Notas iniciais
Vamo que vamo! Tem alguma coisa aí...

A garota voltou para a varanda após alguns minutos. Havia pegado seu colete – e vestido roupas apropriadas, claro – trazendo algo a mais.

- Ué, o que é isso? Vai levar seus lápis? Não disse que estava sem criatividade?!

- Vou...Já que não vou cortar lenha, também não vou ficar lá só te olhando, não é? – Riu.

- Certo, certo...Vamos lá então.

Aneeta colocou seu caderno, borracha e alguns lápis em uma bolsa que jogou de lado e foi acompanhando seu pai. A ruiva pintava muito bem e consequentemente, desenhava também. Arte sempre chamou sua atenção, desde os desenhos mais simples a outras técnicas e outras formas de pintar.

Os dois andaram por alguns minutos. Não podiam ir de carro, afinal, era quase impossível passar com a caminhonete ou com qualquer outro automóvel por aquela floresta de árvores bem próximas, onde o único acesso era por meio de algumas trilhas onde já não crescia vegetação de tanto se pisar naquelas terras. Ser lenhador não era bem o trabalho de Enár. Podemos dizer que era um hobbie, o verdadeiro lucro era obtido pelas vendas dos produtos na cidade que eram produzidos em sua própria fazenda. Um Hobbie passado de pai para filho. A lenha que Enár colhia era usada para aquecer a casa.

Como dito, andaram por alguns minutos e chegaram lá, como de costume do lenhador, o lugar era uma clareira, onde as árvores já tinham sido arrancadas e o lenhador ia ampliando-a conforme cortasse pelas ‘beiradas’. O centro continha um tronco, que era usado de apoio para cortar a madeira em partes menores e logo ao lado dele podia-se ver algumas toras cortadas do outro dia que Enár não chegou a levar para casa. Aneeta puxou uma delas, a menos arredondada, e sentou, colocou o caderno no colo e se pos a observar o entorno, pensando no que iria desenhar enquanto seu pai descarregava as coisas que iria usar do pequeno carrinho de puxar que trouxeram.

--x—

Um pouco mais de uma hora se passou, Aneeta já decidira o que iria desenhar e já fazia seu trabalho. Detalhava a copa de uma árvore do desenho quando sentiu uma tensão no ar. Seu pai havia se afastado um pouco, tinha ido pegar água num riacho que passava ali perto. Ela parou de desenhar. Ainda com o lápis na mão, ficou parada. Ela olhava ‘’para o nada’’. Os olhos bem abertos fixados em uma parte daquela clareira. Quem a visse poderia dizer que ela estava em alerta, mas talvez não tenha sido exatamente isto.

A menina ficou assim por pouco tempo, porque seu pai chegou a interrompendo trazendo uma garrafa com água. Ela piscou algumas vezes, seus olhos começavam a arder. Enár estranhou a visão que teve da menina de longe antes de chegar ao local.

- O que foi, meu bem?

- Am?...Nada papai...

- Hm...Tudo bem...Olha aqui eu trouxe a água, quer?

-...Quero, quero sim...

O pai serviu a filha, ainda a estranhando um pouco. Ela parecia meio avoada...Ele não sabia dizer. Acabou de se reabastecer e pegou seu machado novamente.

- Bem, deixe eu voltar ao meu trabalho...

- Vai lá, papai – Sorriu para ele sem mostrar os dentes, voltando a fazer o que fazia antes.

--x—

Ela já estava praticamente finalizando o desenho. Não era uma imagem muito complexa, apenas algumas árvores, relva e um rio. Talvez ela acrescentasse alguns animais ali depois. Mas novamente sentiu algo diferente. Dessa vez ela preferiu continuar focada em seus traços. Não gostou daquela sensação anterior. Continuou desenhando, porém dessa vez, no canto do olho, ela pôde ver alguma coisa. Uma coisa que não estava ali antes. Talvez fosse seu pai que chegara sorrateiramente. Ela virou rápido o rosto. Quando se virou viu que, na verdade, não havia nada ali. Virou-se rapidamente, um pouco aflita, novamente para a folha tentando ignorar aquela sensação de estar sendo observada.

Minutos depois seu pai voltou, agora trabalharia ali. Cortava um tronco derrubado da clareira. Já estava derrubado quando chegaram. Então não teria tanto trabalho. A garota então, finalmente, deixou seus desenhos. Se sentia mais segura para fazer outras coisas com seu pai por perto. Se levantou da tora em que estava sentada e remexeu a bolsa. Além dos lápis e caderno também trouxera algum lanche. Pegou um sanduíche (sem maionese) e se encostou no toco de árvore para comê-lo mais confortavelmente de onde também observava seu pai trabalhar.

- De onde o senhor tirou esse aí?

- Já estava aqui quando chegamos...

- Ah, é verdade...Como será que esse tronco foi quebrado?

- Hm...Não sei, talvez tenha sido atingido por um raio, ou por algum bicho...

- É...Algum bicho...Algum bicho grande, né?

- Acho que sim. Não é qualquer esquilinho que vai partir uma árvore ao meio!

- É... – Riu, imaginando a cena de um esquilo empurrando desesperadamente uma árvore a fim de que ela caísse.

Continuou a observá-lo. Acabou o sanduíche e pegou uma maçã.

- Não quer lanchar, pai?

- Vou acabar isso aqui e já te acompanho, querida!

- Tudo bem ent...Que foi isso?

- Isso o que amor?

- Não sei...Vi uma coisa passando...

- Amor, estamos numa floresta! Você pode ver bichos passando de um lado pro outro...

- É, acho que sim né...

Ela não achava que era um bicho comum. Era grande, alto e extremamente rápido. E continuou. Ela não disse mais nada sobre mais algumas vezes, mas a quarta pareceu passar mais perto.

- Pai...Eu não estou gostando disso...

- Disso o que?

- Disso...Desses...Bichos passando pra lá e pra cá...!

- Estranho, não vi nada ... – Continuou seu trabalho.

- É, mas eu vi e...

Ela foi interrompida por um uivo. Um uivo um pouco diferente daqueles que estamos acostumados a ouvir, como de um lobo ou de um coiote. Porém desta vez não foi apenas ela que recebeu algum sinal vindo da mata, Enár também ouviu e quando ouviu parou imediatamente de usar o seu machado. Uma espécie de flashback veio a tona em sua mente. Aquele uivo despertou uma memória muito bem guardada e que ele lutava para deixá-la assim. Se lembrou de seus filhos, do dia em que os perdeu, do dia em que escutou aquele uivo, muito parecido.

- Pai? – Disse a filha se aproximando lentamente.

- Vamos embora! – Virou com certa brutalidade, indo em direção às sacolas.

- O que? Mudou de ideia assim do na...

- Não é hora pra conversa, vamos embora! Rápido! – Sua expressão facial era rígida, severa. Ele impunha aquilo. De uma hora para a outra quis se ver livre de todo aquele lugar. Pegaram suas coisas e rumaram para casa. Enár pegou na mão de sua filha, a que estava livre da maçã, e passou a andar mais rápido, puxando-a consigo.

Notas finais
Até o próximo capítulo o/