse desânimo na competição era por ter amadurecido, não? Obviamente não era por Kurt.

— Não me leve a mal... – Puck continuou. – Eu adorei Kurt, o cara é fera. Mas ele realmente vale a pena você perder o dinheiro que apostamos? É 500 dólares, cara. Faz falta. – Viu o amigo pensativo. – Você quer desistir?

— Desistir?

— Da competição. Não tem problema, eu não vou te cobrar o pagamento. Só quero que você saiba o que você quer: se é ganhar, ou se é namorar Kurt.

— Eu não quero namorar Kurt. – Disse como se falar em voz alta transformasse em realidade. – Eu... Eu só gosto da companhia dele.

— Mas você gosta de estar com ele da mesma forma que gosta de estar comigo? Ou você gosta de “estar” com eles, a todo momento, tipo agora?

Blaine se pôs a pensar. Ele queria desistir da competição? Kurt significava tanto pra ele assim? Realmente, ao saber que estava com a manhã de folga Kurt fora o primeiro pensamento de Blaine, queria fazer algo com ele. Não necessariamente leva-lo pra cama. Algo como tomar um café, dar um passeio. Mas isso significava alguma coisa?

— Cara, independente... – Puck se encostou em seu sofá. – Você precisa se decidir. Porque é questão de tempo até ele descobrir que você saiu com metade do campus. E você já pensou o que aconteceria caso ele ficasse sabendo da aposta?

— Você não contaria pra ele. – Blaine soou bravo.

— Eu não, mas você lembra quando você ficou com aquela louca, qual era o nome dela? Valéria? Valesca? – Tentava puxar na memória.

— Valentina. – Blaine se lembrava da asiática.

— Mano, aquela garota era louca. – Puck gargalhou. – Ela quase descobriu da aposta quando pegou seu celular escondido enquanto você dormia. Cara, ela colocou sua digital sem você ver e começou a ver as mensagens do seu celular. Completamente surtada. Se ela quase descobriu, o que te garante que caso você se envolver mais ainda com Kurt, ele não venha eventualmente a descobrir?

Puck tinha um ponto. Estar cada vez mais próximo de Kurt o deixava mais exposto, e não poderia confirmar que Kurt nunca saberia sobre a aposta. Eventualmente, se não hoje talvez daqui a meses, ele ficaria sabendo sobre aquela competição besta. Ou o moreno seria capaz de conseguir esconder aquilo?

— E aí, você vai querer desistir da competição ou não? Porque se você não quiser, hoje temos a festa de boas-vindas das calouras de estética, e tenho certeza que você consegue se esforçar e talvez empatar comigo. – Puck cruzou os braços, encarando um Blaine Anderson pensativo no sofá.

O moreno não quis decidir nada naquele momento. Inventou alguma desculpa qualquer e foi pra sua casa. Odiava estar errado e odiava mais ainda que estava errado pra Puck. Sabia que Kurt havia mexido consigo. Inclusive durante o caminho até em casa só conseguia se lembrar da sensação de ter Kurt em seu carro, das conversas sobre nada e sobre tudo que tiveram, da vontade de cantar outros duetos e fazer outras viagens com o castanho. Ele era... tudo.

Entrou em casa e se jogou no sofá da sala principal.

Buenas tardes, Sr. Anderson. Você viu Nathan? – Rosa aparecera no mesmo momento perguntando sobre o motorista de seu pai.

— Acabei de chegar, Rosa. Você precisa de uma carona?

No, no. Chanderino me pidio que Nathan entregasse essas coisas na casa de Kurt. – Apontou para um amontoado de tecidos em uma caixa. – Pediu urgência, pero Nathan no se presento aqui hoy.

O coração de Blaine palpitou mais forte. Ok, talvez Puck tivesse razão. O Anderson nem sequer pensou a não ser falar “deixa que eu levo” e colocar os tecidos em seu carro rapidamente. Não perderia nenhuma oportunidade de ver o Hummel. Sabia que tinha o visto há poucas horas, mas já sentia saudade de ter o amigo nos braços, em seus lábios. Droga.

Pegou o endereço em um pedaço de papel, colocou em seu GPS e partiu daquele condomínio tentando ignorar o frio na barriga e as mãos suadas de ir até o apartamento de Kurt, conhecer sua casa e onde morava, poder ver aquele garoto lindo novamente. Sabia que estava encrencado.

Estacionou o carro na rua, tentando entender porque o GPS havia o enviado para uma rua diferente de onde havia encontrado Kurt anteriormente. Resolveu não pensar muito nisso. Colocou a caixa de tecidos em seus braços e caminhou até a portaria do prédio de Hummel.

— Oi, boa tarde. – Blaine sorriu para a recepcionista. – Eu tenho essa entrega para Kurt Hummel. – Apontou com a cabeça para a caixa que segurava.

— Claro, claro. Ele já havia avisado. Você pode subir, é no terceiro andar. Apartamento 310, à direita do elevador. – A garota respondeu simpática.

Blaine agradeceu e subiu. O elevador pareceu demorar horas pela ansiedade do Anderson em ver Kurt. Ali ele soube: estava caidinho pelo Hummel.

As portas de metal se abriram no andar. Blaine caminhou com passos incertos até a porta que continha a numeração 310. Algumas batidas na madeira branca que o separava de Kurt. Pôde escutar passos dentro do apartamento em sua direção e o barulho de virar de chaves. Abriu um sorriso enorme esperando encontrar o castanho em sua frente.

Porém quando a porta se abrira o sorriso de Blaine se desfez quase como imediatamente. Não era Kurt que estava ali. Sentiu sua boca secar. Encarou a pessoa à sua frente tentando entender como ela estava ali.

— Quinn? – Perguntou receoso ao ver seu antigo caso em sua frente.

Notas finais
Eia