Hate At First Sight
12 Me obrigue!
Notas iniciais
Prendi a respiração por alguns segundos e logo soltei todo o ar de meus pulmões, tomando coragem e virando a maçaneta do meu novo hospício, digo, lar. A adrenalina estava fazendo todo o meu sangue virar puro Red Bull.
No tão esperado momento percebi que não me surpreendi em nada, por que já esperava o pior. Pensamento positivo e livros de autoajuda são para os fracos! Eu prefiro assim, você não fica tão abalada. Mas minha técnica não tem dado muito certo recentemente, posso dizer que eu nunca havia pensado em uma coisa tão trágica que iria acontecer na minha vida e aconteceu.
Tudo era exatamente igual ao apartamento de Troy Austin. Com exceção das enormes caixas, malas e rolos de fita adesiva que ocupavam o chão.
Entrei em passos largos como se já conhece-se aquele lugar. Aspirei aquele delicioso perfume que misturava poeira, mofo e desinfetante. Não sei como a Victoria Secrets não criou uma fragrância parecida com aquela ainda, faria um grande sucesso.
Reparei melhor na sala e meus olhos se focaram na enorme cama boxe. Como eu amava aquela cama! Eu passei os melhores momentos nela... Dormindo. Mas o que ela estava fazendo na sala?
Acho que pessoas preguiçosas não movem o mundo, muito menos empurram camas nele. O que custava arrastar a minha enorme cama boxe até o meu quarto? O máximo que poderia acontecer é deslocar o braço, nada de mais. Digamos que minha cama tem um leve problema com obesidade.
Mas estava claro! Tudo isso era culpa do sacana do Beto. Meu anjo podia estar na Flórida, mas ele sempre estava de olho em mim. E quando podia mexer os pauzinhos, ou melhor, as asinhas, para me prejudicar um pouco mais, ele fazia, mesmo estando ocupado demais abraçando o Mickey.
Por trás de tudo isso o plano de Beto era simples. Mesmo sendo muito forte, eu nunca gostei de carregar peso, por isso teria que pedir ajuda para alguém que estivesse disposto a carregar a cama com o risco de deslocar o braço a troco de nada. E esse alguém não era o Papai Noel!
Ouvi passos atrás de mim, mas não achei que fosse a Samara. Meu cérebro imaginou com uma velocidade que muita Internet tem inveja que fosse Austin. Viu como eu sempre penso no pior?
Como eu queria que estivesse errada. Como eu queria que fosse a Samara! Além dela não ter uma voz irritante ainda tem um cabelo bonito e sedoso. Quem sabe ela não fosse me contar que shampoo ela usa?
– Porque deixaram a sua cama na sala? – Uma voz gritante invadiu os meus tímpanos quase os perfurando.
– Foi o Beto! – Disse o ignorando e analisando algumas caixas que continham roupas.
– Beto? Você sabe o nome do cara que trouxe as suas coisas? — Ele perguntou com um pouco de incredulidade.
– Não, não sei. Então, quando você vai começar?
– Que? Começar? Começar o que, garota? – Ele parecia perdido enquanto encarava um rolo de Durex.
– Começar a levar minha cama para o quarto! – Revirei os olhos como se fosse óbvio.
Ouvi uma gargalhada alta que logo sessou com um longo suspiro. Ele devia achar que era alguma brincadeira.
– Bom, eu poço fazer isso. Mas só se você pedir por favor. – Austin disse me encarando com um sorriso de canto. Vadio!
Será que isso estava nos planos do Beto? Mas ele vai se ver comigo. Vou depilar as asas dele quando ele voltar da Florida.
– Mas nem pensar! Acho que vou chamar outra pessoa então. Você não merece essa oportunidade que estou te propondo.
– Mandy! É só falar por favor. Não vai te matar, sabia? – Disse arqueando as sobrancelhas.
– Ta bom. Eu posso dizer! E para de me chamar de Mandy! – Falei firme por fora, mas por dentro nem tanto. Pode ser besteira, mas era muito difícil pra mim. Aquilo nem era um favor tão grande para eu ter que pedir.
– Então? – Ele me apressou encarando meus olhos. Eu conseguia ver meu reflexo enquanto olhava suas íris verdes. Era tão estranho.
– Você pode levar minha cama para o quarto. – Parei com um longo suspiro. Estava totalmente sem graça e irritada. Eu não tinha costume de pedir por favor. – Po-r- Fa-vor? – Gaguejei.
– O quê? Eu não ouvi direito. Você pode dizer mais alto? – Troy falou exibindo um enorme sorriso.
– Seu filho da puta! Agora me ouviu?
– Calma! Era só brincadeira. – Ele falou erguendo as mãos para o alto como sinal de rendição.
– Então, você cuida de levar a cama enquanto eu...
– Amanda, mas eu acho que a cama não vai passar na porta do seu quarto.
Logo virei a cabeça olhando a porta. Definitivamente não iria passar, pelo menos não inteira.
– Então. – Revirei os olhos e vi que ele havia percebido que tinha me interrompido. – Você desmonta a cama e a leva para o quarto enquanto eu organizo as coisas. – Disse fazendo um gesto mostrando as caixas.
– Não acredito que eu vou ter que desmontar essa cama inteira! – Austin gritou chutando o rolo de fita que estava perto dos seus pés.
– Se sua avó pode acreditar que cinquenta tons de cinza fala sobre a liberdade dos escravos, então, você pode acreditar que vai ter que desmontar antes de passar pela porta.
Austin disse uma sequencia de palavrões baixos, mas logo me falou:
– Eu vou lá. — Apontou para seu apartamento pela janela. – Tenho que pegar as ferramentas.
Dei um breve aceno com a cabeça e logo ouvi seus passos se afastarem lentamente.
***
Foi um dia realmente cansativo. Você nunca dá valor para as inúmeras coisas que você tem até ser obrigada á organiza-las. Eu realmente precisava “perder” algumas coisas acidentalmente em vendas de garagem. Alguém tem uma garagem para me emprestar?
Depois de perder minhas mãos tirando fitas adesivas das caixas, colocar roupas no guarda-roupa e guardar trecos aleatórios e inúteis, eu estava morta. Quem me visse jogada no chão com os olhos fechados e controlando a respiração chamaria uma funerária na certa.
– Mandy?
– Oi? – Disse ainda com os olhos fechados tentando não acordar completamente. Que merda! Quanto mais eu falo pra ele não me chamar de Mandy mais ele chama. Austin ama ser irritante!
– Eu achei que eles fossem mais brochantes.
– O quê? – Perguntei assustada abrindo os olhos e coçando os rapidamente.
Austin estava com uma cara de inocente segurando um sutiã vermelho com coraçõezinhos pretos. Seria uma coisa verdadeiramente cômica se aquele não fosse Austin e se aquele sutiã não fosse meu.
– Eu não acredito que você mexeu nas minhas coisas! – Gritei. Não sabia se estava corada de raiva ou vergonha.
– Acredite em suas palavras! Se minha avó pode acreditar que cinquentas tons de cinza pode falar sobre a liberdade dos escravos, você pode acreditar nisso. – Ele falou com um sorriso malicioso erguendo o sutiã.
– Cala a boca. Antes que eu te enforque com isso! – Berrei apontando para o sutiã.
– Seria um prazer. – Ouvi uma gargalhada ao longe, mas não prestei muita atenção. Será que a Coreia do Norte é muito longe?
– Devolve agora!
– Me obrigue!
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