"O tempo está calmo lá fora. Algo parecido como o silêncio precedente ao inigualável estampido de uma bomba, bem rente aos seus ouvidos. Mas não, Sammuel sabe bem que não é esse o caso. Quisera fosse, pudera ele ser um combatente em Gaza, saber que bem ou mal, as proporções estariam igualadas, uma luta justa entre espécies semelhantes. Acontece que o silêncio aterrador que agora urge em seus ouvidos lhe diz em alto e bom som que, lá fora, seu irmão está caído em algum canto, possivelmente desacordado, quiçá, morto... BAM!

Sammuel está caído de cócoras no chão, uma dor lancinante lhe cobre a fronte tal como um frondoso estilete carmim que, agora, percorre toda a face esquerda, desce pelo protuberante queixo e pinga nas costas de suas mãos, agora desnudas. Ele está perdido, a pressão em sua nuca aperta cada mais vez, sem parar, pressionando-o ao limite da consciência. De relance, sente-se agradecido, apesar de tudo, por avistar o círculo de sal grosso em volta do corpo, agora desacordado, da jovem Melissa. Incrível como a mente humana possui a fantástica habilidade de desligar-se nos momentos mais inoportunos, como se fossem uma avestruz.. FSHUUU..! Mais objetos voando por sobre a cabeça do jovem caçador, a telecinese, sem dúvidas, é uma habilidade “enjoada”.

Sem tempo para mais devaneios, Sam avista o sextante de ferro a cerca de meio braço de distância. Agarra-o, e avança sobre a figura ectoplástica que agora paira com uma TV de 50 polegadas sobre a cabeça da bela Melissa. Cinco passos separam Sam da figura translúcida. Ao mesmo segundo, o ser que outrora fora o noivo traído, percebe a investida contrária, e.."

“Peeeennn”... como de um sobressalto, ela foi sugada de volta para a realidade. A campainha... Ficou ali, na escuridão de seu apartamento, iluminado apenas pela tênue luz prateada da lua, contrastando com o tom amarelado da claridade emitida pela luminária, que se perdia nas já surradas e amareladas folhas de seu velho exemplar do Evangelho Winchester. Encarou por mais alguns instantes a textura e a tonalidade das páginas com suas letras arroxeadas, indagando-se quem poderia ser, às... que horas eram? Ainda sem se levantar, tateou os bolsos de seu velho e aconchegante jeans: nada. Virou-se, olhou em volta, embaixo de seu travesseiro: nada. Levantou um raro exemplar do Chewbacca em pelúcia, com quem dormia nessas noites temperadas de agosto, achou-o. Seu novo celular, último presente de uma irmã consumista e efusiva, que há pouco não via... uma dor lancinante lhe percorreu todo o nervo óptico. Uma de suas unhas esbarrara no touchscreen e a luz branca, cálida, afugentou toda a penumbra de seu quarto numa fração de segundo, péssimo para quem sofre de fotofobia. “Peeeen”... a campainha gritava novamente, seja quem for, sabia que ela estava em casa e estava disposto a tirar-lhe a paz. Levantou-se, calçou suas sandálias e tateou até o corredor que dava acesso à porta de entrada, próxima à sala de estar. Aproximando-se da porta, topou violentamente com uma mesinha de canto, maldita mesinha. De quem fora a ideia de pô-la ali? Mais um par de hematomas para a coleção, como se suas pernas já não os tivessem às dezenas. Escutou então uma risada rouca, descompassada. Típica de quem sabia exatamente o que acabara de se passar ali. Havia algo de familiar nessa risada, estranhamente convidativa. Acalme-se, pensou. Respire. ATCHIN! Uma irritação incomum adentrava por suas vias aéreas junto com a lufada de ar, um cheiro doce, carregado... algo entre caramelo e café. ELE! Mas o que ele fazia aqui a essa hora? E que horas eram mesmo? Deixara o celular na cama...

— Então... você abre essa porta ainda hoje, ou devo voltar na páscoa?

A voz rouca, o tom brincalhão, com um leve toque seco. O que ele fazia aqui, hoje?

Abriu a porta. Avistou-o e por um momento demorou a perceber quem era... moreno, um tom entre o caramelo e o bronze. Altura mediana, 1.80, talvez 1.85... tênis de corrida branco e preto, nada chamativo, fugindo à moda vigente. Uma calça de corrida que lhe destacava as pernas e uma camiseta apertada, como alguém que faz questão de mostrar que preza pela boa forma de seu corpo, seu santuário, com os peitos marcados pelo suor e os braços, bronzeados como um todo, bem trabalhados e inteiramente à mostra. Seu corpo em nada lembrava o adolescente magrelo que ela conhecera nos tempos de escola, tampouco o jovem acima do peso que se tornara na faculdade. Seu rosto, contudo, ainda mantinha o mesmo sorriso torto e sinceramente debochado de sempre, estranhamente alinhado com seu nariz tipicamente afrodescendente e seus olhos inquietos, acobreados.

— Oi, pequeno... O que faz aqui?

— Você estava lendo, né? Sua avoada...

Nesse momento, Hermione, a cadela labrador de tom caramelado adentrou o apartamento, sedenta por água.

- Ah, vocês já voltaram... por que tão cedo?

- Cedo? Francamente Camilla, você precisa de um café, já são 23h! Você esteve lendo esse tempo todo?

- 23h? Mas quando você passou para buscá-la pra passear eram 20h... quer dizer que você demorou esse tempo todo? — ela mudou a discussão, agora que lembrava-se perfeitamente de tudo.

— Ah! Ora essa, quer dizer que esse seu cérebro de lagarto já acordou e agora você quer me culpar? Nem vem com essa, não deu pra ouvir nem seis álbuns inteiros e...

- Seis álbuns !? Seis !? Você quer matar minha cachorra, isso sim!

- Olha, fui eu quem te deu ela, tá bom!? Ela está perfeitamente bem e.. — ele ODIAVA essas discussões sem sentido — anda, pega isso e vamos comer!

Ele deu-lhe um embrulho pra viagem do starbucks, com seus cafés preferidos, Cappuccino com caramelo&canela para ele, e avelã&nutella para ela... sentaram-se e conversaram sobre tudo, muitas vezes até mesmo sem palavras, como velhos amigos sempre fazem.