Hear me Roar.
2 Capítulo 2
Orla não oceânica do Município de Niterói, por volta das 22h daquele dia.
– Sabe, eu realmente adoro vir ao PUBoa, desde os tempos da faculdade. — Jannice pegou nas mãos dele, enquanto atravessavam a rua.
– Verdade... — George destravou o carro através de seu smartphone. — Mas naquela época nem sempre podíamos desfrutar de tanto tempo livre assim.
– Muito cansaço, pouco dinheiro... — ela acenou-lhe com a cabeça, agradecendo por ele ter aberto a porta do carro — e o tempo?
– Tempo era menor ainda, mas sabe? — George a encarou, agradecendo intimamente aos deuses pela excelente noite que tivera ao lado desta mulher a quem tanto amava; ele deu a partida no seu novo carro, colocando o celular em modo de condução e guardou-o no bolso de sua jaqueta — Às vezes...sinto falta da época em que nossas únicas preocupações eram notas e seminários... das reuniões no ‘apertamento’ do César e do Paulista, das noites de quinta...
– É sempre mais fácil se valorizar o que já se passou, querido... eu também sinto falta das meninas e do riso fácil... mas esse tempo nos reservou boas coisas...
–Sim, conhecemos o César e fizemos alguns outros bons amigos...- eles pararam, ante o sinal vermelho sangue, do semáforo. Entreolharam-se, desfrutando um da presença do outro.
Cinco motoqueiros em quatro motos barulhentas, estilo motocross, emparelham com o novo Honda Civic. Armas não são apontadas, não são necessárias. Algo presente no olhar deles era estranhamente intimidador. Foram conduzidos através da área nobre em que estavam, e dentro de instantes estavam nas entranhas de uma típica favela, com um atenuante: pararam a beira de um lixão. Abriram as portas. Foram arrastados para fora de uma forma tão veloz que a doce mulher não teve nem ao menos tempo de gritar. Presas afiadas rasgavam-lhe a carne, como uma lâmina de aço aquecida faria à um pedaço de manteiga. Líquido âmbar jorrava em todas as direções. Um banquete nefasto ocorria. O Líder só observava, com atenção, enquanto seus companheiros mutavam-se em bestas meio homem meio lobo, dilaceravam e alimentavam-se de forma quase cirúrgica daquele jovem casal. Dois pares de olhos, um par de rins e um fígado foram poupados, intactos. Recolhidos e guardados com afinco pelo líder.
O mais esguio do grupo fez menção de pegar a jaqueta de couro bem trabalhado do corpo sem vida do jovem George. Um sibilo gutural do líder fez com que ele abandonasse a ideia sem pestanejar. Aquilo que restara do que instantes antes fora um apaixonado casal foi amontoado em meio à uma vala repleta de chorume. Uma caça perfeita, com todas as evidências devidamente esquecidas e perdidas em meio ao caos existente num lixão urbano. Nada melhor para um caçador urbano que um estoque ilimitado de 'ovelhas' a serem abatidas e um grande 'incinerador' onde descartar toda a lã excedente.
Com um aceno mais brusco, todos puseram-se a postos. Dentro de minutos, via se quatro motos e um belo carro importado deixando a distinta orla da cidade sorriso.
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