Haruma
9 Capítulo 9 - Adeus, minha baixinha
Capítulo 9 – Adeus, minha baixinha
— Capitã! Uma mensagem do Kurosaki!
— Aconteceu alguma coisa no mundo humano? Ele não nos contataria por nada.
— A tenente Kuchiki! Sofreu um ferimento mortal! Quase não respira e os batimentos cardíacos estão diminuindo a cada minuto!
Unohana largou imediatamente todos os relatórios de seu esquadrão e correu com Isane, Hanatarou e mais alguns oficiais para o mundo real. Deixou Isane com Hitsugaya, machucado, e Matsumoto, muito ferida, porém viva. Também haviam se encontrado com Iruma, que seguira para atacá-los logo depois de ferir Rukia. O capitão parecia horrorizado.
— É verdade?! — O baixinho questionava desesperado pressionando o braço esquerdo ferido – Que a Kuchiki está morta?! E o Kurosaki?! O que aconteceu com ele?!
A capitã arregalou os olhos. Sabia pelo aviso de Ichigo que o ferimento era grave, mas não sabia que era tão grave assim.
— Quem disse isso a você?! – Perguntou ao capitão.
— Foi ele! Iruma! Ele disse que a companheira do shinigami ruivo estaria morta em questão de segundos!
— Isane! Cuide dos dois! – Dando essa ordem, desapareceu.
Hanatarou também ficou para trás com alguns dos oficiais para cuidar dos feridos. Estava chovendo muito. Ainda tiveram o trabalho de ter que se livrar dos hollows para chegar até Ichigo e Rukia. Quando finalmente se aproximou ficou comovida com o que viu. Sabia que o sentimento entre aqueles dois era grande, não era preciso que ninguém dissesse, o jeito que se olhavam sempre dizia tudo. Mas naquele momento pode ter uma noção do que realmente representavam um para o outro. A capitã sempre se mostrava dura na queda, mas sentiu-se imensamente triste observando aquilo.
O shinigami ruivo abraçava a tenente com todas as suas forças e chorava, chorava muito, gritava. A expressão em seu rosto era desespero puro. O sangue ainda manchava o chão, embora a chuva já tivesse lavado boa parte. Os kimonos de ambos estavam também banhados no líquido vermelho. Sode no Shirayuki e Zangetsu largadas no chão ao lado do casal. Temia ter chegado tarde demais. Correu até os dois e se abaixou ao lado deles.
— Kurosaki-san... – chamou-o séria, porém sem seu sorriso e olhar ameaçadores, tudo que ele menos precisava agora era ser reprimido por alguém.
O shinigami esforçou-se para levantar a cabeça do ombro da amiga e encará-la.
— Por favor...! Faça alguma coisa!
— A essa altura... Eu não posso lhe dar falsas esperanças, mas farei tudo o que estiver ao meu alcance – dizendo isso tirou delicadamente a pequena dos braços dele, percebendo o quanto ele se sentira mal por separar-se dela.
Deitou-a na maca montada por seus oficiais.
— Fez bem em não correr com ela daqui. Com um ferimento como esse poderia ter piorado tudo e lhe causado muito mais sofrimento.
Checou a respiração e a pulsação da shinigami. Não sentia nada. Tentou de novo, e de novo. Aplicou os mais fortes métodos de cura junto com todos os quatro oficiais e minutos depois ainda não detectou um sequer fio de vida no corpo da tenente. E pior ainda, o ferimento não apresentava melhora e o sangramento só começava a ceder por uma simples e terrível razão, o sangue estava acabando. Chegara tarde demais, acontecera o pior. Como diria aquilo a ele?
— A Soul Society é muito longe pra levá-la. Eu sei que você e o capitão do sexto esquadrão não se dão muito bem, apesar da sua ligação com ela. Não seria um lugar adequado pra conversarmos. Vamos levá-la para a loja daquele vendedor.
O coração dele quase parou. O que ela queria dizer com aquilo? O coração de Rukia parara de bater antes da chegada de Unohana e sua respiração se fora num suspiro profundo enquanto ela falava com ele. Ele estava certo então? Não conseguia assimilar aquilo.
Os oficiais ergueram a maca e foram andando até a casa, não muito longe dali. Não era favorável usar o shumpo naquela situação. Ichigo foi atendido por Ururu ao bater na porta e pediu que a garotinha chamasse Urahara.
— Kurosaki-san... Que cara horrível, e está ensopado de sangue!
— Precisamos que nos empreste um de seus cômodos... – ele falou quase num sussurro.
O vendedor espiou por cima do ombro do rapaz.
— Capitã Unohana Retsu... Kuchiki-san! Entrem!!
Ao ver o estado da garota não disse mais nada e os guiou até um quarto, onde os deixou e se retirou. Conversaria com Ichigo depois. Unohana pediu que os oficiais os deixassem sozinhos com Rukia.
— Capitã... Por favor! Conseguiu reanimá-la? Uma transfusão não a salvaria?!
— Bem... Depois de cuidarmos dos ferimentos de vocês dois tantas vezes sabemos que vocês são compatíveis, mas...
— Por favor, faça isso agora! Tire o sangue que quiser! Meu ferimento não é grave!
— Kurosaki-san... – ele calou-se diante da seriedade dela, com o coração na mão – Não é questão de você estar em perfeitas condições ou não para transferir sangue para ela. Seu ferimento não lhe oferece risco e faríamos isso sem problemas.
— Então o que há de errado?!
Ela ficou em silêncio. Já dera aquele tipo de notícia tantas vezes, a tantas pessoas... Mas agora parecia muito mais difícil. Apesar do talento e habilidade brilhantes, Ichigo era um shinigami muito jovem. Lembrou-se dos olhos cinza de Byakuya no momento em que Hisana morrera. Dor e lágrimas, que ele lutara para conter no momento em chegou para tentar reanimar sua esposa. Como ele reagiria vivendo aquilo pela segunda vez? Como falar aquilo para Ichigo?
— Nem uma transfusão a salvaria agora...
— Está dizendo que ela...?
A capitã apenas balançou a cabeça positivamente. O shinigami ficou paralisado. Todo o resquício de esperança que havia em seus olhos se extinguiu, o brilho intenso desapareceu, mesmo que estivesse chorando. Ele inspirou fundo, como se tivesse prendido a respiração durantes horas e desabou vagarosa e silenciosamente para o chão, apoiando a cabeça nas palmas das mãos. Ela ouviu um soluço e ele começou a chorar de novo. Pouco lhe importava que Unohana o estava vendo naquele estado. Sua vida acabara. A chuva voltaria, e dessa vez para sempre. Nada mais tinha importância. Unohana abaixou-se um pouco para se aproximar dele e o tocou.
— Eu sinto muito...
Ele não respondeu, só continuou chorando.
— Eu vou deixar vocês sozinhos.
Tinha certeza que um certo capitão não aprovaria aquilo, ainda mais sabendo que Rukia morrera nos braços do garoto, mas ele precisava. Sentia que no fundo do coração ele ainda tinha uma ponta de esperança que a Kuchiki abrisse os olhos. Sabia que seria doloroso deixá-lo descobrir isso sozinho, mas não conseguiria convencê-lo. Levantou-se e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Os quatro oficiais levantaram-se do chão esperando alguma ordem emergencial, mas ela acenou com a mão e eles voltaram a se sentar, tomados pelo mesmo ar de tristeza.
— Infelizmente... Não há mais nada que possamos fazer.
Podiam ouvir o choro de Ichigo. Ele chamava pelo nome da shinigami. Não sabiam se por impulso ou se tentava fazê-la acordar.
— Não devem informar nada ao capitão Kuchiki e ao tenente Abarai por enquanto.
— Pode deixar, capitã.
— E o ferimento dele?
— Não é grave, nem muito profundo. Ficará bem se for tratado ainda hoje. Cuidaremos dele quando estiver melhor.
— Mas o estado dele pode fazer o sangramento voltar.
— Eu já cuidei disso. Quando o contei o que realmente aconteceu, ele desabou no chão. Eu o toquei e apliquei um kidou. Só lhe resta uma cicatriz. Podemos removê-la mais tarde. Não há como tratá-lo com cem por cento de eficácia estando tão alterado.
— Capitã, por favor, vamos sair daqui. Ele precisa ficar sozinho.
— Tem razão.
Os seis se dirigiram a outro cômodo, fechando a porta. Quando ouviu a porta se fechar, o shinigami forçou-se a levantar e se arrastou até o corpo da amiga.
— Rukia... – abraçou-a – Rukia... Não faça isso comigo!
Como queria que ela abrisse os olhos, que aquilo fosse só uma brincadeira de mau gosto ou um sono profundo, que ela acordasse, chutasse sua cabeça, lhe chamasse de idiota e o mandasse parar de se preocupar e depois o presenteasse com aquele sorriso e aqueles olhos azuis tão profundos e bonitos quanto o oceano...
O corpo dela estava gelado. Sabia que não poderia mais aquecê-la, mas a abraçou mais forte. Não a soltaria. O coração não batia, ela não respirava, seu corpo permanecia imóvel e gelado, mas não queria afastar-se dela. Ergueu-se para observar seu rosto. Unohana havia limpado o sangue dali. Ela parecia dormir. Mesmo naquela condição, estava tão bonita... Por segundos chegou a acreditar que ela abriria os olhos e o chutaria ao perceber que estava sendo abraçada por ele. As lembranças horríveis de momentos atrás voltaram a sua cabeça e sua visão embaçou de novo.
— Eu... – sussurrava – Te amo tanto, minha baixinha...
Deitou ao lado dela, abraçando-a e chorou, durante incontáveis minutos, talvez horas. Não queria dormir, não queria que a levassem pra longe dele, mas sem saber ao certo quando, tudo escureceu.
Cerca de duas horas depois, Unohana voltou cautelosamente até o quarto e entreabriu a porta. Ele havia dormido, abraçado ao corpo da shinigami. Esperaria que ele acordasse para avisar a certas pessoas sobre o ocorrido. Naquele momento, observando o jovem casal adormecido, sentiu tristeza. Também gostava muito da tenente. Tantos já haviam morrido antes dela naquele massacre sem sentido... Também sentiu seus olhos marejarem, mas tinha muito a fazer. Segurou suas lágrimas e fechou a porta.
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