Hate Everything About You
17 Tempestade - Parte IV - Pesadelo
Notas iniciais
Apenas uma toalha. Uma toalha, apenas. Não havia mais nada cobrindo o corpo escultural de Quarfein, pelo qual algumas gotas de água escorriam. O elfo engoliu em seco, enquanto o rapaz foi na direção do guarda-roupa, que para seu desespero, ficava perto da cama onde estava sentado.
– Se importa em vestir algo? – Disse Amaess, vermelho, desviando o olhar.
– Eu esqueci de levar uma roupa para o banheiro. – Respondeu o drow, enquanto abria o guarda-roupas.
– Você está molhando o chão todo. – Queixou-se o garoto, se esforçando para não olhar. "Não... eu não quero... não quero... " Repetia para si mesmo, fechando os olhos, mas suas pálpebras e sua iris pareciam ter vida própria, e desejos próprios — desejos, que por sua vez, eram opostos aos desejos do elfo.
– A camareira seca depois. Ela é paga para isso, não é mesmo? – Disse Quarfein, começando a se livrar da toalha. Amaess corou ainda mais, jogando um travesseiro contra o drow.
– Não comece a se trocar na minha frente! – Protestou, constrangido.
– Por que? Não há nada aqui que você não tenha vis — O som da porta do banheiro batendo, seguido pelo som da chave na fechadura, interrompeu o drow. Amaess ofegou, se sentando no chão , pressionando suas costas contra a porta.
A imagem das costas nuas de Quarfein assaltando sua mente — das costas nuas, para as quais gotas de água escorriam dos cabelos lisos e brancos, percorrendo a pele obsidiana marcada por três, talvez quatro, cicatrizes. Amaess não queria olhar, mas seus olhos se rebelaram contra a sua vontade, voltando-se na direção daquela imagem. O elfo sacudiu a cabeça em uma negativa muda.
"Não... não... não..." Dizia para si mesmo, enquanto a imagem do corpo bem definido do outro invadia sua mente. "Por que?Eu estou enlouquecendo?" Pensou, com medo.
– Amaess, você está bem? – Perguntou uma voz do outro lado da porta. – É bom que você não esteja fazendo nada estúpido, porque eu não quero ter de arrombar a porta.
– Eu estou bem! – Disse o garoto, esperando que aquela sensação de calor que sentia contra sua vontade passasse.
– De qualquer forma, pode abrir a porta pelo menos? – Perguntou o drow. O garoto hesitou por alguns instantes, mas respondeu.
– Já vestiu algo? – Perguntou. Uma risada discreta veio do outro lado da porta, ao que Quarfein não tardou a responder.
– Sim. – Disse, abrindo a porta assim que ouviu o barulho da chave sendo girada do outro lado. Amaess desviou o olhar, vermelho, ao notar que a camisa do drow estava completamente desabotoada, deixando à mostra o tronco bem-definido do mesmo, marcado apenas por algumas cicatrizes. "Uma blusa assim e blusa nenhuma são praticamente a mesma coisa..." Pensou, tentando não olhar. Em vão.
Quarfein mordeu os lábios, tentando se deter diante da expressão de constrangimento do garoto. O elfo notou o esforço do outro para conter seus impulsos, mas sua atenção foi desviada para algo vindo de si mesmo. Algo constrangedor, que não queria que ninguém notasse.
O drow riu ao notar o que o garoto tentava inutilmente esconder.
– Pelo visto eu não sou o único tendo que me conter aqui. – Disse o rapaz. Amaess o empurrou.
– É culpa sua! Existe uma coisa chamada privacidade, sabia?! – Reclamou o garoto. Quarfein o segurou pelos punhos e o prensou contra a parede.
– E? A culpa também é sua por ter uma expressão de constrangimento tão tentadora. – Disse, posicionando um dos joelhos entre as pernas do elfo, enquanto usava o outro como apoio para pressionar seu corpo contra o do garoto.
– Pare... – Disse Amaess, desviando o olhar. O drow apenas mordeu o lóbulo da orelha do garoto, arrancando um suspiro.
"Lá vamos nós de novo... eu não consigo resistir... eu preciso te tocar, te sentir... eu não quero te machucar, mas... " Quarfein suspirou, mordendo novamente o lóbulo da orelha do elfo. "Eu vou para o inferno..."
– Tem certeza?– Sussurrou, fazendo o garoto se arrepiar. O elfo abriu a boca para dizer algo, mas os lábios de Quarfein se pressionaram contra seu pescoço. Um gemido de prazer deixou os lábios de Amaess, que se encolheu contra a parede, extremamente embaraçado.
"Não..." Pensou o elfo, tentando conter a voz ao que Quarfein mordia seu pescoço. "Não quero... " Repetia para si mesmo, ainda que tivesse medo das conseqüências de dizer tais palavras. Temia dizê-las, de forma que apenas mantinha os olhos fortemente fechados.
Diante da reação do garoto, o drow soltou-lhe os punhos, acariciando-lhe o rosto.
– Desculpe... – Falou, temendo ter ido ainda mais além dos limites do elfo. Porém, sentiu um pequeno par de mãos agarrando a gola de sua camisa.
– Naara... – Disse o garoto, com a voz trêmula. – Ikotane urnu... amin tyav ve' amin naara...
A tradução daquelas palavras nada mais era do que "Queimando... tão quente, que eu me sinto como se eu estivesse queimando.". O drow tocou a testa do garoto, cogitando a possibilidade do mesmo ter pego uma febre, mas não era aquele o problema. Antes fosse.
– Jhal... – Quarfein notou que a respiração do garoto aumentava de ritmo, e que as mãos do mesmo tremiam. Suspirou, sem saber o que seria o melhor a se fazer naquela situação. Havia dito algo que podia ser traduzido como "Entendo", mas na verdade estava em um dilema: nãos se sentia no direito de sequer tocar Amaess, mas ao mesmo tempo, lá estava o garoto agarrando a gola de sua blusa, ardente e ofegante. – Kampi'unus — Disse, virando o elfo de costas para si. O que dissera nada mais era do que a tradução de seus pensamentos diante daquela situação: "Não tem como evitar.".
Amaess estremeceu quando uma das mãos do drow entrou debaixo de suas roupas, deslizando pelo seu tronco antes de descer para a virilha. Fechou os olhos, tateando a parede até sentir algum tipo de pano. Agarrou-o, enquanto a mão de Quarfein deslizava pela parte mais íntima de seu corpo. Era verdade que estava com medo, mas o seu dilema era outro — Amaess não sabia dizer se tinha mais medo do drow ou do fogo que ardia dentro de si, de forma que apenas agarrou a cortina com força, sentindo o calor dos toques de Quarfein.
"Você é realmente muito inocente, Amaess..." Disse o rapaz para si mesmo, enquanto o elfo tentava conter seus gemidos na medida do possível. "Você sabe o que esse calor é, mas ainda assim não sabe como se livrar dele sozinho...infelizmente eu estaria mentindo se dissesse que não estou gostando dessa situação e me aproveitando dela..." Pensou o drow, lambendo uma das orelhas do garoto e mordendo de leve a ponta da mesma. Amaess estremeceu, pressionando o rosto contra a parede, mas o drow o puxou para mais perto de si.
– Não precisa abafar sua voz... – Falou o rapaz, beijando o pescoço do elfo, que tentava inutilmente não gemer. — Eu já disse que gosto dela, não disse?
– M-mas... ahh... – Amaess segurou a cortina com mais força, acidentalmente rasgando-a, quando Quarfein sentiu algo quente entre seus dedos.
– Pronto... – Disse o drow, soltando o corpo do garoto e lambendo os dedos. – Se sente melhor agora?
Amaess não se virou para o rapaz. Não tinha coragem de olhar — tinha medo de que aquilo se repetisse — aquele desejo, aquele calor... aquele fogo. Não queria que aquilo acontecesse de novo... não com aquela pessoa.
Quarfein se deteve, perguntando-se se havia feito algo errado, mas Amaess apenas permaneceu em silêncio, ofegando. O drow suspirou, indo até o banheiro.
– O que eu tenho... dá para apenas mais alguns dias aqui... então talvez eu tenha que arrumar um meio não muito convencional de conseguir dinheiro... – Falou. Amaess estremeceu, se encolhendo.
"Estava demorando... estava tudo surreal demais... bom demais..."
– E...? – Disse o elfo, abraçando os joelhos.
– Eu não quero fazer nada do qual você discorde, então decidi falar com você antes de optar por esse meio... – Falou, sem que Amaess dissesse algo para interromper. – Você se importaria... se eu matasse três ou quatro pessoas?
Amaess não sabia se sentia raiva ou alívio. Matar alguém era algo simplesmente terrível, por mais que algumas pessoas também fizessem coisas terríveis... e disso ele sabia melhor do que qualquer um — não apenas pelo que passara convivendo com Quarfein, mas também pela traição de Belinda e pelo que outras pessoas naquela cidade haviam tentado fazer.
– Matar alguém é algo terrível... – Disse. O drow sorriu, indo para o quarto.
– Bem, é uma das poucas coisas que eu faço direito... se pode me entender... há outras opções, mas...
– Eu não quero continuar nessa cidade... – Falou Amaess, ainda sem olhar para o rapaz. – Principalmente depois de tudo o que aconteceu aqui...
Quarfein suspirou, se sentando ao lado do garoto — o que fizera nos dias anteriores o havia quebrado, e o drow temia que o estrago feito fosse impossível de consertar.
– Amaess... – Disse, tocando o queixo do garoto e puxando-o levemente para si. O elfo corou ao se ver refletido nos olhos rubis do outro. – Eu... alguma vez lhe disse... que tenho medo de te perder?
O garoto balançou a cabeça em uma negativa muda e afastou a mão do drow de seu rosto.
– E... eu nunca imaginei... que você pudesse sentir qualquer coisa...– Confessou Amaess, ainda que temesse as conseqüências – Que pudesse ter qualquer tipo de sentimento...– Sim... Amaess se questionava, a essa altura de seus pensamentos confusos, se tudo não seria mais fácil se Quarfein não estivesse mudando tanto — se o outro simplesmente continuasse não demonstrando preocupação e afeto. Era perceptível, e inegável. O elfo manteve os olhos fixos no chão, confuso. "Por que? Por que você está agindo de forma tão protetora depois de ter me ferido tanto? Por que está agindo como se importasse? Você realmente se importa? Você realmente se arrepende? Você realmente me ama, ou é apenas um jogo? Se ama, por que me machucou tanto?" Pensava o garoto, com os olhos úmidos.
– Você... sente muita raiva de mim, não sente? – Falou o drow. O elfo abaixou ainda mais o olhar.
– Eu estaria mentindo se eu dissesse que não. – Quarfein abriu a boca para dizer algo, mas Amaess continuou. – No entanto, eu não quero passar o resto da minha vida chorando pelos cantos, me lamentando por algo que não pode ser mudado... eu não quero que a mágoa que eu tenho de você... e o medo... me impeçam de viver.
– Eu me sinto bem em ouvir isso. – Disse o drow. – Mas... você tem medo de mim?
Amaess cruzou os braços sobre o corpo, desviando o olhar.
– Não exatamente... de você... quer dizer... de você também... mas... – Quarfein o interrompeu.
– Tem mais medo das coisas que eu fiz? – Falou, suspirando. Amaess confirmou com um menear de cabeça.
– Como pode fazer uma pergunta dessas? – Perguntou. –Eu já lhe disse várias vezes... que se eu pudesse voltar atrás, eu teria morrido naquele dia.
Quarfein abaixou o olhar, sentindo o peso da culpa quase lhe esmagando.
– Mas não pode. – Declarou, buscando usar aquela brecha para tentar se aproximar. – Então, deveria-
O elfo o interrompeu.
– Eu não devia ter me desesperado... não deveria ter mantido em minha mente que eu precisava viver para proteger Claitae... eu-
– Você está vivo. Por que não busca aproveitar isso? – Falou Quarfein, se aproximando de forma discreta. – Você deveria viver por você, não por ela. – Disse o drow, debruçando-se ainda mais sobre o outro jovem. – Mesmo porque- Amaess o afastou, com medo.
– Foi a última promessa que eu fiz aos meus pais. Que eu protegeria minha irmã. – Falou o garoto, tentando se esquivar do outro. Quarfein notou o desconforto que causara, e se afastou.
– E quem protegeria você? – Perguntou o drow, acariciando os cabelos dourados do garoto. O elfo balançou a cabeça em uma negativa muda.
– Depois do que você fez... eu não tenho razões para me proteger... – Disse. – Nada pode ser mais degradante do que aquilo.
O drow notou a dor na voz do garoto, e mudou de assunto.
– Nunca mais vai acontecer de novo. Aliás, se eu pudesse mudar o passado, jamais teria acontecido. – Falou, se afastando.
– Eu sei... é só que... eu estou tão confuso... eu não quero me prender ao passado, mas... – Amaess se deteve, suspirando. – Há feridas que nunca se curam... nada volta magicamente a ser como antes... você mesmo sabe disso... – Falou, observando a cicatriz no tronco de Quarfein.
– Não Amaess... elas podem não desaparecer... – Disse, entrelaçando seus dedos nos de Amaess. – E deixar cicatrizes... mas elas não doem e sangram para sempre... em algum momento, elas se curam. Você está cansado e... -
O elfo balançou a cabeça em uma negativa muda.
– ... E perdido... e com fome... – Disse, constrangido. Quarfein sorriu, tocando o queixo do garoto.
– Por que não disse antes? Fique ai descansando, eu vou providenciar algo... eu vou levar a chave e deixar Daxunyrr com você. – Falou, se levantando e saindo antes que Amaess pudesse fazer algo. O elfo suspirou ao ouvir o som da porta sendo trancada por fora.
"Será... que eu estou realmente à salvo?" Pensou, ao que a gata se entretinha perseguindo um bicho que havia saído de debaixo da cama. Amaess deitou-se no chão, sem se preocupar em ir até a cama. Talvez precisasse mesmo descansar.
~*~
Claitae suspirou, colocando os talheres sobre o prato vazio.
– Não vai comer mais? – Perguntou a irmã de Alvina. A elfa balançou a cabeça em uma negativa muda.
– Claitae, eu sei que você esvaziou o prato... mas tudo o que você colocou nele foram duas colheres de salada e uma maçã! – Disse a mulher. – Você-
– Eu não costumo comer muito... mas obrigada por se preocupar... – Falou a pequena, se retirando.
~*~
Amaess piscou algumas vezes, espantando-se ao se ver em um quarto mal-iluminado e com os cantos das paredes preenchidos por teias de aranha. Havia uma corrente prendendo seu tornozelo à cama, e não havia roupa alguma sobre seu corpo. A imagem de Quarfein logo se fez presente à sua frente, com um sorriso malicioso. Os olhos do garoto se arregalaram.
– O que foi? Você parece assustado...– Disse o drow, se aproximando a passos calmos. Intuitivamente Amaess se voltou para a corrente em seu tornozelo, tentando tirá-la.
– O que está fazendo?! Você tinha-
– Mudado?– Falou Quarfein, dando um leve riso sarcástico. – Você realmente foi tolo o bastante para acreditar?
O elfo tentou se manter afastado, mas o outro puxou a corrente. Amaess tentou se segurar ao chão, arranhando-o.
– Pare! – Gritou, tentando se afastar.
– Você sabe que eu não vou parar, independente do quanto você grite. – Disse o drow, pegando a faca e levemente posicionando-a sobre a clavícula do garoto. Com precisão cirúrgica, a lâmina desceu até perto a virilha, onde deixou de tocar a pele de Amaess por alguns instantes. A despeito das súplicas para que parasse, Quarfein apenas deu um sorriso de canto, posicionando a faca sobre a coxa do garoto e deslizando-a até o joelho.
– Não se preocupe. Essa vai ser a última vez... – Falou.
– Quarfein pare! Não faça... Não! – Gritou.
– Amaess! – Exclamou o drow.
~*~
Com os pelos eriçados, Daxunyrr chiava para o lado de fora da janela, como que tentando afugentar algo ou alguém. Mas a gata não recebeu atenção.
– Amaess! – Disse Quarfein, sacudindo o elfo mais uma vez.
– Não! – Exclamou o garoto, repentinamente se sentando, com a respiração ofegante. Olhou em volta, aflito, e sentiu ao alívio ao reconhecer o quarto da estalagem, mas seu alívio desapareceu quando seu olhar focalizou o rosto do drow.
– O que eu estava fazendo?– Perguntou. Amaess desviou o olhar, ainda confuso. – Você estava tendo um pesadelo comigo, não estava?
"Está tudo bem..." Disse o garoto para si mesmo. "Foi só um pesadelo... foi só..."
Quarfein suspirou ao não receber uma resposta.
– Está tudo bem... eu prometi que não iria mais lhe ferir, não prometi?– Falou, deixando suas mãos deslizarem pelos longos fios dourados que percorriam as costas do elfo. Amaess apenas consentiu com um menear de cabeça. – Então... ah... eu preparei isso para você comer... – Disse Quarfein, depositando a bandeja entre seu corpo e o do elfo. Amaess o olhou um pouco surpreso. Seus olhos pararam sobre o pequeno arranjo de flores que havia na lateral da bandeja, que estava envolto em um laço de fitas. – Bem, na verdade eu apenas arrumei as coisas na bandeja... a comida eu comprei em uma taberna, porque...
Amaess corou, olhando para o prato no qual repousava uma refeição simples, mas de aparência saborosa.
– Pode comer... não tem nada aí... mesmo, eu não coloquei nenhuma droga ou afrodisíaco... – Disse o drow, fazendo com que o garoto desviasse o olhar.
– Você não precisaria me drogar... – Disse Amaess, com um tom de voz abatido. – Nós dois sabemos a diferença de força física que há entre nós.
Apesar do peso na consciência, Quarfein forçou um sorriso, observando enquanto o garoto comia.
– Tem razão... – Admitiu, sentindo a culpa lhe estraçalhando por dentro. – Mas como está? Eu escolhi bem?– Perguntou, apontando para o prato de comida. Amaess confirmou com um menear de cabeça.
– E você? Não vai comer nada? – Perguntou.
– Eu não estou com fome. – Disse o drow, observando enquanto o garoto comia. Notou que o jovem ainda estava com receio, mas por mais que compreendesse, a preocupação que sentia falou mais alto. – Quer... falar a respeito de algo? – Perguntou.
Amaess mordeu os lábios, hesitando. Apesar dos esforços do outro, sabia que não conseguiria seguir em frente se não dissesse aquilo.
"Pode parecer cruel..." Pensou, parando por alguns instantes. "Especialmente pela forma como ele está se esforçando... mas... o que ele fez... é muito mais cruel que isso... e além do mais, hoje foi só um pesadelo..." Disse a si mesmo.
– O que você vai fazer... se eu não conseguir te perdoar...? – Perguntou. – Se eu nunca conseguir superar a mágoa e a dor que você me causou?
Quarfein recuou, pego de surpresa pela pergunta. Se lembrar do que havia feito, ter aquela verdade exposta de forma tão crua e repentina o fizera sentir vontade de se auto-torturar, mas ainda assim se conteve.
– Eu irei fazer o mesmo. – Disse. – Não irei me perdoar.
Amaess deu um meio-sorriso, depositando os talheres sobre o prato vazio. Ponderou por alguns instantes a respeito da resposta, mas antes que pudesse dizer algo Quarfein empurrou a bandeja para o lado.
– Você está com um pouco de molho perto da boca. – Disse. Amaess tocou um dos cantos, confuso.
– Onde? – Perguntou. O drow lambeu o outro canto da boca do garoto, invadindo-a com a língua em seguida. Amaess foi pego de surpresa, sem saber o que fazer, mas Quarfein apenas se afastou, mordendo o lábio inferior do garoto de leve.
– Amaess, eu quero que me prometa uma coisa. – Falou.
– Mesmo depois de tudo o que você fez?– Indagou o elfo, com um receio que certamente demoraria para desaparecer.
– Sim, mesmo depois de tudo o que eu fiz. – Respondeu Quarfein. – Eu quero que, mesmo que você nunca me perdoe, você supere a dor do que... que eu lhe causei... que irá... irá conseguir ser feliz... algum dia... – Disse. Silêncio.
– Talvez você também precise dormir de vez em quando. – Falou Amaess, suspirando. – Eu não posso prometer algo que não sei se vou conseguir cumprir.
Quarfein suspirou, se sentando e acariciando os cabelos de Amaess.
– Você vai... eu sei que vai... – Disse. – Bem, eu irei descansar um pouco. Fique a vontade para me empurrar da cama se quiser.
– Tem certeza de que não se importa? – Perguntou o elfo, hesitante.
– Eu não tenho o direito de me importar depois do que eu fiz com você. – Falou o rapaz, se deitando. – Boa noite.
Silêncio. Amaess se debruçou na janela, observando as estrelas.
"Pai... mãe... o que devo fazer?" Pensou.
~*~
Quarfein abriu os olhos, reconhecendo o lugar terrivelmente familiar — uma masmorra, mal iluminada e repleta de teias. Seus olhos se arregalaram ao focalizarem Amaess — haviam ferimentos por todo o tronco do elfo, que piscara algumas vezes, provavelmente acabando de recuperar a consciência. Seus olhos rubros se arregalaram na expressão de mais puro terror ao focalizarem a imagem de sua irmã.
– Aunbryn... – Murmurou, vendo o perigoso chicote terminado em cabeças de cobra que a irmã carregava chiar de forma ameaçadora.
– Ah... você acordou... – Disse a mulher, de forma fria. – E parece que o desprezível ali também... Espero que tenham gostado da ilusão de estar indo em direção a um futuro alegre e feliz... porque não vai restar nada dela.
Amaess tentou gritar, mas não produziu nenhum som. Estreitando os olhos, Quarfein pôde ver a pequena cicatriz na garganta do garoto.
– O que você fez?! – Perguntou, tentando se soltar.
– Ah, nada demais... os gritos dele estavam me irritando... – Disse a mulher. A vontade de Quarfein era se soltar e quebrar o pescoço dela, mas ele não conseguia. Aunbryn se aproximou do irmão, cobrindo-lhe os lábios. – Você gostava, não gostava? De quando ele gritava, chorava... fazia todo aquele barulho, gemendo e implorando... só que eu não... então espero que não se importe com o fato de eu ter tirado as cordas vocais dele... – Disse. – Mas você ainda pode brincar com ele... e fazer tudo o que gosta de fazer... como espancar ele usando um chicote ou cinto, ou amarrá-lo-
– Não! Eu não- Quarfein se viu interrompido.
– Ah... você cansou dele, não é? Tudo bem, eu cuido disso para você. – Disse a jovem, andando em direção a Amaess.
– Aunbryn não! – Gritou Quarfein.E continuou gritando, enquanto sua irmã erguia a adaga contra o garoto.
– Quarfein... acorde...
~*~
Amaess sacudiu o drow novamente, assustado visto que o mesmo estava suando, ainda que a neve caísse na rua fria. Daxunyrr chiava na janela, deixando o garoto ainda mais assustado — era como se houvesse algo ameaçador ali.
– Acorde! – Disse Amaess, ao que Daxunyrr se espantou com algo, e correu para debaixo da cama. Quarfein abriu os olhos, assustado, mas procurando se manter calmo. Ainda assim, não pôde deixar de sentir alívio ao ouvir a voz de Amaess e vê-lo diante de si.
"Foi só um pesadelo... ainda bem..." Pensou, sorrindo de leve.
– O que foi? – Perguntou Amaess. "Isso não é engraçado... você me assustou, do que está rindo?!" Pensou.
– Nada... só estou aliviado... por ser só um pesadelo... – Disse Quarfein.
– Você também teve um pesadelo? – Falou o elfo. – Daxunyrr... estava chiando na janela... tentando afugentar algo... mas então ela se assustou e correu para debaixo da cama...
– Daxunyrr se assustou com algo? – Perguntou o drow, sentindo seu alívio desaparecer. Amaess confirmou com um menear de cabeça, e Quarfein foi até a janela.
– Quarfein, o que foi? – Indagou Amaess, seguindo-o. O drow olhou para os dois lados, mas não viu nada.
– Deve ser só coincidência... – Disse para si mesmo, tentando acreditar nas próprias palavras. – É isso... é apenas coincidência... Venha cá Amaess... – Falou, prensando o elfo contra a parede. – Me diga, com o que você sonhou?
Amaess desviou o olhar, com receio.
– Eu não quero falar sobre isso. – Disse. Quarfein observou a região exposta do pescoço do garoto e suspirou de alívio ao não ver nenhuma marca de corte, mas ao mesmo tempo, tinha medo de que aquela região marcada apenas por uma mordida não continuasse daquela forma.
– Me diga! – Insistiu.
– Não, eu quero esquecer! – Falou Amaess.
– Amaess, me diga! – Pressionou, segurando o rosto do garoto de frente para o seu. Amaess estremeceu ao ver a expressão de frenesi no rosto do drow.
– Quarfein você está me assustando! – Disse o garoto, empurrando-o.
– Está bem... – Falou o rapaz, notando que o outro se encolhia contra a parede, o medo visível nos olhos azuis. – Apenas me conte... como era o lugar que você sonhou estar?
– Por que está perguntando isso? – Perguntou Amaess, assustado.
– É para seu próprio bem Amaess. Apenas me diga. – Disse Quarfein, tentando usar um tom tranqüilizador, que surtiu o oposto do efeito desejado.
– Você está me dando medo... – Falou o elfo. Quarfein abaixou o olhar, se sentindo ainda mais culpado.
– Me desculpe... – Disse, tentando se acalmar — não poderia fazer nada se tanto ele quanto Amaess estivessem em pânico. – Eu acho... acho que me assustei demais com o pesadelo horrível que eu tive... e com você falando de Daxunyrr... deve ser apenas coincidência...
O elfo permaneceu em silêncio por alguns instantes, e Quarfein continuou.
– Eu tenho tanto medo de te perder... – Disse. – Acho que eu fiquei apavorado só de... me desculpe... por ter te assustado... eu não queria...
Tendo espaço para se acalmar, Amaess se sentou, procurando fazê-lo. Daxunyrr saiu de debaixo da cama, se encolhendo no colo do dono.
– Daxunyrr... – Falou o elfo. "Salvadora... é realmente um bom nome... eu me sinto mais seguro e calmo com você por perto..." Pensou, acariciando a gata. – Não tem nome melhor para você do que este... talvez uma palavra para guardiã... – A felina se pôs nas duas patas, miando. – Mas você prefere Daxunyrr, não é? – Disse, enquanto a gata desviava sua blusa.
– Amaess... – Falou Quarfein. Agora que estava mais calmo, o elfo ergueu o rosto, se lembrando de quando ele mesmo tivera um pesadelo.
– Está tudo bem Quarfein... você só teve um pesadelo e ficou agitado por isso... – Disse.
– Sim mas... eu estou me sentindo... bem, primeiro eu te assombro em um pesadelo, depois te assusto por ter tido um pesadelo e agora... agora eu estou com ciúmes de uma gata! – Falou, dando uma risada nervosa e fazendo Amaess se surpreender.
– Como é?! – Exclamou o elfo.
– Nada... acho que eu estou com inveja de Daxunyrr por você se sentir seguro com ela. – Admitiu.
– Ela não fez nada de ruim comigo... – Falou Amaess. Mesmo que julgasse que dizer aquilo era algo cruel, o elfo achou que não seria justo esconder a verdade do outro jovem — sem contar que o outro havia feito coisas bem piores. – É por isso que para mim é mais fácil confiar nela do que em você...
– Eu não preciso que você me diga isso para me sentir culpado. – Disse Quarfein, se sentando ao lado do garoto. – Só de lembrar... de você chorando... ou de te ver com medo... eu já me sinto...
Silêncio. Amaess se encolheu, tentando firmar suas crenças no arrependimento do outro. Ainda que o drow parecesse verdadeiramente arrependido, Amaess sentia-se como se estivesse apoiando-se em um castelo de cartas, que desabaria a qualquer instantes.
"Eu estou me prendendo a uma ilusão..." Pensou. "A ilusão de que... mesmo depois de tudo, eu conseguirei confiar em alguém... que conseguirei ser feliz... eu quero acreditar que tudo vai acabar bem... mas mesmo que eu queira, eu não posso... não da forma como eu estou preso a ele... eu... preciso que alguém me ajude...".
– Aquele dia... quando eu te ouvi cantando para sua irmã... – Disse Quarfein. – Eu senti algo que nunca havia sentido antes... eu nunca... tinha ouvido nada tão doce... tão...
– Não diga. – Falou o elfo. – Meus pensamentos já estão demasiadamente embaraçados... não quero me confundir ainda mais...
– Me reconforta... – Disse Quarfein, entrelaçando os dedos do garoto.
– O que? – Perguntou Amaess.
– Saber que eu não sou o único que está em dissonância com a voz da razão. Que está confuso e desorientado. – Falou o drow.
– Você não parece desorientado. – Respondeu o garoto.
– Eu sei... mesmo estando perdido, eu me sinto bem... – Disse o jovem, acariciando as costas da mão do outro. – É como se... para mim... bastasse estar ao seu lado.
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