Hate Everything About You
15 Tempestade - Parte II - Verdades e conseqüências
Notas iniciais
O título dessa parte era, originalmente, "confissão", mas aí ele englobaria ~na minha opinião~ somente o primeiro pedaço, deixando o capítulo muito pequeno... oras, quando se confessa algo, é uma verdade... e toda confissão produz uma conseqüência, daí a ideia do trocadilho ~infame, eu sei~ mas enfim, vamos ao que interessa, aos finalmentes (ou não) (ou sim) (quem sabe?)
Quarfein hesitou quanto ao que estava prestes a fazer — seu orgulho não queria permitir que o fizesse — mas de alguma forma o que sentia era mais forte. O drow estava encurralado pelos seus próprios sentimentos, e odiava o fato de que não havia nada que pudesse fazer contra isso ou contra a umidade que se acumulava em seus olhos.
Amaess abriu a boca para dizer algo, mas Quarfein não permitiu que o fizesse, tomando-lhe os lábios com um beijo. O ar faltou aos pulmões do garoto quando ele sentiu os braços fortes do drow envolvendo sua cintura, assim como a reação lhe faltou enquanto as mãos do mesmo deslizavam por seus cabelos.
Quarfein se afastou, observando a expressão surpresa no rosto do elfo. Jamais imaginara que algum dia fosse dizer aquelas palavras por vontade própria, quem dirá de forma sincera... mas nesse momento, era tudo o que queria dizer. E naquele momento, tudo o que queria era poder voltar no tempo e nunca ter ferido a pessoa a qual elas eram dirigidas.
- Me perdoe...- Disse, abraçando o garoto de forma protetora. Antes que Amaess pudesse dizer algo, o drow prosseguiu. - Eu sei que não posso esperar que faça isso, mas mesmo assim eu preciso lhe pedir... por favor me perdoe... — Falou, sem que o elfo proferisse uma palavra. O silêncio reinou entre os dois, sem que houvessem palavras que ameaçassem sua soberania. Amaess não sabia como reagir — aquilo lhe parecia completamente fora de realidade. O drow beijou o rosto do garoto, tentando encontrar as palavras certas — aquilo também estava fora de sua realidade, estava fora do que considerava normal... mas ainda assim... não conseguia sentir vontade de lutar contra aquilo, não conseguia mais sufocar aquele estranho sentimento dentro de si. Não conseguia mais se ver sem Amaess.
- Eu... te odeio... - Falou. - Odeio o fato de que não consigo mais imaginar a minha vida sem você... odeio a forma como me tornei incapaz de deixar você ir por te querer ao meu lado... eu odeio o fato de que... - Quarfein permaneceu em silêncio. Tentara, de fato, até o último segundo lutar contra o que começara a sentir por Amaess, mas fora em vão. - Odeio o fato de que eu não sabia o que era amor até te encontrar... droga! Eu não queria! Não era para eu amar você! - Confessou, deixando o garoto estático, sem ter o que falar por alguns instantes.
- Está mentindo... as coisas que você fez... você jamais teria feito se - Amaess começou a dizer, entre lágrimas, mas o outro jovem o silenciou.
- Se eu não tivesse tentado até o último segundo continuar te desprezando... me recusando a me permitir gostar de você... sim, no começo eu não me arrependia nenhum pouco... eu gostava de te atormentar... mas... - Quarfein engoliu em seco. Aquilo era diferente demais. Era desconhecido demais, e o fazia se sentir vulnerável demais. Odiava aquilo, mas não sentia vontade de lutar contra aquela "derrota". - Mas eu não sei quando... nem como... eu deixei de gostar... eu tentei negar para mim mesmo o que estava acontecendo, mas quando eu me dei conta... já não tinha mais volta... eu já estava te amando... se você soubesse Amaess, o quanto eu queria poder voltar no tempo... ou o quanto eu me odeio por estar dizendo estas palavras... - Falou. - Eu... você é a minha maior fraqueza Amaess...
- Por favor pare... - Disse o garoto, cobrindo os ouvidos. - Pare de mentir! Ao menos não finja se importar! Por favor!
- Eu não estou mentindo...- Disse Quarfein, segurando o rosto do elfo virado para o seu. - Isso tudo é... patético não é? - Falou, secando uma lágrima que escorria dos olhos do outro jovem, a despeito de que seus próprios olhos estavam úmidos — aquilo, em sua visão era ridículo. Amaess deu alguns passos para trás.
- Você quer que eu acredite... depois de tudo o que você fez?! - Exclamou. - O que vai fazer se eu acreditar nessa mentira? Me drogar? Ou talvez você prefira me embebedar, não é — Quarfein puxou o elfo para si, prensando-o contra a parede mais próxima, fazendo com que o medo invadisse o corpo do garoto.
- Eu nunca precisei te embebedar para fazer qualquer coisa que fosse contra a sua vontade caso você não se lembre. - Sussurrou no ouvido do elfo. Amaess se encolheu — de novo havia se colocado em uma situação difícil por falar o que não devia. As mãos do drow correram pelo rosto do garoto, que mantinha os olhos fechados. - Mas eu não quero isso. Eu quero... - Quarfein recuou, desviando o olhar: aquilo era simplesmente estúpido demais em sua opinião, e só de pensar em dizer o que tinha mente suas bochechas chegavam a corar, tão idiota aquilo lhe parecia. - Droga, é estupidez demais... eu não quero ter que falar isso! - Falou, esmurrando a parede ao lado do garoto. - Não me obrigue a dizer algo tão ridículo! - Disse. Amaess o empurrou.
- Não te obrigar?! Por que?! Você não é o único que não gosta de fazer coisas contrárias a sua vontade, caso você não saiba! - Gritou o garoto. — Mas você não sabe, não é?! Você sempre pensou apenas em você! Se o que diz é verdade, por favor saia da minha vida! - Exclamou, dando as costas para o drow e saindo da pousada, correndo sem se importar para onde ia.
Quarfein pensou em segui-lo, no entanto, reconsiderou — o seguiria e o que faria a seguir? O prenderia novamente em uma coleira? Odiava cada vez mais o fato de que não sabia lidar com aquela fraqueza irritante, aquele sentimento tão doce que chegava a ser detestável, aquela preocupação irracional e aquela culpa esmagadora. Odiava cada vez mais aquele sentimento amável e sem sentido. Apenas permaneceu parado alguns instantes, observando a rua suja e movimentada — agora não o veria mais. Agora estava livre dele, e poderia retornar para sua vida normal. Sua vida em busca de se manter vivo, sem confiar em ninguém e sem se importar com os outros. À vida desprovida de preocupações fúteis como aquela, a vida a qual estava acostumado. Voltou para a estalagem onde estava, sem se importar com a melancolia que havia caído sobre si.
"Esqueça." Pensou. "É melhor assim... dessa forma, você está livre dessa tolice...".
~*~
Amaess sabia que estava perdido, mas não se importava — considerava que já estava perdido antes mesmo de ter saído daquela estalagem — estava perdido desde que se... céus, não queria pensar naquilo — no tamanho da estupidez que fizera, da sandice que fora simplesmente se submeter as vontades do drow para que sua irmã pudesse continuar vivendo, sem pensar em como continuaria vivendo. Olhou para trás, constatando que não havia sido seguido, e que caso houvesse o drow provavelmente o perdera de vista em meio à uma das várias ruelas que fedia a tabaco e álcool. Encostou as costas na parede e se sentou, devagar. Observou as primeiras nuvens de neve se acumulando no céu — o inverno havia, de fato, chegado.
"Uma semana..." Pensou, constatando com base no que sabia que, naquele dia fatídico, faltava cerca de uma semana (talvez alguns dias para mais ou para menos) para a chegada da estação mais fria do ano. "Eu fiquei cerca de uma semana na..." Amaess afundou a cabeça entre os joelhos, se recusando a pensar naquilo. "E ainda por cima... depois de ter feito as coisas que fez... Eu não suporto... não agüento mais..." Pensou Amaess, ignorando os flocos de neve que começavam a cair. Apenas permaneceu encolhido, soluçando.
Se sobressaltou ao sentir algo deslizando próximo de sua perna, e suspirou de alívio ao olhar para o lado e ver um gato de rua ronronando. Ao notar o tamanho do animal e o fato de que ele não temia pessoas, constatou que se tratava de um filhote — não sabia ao certo como havia acabado sozinho ali, mas estava ali.
- No final estamos na mesma situação, não é? - Pensou, aconchegando o animalzinho em seu colo, e acariciando-lhe a testa. - Sozinhos, sem ninguém familiar por perto... bom, pelo menos você ainda não passou... - O elfo se deteve. Queria esquecer o que havia acontecido — havia escapado, estava livre daquele tormento diário — aquilo seria apenas algo distante, algo remoto, talvez um pesadelo do qual acabara de acordar, não importava — apenas manteria o que se referisse àquela memória longe.
Um miado o tirou dos seus pensamentos.
- Verdade... está mesmo frio. - Falou, ignorando os flocos de neve que começavam a se acumular sobre seus ombros. - Vamos procurar um lugar para ficar...
~*~
Quarfein entrou no quarto de hotel, se deitando na cama. Se sentou, olhando à sua volta e suspirando — aquele quarto parecia vazio sem Amaess, e o desconforto que a ausência do garoto lhe causava era incômodo.
"Esqueça-o." Pensou, olhando para a cômoda e notando um vaso de flores. Aquele cheiro floral, doce como...
"Droga! Não é importante para você! Não é!" Exclamou, se levantando e vestindo um casaco — ficar ali estava se tornando quase insuportável. Só então parou, constatando que todos os agasalhos que havia comprado, sem exceção, estavam ali. "Aquele idiota..." Pensou. "Sair correndo sem rumo, em plena chegada do inverno, apenas com a roupa do corpo... só falta tentar morrer de hipotermia!" Pensou, antes de se repreender pela preocupação e voltar a ir na direção do estábulo. "Bem o problema é..."
Parou, observando um dos cavalos, e logo se lembrou do que acontecera de manhã, quando parara para alugar um quarto naquela estalagem. Se lembrou do sorriso de Amaess quando se afastara, deixando-o sozinho com os animais... daquele sorriso tão meigo e inocente — um sorriso que nunca mais veria.
"Você é um idiota." Disse para si mesmo. "Se importando com coisas tão pequenas e insignificantes..." .
~*~
As ruas estavam praticamente vazias devido ao frio, que havia aumentado progressivamente nos últimos dias. Amaess tentava seguir em frente, pressionando o gato contra si. Entrava em um estabelecimento ou outro, mas saía sempre que um estranho se aproximava — as experiências que tivera com estranhos naquele local não o deixavam confiar em alguém. Exausto e com frio, se sentou em uma das várias calçadas.
- Nós vamos achar um lugar... - Disse, aninhando o gato. - Nós vamos... - Falou, tremendo de frio. "Eu devia ter trago um agasalho..." Pensou, se encolhendo. O animou saltou de seu colo, miando. - Está com fome? Eu não trouxe nada de comer também... - Falou. O gato miou de novo e saiu correndo em meio à rua. - Ei! - Exclamou Amaess, seguindo o animal. Só o alcançou perto de um açougue, mas estremeceu ao ver que não o havia alcançado a tempo de evitar problemas.
- Esse gato é seu?- Perguntou uma humana, segurando o gato no ar. Mas aquele não era o problema — o problema era que o filhote de gato havia, simplesmente, abocanhado um dos peixes.
- É... - Falou, já temendo o que viria a seguir.
- O valor do peixe- A mulher se deteve, observando Amaess de cima a baixo. O garoto deu um passo para trás. - Ah, você não tem dinheiro, não é? - Falou.
- E-eu- Amaess se viu interrompido.
- Nesse caso não precisa pagar. Já deve estar tendo problemas demais nesse inverno. - Falou, entregando o gato para o elfo. Amaess se sentiu constrangido e desconfiou um pouco, mas a mulher prosseguiu. - Considere... que ele apenas pegou do meio dos peixes velhos. - Disse, sorrindo.
- Obrigado... - Falou. - Eu irei...
O elfo se viu interrompido por uma discussão vinda do segundo andar da estrutura.
-Mãe, a Cassandra está mexendo nas minhas coisas! - Queixou-se uma voz grossa. Amaess achou a situação no mínimo estranha.
- Cala a boca, Sarod! Nada disso estaria acontecendo se você tivesse tomado conta do seu gato e não deixado ele desfiar a maior parte dos meus vestidos! - Exclamou a garota.
- Até mesmo porque o gato do meu filho também tem essa mania. - Disse a mulher, rindo. Amaess esboçou um sorriso leve, mas se mantinha desconfiado — depois de tudo o que passara, sua inocência havia ficado irremediavelmente marcada. A mulher se afastou, e Amaess se voltou para a rua, mas se deteve — para onde iria? Não podia voltar para casa... porque não tinha mais uma casa. Tudo e todos que conhecia estavam fora de seu alcance... para sempre. A voz de Quarfein ecoou em sua mente.
"A verdade de que você não tem para onde ir dói tanto assim?"
Sentia-se como se estivesse caindo em um poço sem fim, sem fundo, em uma escuridão dolorosa e infinita... sentia-se caindo em um abismo. Talvez... talvez a morte fosse a melhor saída no fim das contas... talvez se apenas se sentasse na calçada e deixasse o frio do inverno fazer o resto.
Morrer, ainda que de forma triste e solitária, lhe soava infinitamente melhor do que se deixar engolir pela escuridão que parecia querer destruir-lhe a alma. Foi quando ouviu uma voz atrás de si.
- Garoto... você está bem?
Era a dona do açougue. De novo. Amaess se voltou para ela.
- Eu... - O elfo não terminou de falar.
- Está realmente frio. Se quiser, pode entrar um pouco para se aquecer. Minha filha pode fazer uma bebida quente, e acho que tem uns casacos de quando Sarod era menor que irão caber em você... pode ficar com eles se quiser, inclusive. - Disse a mulher.
Amaess permaneceu em silêncio — estava em um estado tão deplorável assim? Se bem que, estando ou não, estava mesmo em condições de recusar algum favor?
Mas... e se aquela mulher fosse como Belinda? Conseguiria se defender? Estremeceu, sem saber se devido ao frio ou se devido à possibilidade. Por fim, acabou optando por terminar logo aquele caos.
- Eu estou bem... - Mentiu. - Obrigado.
Seguiu na direção oposta à da peixaria. Dessa vez, ninguém o impediria de deixar aquela sensação de angústia.
Notas finais
Toda vez que alguém deixa uma review eu fico MUITO feliz com isso, deixa meu coração super quentinho, e eu corro para minhas colegas de faculdades que também apreciam a arte das fanfics para contar toda feliz que alguém deixou uma review ♥
Sim, eu leio todas elas, e sim, eu fico saltitando pela casa quando vejo que tem review nova :3
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