Haruma
10 Capítulo 10 - A dor se espalha
Capítulo 10 – A dor se espalha
- Kurosaki-san...? – Urahara chamou após bater três vezes na porta, o garoto já dormia há cerca de três horas – Está acordado?
- Sim – o ex-capitão quase não pode ouvir, a voz do garoto não passava de um murmúrio forçado.
Abriu cautelosamente a porta.
- Unohana-san precisa levar o corpo para a Soul Society.
Ichigo estava sentado ao lado dela, encostado na parede. Olhou-a. O quarto esquadrão precisaria analisar os ferimentos. Sabia que Rukia já fora tratada por eles, como muitos outros shinigamis, várias vezes, mas a situação era diferente agora. Lhe incomodava pensar no corpo de Rukia sendo avaliado como uma espécie de cobaia, mesmo tendo consciência da gravidade da situação.
- Você prestou muitos e impagáveis serviços à Soul Society. Em respeito à sua dor, ela mesma vai cuidar disso com ajuda apenas de sua tenente – sabia no que o garoto estava pensando.
- O Byakuya... E o Renji... Já sabem?
- Ela vai contar a eles depois que vocês chegarem à Soul Society – seguiu-se o silêncio por alguns segundos – Eu sinto muito, Kurosaki-san. Com certeza vou sentir muita falta dela também, não só como cliente. Apesar do gênio forte, é uma boa garota.
Urahara se retirou e algum tempo depois os oficiais apareceram na porta.
- Por favor, Kurosaki-san, precisamos ir.
Ele levantou-se e dois shinigamis ergueram a maca com o corpo de Rukia. Se dirigiram para a saída da loja e abriram um portal.
- Agradecemos sua hospitalidade — Unohana disse a Urahara, entrando no portal em seguida junto com os demais shinigamis.
- Obrigado – Ichigo sussurrou, virando um pouco a cabeça para Urahara antes de seguir em frente, mostrando ao louro olhos sem brilho e cheios de dor.
- Byakuya-bo e o tenente Abarai vão ficar arrasados, mas ninguém vai sofrer tanto quanto esse garoto – Yoruichi comentou aparecendo ao lado do vendedor.
- Talvez não pra sempre, mas por um tempo incrivelmente longo, a chuva é tudo que ele verá. Eu posso imaginar o que ele sente... – o louro fitou a lua vermelha no céu chuvoso, lembrando-se daquela noite terrível há mais de cem anos.
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Ichigo esperava do lado de fora. Unohana e Isane estavam com Rukia dentro de uma sala suficientemente afastada da entrada do esquadrão. Ele havia sido tratado e fugido da cama na primeira oportunidade. Rastreou a reiatsu da capitã e já estava sentado ali há horas. Eram três da manhã quando as duas saíram e se surpreenderam ao encontrá-lo sentado ali nas cadeiras do corredor. Unohana queria muito lhe lançar um olhar ameaçador, ele precisava repousar, mas julgou ainda cedo diante dos olhos abatidos e sem vida do shinigami.
- Imaginei que estaria aqui. Vamos deixá-la num quarto. Você pode ficar com ela se quiser.
Momentos depois Isane o guiou até um quarto um tanto distante daquela sala e o deixou lá. Dois shinigamis estavam na sala ao lado, caso ele precisasse de algo. Havia três camas ali. Rukia estava numa delas. Mas ele não queria deitar, nada o traria conforto. Deixara acontecer de novo. Perdera uma das pessoas mais importantes de sua vida. Ajoelhou-se no chão e ali ficou por longas horas. Não queria dormir, não conseguiria e quando acordasse descobriria que seu pesadelo era real, não adiantaria fugir dele.
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- Capitão Kuchiki... Peço perdão por aparecer tão cedo, mas estou aguardando o momento oportuno desde ontem e peço que compreenda minha demora em avisá-lo.
Abriu a porta da casa, já pronto para trabalhar, mas ainda surpreso por Unohana bater à sua porta às cinco da manhã. Seus olhos estavam cansados e abatidos. Desde que começara o massacre ela quase não dormia.
- Aviso? Aconteceu alguma coisa com Rukia ou Renji?
- O tenente Abarai está bem e não sabe ainda. Isane está indo informá-lo.
- Sem querer ser arrogante, capitã, gostaria de saber do que se trata.
Ele a convidou para entrar e se sentaram na elegante sala de estar da mansão, ainda um tanto escura àquela hora da manhã.
- Ontem a cidade de Karakura foi atacada por cerca de dez mil hollows. Iruma aproveitou a distração para fazer mais vítimas.
O coração do nobre disparou de uma forma que o fez pensar que enfartaria. Temia que ela dissesse o que mais tinha medo de ouvir desde o início daquela matança. Viver sem Hisana já doía demais. A companhia da dona daqueles olhos azuis e a alegria e orgulho que ela lhe trazia eram seu consolo.
- Eu fui acionada assim que aconteceu. Terminei o mais rápido que pude de socorrer uma das vítimas que havia chegado aqui, parti com Isane, alguns oficiais, o capitão Hitsugaya e a tenente Matsumoto para o mundo humano.
Cada frase que ela concluía sem mencionar as palavras “Rukia” e “morte” juntas acalentava seu coração.
- Quando chegamos, nos dividimos e eu segui até onde havia sido chamada. Eu ainda precisei me desfazer de vários hollows no percurso. Achei que minha incompetência poderia ter causado isso, mas... Pelo que encontrei quando cheguei até lá já era tarde de mais bem antes de eu sair daqui. Eu tentei todos os meios de reanimação e cura, mas nada surtiu efeito.
- De quem está falando?
- Sua irmã capitão, infelizmente... Ela não resistiu.
O Kuchiki ficou sem reação e sentiu uma pontada forte no peito, que fez sua cabeça doer. O ar lhe faltou e passou a respirar com dificuldade, que brincadeira era aquela?
- Tem certeza?
- Sei o quanto está chocado, mas não brincamos com isso. Eu não viria tão cedo se não tivesse certeza, capitão. O garoto... Sei que vocês não tem um relacionamento muito bom. Antes que sinta raiva dele, acho que deve saber do que realmente aconteceu.
Como ele permaneceu calado, ela começou seu relato.
- Ontem pela manhã ele não queria voltar com sua irmã para o mundo real, disse que teve um mau pressentimento. Mesmo assim, ela decidiu seguir as ordens e eles foram. Quando Iruma apareceu, ela o impediu de ir lutar, creio que já conheça os motivos. Ela foi embora e ele a seguiu. Iruma a feriu levemente e o Kurosaki-san foi lutar, deixando-a para trás pedindo que descansasse e não viesse.
Imaginava o que havia acontecido naquele ponto. Por mais que quisesse culpar Ichigo, sabia o quanto a sua irmã era teimosa quando queria.
- Ela foi atrás dele e o encontrou lutando, ferido, incapaz de se mover. Atravessou-se entre ele e o golpe mortal desferido por Iruma para atingi-lo.
Orgulho, tristeza e dor invadiram o capitão.
- Iruma desapareceu após atravessá-la com a espada e tomar seu sangue. O garoto ficou completamente desesperado e tentou se mexer, mas não conseguiu. Quando ela caiu, ele se arrastou até ela, chamou-a, fez tudo para mantê-la acordada e fazê-la resistir. Tentou até mesmo estancar um ferimento tão grave que só um kidou poderia fechar. Quando o encontrei, ele estava com sua irmã no colo, chorando muito e ignorando totalmente o fato de estar sangrando também.
Ela parou um tempo tentando ler a expressão do capitão.
- Por favor, não brigue com o garoto. Ele está muito abatido, está do lado dela até agora. O sacrifício de sua irmã foi para mantê-lo vivo.
Esperou que ele falasse algo, mas ainda não conseguia dizer nada.
- Eu sinto muito... Capitão. Também gostava muito de sua irmã. Estaremos esperando que venha até o esquadrão – dizendo isso, levantou-se, acenou com a cabeça e se retirou da mansão.
Sua missão era somente avisar ao capitão sobre a perda de sua irmã, mas sabia que ele culparia Ichigo e num momento daqueles, talvez não hesitasse em matá-lo. Instruíra Isane a contar o que realmente acontecera ao tenente também. Voltou ao esquadrão o mais rápido que pode. Passou pelo quarto de Matsumoto. Estava desacordada, mas bem. O capitão de olhos verde-água e Momo estavam com ela. Ambos tinham os olhos vermelhos e úmidos e sabia não se tratar de Matsumoto. Haviam decidido ver Rukia somente quando Ichigo se sentisse bem para deixá-la. Chegando ao quarto onde deixara a shinigami, encontrou outra cena triste. Ichigo permanecia ajoelhado no chão de cabeça baixa, percebeu que ele chorava, silenciosamente. Renji se ajoelhara ao lado da cama da amiga e chorava compulsivamente com o rosto escondido entre os braços cruzados apoiados na cama.
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- Eu chamei vocês aqui tão cedo... Porque... Iruma... – o louro era muito bom com palavras, mas sabia o quanto aquilo os chocaria e não sabia exatamente como explicar aquilo para três seres ainda jovens, ele mesmo sentia-se triste e agradecia por Yoruichi estar sentada ao seu lado em apoio.
- Aconteceu alguma coisa com o Kurosaki? – O Quincy perguntou.
Tinha um braço enfaixado. Também haviam lutado no dia anterior e só escapara de Iruma por ele ter percebido de cara que nenhum dos três era shinigami.
- Não. Com a Kuchiki-san
Os três arregalaram os olhos. O louro relatou tudo que ouviu de Unohana e o que viu após chegarem em sua casa carregando o corpo de Rukia. A cada palavra que proferia, sentia os três se chocarem mais. Os olhos da ruivinha rapidamente se encheram de lágrimas. Ao fim de seu relato, nada se ouvia, a não ser seu choro. O quincy a envolveu com o braço, não só para consolá-la, todos ali sabiam que ele tinha um grande afeto pela garota. O próprio Uryuu e também Sado choravam silenciosamente. Sabia que o mesmo devia estar se passando na casa dos Kurosaki, contara tudo a Ishiin, com autorização de Ichigo, momentos antes de chamar os três jovens. Yoruichi envolveu sua mão, que ele apertou aceitando o consolo. Por fim abaixou a cabeça e se concentrou na própria tristeza.
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