Notas iniciais
Apresentações e alguns primeiros acontecimentos que vão mostrando o drama de mãe e filha. -------------------------------------------------------------------

Um quarto iluminado fracamente, devido as cortinas, mas feito de um material com que permitia, vagamente, a luz do Sol penetrar, dando uma tonalidade levemente amarelada ao ambiente. Nas paredes, inúmeras colagens e ilustrações de bichinhos e ursinhos e algumas fotos, poucas, mas espalhadas pelas paredes.

Perto de uma das janelas, ficava uma pequena, mas aparentemente confortável cama de solteiro residia, com um lençol rosa e alguns bichinhos de pelúcia, dos tipos que são obtidos em máquinas de shoppings. Eram simples, mas davam um ar meio infantil ao local.

No centro do quarto, uma pequena garotinha, aparentando uns 8-9 anos, com cabelos negros e lisos, estava brincando com um ursinho de pelúcia. A garota, sentada no chão, com as pernas cruzadas, erguia e abaixava o ursinho, aparentando felicidade. Típico como se divertisse com o ursinho e, ao seu lado, um pequeno jogo de chá de brinquedo, com que ela havia usando, anteriormente, para fazer uma pequena \"brincadeira do chá com o Sr. Urso\".

A menininha, ainda brincando com o ursinho, ao abaixá-lo novamente, ela paralisa, seu corpo inteiro, apresentava uma leve e pequena tremedeira, como se sentisse algum tipo de dor, devido a sua expressão, isso não era algo anormal: ela já conhecia esta dor muito bem.

A cada segundo que passava, parecia que a dor iria lhe consumir e, apertando muito os olhos, dá para se perceber que as dores são centradas na cabeça, logo ela a abaixa e murmurando algo, como se a dor se tornasse cada vez mais insuportável, é possível ver seus olhos, bem fundos e com enormes olheiras e, num ímpeto, ela segura a cabeça do ursinho e, na tentativa de se agarrar a algo para que pudesse descontar aquelas dores, ela acaba puxando, a princípio timidamente, a cabeça do ursinho, mas em seguida, suas forças aumentam e, num ato de fúria ela arranca a cabeça do mesmo e o arremessa, deixando escapar um grito. Mas não era um grito comum: quando estes aumentam de volume, uma onda invisível, com seu epicentro centrado na garotinha, se expande a cada grito dela, derrubando tudo que esta onda toca, quebrando porta fotos, derrubando outros objetos: a princípio, apenas os objetos menores, mas a cada grito de agonia, os objetos maiores, como livros e caixas começam a cair no chão, espalhando pedaços de vidro e outros objetos em todo o chão.

A garotinha, ainda segurando o corpo do ursinho em sua outra mão, pressiona, com a mão livre, na altura da têmpora, lentamente aumentando a pressão no local, na tentativa de aliviar aquela dor que cada vez mais a incomodava.

As cortinas se agitavam, cada vez mais, a cada onda gerada e os vidros das janelas começam a trincar, aumentando a cada segundo as trincas. As luzes do quarto começam a variar e logo o quarto todo é emergido numa quase total escuridão, salvo apenas pela luz do Sol, mas que começava a falhar, devido a enormes sombras que começavam a envolver o ambiente.

As sombras assumem uma forma de turvilhão, como se a própria menininha estivesse gerando aquilo que parecia um mini furacão: objetos, cacos de vidro, caixas, brinquedos e outras coisas, começam a rodopiar envolta da menininha, mas ela nem parece perceber o que ocorria: tamanha era a dor em sua cabeça, que ela apertava cada vez mais a têmpora e seus olhinhos até que, não suportando mais, deixa escapar um longo e agonizante grito, abrindo os olhos e a boca ao seu máximo: os olhos, que pareciam emitir uma chama negra, não tendo nenhum sinal de sua área branca.

A onda gerada por este último grito foi o suficiente para espalhar todos os objetos para bem longe dela: como se o turvilhão gerado, de repente, explodisse, arremessando tudo para todos os lados e os vidros da janela se arrebentaram, como se houvesse ocorrido uma explosão dentro do quarto.

Alguns segundos de silêncio e as sombras negras iam desaparacendo gradualmente e, extremamente zonza, com os seus olhinhos desaparecendo aquelas \"chamas negras\", começaram a subir, apenas se tornando brancos, com a íris já no alto. Lentamente, a menininha caiu para trás, como se a dor tivesse desaparecido por completo, mas desmaiando de exaustão.

Tempos depois, a menininha desperta, acordando numa enfermaria. Uma mulher, de cabelos bagunçados e escuros, estava ao seu lado, com o olhar desesperado e preocupado, mas ao ver a menininha despertar e a olhá-la, com aquela expressão questionadora. Forçando um sorriso, a mulher acariciava o rosto da menininha. A garotinha, esboçando um cansado sorriso para a mulher que lhe acariciava o rosto, movia lentamente a sua mãozinha de encontro a mão que lhe acariciava. Estranhou o braço estar preso a uma pequena mangueirinha que ia de encontro a um soro, mas, apesar de estranhar aquilo, voltou a olhar a mulher que ainda sorria daquele jeito para ela.

M: \"Filha... filhinha... você... você está bem?\" Aparentando preocupação, mas ainda com um gentil sorriso no rosto, perguntou.

A garotinha, ainda meio que sem entender, olhava a sua mãe, fazendo aquela pergunta. \"M-Mamãe... O que... o que houve?\"

M: \"Nada, minha fofinha, nada...\" ela queria ficar ali, mas um guarda a chamou.

G: \"Senhora Lania... Por favor, queira me acompanhar um instante?\"

Ambas, mãe e filha olharam o guarda: a menininha não entendeu, mas a mãe suspirou, meio cabisbaixa, mas voltou a sorrir, ao ver que sua filha a olhava, novamente com aquela curiosidade no ar.

L: \"Fofinha, mamãe vai apenas falar com o Sr. Guarda por alguns instantes, mas logo eu volto para lhe ver, ok? E, depois, que tal um sorvete?\"

A menininha, ainda preocupada e assustada, olhava da mãe, ao guarda. Queria entender o que havia acontecido, e o que aquele estranho guarda queria falar com sua mãe, abaixou a cabeça e deitou sua mão que, até então, ainda acariciava a mão de sua mãe.

M: \"M-mamãe... o que... o que houve? O que... ele quer?\"
L: \"Não se preocupe com nada, está tudo bem. Logo logo, você vai estar bem e vamos tomar aquele sorvete, ok? Descanse um pouquinho, que eu já volto.\" Sorrindo, mas ainda com uma expressão preocupada no rosto.

A menininha, ainda olhando para a mãe, estava cada vez mais assustada, mas as palavras confortadoras de sua mãe a acalmaram um pouco, mas ainda não entendia o que ela estava fazendo ali, naquela pequenina sala branca, com pessoas passando as pressas nos corredores e aquele guarda, ainda querendo falar com sua mãe. Sem perceber, ela ouviu a voz de sua mãe, mas... ela não havia mexido os lábios: \'Minha filha... O que será... que está havendo?\'. A garotinha voltava a olhar assustada: como sua mãe havia falado, sem mexer os lábios. Assustou-se também, ao ver algumas lágrimas começarem a marejar os olhos de sua mãe.

Não demorou muito e Lania foi de encontro ao guarda, deixando sua filha naquele pequeno leito. Ela se aproximou do guarda, que a olhava com um olhar penalizado, mas firme. Ele pensou: \"Tenho que cumprir minhas ordens. Por mais que seja cruel.\" Logo, os dois começaram a conversar.

A menininha, ainda preocupada, se senta no leito, vendo a mãe e o guarda conversarem, percebe que a mãe olhava cabisbaixa e, parecia derrubar algumas lágrimas. Preocupada, ela tenta se forçar, na tentativa de escutar o que eles conversavam: mas era inútil, estavam muito longes, e ela só podia ver sua mãe através de uma janela de vidro, que separava o pequeno leito e o corredor. Mesmo assim, ela continuava tentando escutá-los: queria saber o motivo porque sua mãe chorava. Sem perceber, a haste em que segurava o soro começava, lentamente, a balançar, muito timidamente: apenas um ligeiro tremor e, como se ela pudesse escutar, agora, ficava ouvindo o que eles falavam.

G: \"Eu sinto muito, minha senhora, mas os demais inquilinos vêm reclamando a semanas dos gritos e dos barulhos que vêm do quarto de sua filha. Além do mais, a senhora já não paga o aluguel faz uns dois meses\"
L: \"Ela só está doente... eu recentemente me separei do meu marido e estou tentando controlar toda a situação... por favor, não faça isso conosco...\"
G: \"Por que não tenta colocá-la numa creche ou algo assim, enquanto você está no trabalho?\"
L: \"Já tentei.. \" ela suspirou. \"... mas ela já foi expulsa de duas...\" Triste, vertia algumas lágrimas. \"Estou tentando encontrar outra, mas até agora nenhum sucesso...\"
G: \"Sinto minha senhora, mas a senhora tem parentes, não? Por que não passa a morar com eles? Eles poderiam muito bem cuidar de vocês duas, não?\"
L: \"Eu só tenho a minha mãe, mas.... ela não irá me receber de volta... alguns... problemas familiares.\"
G: \"Então... a senhora terá que deixar sua filha sob a guarda do seu ex-marido.\"
L: \"NÃO! Isso... nunca...\"
G: \"Temo então... que não há outra escolha...\"

Lania abaixou a cabeça, chorando muito, olhou novamente para o leito aonde a filha estava e percebeu que ela a olhava fixamente. \"Será que.... ela?... Não... não poderia...\" Tentou apagar o que havia pensado, dando uma leve sacolejada na cabeça e voltou a olhar o guarda.

L: \"Eu vou... tentar falar com minha mãe, então...\"
G: \"Ótimo. Espero que tenha sucesso e sinto muito.\"

A Lania apenas fez um movimento com a mão, como se concordasse, mas estava muito triste.

A menininha, confusa, não havia entendido muito bem o que havia escutado, mas percebeu que o guarda havia deixado ela muito triste. Sentia, dentro de si, uma raiva e uma revolta crescerem. Nem havia percebido que as luzes do seu leito, assim como os do hospital inteiro haviam sofrido uma variação. Os médicos, enfermeiros e enfermeiras se espantaram, mas logo a luz voltou e um grito foi escutado do lado de fora do hospital.

Momentos antes, o guarda havia chegado a recepção do hospital, pegado um copo de café de uma máquina e havia saído do hospital. Estava chateado, mas havia cumprido seu dever, iria para casa mais cedo, pois odiava ter que fazer essas coisas: separar familiares. Estava mais acostumado a lidar com criminosos do que lidar com esses tipos de situação. Mas fora incumbido de fazer aquela tarefa, por mais que odiasse. Ao entrar na sua viatura e ouvir o toque no rádio, estava para atender, quando tudo se apagou. Apertou duas vezes o rádio, mas era inútil: era feito com que o seu carro estivesse desligado. Pegou as chaves e girou-as, na tentativa de ligá-lo, mas nada acontecia. Ao virar para o lado, levou um susto: a mesma garota, da enfermaria, estava ali, ao seu lado, trajando as mesmas roupinhas de hospital. \"Ela... fugiu?\" Olhou para os lados e não viu a mãe dela e nem ninguém, apenas ela, que estava com a cabeça cabisbaixa, sem olhá-lo. O guarda estranhou, mas tentou falar com ela.

\"Garotinha, volte para o hospital, aonde está sua mãe, hmm?\"

Estranhou que ela não o olhava e nem exibia sinal que estivesse respirando. Tentou tocá-la, mas, ao tocar no ombro da menininha, ela se virou rapidamente para ele: seus olhos, novamente exibindo aquelas chamas negras, ela deu um grito, que fez o guarda sair num pulo da viatura mas, sem olhar, esquecera que, para o lado aonde ele estava, dava diretamente para a rua bem movimentada e, sem ter como reagir, viu uma luz iluminá-lo por completo e, se aproximava cada vez mais, dois faróis vinham em cima dele... um caminhão. Não houve nem tempo de se esquivar, sendo arrastado metros de distância, até que o caminhão conseguiu frear.

As pessoas, aterrorizadas nas ruas, após ver o que havia acontecido, correram para ver a tragédia. Algumas passavam pelo lado da viatura e, se alguém atentasse a reparar, as luzes da viatura voltaram a funcionar, assim como o motor, mas não havia ninguém no carona.

Notas finais
------------------------------------------------------------------- Fiquei muito satisfeito com este começo. Queria algo para iniciar a história da menininha e como vou desenrolar os demais capítulos.

Bem, aguardem os próximos e espero que gostem!