Heart rater
16 At the time of my death
Notas iniciais
"A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto”.
— Fernando Pessoa – A Morte Chega Cedo.
Diário de E. Swan
Não sei quanto tempo fiquei inconsciente, mas quando acordei a dor pulsante em minha cabeça era quase insuportável, forcei os olhos tentando ver onde diabos eu estava, encarava um teto de mármore com uma abertura pequena por onde entrava um pálido raio de sol.
Tentei mexer minhas pernas sem sucesso, estava amarrada em cima de uma espécie de mesa de pedra, meus pulsos firmemente presos, vi que havia um curativo mal feito onde levei o tiro de raspão, fleches do que aconteceu povoaram minha mente, Regina, por favor, esteja bem clamei.
Virando a cabeça para o lado deduzi que estava em algum tipo de cripta, havia uma parede cheia de inscrições, então vi a ruiva sentada numa poltrona no canto esquerdo daquela estranha sala, ela estava concentrada retirando a bala de seu ombro. Preciso observar esse lugar pensei, no lado direito se erguia uma estante de carvalho cheia de livros antigos, bom se elas são bruxas esses devem ser os grimórios, perto dos meus pés se encontrava um pequeno púlpito, em cima dispunha de um livro aberto e um punhal entalhado e pelo que me parecia era de prata.
— Pode observar bem, não vai sair daqui. – Falou rindo debochada. – A não ser morta claro. – Riu ainda mais.
— Você não vai conseguir. –Cuspi as palavras.
— Ho queridinha, Regina não sabe da existência desse lugar e nunca vai encontrar você. – Seus olhos irradiavam um brilho estranho.
— Eu não conto com isso. – Encarei firmemente seus frios olhos azuis. – Você não é a conjuradora mais poderosa da família, na verdade você é um fracasso, falhou com sua mãe e agora ela esta morta. – Não sei de onde veio o tom sarcástico em minha voz. – A verdade seja dita você e sua mãe são um completo fracasso. – Gargalhei vendo sua expressão furiosa. – Francamente vocês eram o ritual duas vezes, ganancia suja por poder é tudo o que tem.
— Vamos ver se vai rir assim quando eu arrancar seu coração. – Falou se aproximando e enfiando o dedo no machucado em minha coxa, grunhi de dor.
— Mesmo que o arranque eu vou estar rindo, você não tem magia suficiente. – Falei as palavras pausadamente.
— CALADA! – Gritou se afastando.
Pisando duro Zelena foi ate escada que julguei levar ate a saída do local, alguns minutos se passaram quando ela voltou carregando o corpo de Cora, com uma devoção estranha em seus trejeitos deitou o corpo da falecida sobre uma mesa que estava ao meu lado, com uma manta púrpura cobriu o corpo indo em direção ao livro no púlpito.
— Diz ai, não vai dar uma de Norman Bates né. – Falei rindo.
— Você abusa da sorte Swan. – Sua voz saiu arrastada.
— Claro, claro. – Pensei por um tempo. – Já que estamos nesse momento intimo, foi você que sumiu com o Dr. Archie não?
Zelena levantou os olhos das paginas envelhecidas com um suspiro impaciente.
— Eu devo amordaçar você? – Perguntou visivelmente irritada.
— A qual é você vai arrancar meu coração no mínimo poderia responder minhas perguntas. – O sarcasmo presente em cada silaba.
— Sim eu dei um sumiço nele. – Bufou alto.
— Hum. – pensei por um tempo. – Você é uma cobra mesmo.
— OK, agora feche essa maldita boca ou arranco sua língua. – Falou fazendo menção de pegar a faca. – Não entendo como Regina foi se envolver com você e se apaixonar em tão pouco tempo, não passa de uma tola arrogante.
— Isso é porque você nunca transou comigo. – Soltei debochada.
A ruiva apenas balançou a cabeça.
— Não que eu esteja interessada, cobras não fazem o meu tipo. – Suspirei teatralmente.
— Agora chega. – Falou fazendo um movimento com as mãos e minha voz sumiu, por mais que eu tentasse falar não saia som. – Bem melhor, eu sei o que estava tentando fazer, me irritar, mas não vou me distrair, quase conseguiu Swan.
Mais alguns minutos se passaram comigo tentando pensar num jeito de escapar sem ter uma ideia que de fato fosse útil, Zelena ficava ora sentada na poltrona olhando o nada e ora no púlpito folheando o velho grimório, com um suspiro a ruiva foi ate um armário de cedro vermelho embutido na parede que não havia notado antes, ela o abre pegando um frasco com um liquido azul cobalto dentro e vem ate mim.
— Temos um tempinho ainda. – Falou virando o liquido de gosto pungente e amargo na minha boca. – Bons sonhos e não se preocupe você vai acordar a tempo da festa. – Falou piscando. — Isso vai purificar seu sangue.
Uma sensação terrível me alcançou e mesmo contra vontade meus olhos se fecharam.
S.M.
Percebi que sonhava porque Regina estava sentada ao meu lado seu perfume impregnando meus sentidos, sua mão segurava firmemente a minha, o sol iluminando o jardim, estávamos no banco em baixo de sua macieira, parte mim sabia que no mundo real eu estava muito encrencada, mas me permiti aproveitar aquele sonho como precaução caso não visse mais minha tão adorada Regina.
Ela estava com um vestido cinza solto e apesar da aparência leve seu rosto estava com uma expressão preocupada, acariciando minha mão falou.
— Emma isso não é só um sonho, por favor tente enrolar Zelena ate que eu e Ruby possamos encontrar você.
— Vou tentar. – Sorri mirando aqueles lagos castanhos que tanto me fascinavam. – Sabe uma vez eu li que encontrar alguém especial e um tipo de lar, um lugar seguro, uma ilha no mar revolto. – Pensei por um tempo. – Você é o meu lugar seguro e com isso eu quero dizer que...ha eu a. – Gaguejei e ela sorriu fazendo um sinal para que me calasse.
— Eu sei o que você vai dizer Em, e todos os deuses sabem o quanto desejo ouvir isso. – Suspirou. – Espere para dizer isso pessoalmente. – Sua voz rouca era uma espécie de canto que me acalmava.
— Claro. – Sorri.
— Pode me dizer algo sobre onde ela esta mantendo você? – Perguntou.
— Parece uma cripta, mas Zelena disse que você não faz ideia de onde fica. – Falei deitando a cabeça em seu colo enquanto ela acariciava meus cabelos.
— Tenho uma suspeita do lugar que possa ser, a cripta dos Mills com certeza não é, só tem um lugar mais privado que esse para o que Zelena pretende fazer, ela deve estar na cripta da igreja que pegou fogo e foi abandonada na floresta ao extremo norte. – Falou esperançosa. – Vamos resolver isso. – Sorriu.
— Tenha cuidado Regina, você e Ruby. – Falei.
— Teremos. – Sua vos saiu decidida.
Devagar e com todo cuidado Regina se abaixou juntando nossos lábios enquanto acariciava meus cabelos, enterrei meus dedos naquelas madeixas escuras arrepiando com o toque de sua língua na minha enquanto dançavam juntas, sem que eu quisesse tudo foi se desfazendo e eu acordei.
S.M.
A sensação dos lábios dela roçando os meus ainda se fazia presente, com um suspiro resignado olhei a cripta ao meu redor banhada pela luz de velas espalhadas por todo lado, Zelena não estava a vista e aproveitando o momento comecei a forçar as amarras nos meus braços e pés com toda força.
As amarras de couro já machucavam minha pele, mas não parei de tentar senti que meu pulso direito estava quase se soltando quando ouvi passos descendo a escada, rapidamente fiquei estática, Zelena me olhou com divertimento.
— Acordou, bom. – Se aproximou do púlpito com algumas ervas nas mãos colocando-as num espécie de vasilha de cobre e amassando-as. – Vamos começar sua preparação. – Falou queimando aquelas ervas e andando em círculos ao redor das mesas onde me encontrava como corpo de Cora ao meu lado.
Tentei emitir algum som sem sucesso, fiz um sinal para ruiva com a cabeça como quem diz qual é.
— Não Swan você vai ficar caladinha, sua voz tem o poder de me irritar facilmente e não quero estragar meu bom humor. – Sorriu sarcástica voltando ate o púlpito e folheando o grimório. – Ótimo logo a lua vai estar no seu ponto alto de luz. – Olhou pela fenda no teto.
Com um puxão firme poderia soltar minha mão e ai desfazer a outras amarras, mas Zelena estava a uns três passos a frente e sempre me observando com o rabo dos olhos enquanto lia aquele amontoado de paginas amarelas. O cheiro das ervas que foram queimadas era algo nauseante.
Minha mente dava voltas tentando bolar um plano, tinha que me soltar antes de Ruby e Regina chegarem, não poderia permitir que elas se machucassem, a luz pálida da lua iluminava meu rosto, um vento frio soprou apagando a maioria das velas como um mau presságio, senti minha alma gelar então lembrei da noite em que pensei ter visto minha mãe Mary, ela disse que tudo ia se ajeitar e quem nos ama de verdade nunca vai embora de verdade, foquei nesse pensamento com os olhos fechados como quem reza e uma sensação de confiança afastou a escuridão que tencionava meus nervos.
— Chegou a hora. – Zelena cantarolou e abri os olhos.
Com o punhal em mãos ela caminhou em minha direção, o sorriso diabólico distorcendo seus traços e num movimento rápido abriu corte no meu braço direito, travei minha mandíbula sentindo a ardência.
— Só estou começando. – E com movimentos ágeis foi desferindo cortes espalhados nos meus braços, abdômen e pescoço, tudo ardia e podia sentir o sangue escorrendo para fora das feridas.
Respirei fundo quando a ruiva rasgou a frente da minha regata ate o umbigo, passando a lamina calmamente em minha pele.
— Não se preocupe você só vai sentir um puxão e logo vai estar morta. – Sorriu como quem fala sobre o tempo.
Olhando a lua através da fenda no teto Zelena levantou o punhal acima da cabeça entoando um cântigo arrepiante numa língua desconhecida para mim, não pensei muito dei um puxão forte libertando meu braço direito ao mesmo tempo em que a ruiva baixava o punhal com força em direção ao meu coração, os cortes ardendo em protesto ao movimento brusco, ela fazia força com as duas mãos tentando me esfaquear, usei toda a força que tinha tentando segura-la com apenas um braço.
— Sabe que sua resistência patética deixa tudo mais divertido. – Falou fazendo força ao passo que meu braço começava a ceder a lamina quase tocando a pele entre meus seios.
Tentei falar mais nada aconteceu novamente, a ponta afiada já perfurava meu peito. Num baque Ruby saltou pelas escadas se jogando contra Zelena e a derrubando no chão, rolaram desferindo golpes uma na outra, Zelena era boa de briga, mas Ruby era melhor e num movimento firme envolveu o pulso esquerdo da ruiva com um bracelete negro, não entendi o que se passava mais Zelena ficou com muita raiva chutando Ruby para longe e se pondo de pé.
— Acha que isso vai funcionar. – Bufou encarando Ruby. – Não preciso de magia para te dar uma surra.
Se embolaram desferindo golpes uma contra a outra novamente, Lucas acertou um soco em cheio no nariz da ruiva que cambaleou para trás, mas logo se recuperou. Tentei usar a mão livre para me soltar quando senti dedos quentes desfazendo as amarras dos meus tornozelos, o cheiro dela para mim tão conhecido, estava ali usando um sobretudo preto com um cachecol vermelho que usou para envolver minha coxa que estava mais machucada, da luta só ouvia xingamentos e golpes sendo desferidos.
— Vamos acabar com isso. – Falou libertando meu braço esquerdo e me ajudando a descer da mesa, seus braços envolvendo minha cintura firmemente.
O feitiço que Zelena usou me impedia de falar, fiz um sinal com a mão para minha garganta, Regina pensou um pouco e com um leve movimento de suas mãos minha voz voltou.
— Obrigada. – Falei ofegando. – Ruby. – Apontei minha amiga que segura os braços da ruiva enquanto desferia chutes em seu abdômen.
— Temos que tirar você daqui agora Emma. – Apertou mais seus braços ao meu redor.
— Não posso abandonar minha amiga, minha melhor amiga. – Falei mergulhando no mar castanho a minha frente.
— Loira deixa disso eu me viro vai. – Gritou sobre o ombro tentando se desviar dos golpes de sua oponente.
Foi um momento, uma simples distração e Zelena pegou uma pistola que estava em baixo do tampo da mesa e deu uma coronhada na cabeça da minha amiga deixando Ruby ir ao chão inconsciente, engatilhou a arma apontando para Regina.
— Você nunca mais vai ficar no meu caminho. – Seus olhos desvairados e eu sabia o que viria a seguir, não poderia permitir de jeito nenhum.
Me libertei dos braços de Regina com o coração acelerado, e sem hesitar lancei meu corpo contra a ruiva, caímos com baque estrondoso no chão, mas não foi o barulho de nossos corpos caindo, foi a arma, tão logo tomei conhecimento da origem do som senti uma dor aguda e insuportável no peito enquanto um sorriso largo rasgava o rosto de Zelena.
— Você não vai vencer. – Falei buscando o ar e reunindo forçar, Regina estava parada em choque seus olhos úmidos.
Respirando fundo e com muita dificuldade sentei na barriga da ruiva liberando minha raiva enquanto apertava minhas mãos em seu pescoço. Ela tentou resistir tossindo, seus olhos vermelhos juntei cada grama de força restante apertando ainda mais sua garganta, então ouvi um estalo e seus braços que tentavam me empurrar para longe caíram ao lado do corpo.
Relaxei meu aperto deixando a dor me tomar, levei minha mão ate o buraco em meu peito, o sangue fluía livremente e meus olhos já estavam pesando, tentei me levantar caindo no chão ao lado do corpo da ruiva.
— EMMA! – Regina gritou saindo do seu torpor e veio ate mim se ajoelhando, sua mãos tentavam para o sangramento. – Fica comigo. – Pedia seu rosto banhado por lágrimas.
Tudo ficava escuro a única coisa em que me atentei foi o mar castanho me fitando, seu rosto, parecia um anjo, sorri olhando a cicatriz um detalhe único e lindo, havia tantas coisas que eu queria ter feito ao seu lado, mas meu tempo acabou pensei sentindo minhas forças se dissiparem.
— Eu te amo. – As palavras saíram dos meus lábios tão naturais, e então a escuridão me envolveu.
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