Hate At First Sight
16 Poder da mente!
Notas iniciais
Julia decidiu que era extremamente perigoso me deixar na cozinha, pelo menos ela teve certeza disso depois que um prato sujo caiu de uma pilha de louças direto para o chão, sem eu ter colocado a mão nele. Só fiquei pensando que se um prato caísse seria menos um para eu lavar, menos um no mundo dos pratos e consequentemente eu colaboraria para o aumento de mortalidade das louças.
Eu acreditava que poder da mente só servia para enganar trouxas, mas descobri que ele também serve para ganharmos um olhar apavorado de reprovação da peguete do Logan. Acho que eu vou fazer um curso de poder da mente além do de teatro. Assim posso prever o nome do próximo furacão, ler mãos ressecadas e ver mentes do alfaces, por que meu irmão sofre bullying com essas coisas místicas que necessitam de um cérebro.
Enquanto eu pensava sobre tipos de alfaces, digo mentes, Julia me cutucou no braço. Mesmo estando em outro mundo eu fiquei irritada, pois odeio quando me cutucam.
– Pronto! Seu primeiro cliente chegou, agora vai lá e é só atender. – Ela disse com um sorriso encorajador dando vários pulinhos, como se eu tivesse enfrente do pernalongas aposentado com várias mulheres cenouras.
Eu acabei me esquecendo de contar para vocês, amiguinhos que estão dando risada do meu sofrimento, só quero que saibam que rir da desgraça alheia dá cadeia, ou pelo menos dor nas costas.
Já que esse era meu dia de experiência Alex resolveu que era melhor eu ficar no caixa e ela ia lavar os pratos. Ela disse que melhor do que quebrar pratos era não atender bem os clientes, um final perfeito para quem quer ser despedida antes mesmo de começar a trabalhar. Confesso que ela não me deixou muito feliz, tive até uma ligeira impressão de que ela não gostava de mim, mas deve ter sido só impressão, por que ela me adora. Quem não reconhece ironias não está preparado pra vida, apenas avisando.
– Mas, mas, mas... Júlia! Eu não sei se vou conseguir. – Eu sentia meu coração latejando ao encarar o cliente por uma fresta da porta dos funcionários. O cliente era uma velhinha que parecia a típica vovó esquecida, que fala primeiro vinte nomes dos seus primos antes de identificar o seu. Porém, eu ainda não estava a fim de perguntar para ela que tipo de café ela deseja.
– Claro que vai! Eu também tinha vergonha como você, mas com o tempo você pega o jeito. –O incentivo dela foi em vão. Estava claro que Julia era o tipo de garota legal oradora da turma, que não tinha vergonha nem do capeta.
– Eu posso levar o papel pelo menos? – Perguntei levantando as anotações de como falar com um cliente, eram dicas que a “amiguinha” do meu irmão tinha dado pra mim.
– Pode, mas tente parecer natural. – Ela falou levantando uma sobrancelha com um pouco de descrença na minha habilidade de falar com as pessoas.
– Tudo bem. – Sussurrei concordando com a cabeça.
Eu sempre pareço natural quando estou com os nervos á samambaia da pele tentando decorar a folha que tinha como primeiro passo não demonstrar a minha aparência de robô. O que era bem difícil!
Abri a porta dos funcionários deixando a cara da Julia de livro de auto-ajuda para trás e fui caminhando lentamente até o balcão com a cabeça baixa.
Encarei a idosa na minha frente com um sorriso forçado na cara.
– Boa noite, não boa tarde. Hum... Espera só um minutinho. — Encarei o relógio no formato de coruja que estava pendurado na parede, ele indicava que faltavam dez minutos para ás onze. – Bom dia! Em que posso, não, a senhora quer alguma cois... – Me enrolei com as palavras e respirei fundo passando a mão pelos meus cabelos em desespero.
– Calma querida, você está um pouco pálida. — A senhora disse radiando doçura. — Vocês jovens e essa correria de hoje em dia... Isso não faz bem para a saúde. – Não consegui deixar de dar um sorriso, dessa vez foi espontâneo. Parecia que o medo estava ficando cada vez mais fraco dentro de mim.
– Eu só estou um pouco nervosa. É meu primeiro dia trabalhando aqui. – Resisti em dizer que era à primeira vez que eu trabalhava ou fazia alguma coisa útil para a sociedade em toda a minha curta vida.
– Vamos fazer o seguinte! Eu quero um café médio sem açúcar e enquanto você faz o pedido eu vou escrever uma receita de um chá que resolve tudo. Desde câncer até hepatite... E ele ainda serve de calmante.
Eu deveria recusar, ou quem sabe pegar a receita dessa droga perigosa e queimar no banheiro do Starbucks, por que aquilo só podia ser macumba pra curar tudo. Por um minuto cogitei a possibilidade de aquela carinha fofa da velhinha ser na verdade o mal do mundo que estava naquela blusa cor de rosa Pink que queria passar um vírus poderoso por aí.
– Okay! Muito obrigada... – Tudo bem. Não consegui perguntar pra aquela idosa tão fofa se ela era uma bruxa do mal.
Ela me deu o dinheiro e começou a escrever a tal fórmula da bomba atômica, digo, receita milagrosa em um caderninho que ela demorou pra achar dentro de uma bolsa enorme. Cheguei a pensar que o Osama Binladen devia estar escondido lá na bolsa dela por todo esse tempo.
Demorou um pouco para eu fazer o pedido e dar o troco, pois eu não estava acostumada a usar programas de computador tão fáceis de conta. Quando a notinha do comprovante foi impressa eu quase fiz a dancinha da vitória de tanto alívio.
– Qual é o nome da senhora? – Perguntei para escrever no copo e me surpreendi por que eu não precisei ver o papel pra lembrar o que falar.
– Jurescreidonilda. –A idosa disse e eu me segurei para não chamar a polícia parar processar a mãe dela, só não fiz isso por que a mãe dela provavelmente devia estar morta sendo castigada por ter dado um nome desse pra filha.
– Posso escrever só Dona Nilda? – Achei que exagerei na intimidade com uma velhinha bruxa, quem sabe ela não me transforma em um panda e eu possa ir pra China comer meu Miojo sossegada.
– Claro que pode, querida. Adorei meu novo apelido e você também me atendeu muito bem. – Dona Nilda me fez esbugalhar os olhos e quase que eles foram dar uma voltinha pelos taxis amarelos na rua, eu não esperava isso. Juro que até decorei o número da polícia junto com as regras para atender bem os clientes, caso acontecesse algo que eu já esperava como meu primeiro cliente.
– Foi um enorme prazer em conhecer a senhora!
Nesse momento Julia apareceu no balcão pegando o pedido e o copo me dando uma piscadinha com uma cara de “eu avisei que ia dar tudo certo”.
Dona Nilda me passou uma folha com a receita que escreveu e eu coloquei no bolso pensando o que eu faria com aquilo.
Enquanto avistei Dona Nilda ir até uma mesa afastada, eu vi uma coisa, quer dizer, uma pessoa, ou melhor, um garoto que me deixou completamente sem ar.
Ele tinha o típico estilo Nerd, com uma camiseta xadrez, óculos e com direito a um sorriso de canto que dizia “Sou foda”e ele estava se aproximando do balcão o que me deixava nervosa. Aquele sorriso era pra mim? Por favor, Jesus, não faz isso comigo!
Por reflexo eu me apoiei no balcão, mas logo parei de fazer tanto charme, pois lembrei que era assim que Alex tinha feito pro Troy Austin mais cedo naquele dia.
– Em que posso ajudar? – Tentei fazer o sorriso mais sedutor que eu sabia dar, o que era um sorriso nada.
– Desculpe! Em que eu posso ajudar?
– Não entendi! – Fiz uma cara de confusa e logo pensei como eu sou uma droga em conversar com as pessoas, principalmente com caras bonitos.
– Você deve ser a Amanda Miller, minha nova funcionária. Eu tive observando e você se saiu muito bem, pronta pra assinar sua carteira? – Ele sorriu e eu tive a sensação que a morte estava mais perto.
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