Cesar estava angustiado. Havia 3 semanas desde que seu amigo e companheiro de treinos, George, não aparecia nas aulas de MMA nem nas partidas de futebol no fim de semana. Ele já havia reportado à polícia que, após interrogá-lo e enviar uma equipe à casa do desaparecido, disse-lhe que restava apenas esperar que as buscas dessem em algo. Contudo 21 dias se passaram desde que George e Jannice haviam sumido sem deixar notícias, era como se eles tivessem sido abduzidos.

Numa noite de estrelada de sexta, César estava saindo do plantão que dava no Hospital Gregório Duvivier e decidira caminhar até seu apartamento, onde morava desde a época da faculdade, localizado a algumas quadras dali. Parou para comprar um açaí num conhecido quiosque da orla, quando ouviu o distinto ronronar de 4 motos típicas de praticantes de motociclismo seguirem um velho Chevette- 78, acinzentado e personalizado, com teto solar e um adesivo de chamas bem estiloso. O motorista parecia se exibir para os motoqueiros, já que estava acompanhado de 4 belas jovens — universitários recém chegados, pensou. Caminhou sob o luar por mais alguns minutos, adentrou seu prédio sem cumprimentar o porteiro, que dormia. Esforçado Isaías, um senhor de meia idade, que conciliava os turnos de gari municipal com esses bicos de portaria há anos, a fim de custear o ensino das filhas.

Subiu ao seu andar, o décimo, entrou em seu pequeno apartamento de número 1114, com exuberantes 32 m² que continham uma sala, uma pequenina cozinha, um banheiro e um minúsculo quarto. Há alguns anos, César surtaria se lhe dissessem que ficaria feliz em morar em um quarto&sala. Contudo, aprendera nesses quase 30 anos, que um lar é bem mais que algumas pedras empilhadas. Trancou-se e deixou-se pender de costas até deitar-se em seu sofá, que tomava conta de toda uma parede, e ficou ali encarando as estrelas e deixando que seus pensamentos navegassem por elas. Deixou que seu braço escorregasse até o controle remoto da TV de plasma emoldurada em sua parede sobre um pequeno, porém distinto bar. A programação que passava era a de um canal de anúncios, baixou o volume e deixou-o em segundo plano, encarando sua estante de livros, agora empoeirados, e, perguntando-se quando foi que chegara a tal ponto. Marie certamente entortaria a face ao vê-lo jogado suado no sofá, ainda calçado, ou... parou de pensar... havia 3 anos e ainda não se acostumara com a constante presença que a ausência de sua falecida noiva fazia em sua vida... adormeceu, entorpecido demais para fugir de suas próprias memórias. Incrível como o passado faz-se presente a todo instante de uma vida.

César despertou com o barulho de uma sirene que passava ao longe na orla. Pulou, se pôs alerta na espera de informações, passaram-se 4 segundos até que entendeu o que estava acontecendo. Era seu instinto de cirurgião pregando-lhe uma peça novamente, sorriu consternado. Encarou a TV por instantes, enquanto uma nova marca de celular estranhamente familiar era anunciada, juntamente com suas mil e uma funções, prontas para facilitar todo aspecto da vida de um 'cidadão moderno e antenado'. Perguntou-se onde se encaixaria ou se havia uma categoria pra ele nesse momento que o definisse como algo diferente de um 'workahollic'. Foi nesse instante que algo estalou dentro de seu cérebro. Claro! Como pode ter sido tão estúpido!? George havia monopolizado as conversas em seu grupo de mensagens do celular por um mês inteiro, gabando-se de ter conseguido um exemplar deste mesmo celular numa pré-venda, algo como um benefício de uma propagando publicitária bem orquestrada pelo mesmo, dias antes... Sabia que o GPS do celular que o amigo tanto falara, não era algo novo tratando-se tecnologia de mobilidade urbana, mas havia um diferencial... qual era? Aumentou o volume da TV, atento à toda informação possível. Nada. Sentiu-se frustrado, mas algo o impedia de dormir. 'Google it!': um jargão bem popular quando era universitário. Por mais que os professores odiassem, naquela época, tinham que dar o braço a torcer, o novo deus do século XXI. Era mais que uma mão na roda, era o 'pai dos idiotas'.

O dia amanheceu no Leste, como era de se esperar. E assim, também era de se esperar que César não conseguisse a posição exata do celular de seu amigo. Algo estava errado e César não conseguia a permissão necessária para se rastrear a localização do portátil. Comunicou à polícia, que ou não entendeu ou não deu muita importância ao fato relatado. A questão era que, após os eventos esportivos na Capital do estado, ocorridos anos antes, toda a bandidagem fora marginalizada para as cidades vizinhas, o dito 'exílio além poça' — como era conhecida a Baía da Guanabara. Por este motivo, eram frequentes os assaltos e sequestros relâmpagos. O único problema é que assaltos e sequestros relâmpagos não duram mais de 3 semanas, e por algum motivo, parecia que o mundo já havia se acostumado com esses casos...

“THAT'S GONNA BE LEGENDARY!”

Assim gritava o celular do César, indicando que alguém o procurava. A contragosto, levantou. Caminhou 2 metros, da cama à porta da cozinha, esticou o braço e encontrou o celular, encimado na cafeteira express, um dos poucos luxos ao qual se permitia, apesar do salário confortável, já não era mais afeito a grandes gastos e consumos. 'BABYGIRL' apitava o visor de touch. Fato incomum, uma professora universitária estar disponível para papo furado antes das 8h, mesmo que fosse A MILLA..

Curioso, leu a mensagem. Um convite para almoçarem, ela teria um par de horas livres e queria companhia. Não declinou, mesmo que seus pensamentos estivessem em outro universo por ora, pensou que se alguém poderia ajudá-lo a se focar, com certeza, ela seria esse alguém. Marcaram. As 13h se encontrariam, o que lhe dava mais 5 horas para queimar toda sua massa encefálica.

Encontraram-se, ele havia chegado, na hora combinada. Estava destruído mentalmente e precisava se distrair. Ela? Atrasada, como sempre, algo natural, que mais lhe parecia um ritual.

– O que houve? — disse ela, sem nem mesmo sentar-se.

– Oi, pra você também... — disse ele, ríspido.

– Oi! Tudo bem? Não né? E então, posso dizer que há algo de errado contigo só de ver como está sentado...

– Ok, Sherlock, pois bem... me diz o que há de errado comigo? — ele disse, zombeteiro.

– Eu já lhe perguntei isso duas vezes! E ainda nem me sentei! Vai dizer ou vou precisar usar a força?

A força... engraçado imaginar que alguém como ela, com seus 1.63cm, 59kg, pulsos enfaixados devido á tendinite pudesse fazer algo para extrair alguma informação dele contra sua vontade. Difícil imaginar, se eles não fossem eles dois. Bastou que ele respirasse um pouco mais lentamente que ela entendeu.

– George... já fazem 23 dias... o que foi que você descobriu?

Ele se pegou desnorteado com a facilidade com que essa mulher o lia. Maldito 'bluetooth'. César contou-lhe tudo o que sabia e suspeitava, o que não era muito. Camilla assentiu e concordou algumas vezes depois que Cesar parou de falar, como se processasse as informações. Por fim disse-lhe:

– Bem, se você não encontrou nada, provavelmente eu não poderia lhe ser de maior ajuda. Sou uma negação com tecnologias, por mim, poderíamos ter parado no papiro e grafite... — ele riu, bom sinal, apesar do pesares — mas acho que sei de alguém que pode nos ajudar. E que me impressiona que você não tenha corrido até ele de primeira. — Ela encarou-o.

Por instantes, César se perdeu encarando os olhos cor de avelã de sua acompanhante. Divagou sobre o belo contorno dos lábios dela, em seu sorriso encorajador e em como o seu cabelo realçava a sua pele. Foi quando seus pensamentos sintonizaram e enfim ele pode acompanhar o seu raciocínio. Mas que memória!

– Michael! — ele exclamou, seu antigo colega do colegial, que era fanático por tecnologia — Claro! Ele tem PhD em sistemas de informação, para ele, isso deve ser como passear na praia!

– Exato, pequeno! Eu deixei meu celular no escritório da universidade... — ele acenou com o dele, descarregado — Vamos até seu apartamento e ligamos pra ele! — levantou- se e estendeu-lhe uma das mãos.

Nesse instante, o sol dançava sobre sua pele cor de marfim e produzia um efeito único em seu caleidoscópio capilar, com tons caramelados e negros tornando-a ainda mais atraente sob aquele jeans perfeitamente alinhado e a sua indiscutível face de professora por trás de um óculos com armação negra e quadrada, combinando com sua blusa social negra-fosca, dobrada aos antebraços. Então César sorriu, agradecendo a ajuda e excitado com a perspectiva que se abria à sua frente.