Hate At First Sight
13 Starbucks
Notas iniciais
Depois de muita insistência (tapas, socos, mordidas e algumas hemorragias internas) Troy Austin devolveu meu sutiã e foi embora com seu sorriso debochado e sua perna mancando, alegando que eu tinha um grande dom para ser vampira ou lutadora de MMA.
Eu estava finalmente sozinha deitada na minha cama. Aquela era uma sensação tão boa! Podem me chamar de excluída, podem me chamar de forever alone, mas não podem me chamar de... Do que não podem me chamar? Chamem-me do que vocês quiserem. É minha mãe que paga minhas contas!
Isso fez com que algo mexesse na minha cabeça. Algo que não era exatamente um piolho, mas um verdadeiro parasita, uma lembrança. Temos que comemorar, por que não é sempre que minha memória dá sinal de vida.
Tirei do bolso da calça a carta que minha mãe havia me escrito e á li novamente quatro vezes, mas só uma parte teve a minha total atenção, parte que eu havia ignorado da primeira vez. Assim como se ignora folhetos de propaganda de comida chinesa.
Você continua sendo meu bebê de seis aninhos e é óbvio que você não tem capacidade suficiente de arrumar um emprego e se sustentar sozinha. Então, sua mesada será depositada na sua conta normalmente.
Ouvi uma voz dentro de mim me perguntando que tipo de garota eu era sendo sustentada pelos pais com essa idade e outra voz lembrou-me de que de acordo com a minha mãe eu não tinha capacidade suficiente de arrumar um emprego e ser independente financeiramente.
Como eu era filha da puta! Que moral eu tinha? Meus pais me consideram tão inútil quanto uma menininha de seis anos de idade, que o máximo que sabe fazer é reclamar que não tem pizza para o jantar ou que não ganhou um pônei no dia das crianças.
Uma sensação estranha atacou o meu corpo, uma coisa ruim e desconhecida. Era entre vergonha e falta de dignidade. Eu nunca tinha sentido nada parecido. Uma espécie de raiva de mim mesmo, não podia colocar a culpa em ninguém, como normalmente fazia. Apenas queria provar que eu tinha capacidade de arrumar um emprego...
Nada estava errado dentro de mim, só estava diferente, tão diferente que tomei uma atitude impulsiva. Queria de qualquer jeito esfregar na cara dos meus pais que eu não precisava do dinheiro deles.
Peguei um celular que estava jogado em cima da cama, provavelmente comprado pelo meu pai e disquei o número de Logan.
A cada vez que tocava eu pensava na possibilidade de desligar e fingir que foi puro engano, estava surpresa com a minha disposição em mostrar para a minha mãe que podia conseguir qualquer coisa que ela duvidasse, bem, nem todas as coisas.
No quarto toque eu já estava desistindo quando uma voz conhecida atendeu.
– Alô? Amandazinha é você? – Eu tenho que admitir que quase senti saudades daquele bobão, eu disse quase.
– Logan! Eu preciso da sua ajuda! – Disse normalmente. Não éramos irmãos melosos e nunca vamos ficar falando coisas como “Sinto sua falta, maninho. Você é tão importante pra mim. Como vai você?”.
– Como está aí em Nova York? Só acho que você se esqueceu de me contar. – Fazer graça era tão característico de Logan.
– Um inferno! Feliz? Mas então eu...
– Sim. Agora eu estou muito feliz! – Pude ouvir uma grande gargalhada pelo celular.
– Se você continuar me interrompendo eu juro que arranco as suas amídalas de graça, só não tem anestesia, mas isso é o de menos. – Senti a ironia exalando da minha pessoa ao balbuciar aquelas palavras.
– Fala logo então. – Logan disse entediado.
– Eu preciso de um emprego. Não quero ficar dependendo de papai e mamãe, não depois que eles tacaram na minha cara que eu sou uma inútil.
– Você quer um emprego? – Ouvi um engasgo e uma crise de asma logo em seguida, por cerca de dois minutos a ligação ficou muda e cogitei a possibilidade de ligar para a ambulância, mas depois de lembrar o telefone do pronto socorro ele voltou a falar. – Eles te chamaram de inútil, mesmo?
– Sim, quer dizer, quase. Mas diga logo! Aonde eu posso arrumar um emprego?
– E por que eu saberia? Estou com cara de tiozinho de informações, por acaso?
– Logan! – Gritei impaciente. Ele devia se preocupar comigo, já que eu não ligaria pra ele se fosse algo tolo.
– Você tem certeza que está preparada para arranjar um emprego? – Perguntou lentamente com a voz ficando um pouco rouca.
– Isso é questão de dignidade! No começo vai ser difícil, só que eu preciso mostrar para eles que eu consigo. Entende?
– Não, não entendo. Se você está dizendo... Eu tenho uma ex-namorada que é trabalha em um StarBucks aí em Nova York.
– Uma ex-namorada? – Perguntei com descrença.
– Sim. E agora somos apenas amigos.
– Amigos? – Perguntei com o meu tom de desconfiança. Se estivéssemos nos falando pessoalmente ele poderia ver minhas sobrancelhas se arqueando em descrença também, como se fosse um brinde pela mentira mal contada.
– Okay. Às vezes eu dou uns pegas nela! — Logan falou se rendendo.
– Agora está explicado. Só me responda uma coisa. StarBucks é o nome daquela empresa grande de astronomia que ajuda a compor satélites ou Starbucks é uma cafeteria?
– Uma cafeteria, Amanda. – Ele respondeu em meio a gargalhadas. — Deixa de ser boba! Por que você acha que eu namoraria alguém que trabalhasse nisso? Se brigássemos, ela me levaria para o espaço, e não no modo romântico, óbvio!
Revirei os olhos. Mesmo por celular eu conseguia imaginar Logan conversando comigo escorado na cama boiando como sempre.
– Mas uma cafeteria? – Eu perguntei um pouco decepcionada.
– Sim. Qual o problema? Acha que não consegue trabalhar no Starbucks? Acha que não tem capacidade suficiente para isso?
– Tudo bem, só é por um tempo mesmo. Vai ser mole trabalhar aí! – Eu posso ter dito isso, mas não confiava em minhas próprias palavras.
– Eu vou ligar para a Julia hoje. E te ligo quando tiver respostas. Calma! Não está nada certo ainda.
– Okay! Valeu. Tchau!
– Tchau Amandazinha!
Fiquei um pouco impressionada por ter falado uma espécie de obrigado para Logan, será que eu estava evoluindo?
Depois que a afobação passou percebi na encrenca que havia me metido. Trabalhar em uma Cafeteria significava falar com pessoas estranhas. Na verdade eu sempre falei com pessoas estranhas na minha família e até mesmo Troy, mas nunca fui de conversar com pessoas que eu não conhecia direito.
O problema é que não dá para voltar atrás, á essa hora Logan já deve ter esticado a língua e contado para a casa inteira que eu estava procurando trabalho e que eu queria-me ver longe deles em relação ao dinheiro. Se arrependimento matasse eu já estava morta, enterrada e com o Psy sapateando no meu enterro.
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