Hate Everything About You

16 Tempestade - Parte III - Imperdoável


Notas iniciais
Ou talvez não... o que acham?

O gato andava de um lado para o outro em frente à lareira, uma vez que Quarfein não o deixava subir na cama em hipótese alguma. Enrolado em um cobertor, o drow apenas observava o rosto delicado de Amaess, que agora parecia ainda mais branco devido ao frio — aquilo fazia o garoto parecer uma escultura viva. Os olhos de Quarfein marejaram — se recusava a pensar na possibilidade de perder a única pessoa pela qual nutrira algum tipo de afeição, a única pessoa a qual havia se apegado. Havia se rendido ao sentimento que tinha em relação ao garoto, e se recusava a perdê-lo. Se debruçou sobre o corpo deitado na cama, acariciando o rosto frio de Amaess.

– Acorde...– Falou, observando os lábios róseos do garoto, levemente azulados devido à baixa temperatura de seu corpo. – Por favor Amaess... acorde... eu não quero... não quero te perder... – Disse, ao que os olhos do garoto não demonstravam sinais de que iriam se abrir. – Eu... não quero pensar que nunca mais vou ter a chance de sentir o calor do seu corpo... de me perder no azul dos seus olhos... por favor, acorde... eu prometo que se você acordar eu vou consertar tudo... tudo o que eu te fiz... que eu vou te ajudar a superar todas as memórias ruins que eu te dei... mas por favor acorde... é só o que eu te peço, acorde! – Disse, afundando o rosto ao lado do pescoço do elfo. – Por favor... – Falou, apertando o corpo inerte contra si. Tentou conter uma lágrima, mas esta insistiu em escorrer.
Em meio ao desespero diante da possibilidade de perder a única pessoa a qual amara, a única pessoa pela qual de fato sentia algo, não conseguia pensar em mais nada — não conseguia sequer agir de forma calculada como sempre fazia, apenas ceder ao impulso de não sair de perto de Amaess. Se deitou ao lado do garoto, abraçando-o por sobre o cobertor. ­- Você é a única pessoa que eu amei em toda a minha vida... – Disse, beijando-lhe carinhosamente o rosto, sem notar um leve movimento das pálpebras do elfo. – Sei que você acha que é mentira... então por favor... acorde e me dê uma chance de te provar que é verdade...– Falou, acariciando os longos fios dourados do garoto, sem notar os olhos do mesmo se abrindo vagarosamente. – Por favor Amaess... eu imploro... me dê só uma chance de remediar as minhas ações e te fazer feliz...– Disse.

Amaess se sentiu confuso ao ouvir aquelas palavras — jamais imaginara que o outro pudesse ser capaz de implorar algo alguém, ainda que em fingimento. Ainda assim, se viu sem muitas alternativas, uma vez que seu olhar se cruzara com o do drow. Afinal, se dissesse que não, duvidava que o outro iria ouvi-lo.

– Eu... tenho escolha? – Perguntou, desviando o olhar. Quarfein beijou-lhe o rosto.

– Receio que não muita. – Disse, ainda que confuso em relação ao que sentia. – Porque... eu não consigo mais imaginar minha vida sem você.

– E se eu não quiser ficar ao seu lado? Especialmente depois do que você- O drow o interrompeu.

– Uma semana. – Falou. – Me dê apenas uma semana para consertar tudo, está bem? E... se eu não conseguir... se eu não conseguir pode fazer o que bem entender comigo.

Silêncio. Amaess desviou o olhar.

– Pare de fingir. Você não é desse jeito. – Disse o garoto.

– Eu não estou fingindo. – Falou o drow, beijando-lhe os lábios. Amaess se encolheu, mas o outro jovem apenas afastou o rosto. – Eu não irei mais te ferir... e... eu irei falar com Nádia amanhã. A não ser que você não esteja bem, aí eu irei ficar-

– Sabe que não tem como eu estar bem trancafiado em um quarto. – Falou, tentando segurar uma lágrima. – Ou preso em uma coleira. Você sabe disso! Sabe que se eu pudesse voltar atrás teria morrido naquele dia!

– Pare de choramingar. Você diz que não gosta de estar preso, mas se prende ao passado ao tempo todo!– Reclamou, irritado com a situação. A fúria foi descontada na cabeceira da cama. – É impossível mudar o passado, enterre logo ele e pare de ficar se lamentando pelos cantos! — Disse.

– Para você é fácil falar!– Respondeu Amaess. – Você nunca se importou com ninguém, a não ser consigo mesmo! Nunca se importou e não se importa! Você não sabe o que é em menos de um dia ter quase todas as pessoas que ama tiradas de você, e depois disso ainda-

– Chega! – Interrompeu o outro jovem. – Você tem razão, Amaess. Eu não sou uma pessoa gentil em quem você pode facilmente confiar. Eu nunca me importei com ninguém, a não ser comigo mesmo. Mas você está errado em dizer que eu continuo não me importando com ninguém além de mim, porque há uma outra pessoa com quem eu me importo... e essa pessoa está bem debaixo de mim, se recusando a acreditar que, apesar de tudo, eu quero mudar... e que eu quero mudar apenas para ser alguém que possa consertar meus erros fazer essa pessoa feliz... então pare se lamentar em relação ao que já aconteceu e comece a pensar no que pode acontecer! – Disse, tentando não se deixar atormentar pelos fantasmas de suas próprias ações. Amaess se encolheu.

– Não... eu não quero ficar perto de você... não depois de tudo o que você fez... eu só quero minha irmã de volta! Só isso! – Falou, ainda que temendo a reação do outro. Uma lágrima escapou de seus olhos, mas Quarfein simplesmente a secou, buscando se manter calmo.

– Eu não irei fazer mais aquelas coisas. Eu não irei mais te ferir.– Argumentou o drow. Amaess balançou a cabeça em uma negativa muda.

– Por que eu confiaria em você? Ainda mais depois de... de... tudo! – Falou. Apenas pensar nas coisas que o outro já havia feito fazia com que Amaess sentisse seu peito doer, comprimido em meio a uma mistura de raiva e dor. Por mais medo que sentisse do outro, sentia também um rancor que não conseguia guardar — nunca odiara ninguém, e também nunca sentira tanto rancor em relação a uma pessoa. Não sabia lidar com esse tipo de sentimento, e manter aquela sensação dentro de si estava praticamente terminando de intoxicar-lhe a alma. – Eu não confio em você e não quero ficar perto de você! Por favor, me deixe em paz!– Disse, esperando o golpe que nunca receberia. Quarfein ficou em silêncio por alguns instantes.

– É culpa minha. – Disse. – Eu me aproveitei do seu desespero em proteger sua irmã, e mesmo às vezes sentindo algo incômodo ao te fazer sofrer eu apenas negava, evitando me importar em como você se sentia e negando o fato de que eu estava começando a sentir algo por você. Eu te tirei sua liberdade, afastei sua irmã, e te feri diversas vezes. Mas eu me arrependo disso a cada segundo... – O drow acariciou o rosto do garoto, colhendo uma lágrima. – Amaess... por favor... eu não estou pedindo para você confiar em mim... estou pedindo uma chance para conquistar sua confiança...

– Você não vai me deixar em paz enquanto eu não te der um "sim" como resposta, vai? – Perguntou Amaess, com raiva não apenas do outro, mas também daquela situação — não tinha saída — se Quarfein quisesse, o seguiria até o inferno, e não havia nada que podia fazer para impedir.

– Me perdoe... mas realmente, não irei... – Disse o drow, beijando o rosto do garoto.

– Então pelo menos saia de cima de mim. – Pediu o elfo, de forma que o outro se sentou ao seu lado. Amaess respirou fundo, olhando para o teto, se perguntando como havia chegado àquela situação. Virou de lado, se encolhendo em meio aos cobertores — a confusão de seus pensamentos, principalmente com o que havia acabado de acontecer, o assombrava.

– Você está com tanto frio assim?– Perguntou o rapaz.

– Por favor, se não pode sair da minha vida ao menos finja que eu não existo por alguns minutos. – Disse o garoto, cobrindo a cabeça.

"O que eu fiz?" Se perguntou Quarfein, acariciando os ombros do garoto por sobre o cobertor. "Não... a pergunta não é essa... é... como eu não percebi? Por que eu neguei até o final? Se ao menos eu não tivesse feito... não... eu não posso pensar no que eu já fiz... se eu for pensar no passado... eu nunca irei me perdoar..."

~*~

Claitae se debruçou sobre a cerca da fazenda, observando os pássaros voando no horizonte. Uma lágrima escorreu de seus olhos.

– O que foi? – Perguntou Pete, se debruçando ao lado da garota.

– O plano falhou... não falhou? – Perguntou a elfa. – Alvina não mandou nenhuma notícia... e... se o plano tivesse dado certo... ele já estaria aqui... – Disse. – Você acha que ele ao menos está vivo? – Perguntou.

– Eu acho que sim... – Respondeu o garoto.

– Eu quero voltar... – Pediu a menina, surpreendendo o amigo.

– O que? Mas — A garota interrompeu.

– Era terrível... e aquele monstro me usava para chantagear meu irmão, mas... pelo menos tínhamos um ao outro... pelo menos eu podia tentar amparar ele... ou tentar...– Falou.

– Clai... – Disse o menino. – Não podemos voltar... minha mãe e eu precisamos ficar aqui até mês que vem...

– Então eu não sei o que eu faço... – Disse a garota, se sentando na grama.

– Reze. – Disse ele. – Quando você reza, afasta a mente das coisas ruins... porque você não pensa em nada quando reza.

– Reza comigo? – Pediu a garota. – Não precisamos rezar pro mesmo deus... só... fique do meu lado...

– Está tudo bem... – Disse o menino. – Eu rezo com você.

Os dedos de Pete entrelaçaram os da menina, que recostou a cabeça em seu ombro.

~*~

Quarfein suspirou, puxando o cobertor que cobria Amaess de forma a ajeitá-lo sobre o corpo do garoto. Os cortes que havia feito em seu próprio braço doíam, mas aquela dor não era nada se comparada à dor da culpa — culpa por não conseguir atender um simples pedido feito por Amaess... não tão cedo.
"Eu posso estar te subestimando, é verdade... eu provavelmente estou... você não precisa que eu te proteja, eu não pude te proteger nem de mim mesmo... mas... eu não posso sair da sua vida ainda... eu ainda não tenho certeza de que você vai ficar bem..." Pensou o drow, apesar de essa não ser exatamente sua vontade. "Eu não sei o que eu faço... não sei o que falar... Eu não quero que terminemos assim... como dois estranhos, sem nada para dizer... Eu não quero ter que te deixar... mas... não há perdão para o que eu fiz, há?" Questionou em pensamento, deixando suas mãos deslizarem pelos ombros de Amaess.

– O que quer? – Perguntou o garoto, erguendo o rosto.

– Você... – Respondeu o outro, puxando-o para si. – Me deixe ficar apenas alguns instantes te abraçando... – Pediu, apesar de seu pensamento ser dolorosamente contra o que estava fazendo. "Ainda que eu não mereça..." Pensava. Mas o calor morno que vinha do corpo de Amaess... a maciez da pele que recobria aquele corpo... eram tão suaves e tão doces, que se pudesse Quarfein prenderia o elfo naquele abraço para sempre.
Prendê-lo: já não podia mais fazer aquilo, visto que aquilo o machucaria. Não queria machucá-lo ainda mais — se pudesse mudar o passado, jamais teria machucado-o em primeiro lugar.

Amaess se encolhia, sentindo a respiração do drow em sua nuca. Um calafrio percorreu sua espinha — mesmo com tudo que Quarfein dissera, o garoto ainda o temia — e, mesmo tendo notado uma mudança significativa no comportamento do drow, o elfo não podia evitar o medo que havia se cravado em sua mente — até porque, não havia nada que lhe garantisse que tudo não passava de fingimento.

– Me solta... por favor... – Pediu, tremendo.

– Está tudo bem Amaess, eu não vou te machucar mais... – Disse Quarfein, acariciando o rosto de Amaess, ignorando o gato que miava incessantemente perto da lareira. "Eu não tenho o direito nem de tocá-lo, quem dirá o de insistir nisso... deuses, por que eu sou tão egoísta? Por que eu não posso deixá-lo ir? Eu só quero que ele se recupere, para poder sair da vida dele... é pedir demais? "

– Por favor... você não entende? Por favor, me solta... – Suplicou o garoto, tentando afastar os braços do outro. As memórias do que o drow já havia feito atacando sua mente e seus nervos. Quarfein se obrigou a sair de seus pensamentos ao perceber o nervosismo do elfo, e se afastou.

– Me desculpe... – Falou, se limitando a observar o outro. Amaess se levantou da cama, dando alguns passos para trás — tinha medo até mesmo do olhar de Quarfein. – Amaess... eu não irei mais te ferir...

O elfo cruzou os braços sobre o peito, se encolhendo contra a parede. Quarfein calmamente foi em sua direção, apesar da angústia que sentia.

– Não... por favor não venha... – Pediu, Amaess se sentando. – Por favor...

O drow ignorou, caminhando até o garoto. Amaess tentou empurrá-lo, mas Quarfein simplesmente segurou-lhe os pulsos, acariciando-os de leve.

– Eu entendo que não confie em mim... mas... – O rapaz se deteve, beijando uma das mãos do outro. – Mas...

– Por favor... se afaste... – Pediu o garoto. Bastava um simples toque de Quarfein para que seu corpo começasse a tremer e as memórias convulsionassem em sua mente. O elfo pressionou uma pálpebra contra a outra, sentindo sua respiração acelerar. – Por favor...

– Como quiser... – Disse Quarfein, depositando um beijo na testa do garoto antes de se afastar. – Ussta mirshann...

Os olhos de Amaess se voltaram para o gato, que não parava de miar. O drow suspirou.

– Ele deve estar com fome... ou seria ela? – Perguntou, tentando se aproximar do garoto, ainda que considerasse não ser digno disso.

– Não tive tempo de saber... tampouco de dar um nome... – Respondeu Amaess, em um tom de voz desanimado, mas ao mesmo tempo, deixando um pouco de medo transparecer.

– Que tal Daxunyrr? – Perguntou o rapaz, erguendo o gato no colo.

– Daxunyrr? – Indagou o elfo, ainda se encolhendo.

– Significa "salvador" no idioma subterrâneo. – Disse Quarfein, se sentando de frente para o garoto. A forma como segurava o gato deixando a barriga do mesmo virada para Amaess. – Se não fosse pelos miados dele-

– É uma fêmea.– Interrompeu, sem se importar em erguer o rosto ou afastar os fios dourados que caiam sobre seus olhos. – E não se deve segurar um gato somente pelas patas dianteiras, principalmente se for um filhote.

Quarfein soltou o animal, que imediatamente correu para perto de Amaess, ronronando. O elfo cuidadosamente o pegou no colo, aninhando-o e afagando-lhe a cabeça.

"Eu não acredito..." Pensou Quarfein, sentindo o sangue fluir para suas bochechas. "Eu estou com ciúmes... de um filhote de gato?! E mesmo depois do que eu fiz, eu ainda-"

– E eu sei que se não fosse por ela miando você não teria me encontrado. Eu não fiquei muito feliz por isso ter acontecido... depois de tudo o que você já fez... – Disse Amaess. A gata ronronou em seu colo, como que buscando fornecer algum tipo de conforto. O drow suspirou.

– Por quanto tempo você pretende se lamentar por algo que não pode ser alterado? Não importa o quanto eu me arrependa ou o quanto você chore, o que aconteceu no passado não tem como — O outro jovem interrompeu, irritado.

– Não se trata de mudar o passado! Será que você não entende que eu simplesmente não tenho razões para confiar em você?! – Exclamou. A gata pulou de seu colo, assustada. – Que eu... não consigo perdoar tudo o que você disse e fez?! O quanto você me torturou e... e... – O garoto não conseguiu terminar. Pensar no que havia acontecido era doloroso demais. Quarfein permaneceu sem saber o que fazer, mas após alguns segundos apenas emitiu um suspiro — estava frustrado consigo mesmo por não conseguir se afastar de Amaess.

– O quanto eu me arrependo... não conta? – Perguntou, sentindo raiva de si mesmo enquanto o outro chorava, sem ter quem o amparasse. Sabia que Amaess o temia e mal suportava a idéia de ser tocado por suas mãos, mas não conseguiu se deter.

O elfo se sobressaltou quando sentiu os braços fortes do outro jovem envolvendo seus ombros, puxando-o para si. Pôde sentir a respiração do outro em seu rosto, e sabia que Quarfein estava com os lábios perigosamente próximos dos seus. Os dedos do rapaz deslizaram pelo rosto de Amaess, colhendo uma lágrima.

– A dor que eu sinto toda vez que vejo você chorar... que eu sentia mesmo antes de descobrir o que realmente sinto por você... não conta como uma razão? – Disse o drow. Amaess manteve os olhos fortemente fechados, tremendo, esperando o momento em que o outro o machucaria novamente, provando que nada havia mudado. – Ao menos olhe para mim enquanto eu falo com você... – Falou. O elfo abriu os olhos devagar, tentando conter os tremores que percorriam seu corpo. – O fato de que você é a única pessoa que eu amei, e ainda amo, em toda a minha vida... não conta? – Disse Quarfein, olhando fixamente nos olhos azuis do garoto. Amaess se encolheu, observando os olhos vermelhos do outro... olhos cor de sangue, que não mais o olhavam com maldade ou o devoravam com malícia... para o elfo, aquele olhar vindo do outro jovem era algo completamente irreal, de forma que o garoto não sabia como reagir.

– Eu não acredito. O que você fez é imperdoável!– Falou, mantendo a postura defensiva. – E você sequer sabe o que é amor!

Quarfein permaneceu em silêncio por alguns instantes — não queria concordar que o que havia feito era imperdoável, e não havia escolhido não saber o que era amor — e queria saber do que se tratava aquele sentimento, queria poder consertar o que havia feito. Queria, apesar de tudo, que Amaess pudesse ser feliz ao seu lado.

– Então me ensine. – Respondeu, afastando os fios dourados que caiam sobre o rosto delicado do elfo. Não obteve uma resposta — Amaess apenas se afastou, enxugando os olhos enquanto a gata miava, encolhida no canto do quarto.

– Eu preciso pegar um pouco de leite. – Disse, indo até a porta. Quarfein o segurou pelo pulso, e o elfo sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

– Leve um casaco. – Falou Quarfein, enquanto entregava o dinheiro equivalente ao preço de uma garrafa de leite. – Especialmente porque você já está correndo risco de adoecer.

Amaess pegou o casaco e saiu do quarto correndo, parando apenas no balcão para perguntar como chegar à mercearia mais próxima. Estava confuso demais devido ao que acabara de acontecer, e precisava colocar seus pensamentos em ordem — por mais que aquela cidade o deixasse ainda mais desorientado.

"Eu não acredito... não... ele... eu tinha certeza de que ele estava mentindo... mas aquele olhar... ele... ele estava arrependido de verdade..." Pensou, enquanto comprava uma garrafa de leite e um pires. "Mas ainda assim... ainda assim as coisas que ele fez... eu não posso perdoar as coisas horríveis que ele fez... eu não sei mais..."
– Amaess?– O elfo saiu de seu pensamento ao ouvir uma voz familiar. Se virou, deparando-se com Nádia. A garota olhou em volta, a procura de Quarfein, mas não viu nenhum sinal do drow. – Ah... – Disse. – Aconteceu algo? Eu... tenho algumas notícias da sua irmã... – Falou. O garoto não se deteve.

– Como ela está?– Perguntou. – Com quem ela está? Onde? – Perguntou, segurando Nádia pelo ombro.

– Ela está com a irmã de Alvina, na casa dela... e preocupada com você... – Disse. – Eu e Vina também ficamos, depois que você saiu da estalagem, pensamos que tínhamos te perdido... mas... bem, como você está?

– E-eu... estou bem... – Mentiu. Não estava nada bem. Estava confuso e desorientado, se sentindo em um labirinto que parecia sem saída. Nádia suspirou, entregando um bilhete ao elfo.

– Não precisa mentir para mim, Amaess. Sua irmã me pediu para te entregar isso. Ela está se sentindo culpada. – Falou, com um olhar triste. – Seja lá o que estiver acontecendo Amaess, ela precisa de você. – Disse.

Ficar livre de Quarfein e junto de sua irmã era o que Amaess mais queria, mas ainda assim... ainda assim o garoto já não conseguia confiar nas pessoas como antes — ainda que confiasse o bastante em Nádia. Estava com medo, não da garota, mas do que o drow faria caso fugisse novamente.

Medo de que ele ferisse Nádia ou Claitae... ou as duas...medo de que ele as matasse. Tinha medo de encarar essas possibilidades, e de ter de carregar sozinho a suposta culpa por elas. Se afastou.

– E-eu... não posso... não hoje... – Falou. – Ele sabe... sobre você e Vina... irá atrás de vocês se eu sumir... – Disse.

– Não é... – Amaess interrompeu a garota.

– Eu tenho de ir. – Disse, voltando para a estalagem na qual estava com o drow.

~*~

Quarfein sentou-se na cama, observando o horizonte. O Sol começava a se pôr, de forma que o drow começou a ficar preocupado com Amaess e a se arrepender de ter deixado o garoto sair sozinho naquela cidade tão decadente. Pensava se deveria ir atrás dele, temendo o fato de que o jovem tivesse sido alvo de algum criminoso ou se perdido. Estava tão absorto em sua preocupação e em ignorar os miados do filhote de gato que mal notou quando a porta se abriu e Amaess entrou com a cabeça abaixada.

– Isso são horas?! – Perguntou o drow. – Você saiu para comprar leite, não para ordenhar uma vaca!

– Desculpe... – Respondeu o garoto, enquanto tirava o casaco. – Eu... fiquei com medo de passar em certas ruas, e demorei um pouco mais buscando caminhos alternativos... – Disse, depositando o pires no chão e enchendo-o de leite. O gato não fez cerimônias para beber, ao que Amaess se voltou para o outro rapaz. – Mi-

O jovem interrompeu.

– Não precisa mais me chamar assim. – Falou. – Eu... quero...

– Eu já entendi. – Disse o elfo, mantendo os olhos fixos no chão. – Mas... você disse que quer que eu lhe dê uma semana... está bem, até porque eu não tenho muita escolha... mas, se vamos ficar apenas três dias aqui... onde passaremos os outro quatro? – Perguntou.

– Onde você quiser. – Respondeu Quarfein, indo em direção ao garoto. Amaess fechou os olhos, tentando fingir que estava diante de outra pessoa... de Erdan... de seu querido, e agora fora de seu alcance, Erdan.

O drow tocou o queixo do garoto com a ponta dos dedos, puxando o rosto do mesmo para si devagar e com calma, como se estivesse tocando algo de porcelana, que pudesse quebrar a qualquer instante. Aproximou seu rosto do de Amaess, levemente beijando-lhe os lábios. O elfo se encolheu quando sentiu a língua do outro tentando entrar em sua boca, e Quarfein apenas agarrou um punhado de fios dourados, puxando-os de leve para trás.

A ilusão de Amaess de que estava diante de Erdan ruiu naquele instante. O garoto tentou afastar o drow, mas Quarfein simplesmente segurou-lhe a cintura com mais força, pressionando-o contra si. O elfo estremeceu ao sentir a língua do outro jovem procurando pela sua, aos poucos perdendo o ar. Quarfein carinhosamente deslizou as mãos pelos fios dourados do garoto, descendo até perto do quadril, afastando os lábios ao notar que o outro estava ficando sem fôlego. Sorriu ao ver a vermelhidão no rosto de Amaess, e a forma como garoto abria os olhos devagar.

– É exatamente como eu me lembro... – Disse o drow, pressionando Amaess contra a parede. – Irritantemente doce como o mel, e macio como uma flor banhada pelo orvalho da manhã... irritantemente perfeito...

O garoto abaixou o olhar, desviando o rosto, e sentiu uma das mãos de Quarfein deslizando por uma de suas bochechas. O rapaz deslizou a outra mão pelas costas do elfo, subindo até a nuca, fazendo com que Amaess estremecesse.

– Está com medo? – Perguntou o drow, ao que o jovem apenas segurou-lhe os braços.

– Eu não posso... – Respondeu Amaess, afastando-o. – N-não consigo... Eu não quero... por favor...

Quarfein se afastou, limitando-se a segurar as mãos do garoto. Não conseguiu conter um sorriso sarcástico e amargo — era realmente estúpido e injusto tentar conquistar Amaess, mesmo depois do que fizera... mas ainda assim, considerava-se tolo o suficiente para insistir.

– O que foi? – Perguntou o elfo. Quarfein hesitou quanto a contar a verdade, mas optou por fazê-lo.

– Eu... nunca agi assim com ninguém antes... é patético, mas... eu não sei o que fazer... – Respondeu o outro jovem. – Quando estou com você eu simplesmente... não consigo pensar em mais nada...

Amaess corou, desviando o olhar, mas o drow levemente segurou o rosto do garoto de frente para o seu.

– Amaess... eu... eu sei que você não acredita nisso, mas eu te amo... eu me arrependo a cada segundo das coisas que eu fiz, eu sinto raiva de mim mesmo por ter te ferido... e por mais que eu ache isso ridículo... e injusto, eu não posso... eu não quero escapar desse sentimento que me prende a você... – Disse, com os olhos rubis fixos nas orbes azuis do elfo. Amaess estremeceu, sentindo o rapaz acariciar-lhe o rosto. "Por mais que eu não mereça ficar ao seu lado... ainda assim... ainda assim eu quero tanto...".

– Dói... – Falou o garoto, tentando conter o choro. – Tudo o que você fez... dói tanto... eu... só de lembrar...

– Amaess... – Disse Quarfein, levemente pressionando o rosto do garoto contra seu peito. – Eu... eu queria tanto... poder mandar sua dor embora... eu queria poder voltar no tempo e nunca ter feito tudo aquilo...

O drow ouviu um soluço, e se sentou, puxando Amaess para seu colo. "Então essa é a pior das fraquezas? É tão doce... realmente, ela traz consigo todas as outras... mas acho que não é isso que faz dela a pior..." Pensou, acariciando os cabelos do garoto. "O que faz dela a pior é o fato... de que você não consegue odiar ela..."
Quarfein deu um leve sorriso, secando uma das lágrimas que escorriam pelo rosto do elfo. Estava longe do que conhecia, se afastando cada vez mais do que acreditava ser certo... já não possuía mais poder sobre outros drows — algo tão valorizado em sua sociedade — tampouco possuía mais status, e muito menos para onde ir, mas tirando a sensação de culpa se sentia bem... se sentia estranhamente bem, e praticamente satisfeito...

– Amaess... – Disse, aproximando seu rosto do pescoço do outro garoto. Amaess estremeceu quando sentiu o rosto do outro jovem pressionado contra o seu. Quarfein deslizou as mãos pelos longos fios dourados do elfo, esperando pacientemente que ele se acalmasse. Demorou, mas logo o drow sentiu que Amaess havia parado de tremer. – Você se sente melhor?

O garoto confirmou com um menear de cabeça. Quarfein sorriu, beijando-lhe o rosto.

– Precisa chorar menos... você pode acabar desidratando... – Brincou, tentando falhamente deixar o ambiente mais leve. – E... não vale a pena chorar pelo que não pode ser mudado... e ficar se prendendo ao passado...

– Você fala isso o tempo todo... – Disse Amaess, secando os olhos. – É quase como se estivesse dizendo para você mesmo...

– Não posso dizer que de certa forma isso é verdade... – Admitiu o drow. – Eu não me perdoaria... se fosse pelo passado... pelo que eu fiz com você... — "Na verdade eu não me perdôo... e não me perdoarei a menos que você o faça... mas eu preciso... dizer o que for para que você possa seguir em frente...".

O elfo abaixou o olhar, mas Quarfein ergueu-lhe o rosto, acariciando-lhe o queixo.

– Mas... não vamos perder nosso tempo com isso. – Disse o rapaz, trazendo o rosto de Amaess para perto do seu, porém o garoto desviou o olhar. – Amaess...

– Eu não... não posso... – Falou o elfo. Quarfein suspirou, se perguntando se havia de fato alguma forma de reparar as conseqüências de suas ações. Estava claro o quanto elas haviam machucado Amaess, e o quanto haviam deixado suas cicatrizes na mente do garoto — elas praticamente o haviam destruído, o despedaçado, e Quarfein se perguntava se conseguiria colocar todos os pedaços de volta no lugar. O rapaz mordeu os lábios, observando o elfo manter os olhos fixos no chão.

– Amaess... – Disse o drow. "Que droga... eu... definitivamente não sei como fazer isso..." Pensou, deslizando suas mãos para perto das de Amaess. O garoto se sobressaltou ao sentir os dedos de Quarfein entrelaçando os seus. "Eu nunca... ah, deuses... como foi que chegamos aqui?" Pensou o drow, trazendo uma das mãos do garoto para perto de seu rosto.

Era difícil para Quarfein pensar no quanto tudo havia mudado em tão pouco tempo, e chegando a essa conclusão, o rapaz pensou no quão mais difícil deveria estar sendo para Amaess. Não sabia quando as coisas haviam mudado daquela forma, nem como, mas estranhamente não se importava com isso. O drow pressionou os lábios contra as costas da mão do garoto, deixando seu polegar deslizar pela região. Amaess corou, surpreso.

– Eu prometo... que vai ficar tudo bem... – Disse o drow. – E... eu vou manter essa promessa...

O silêncio novamente imperou, preenchido por dúvidas e incertezas, por insegurança. Por medo.
"Eu sei que ele está verdadeiramente arrependido... ou pelo menos parece estar... mas mesmo se esse arrependimento for verdadeiro, eu não posso perdoá-lo... não depois do que ele fez... de todas as coisas horríveis que ele fez..." Pensou Amaess. "Eu... não quero perdoar o que ele fez, mas... eu não sei mais o que fazer... é como se eu não conseguisse raciocinar direito... eu..."
– Eu preciso ficar sozinho por um tempo... – Disse o garoto, com a voz baixa. Quarfein suspirou, se perguntando até onde deveria ir para remediar suas ações — por mais que o que sentisse por Amaess fosse algo forte, a influência de seu orgulho também o era. Não sabia como reagir caso o garoto decidisse nunca mais perdoá-lo, se o rejeitasse para sempre. Pensar nisso simplesmente o deixava reticente.

– Está bem... – Disse. – Eu vou tomar um banho...

Amaess esperou Quarfein sair do quarto, para então se debruçar sobre a janela, olhando fixamente para o céu. Quase não haviam estrelas naquela noite, e a neve caía como pequenos flocos de algodão.

"Eu não posso ficar sem me decidir..." Pensou, observando o pequeno floco branco que havia caído em sua mão. "Eu preciso tomar uma decisão... mas eu não sei mais o que pensar... eu não posso ficar nessa indecisão para sempre..." Disse para si mesmo, enquanto observava o pequeno floco de neve derreter.

"Tudo o que aconteceu... tudo o que foi feito e dito... eu não posso simplesmente enterrar... não posso simplesmente ignorar... mas ao mesmo tempo... eu não quero passar o resto da minha vida com medo de confiar nas pessoas... com medo de..." O elfo suspirou, cruzando os braços. "O que eu faço? Se eu disser o que... não, eu não posso confiar nele... por mais que pareça real, eu não quero confiar em algo que possa ser uma ilusão... e se eu disser que não?" Analisou, levando uma das mãos à região do pescoço onde antes ficava a coleira. "Tenho medo de imaginar... se eu fugir..." Amaess sacudiu a cabeça em uma negativa muda. "Fugir para onde? E... fugir vai resolver algo?". Suspirou. "Está bem..." Disse para si mesmo. "Minha vida parece ser um brinquedo para a sorte... o que ele está fazendo, se tratando ou não um jogo, eu não tenho alternativas... a não ser esperar que ele se canse de brincar e diga logo a verdade, como sempre..." Concluiu. Aquilo não iria ser fácil. O som da porta se abrindo o tirou de seus pensamentos, e o elfo se sobressaltou quando Quarfein foi para o quarto apenas com uma toalha enrolada na cintura.

Notas finais
Pessoas que deixam reviews são muito amor ♥