Haunted 🔞

31 Capítulo 31 — Let it out


Notas iniciais
Obrigada pelos 354 comentários, 143 acompanhamentos, 68 favoritos, 9 recomendações e 22749 visualizações! Era pro banner ter ficado com duas gifs, mas infelizmente a outra não pôde ser usada, a designer não conseguiu encaixar, abrir, sei lá, e ficou só a Nat mesmo :/ O capítulo de hoje é dedicado à AWC, graças à linda recomendação que enviou à fanfic! Perdão por qualquer erro de digitação. Aproveitem! Tradução do capítulo: Deixe sair

A primeira coisa que avisto ao chegar ao trabalho e entrar na sala dos funcionários é Elliot e Samantha acenando para mim.

— Bom dia! – cumprimento meus colegas enquanto penduro a bolsa e o casaco.

— Café? – Samantha me oferece um copo e eu ergo a sobrancelha. — Não sei o que aconteceu com a máquina, mas não parou de cair Cappuccino, então eu precisei encher quatro copinhos. – ela ri e dá de ombros. — Fiquei com um, dei o outro para Elliot... – ele levanta seu copo de isopor até os lábios. — ...o terceiro dei para Alannah... – Samantha faz uma pausa e aponta para a garota atrás de mim. — ...e sobrou esse. Quer?

— Ainda está quente?

— Sim. Eu cheguei agora também. – ela me entrega o copo.

— Obrigada! – bebericando o delicioso Cappuccino de avelã. — Hmmmm! Está uma delícia! – eu me sento à mesa com eles. — Só precisa de açúcar.

No meio do caminho até as máquinas onde ficam os saquinhos e adoçante, esbarro com a Sra. Jenksey.

— Bom dia, Natasha!

— Bom dia, senhora... ér... Cassandra. – corrijo encabulada.

— Tenho uma sessão para você.

— Outra criança?

— Não. É aquela moça que veio antes. Uma tal de... Karlwitz.

O copo escapa de minha mão e o Cappuccino suja meus sapatos e os sapatos da Sra. Jenksey.

— Oh, meu Deus! – corro até a mesa ao lado da máquina e pego guardanapos. — Eu... eu sinto muito, Sra. Jenksey!

— Não tem problema. – ela me interrompe ao me ajudar a limpar. — Isso acontece.

— Eu sinto muito. E-eu sinto...

— Para de dizer que sente muito e vá atender sua paciente. – ordena ao sorrir. — É sério, Natasha. Ah! E limpe seus sapatos também.

— Ce-certo. – concordo após pigarrear. — Qual é a sala?

— Aqui. – a Sra. Jenksey me entrega a chave.

Só de pensar no que aquela mulher veio fazer aqui já deixa minha pele arrepiada de tensão. Apesar dos pesares, não posso me livrar dela. Tenho que atendê-la como uma psicóloga, e não como uma mulher rancorosa e revoltada.

Quando o elevador chega ao décimo andar, eu agradeço à ascensorista e aperto a chave contra a mão.

— Bom dia, Sra. Karlwitz!

— Bom dia, Natasha. Mas vamos lá! Sabe que me chamo Blanche.

— Eu sei o nome com o qual você se apresentou a mim e à minha chefe. – eu me sento em minha cadeira. — E então? O que a trouxe aqui hoje?

— É a única maneira de eu conseguir falar com você. – dá de ombros. — Steve te trata como se você fosse um brinquedo que ele não quer dividir no parquinho.

— Sra. Ozanan, se assim prefere, veio aqui para ter uma sessão de terapia, não para falarmos de minha vida pessoal. – esclareço. — Podemos começar?

— Você sabe por que vim aqui, Natasha. – ela se inclina para frente e me encara seriamente. — Acha mesmo que preciso de terapia? Acha mesmo que eu viria fazer terapia com você?

— Okay. – deixo o profissionalismo de lado. — Respondendo à sua primeira pergunta, não, não acho que você precisa de terapia, mas de cadeia!

— Está pondo as garras de fora?

— Sinto muito não ter te conhecido antes e ter dito tudo o que está entalado dentro de mim!

— Então faça agora.

— Não irei perder meu tempo com você. – fico de pé. — Se não veio para terapia, então saia e me deixe atender a quem realmente precisa de mim.

— Eu já paguei, Natasha.

— Eu devolvo seu dinheiro. – Blanche me puxa pelo casaco quando eu vou até a porta. — Tire suas mãos de mim! Eu tenho nojo de você! Não ouse me encostar!

— O que pensa que está fazendo, Natasha? – ela me olha de cima a baixo ironicamente. — Vai dizer à sua chefe que não pode atender a mulher que fodeu com seu namorado quando ele...

BLAFT

No impulso, não deixo que ela termine. Quando dou por mim, já estalei a mão na cara dela mais uma vez. Você precisa parar de bater nas pessoas. Nem sempre sairá impune. Uma hora alguém vai revidar. Então eu bato de novo, e de novo, e de novo!

— É a segunda vez que me bate, garotinha. – sua voz sai venenosa. — Já estou ficando cansada disso!

— Levei horas no banho desinfetando minha mão depois de ontem, mas o cheiro de estrume ainda está aqui! – rebato com raiva. — Não pense que pode me intimidar com suas ameaças rancorosas! Você não passa de uma invejosa!

— Invejosa? Eu? – seus olhos faíscam para mim.

— Exatamente! Inveja pura porque nunca foi amada como Steve é! Inveja porque nunca teve uma família como Steve tem.

— E que família maravilhosa, não? – ela debocha. — Um pai bandido e abusivo, uma mãe imbecil e pacata, irmãos carentes e...

— Poupe a sua mania de destilar ódio! Steve tem tudo que você nunca sempre tentou tirar dele, mas adivinhe só, Blanche: não conseguiu! – exclamo. — Ele cresceu. Cresceu com traumas, é, graças a você, mas foi forte e persistente e deu a volta por cima.

— É mesmo?

— Sabe muito bem que sim! Steve saiu da escuridão onde você o enfiou e mostrou que veneno nenhum seu foi capaz de destruí-lo. – no calor do momento, solto um sorriso convencido. — Sabe o que ele me propôs hoje de manhã antes de fazermos amor? – ergo a sobrancelha e vejo Blanche engolir seco. — Ele me pediu em casamento.

— Sua mentirosa do caralho! – ela rosna.

— Sim, ele pediu. Inclusive, já havia dito a você que vamos nos casar. Mas é claro que você não tem que acreditar mim. E nem eu preciso te provar nada. – balanço a cabeça. — Mas quer saber? Okay. Quer conversar comigo? Certo, então vamos conversar! Eu não arriscarei meu emprego por sua casa! Você não vale a pena! – aponto um dedo em frente ao seu rosto antes de sentar em minha cadeira. — E então? Vai ficar de costas e sem me dizer o que veio dizer?

— Você se acha muito segura, não é, menina? – ela se vira e balança os cabelos loiros platinados para os lados antes de se sentar na minha frente.

— Sabe de uma coisa, Blanche? – espero que ela me encare antes de continuar. — Vou te dizer que antes era tímida, assustada e boba demais. Mas Steve entrou na minha vida e me mudou de uma forma mágica e única. Graças a ele aprendi muitas coisas. O amor que sinto por ele me amadureceu muito. Por ele, eu enfrento você, Sharon e o que mais for preciso.

— Nossa! Que garotinha mais voraz!

— Pensa que me ofende assim? – debocho. — Antes ser chamada de garotinha por causa da idade que tenho do que ser chamada de pedófila por ter abusado de uma criança de treze anos!

— Sua cretina! – ela vem para cima de mim e eu fico de pé. — Eu era tão jovem quanto ele!

— Ele tinha treze anos! Se tem alguém cretina aqui, certamente não sou eu! Pedófila!

— Você não sabe o que vivemos, Natasha!

— Eu sei o suficiente. – afirmo. — Você é nojenta! Por mim estaria atrás das grades há muito tempo!

— E nunca te passou pela cabeça o porquê de eu não estar? – ela sorri e eu sinto a espinha gelar. — Nunca pensou sobre isso, Natasha? Nunca pensou no porquê de Steve não me denunciar?

— Sei o que está tentando fazer. – digo. — Mas não vai me colocar contra ele. Nós estamos juntos, Blanche, e nem você nem ninguém no mundo mudará isso! – minha voz vacila devido ao nó na garganta. — Se Steve não denunciou você, com certeza foi por Sarah.

— Ah! E não se preocupa de eu contar a ela? – rio em descrença.

— Eu sei que não vai. – garanto. — É conveniente que continue com a boa imagem de amiga da família. É assim que agem todos os interesseiros. Todos as pessoas nojentas e escrotas como você!

— Eu tenho é pena de Sarah! Ela é uma ridícula!

— Ela é uma mãe que sofreu tanto quanto Steve, coisa que você jamais poderia entender.

— E você entende muito disso, não é?

— Qualquer pessoa com coração bom entende. Ou ao menos com o mínimo de bom senso. – suspiro e a encaro com ódio. — Mas uma pessoa como você, crua, fria e maldosa, tanto por dentro quanto por fora, jamais entenderá. Jamais entenderá o que é sofrimento, o que é amor, o que é felicidade. Você não nasceu para ter sentimentos, você só nasceu para destruí-los. Mas eu tenho uma surpresa para você: não vai conseguir.

— Você se garante muito, Natasha.

— Em relação a você? Com certeza! Não passa de uma fracassada! Jamais atingirá seu objetivo! Você não conseguiu destruir o amor que ronda aquela família, Blanche! Você não conseguiu destruir o coração de Steve. E eu sei disso todas as vezes em que ele me beija e diz que me ama. Eu sei disso... – respiro fundo e rio. — Eu soube disso mais uma vez hoje quando ele me pediu em casamento. Então ponha na sua cabeça: jamais destruirá a alma dele. Pode ter destruído parte de sua vida, mas não toda. E nem vai conseguir!

— Você não sabe nada sobre mim!

— Eu sei tudo o que eu preciso: não passa de uma pessoa oca. É você que me dá pena! – com desdém, eu a encaro por cima do ombro. — É uma mulher amargurada e invejosa! Você não tem sucesso na vida e acredita que os outros também não terão. Mas é aí que falha! Você é tão miserável, Blanche, que falha até nisso! – ironizo. — Agora, saia do meu local de trabalho. E, de preferência, saia da porra minha vida e da de Steve. Desapareça! Volte para o buraco de onde você nunca deveria ter saído e nos deixe em paz! – observo enquanto ela espuma e veste seu casaco.

— Não pense que pode me manter longe, Natasha. – provoca minha sanidade. — Faça o seguinte: vá à casa de Steve hoje e olhe sua agenda de endereços. Fica na gaveta do seu escritório. – instrui e eu quase perco o ar. — Veja o endereço de Peggy e converse com ela. – debocha. — Ah! E seja a menina desobediente de sempre e esconda isso de Steve. – ironiza antes de sair da sala.

Sem pensar duas vezes, eu saio atrás dela.

— Espera!

— Não precisamos fazer isso, Natasha. – Blanche se vira para mim.

— O que você ganha com isso? – indago. — O que você ganha separando Steve e eu? Ele jamais vai te aceitar, jamais vai te amar.

— Ele não é capaz de amar ninguém, Natasha. – sibila. — Por incrível que pareça, eu estou tentando alertar você.

— Jamais precisarei de ajuda alguma de pessoas como você!

— Quem tem telhado de vidro não atira pedra paro o alto, Natasha.

— Acha que sou idiota? Pessoas como você apenas martirizam! Não há mais segredos entre Steve e eu. Não há nada que Peggy possa me dizer.

— Ela está preocupada com a irmã. – Blanche dá de ombros e isso atiça minha curiosidade.

— Como sabe do que está acontecendo?

— Eu disse a você que sempre faço minhas lições de casa. – Blanche me lança um sorriso frio. — E você pode até achar que Steve a ama, Natasha, mas não se esqueça de uma coisa: ele só ficou com você, assim como ficou com as outras, pela aparência. – afirma e eu engulo em seco. — O que significa que ele sempre pensou em mim. Ele sempre me desejou. Os cabelos, os olhos, a pele — tudo girava em torno de mim, você querendo ou não. – Blanche faz uma pausa quando nota que eu voltei a chorar. — Pense nisso.

▪️▪️▪️

— Natasha? Como foi? – Cassandra pergunta assim que me vê de volta à sala dos funcionários.

— Ahn... bom. – respondo. — Será que posso ter a consulta com o psicólogo agora?

— Você já escolheu alguém? – Cassandra questiona após ter passado longos segundos em silêncio me encarando.

— Posso fazer isso agora. Tanto faz para mim. – pego a ficha e estudo alguns nomes. — Pode ser o Dr. Sullivan.

— Certo! – Cassandra assente. — Pedirei que Phoebe o chame. Aqui está a sala. – ela me entrega a chave.

— Obrigada!

Em menos de cinco minutos, estou sentada no sofá da sala de terapia. Estar em papeis invertidos me deixa nervosa no início, mas é algo do qual não posso escapar, então preciso me acostumar.

A porta é aberta e o Dr. Sullivan entra. Ele carrega uma prancheta numa mão e uma caneta na outra.

— Oi, Srta. Romanoff! – cumprimenta ao se sentar na cadeira. — Sou Dylan Sullivan, mas pode me chamar só de Dylan.

— Oi. – murmuro. — Pode me chamar só de Natasha mesmo.

— Combinado! Mas e então? O que a trouxe aqui hoje?

— Bom, como atendi alguns pacientes, a política da Psicologia atende que eu faça a consulta.

— Hmm! Compreendo. – Dr. Sullivan anota algo. — Bom, e quer conversar sobre alguma coisa, já que está aqui?

— Não. – respondo sem pensar, mas então conserto. — Quer dizer, não sei, eu acho que não.

— Nada para acrescentar, nem mesmo para apenas passarmos o tempo?

— Não sei. – eu me sinto aliviada quando Dr. Sullivan me transmite conforto e calmaria. — É que não gosto de falar. Sou mais de... escutar.

— Certo. – ele assente. — Que tal isso: fica mais fácil se eu fizer as perguntas?

— Pode ser. Acho que será melhor.

— Muuuito bem! – o Dr. Sullivan anota algo na prancheta. — Ahn... que tal me contar sobre seus pais?

— Okay. – concordo. — Meu pai é da Rússia e minha mãe, da América. Eles se conheceram quando ela viajou a trabalho, mas depois nos mudamos para os Estados Unidos quando eu era criança.

— Olha! Que legal! – Dr. Sullivan me encara com um sorriso. — Ainda vivem aqui nos Estados Unidos?

— Sim. Mas não estão mais casados. Eles se separaram quando eu tinha sete anos.

— Oh, eu sinto muito.

— Tudo bem. Foi uma separação tranquila e meus pais são amigos até hoje.

— Isso é muito bom! – Dr. Sullivan escreve mais alguma coisa antes de arriscar um olhar criterioso a mim. — A separação de seus pais te afetou de algum modo?

— Como assim?

— Bom, por mais que tenha sido um divórcio amigável, nunca se sabe como uma criança pequena reagirá a essa situação.

— Ah! Entendo. Bom, talvez um pouco no início. – dou de ombros. — Foi meio que estranho não ver mais meu pai por perto com frequência. Foi uma mudança radical. – revelo e o Dr. Sullivan assente antes de escrever novamente. — Acho que o que mais possa ter me atingido, por assim dizer, foi mamãe e eu irmos morar com meus avós em Los Angeles.

— Isso te deixou desconfortável?

— Um pouco. Foi uma quebra de rotina e me pegou desprevenida.

— Então te assustam coisas novas? – Dr. Sullivan parece cutucar um nervo dentro de mim.

— Depende. – esclareço. — Eu não estava preparada para aquilo. Sabe, nunca imaginei que meus pais iriam se separar.

— Foi um susto para você?

— Foi. – respondo.

— Entendo. – anota novamente. — Tem irmãos?

— Quando minha mãe se casou com o namorado número quatro... – faço uma pausa e rio. — ...eles adotaram uma menininha. Hazel é a minha irmã caçula.

— Que legal! – Dr. Sullivan sorri também. — Ela tem quantos anos?

— Doze.

— Isso também foi estranho para você? Como reagiu a essa outra novidade?

— Até que bem. – sorrio com a lembrança de Hazel chegando a nós bem pequenininha. — Minha mãe já tinha conversado comigo. Disse que queria um novo filho e me perguntou o que eu achava de ganhar uma nova irmãzinha.

— Sabe me dizer o porquê da adoção? – Dr. Sullivan franze a testa.

— Minha mãe queria um filho com Robert, meu padrasto, mas não conseguiu engravidar.

— Algum problema?

— Não sei. Eu era pequena. Se teve algum problema, ela nunca me disse. Nem eu cheguei a perguntar.

— Alguma razão aparente?

— Não. Nada que tenha passado por mim. – respondo após avaliar as causas em minha cabeça.

— Tudo bem! Ahn... e o que me diz de sua relação com seu padrasto?

— Robert é legal. – sorrio novamente. — Ele nunca tentou ocupar o lugar de papai. Na verdade, nenhum dos namorados de mamãe fez isso. Sempre respeitaram o meu espaço.

— E você estranhou o primeiro relacionamento de sua mãe após o divórcio?

— Fiquei confusa. – admito. — Mas ela conversou comigo. Disse que papai e ela haviam se separado e que teriam novas vidas, mas que eu sempre seria filha dos dois e a prioridade sempre seria eu acima de tudo.

— Como se sentiu sobre isso?

— Segura. – respondo. — Amada. Protegida. Importante.

— Isso é bom! – Sullivan assente. — Agora voltando à Hazel.

— Sim?

— Como foi sua chegada à família?

— Maravilhosa! – automaticamente, formo um sorriso nos lábios. — Meus avós, meu primo e eu enfeitamos a casa com balões rosas e roxos. Vovó me ensinou tricô e eu fiz dois sapatinhos e um casaquinho para Hazel.

— Então você ama a sua irmã.

— Sim! – olho para meu psicólogo. — Mais do que tudo!

— Ser a irmã mais velha é algo importante para você? Sente-se útil por ser o espelho dela?

— Não mantemos muito contato por causa da distância. – começo. — Ela mora na Califórnia com a minha mãe e eu moro aqui, em Nova York, mas... até que sim. Hazel me observou muito ao longo dos anos. E eu sempre me senti muito honrada por ela ter tanta admiração e confiança em mim.

— Entendo. – Sullivan escreve outra coisa. — Quando se mudou para Nova York?

— Logo após a formatura do colegial. – revelo. — Terminei o ensino médio com dezessete anos, porque pulei uma turma. O ensino na Rússia era mais avançado, então eu fiquei numa turma acima quando vim para América.

— Foi estranho? Algum tipo de bullying que tenham feito com você?

— Não. Apenas umas provocações bobas, mas nada que nunca tenha me atingido. Conheci Rebecca, minha melhor amiga, no último ano do colégio. Ela estava morando com os tios na Califórnia, mas seus pais são do Canadá. – murmuro. — Eu tinha vontade de voltar para Nova York, que foi para onde viemos quando nos mudamos de Moscou. – faço uma pausa e suspiro antes de prosseguir. — Rebby também queria vir para cá, sabe, tinha o sonho de trabalhar como estilista aqui.

— Então...

— Nós duas enviamos inscrições para as faculdades daqui e viemos assim que fomos aprovadas!

— E como foi mais essa mudança em sua vida?

— Um pouco difícil no começo. – sou sincera. — Sabe, apesar de termos nos preparado antes, não deixou de ser um lugar novo, com pessoas novas, afazeres novos. Assustou um pouco.

— E então?

— Como ainda não tínhamos um emprego fixo nem muita renda guardada, nós passamos o primeiro ano nos dormitórios da faculdade. Quando conseguimos sair fomos morar com uns amigos no Brooklyn. Ainda estava apertado, então nós pedimos transferência para o campus de Nova Jersey. Lá conseguimos emprego. Meu amigo de infância, Clint, que foi onde me hospedei com mamãe e papai quando chegamos de Moscou, ofereceu trabalho na livraria de sua família.

— Foi bom essa independência?

— Acabou me tornando mais segura. Precisei me virar algumas vezes. Apesar de meus pais mandarem dinheiro para nos ajudar, eu tentava ao máximo economizar e deixar apenas para emergências.

— Então, por mais que não goste muito, mudanças é algo corriqueiro em sua vida, né? – Dr. Sullivan sorri simpaticamente.

— Acho que sim. – dou de ombros e sorrio também.

— Bom... e o que mais, Natasha? No meio de toda essa aventura, algum relacionamento amoroso?

— Sim. – revelo. — Comecei a namorar há um mês atrás.

— Um mês? Uau! E como está sendo?

Assim que Dr. Sullivan me pergunta, eu começo a chorar. Ele me observa por um tempo antes de estender uma caixa de lenços para mim.

— Leve o tempo que precisar. – sussurra enquanto eu assoo o nariz. — Precisa de uma pausa?

— Não! – enxugo as lágrimas. — Não. Vamos continuar.

— Certo. – Dr. Sullivan assente. — É um assunto delicado? Prefere pular?

— Vou tentar responder até onde eu me sentir confortável.

— Okay. Então vou arriscar: está num relacionamento abusivo? Sabe reconhecer algum sinal? Há algo que possa ou queira me confidenciar? – questiona e eu fico sem saber o que dizer.

É abusivo? É abusivo o relacionamento que tenho com Steve? É abusivo ele querer mandar em mim? É abusivo ele ser Dominador? É abusivo ele ter me feito assinar um contrato para que eu me tornasse sua submissa? É abusivo ele ter me punido fisicamente todas as vezes que discordei dele? É abusivo eu ter precisado me referir a ele de certa forma se não quisesse sofrer castigos? Tudo isso é abusivo? Sim. Sim e sim. Sim, é.

E é abusivo ele se preocupar comigo? É abusivo ele dizer que me ama? É abusivo ele ter me pedido em casamento? É abusivo ele ter confiado em mim quando não confiou em ninguém mais? É abusivo ele ter mudado tanto assim por minha causa? É abusivo eu realmente ter feito a diferença em sua vida? É abusivo ele ter desistido de sua vida de Dominador por mim? Tudo isso também é abusivo? Não. Não e não. Não, não é.

— Natasha? – Dr. Sullivan atrai minha atenção. — Você ouviu a pergunta?

— Sim. – murmuro. — E não. – revelo. — Não estou num relacionamento abusivo. Quer dizer, não mais.

— Certeza?

— Sim. – reafirmo. — Sabe, a verdade é que estive antes num relacionamento abusivo antes. – eu me refiro a um Steve pré-amor. — Mas agora eu consegui me livrar. E namoro um homem maravilhoso.

— Como era esse ex-namorado?

— Frio Fechado. Triste. Não dependia de mim ficar com ele e salvá-lo. Dependia apenas dele. Então eu parti.

— Ele mantém contato?

— Às vezes nos encontramos. – faço uma analogia ao Steve amargurado e misterioso que de vez em quando surge em minha frente. — Mas não é nada grave. Ele nunca... ér... não foi nada extremo. Eu terminei antes que pudesse ficar.

— E como é sua relação hoje?

— Nós nos vemos pouco. Situações corriqueiras. – falo sobre Steve como se ele realmente se dividisse em duas pessoas.

— Seu namorado atual vê algum problema nisso?

— Fica preocupado que eu possa me magoar de novo. – mais lágrimas escapam. — E tenta suprir da melhor maneira que pode. Mas isso acaba me prejudicando mais do que ajudando.

— Como assim?

— Eu me sinto sem voz. Sem autonomia. Sem escolha. É como se eu dependesse de alguém para me proteger. E isso me faz sentir pequena e acuada.

— Ele não respeita seu espaço?

— É difícil às vezes, mas estamos trabalhando nisso.

— Você o ama?

— Mais do que tudo! – afirmo prontamente. — Mais, mais, mais do que tudo mesmo, Dr. Sullivan!

— Isso é bom! Mas sabe me responder se o ama mais do que a você mesma? – essa é a dúvida que me deixa em estado atônito.

E então? Eu amo? Eu amo mesmo Steve mais do que tudo, mais do que a mim mesma? Isso existe? Tem como o amor por outra pessoa ser mais forte do que seu amor-próprio? É saudável? É certo? É sincero? É amor?

— Eu... eu não sei. – ergo o olhar para o Dr. Sullivan. — E-eu não sei, eu... eu acho que sim.

— Você se ama, Natasha? – ele pergunta após anotar algo na prancheta. — Sente orgulho da pessoa que é? Sente admiração da mulher que se tornou?

— Sim. – respondo de prontidão. — Sim, eu sinto. Eu me sinto forte, sincera e boa. Tudo o que meus pais sempre me ensinaram a ser.

— E sempre foi assim?

— Não. – admito. — Sempre fui independente, desde pequena, pois meus pais me criaram para ser, mas... nunca fui segura, destemida e firme. Sempre... sempre me senti... fraca, sabe? Acho que a palavra certa é desmotivada.

— E quando isso passou a mudar?

— Quando eu me tornei mulher. – sorrio brevemente. — Esse meu namorado é meu primeiro relacionamento de verdade. – esclareço. — E... eu não sei... me amadureceu bastante.

— Então te fez bem.

— Sim. – concordo.

— Sabe, Natasha, o verdadeiro crescimento da pessoa vem com dificuldades. – Dr. Sullivan opina. — O sofrimento nos dá conhecimento. É a verdadeira escola da vida que tanto dizem. – ele faz uma pausa antes de prosseguir. — Você e o seu companheiro passaram por dificuldades?

— Algumas. – maneio com a cabeça.

— E ainda estão passando?

— Por algumas também.

— Pelas mesmas?

— Algumas sim. Tentamos trabalhar e melhorar nisso, mas é um processo longo.

— Eu imagino. Assim como imagino que isso está os fortalecendo. – assegura. — Não faz mal você amar uma pessoa mais do que ama a si mesma. Na verdade isso nem deve ser medido. Não é algo a ser dividido de igual para igual, Natasha. Esse rapaz te completa e isso é tudo o que importa. Tem nele tudo o que falta em você. E tem em você tudo o que falta nele.

— Então...? – balanço a cabeça acompanhando sua reflexão.

— Então siga em frente! – aconselha. — Lute pelo que acredita, defenda a quem ama e viva a sua vida!

— Acha que consigo? – indago.

— Consegue o quê?

— Lutar. – murmuro. — Acha... acha que... que é possível?

— Tudo é possível quando realmente queremos. Acabou de me dizer que se transformou numa mulher segura, não é? – Sullivan sorri para mim. — Sabe, a verdade é que numa primeira sessão não é possível conhecer nossos pacientes tão bem, mas digo algo sobre você que notei assim que entrei aqui.

— E o que é?

— Tem uma nova Natasha presa aí dentro de você que está começando a crescer. Então deixe que saia! – incentiva, fazendo com que eu sorria. — Solte essa nova Natasha que está implorando por liberdade e deixe que explore o mundo!

Notas finais
O que acharam da Nat como paciente? E da reação dela com Blanche? Vou soltar uma dica do que quero passar aqui: a Nat, como psicóloga, não deveria acreditar que um pedófilo tem direito a "tratamento"? Não deveria acreditar e defender que tenha direito à terapia? Não é uma opinião minha nem nada, gente, é apenas um questionamento aqui. Até a próxima o/ Beijocas!