Hate At First Sight

14 Passagem para a Turquia


Notas iniciais
Boa leitura!

Seis horas da madrugada e eu estava sendo empurrada da cama, literalmente.

– Puta que te pariu! Eu quero dormir! – Gritei sentindo o chão gelado próximo do meu corpo e agarrei fortemente o cobertor que caiu junto comigo, amortecendo um pouco da queda. – Como você entrou aqui? Arrombou a porta? Se você fez isso eu juro que arrombo a sua cara! – Berrei vendo dois olhos verdes me encarararem divertidamente. Vadio!

– Na verdade, eu tenho uma cópia. Nunca se sabe quando irá precisar — Ele disse sacudindo uma chave que logo foi de volta para o bolso. — Hoje é seu primeiro dia de trabalho e eu vou te ensinar a pegar ônibus. Só que você vai ter que acordar agora, se não quiser se atrasar.

– Desde quando eu pego ônibus? – Perguntei coçando levemente os olhos com as mãos. Troy entrou em foco depois que pisquei várias vezes para ter certeza que era ele e não o coelhinho da páscoa.

– Desde que você resolveu ser uma mocinha crescida e arranjar um emprego. — Austin deu um sorriso forçado. — Não poço te dar uma carona, por que nossos trabalhos ficam muito longe um do outro. Então, já que resolveu trocar sua mesada por dignidade, vai ter que andar de ônibus.

– Droga! – Disse me levantando. Eu não sabia se estava capengando como bêbada ou como vivo morto. – Vai para a sala enquanto eu me arrumo.

– Não quer que eu faça seu café? Você toma café, não toma?

– Tomo. – Falei lentamente desconfiada. – Mas não precisa. Agora eu trabalho no Starbucks. Esqueceu? Vou enjoar de tomar café agora!

– Você tem medo que eu coloque alguma coisa no seu café? Eu sei que isso é só uma desculpa. – Troy fez uma careta dando um sorriso de lado.

– Sim! Você acertou! É só uma desculpa, não confio em você. Agora saia do meu quarto. – Fechei a cara me apoiando na parede. Tudo estava rodando um pouco. Eu tinha tido uma péssima noite de sono.

– Mas tem certeza que você não precisa de nada mesmo? – Ele disse persuasivamente. Troy tem um grande talento, há um grande futuro pra ele em vendedor de Televisão á cabo.

Em resposta, fui tacando o travesseiro nele até que ele saísse do quarto. Tenho que me lembrar de levar aquele travesseiro urgentemente para a lavanderia!

***

Eu encarava o chão do elevador enquanto ele descia. Era tão interessante como o piso branco contrastava tão bem com a sujeira marrom que havia sobre ele. A tonalidade da cor do piso e toda a filosofia que havia sobre esse assunto estavam me deixando com mais sono ainda. Não estava acostumada a acordar cedo, muito menos enfrentar um transporte público para chegar ao meu novo trabalho.

Assim que a porta do elevador abriu saí andando em passos largos, observando cada metro do térreo. Fiquei surpresa, era bem ajeitadinho. Com vários quadros de flores e bancos de madeira espalhados em cantos aleatórios. Uma das únicas coisas que eu tinha certeza é que o térreo era mais limpo que o elevador.

Fiquei imaginando que Austin deve ter dado uma corridinha bem afeminada para conseguir acompanhar os meus passos.

– Bom dia, Senhorita Miller! – Ouvi uma voz. No começo achei que seria algo do além, mas depois reparei que era só o porteiro, nada de mágico.

Ele estava em uma cabine, com o vidro blindado semifechado. O porteiro era bem acima do peso e tinha uma franja bem jovial para a sua idade de quinhentos e tantos anos.

– Bom dia! — Falei desconfiada. Ele soltou um sorriso, muito diferente do sorriso de idosos fofos que dão comida para pássaros no parque, estava mais para um sorriso de um pedófilo fofo.

Acho que Troy Austin devia ter percebido o meu constrangimento e me direcionou para o portão, me agarrando pelos ombros. Não me esquivei, acho que minha cabeça estava com mais medo do porteiro do que nojo das mãos de Austin me tocando. Ou talvez meu reflexo falhou, por que seu toque era tão leve que não percebi á ponto de me incomodar.

Assim que cruzamos a rua ele tirou as mãos de mim e colocou-as no bolso. O caminho inteiro até o ponto do ônibus foi um silêncio constrangedor.

Estranho! Eu tinha convivido muito pouco tempo com Austin, mas eu o conhecia suficientemente para saber que calar a boca não era de sua rotina. Estava claro que seus pensamentos estavam em outro lugar.

O ponto estava vazio. Era óbvio que talvez nem passasse ônibus em plenas sete horas da madrugada. Eu estava enganada! Parece que estar errada é a coisa mais certa que eu sabia que era errada. Por favor, essa frase é bonita, mas nem eu entendi.

Logo depois do meu pensamento que não passava ônibus naquele horário, um ônibus branco parou abrindo a porta. Tenho certeza que aquilo foi pirraça, só para me contrariar. Não é possível! Até os ônibus estão contra mim?

Um motorista depressivo nos encarou com tristeza. Eu o entendo, é terrível acordar cedo. O mundo não teria depressão se todos acordassem ás duas da tarde. Por que os psicólogos nunca pensaram nisso? Por que eles também acordam cedo e são depressivos!

– Vamos! Entra logo, Mandy! Que garota lerda! – Troy AUstin me empurrou brutalmente me fazendo subir as escadas daquele negócio com um pouco de medo. Eu nunca havia chegado tão perto de um ônibus, imagina andar em um.

Não pude deixar de comparar a propaganda do governo sobre o transporte público com a propaganda da vida real. A televisão mostrava todas as pessoas sentadas confortavelmente dentro do ônibus cantando “João roubou pão” alegremente. Voltando para a realidade era mais o transporte para o inferno, todos que estavam lá tinham cara de torturados, eu acho que eu também estava assim.

Havia pessoas com fones de ouvido cantando Adele ou Justin Bieber, pessoas dormindo e babando no assento e pessoas bêbadas carregando uma garrafa que eu previa que não era de Fanta Uva.

Eu sentei em um banco vago perto da janela enquanto Austin pagava as passagens, mas não demorou muito para ele sentar ao meu lado.

– Então? – Ele perguntou abrindo um enorme sorriso pra mim.

– Então o quê?! – Perguntei irritada, por que só agora ele estava me irritando?

– O que está achando até agora?

– Do que exatamente? – Tentei fazer uma cara entediada, mas eu estava em extremo pânico.

– O que está achando de tudo, Amanda?

– Assustador! – Disse finalmente.

– Por quê?

– Porra! Tem um porteiro pedófilo e obeso no nosso prédio. Eu acabei de arrumar um emprego, sendo que eu não presto nem para arrumar meu quarto direito e agora eu ainda tenho que pegar ônibus com essas pessoas que parecem que não tem mais esperanças na vida! – Eu juro que não percebi que estava gritando. Só reparei nisso quando vi que todos estavam me olhando. – Sem querer ofender. – Tentei concertar, mas parece que não consegui convencer eles que ter uma vida sem futuro era bom.

– Com o tempo você se acostuma, prometo. E sobre James, é só ficar longe dele, eu te protejo. – Troy disse com um sorriso doce, mas minha vida estava tão doce quanto uma amora azeda. Não adiantava ele me dizer que tudo ia dar certo e que minha rotina ia ser essa merda.

– Para que serve sua promessa? Sua promessa vai me fazer voltar para a casa? Eu não preciso da sua proteção! Eu posso me virar sozinha! – Eu sabia que minhas palavras eram duras, mas sinceramente eu não estava ligando. Nada conseguia tirar o sorriso bobo daquele garoto, nem falando mal dele.

– Se você consegue se virar sozinha eu vou descer no próximo ponto. – Ele falou apertando um botão ao lado do banco dele. – Você não precisa de mim!

Gelei. Eu estava perdida! Eu ia acabar parando na Turquia á procura de um Starbucks. Queria minha mãe, para ela dar aquelas gargalhadas como se nada estivesse dando errado quando eu fosse vender meus órgãos na Turquia.

Troy Austin levantou ajeitando a mochila no ombro. No começo eu achei que ele estava blefando, mas parecia sério. Será que o orgulho vale mais que uma passagem para a Turquia?

– Austin! – Falei tapando a boca em seguida, desejando que tivesse ficado quieta.

– Oi! – Ele virou me olhando atenciosamente. Como se tivesse prazer com o meu sofrimento. E ele realmente tinha. Safado!

– Eu preciso de você. – Confesso! Minha voz saiu um pouco manhosa. Estava me amaldiçoando por isso.

– Precisa? – Ele arqueou uma sobrancelha em descrença.

– Sim. É que eu não gosto muito da Turquia! – Sou uma idiota! Minha mãe devia ter tatuado isso na minha testa quando eu era um bebê.

– Tudo bem. Está perdoada! – Ele falou em um sorriso, parecendo que desconsiderou a parte da Turquia.

A porta do ônibus se abriu e ele desceu um degrau em direção a ela.

– M-a-s por-que. – Gaguejei tomando fôlego. – Você está indo se me perdoou?

– Por que esse é o ponto do seu emprego, Mandy! – Austin soltou uma gargalhada me fazendo ficar vermelha de raiva.

– Seu maldito! Inútil! Você quase me matou do coração! Te odeio! – Parece que assim eu consegui mais atenção das pessoas do que da vez que tinha falado mal delas.

Notas finais
Desculpe, eu ia postar ontem ,mas houve um imprevisto. Espero que tenham gostado. Não esqueçam dos reviews, eles me motivam!