Haru No Ai
2 #2 Yu-kun
Notas iniciais
— Pode me explicar de novo por que você está fazendo aikido?
— Eu preciso de alguma forma de defesa, definitivamente. E é um jeito de mostrar que gasto meu tempo interessada em outras coisas ao invés de romances e tal.
— Tá, Aika, para com isso.
— Parar com o que?
— Essa coisa toda. Sem romance, mais masculina e lutas.
— Qual é, Shizuko... Já disse, não quero ser uma “gatinha indefesa” e realmente não estou interessada em garotos. São insuportáveis. Só o nii-chan que não.
— Bem, de qualquer forma, seu plano não está dando certo. Visivelmente. – ela retrucou olhando o bilhete em minhas mãos – é melhor você ir logo pro telhado encontrar esse garoto.
— Arg, quem marca um “encontro” na hora do almoço? Eu quero comeeeer!
— Bem, você vai saber “quem” quando chegar no telhado. E, se você for rápido, terá um tempão pra comer.
— Saaaacooo.
Subi os degraus infinitos até o telhado. Que droga, já era a quinta vez que me chamavam para aquele lugar, minhas pernas já estavam ficando musculosas. Qual o problema desses caras? Não podem se encontrar com garotas no jardim ou nos corredores?
~
— Ai-chan, por favor, saia comigo, eu gosto de você! – disse o garoto do bilhete. Sério, eu nunca nem conversei com ele, como ele pode “gostar” de mim? E ele realmente disse “Ai-chan”?
— Obrigada, mas eu sinto muito, não estou interessada em sair com ninguém e...
Antes que eu terminasse a frase, o cara já estava em cima de mim:
— Ei, o que você tá fazendo? Tá doido?
— Não quer sair com ninguém, né, sua vadiazinha!
— O QUÊ!? – certo, primeiro me chama de “Ai-chan” e agora disso. Qual é o problema desse cara? Eu me debati, tentando me livrar dele, mas, bem, sendo um garoto ele era mais pesado e mais forte.
— Diz isso para mim, mas e aquele Kousuke, hein? – disse o “gentil cavalheiro” que estava sobre mim.
— Cara, do que você tá falando? Sério, SAI DE CIMA DE MIM, A-GO-RA!
— Senão o que a princesinha vai fazer?
Eu já estava perdendo a paciência quando alguém chegou e disse:
— Você tem certeza de que gosta dela? Tratando-a desse jeito, você passa a impressão de ser o contrário.
O troglodita saiu de cima, obrigada, e se voltou ao garoto recém-chegado.
— Ninguém te chamou aqui, seu intrometido – ele levantou a mão para bater no garoto, mas este foi mais veloz e segurou seu braço. Eu me levantei do chão e me ajeitei o melhor que pude antes de olhar pra cara daquele...
— O Kou é meu irmão, seu idiota. E só ele pode me chamar de Ai. – eu não ia dizer nada disso se essa fosse uma confissão normal, mas ele pediu.
— Ah, qual é, Ai-chan – ele disse com uma expressão nojenta. Certo, ele estava implorando por isso. SLAP! – você me deu um tapa? Ora, sua...
— Certo, já chega, cai fora – era a voz do Ichinose Yusuke – sério – ele empurrou o troglodita que bufou e me olhou com uma cara realmente feia antes de ir embora. Como se eu tivesse culpa por ele ser um cretino.
— Hunf, idiota nojento – reclamei.
— Bem, — disse o Ichinose Yusuke se aproximando – acho que você pode me agradecer.
— Obrigada... – respondi cruzando os braços – mas quero deixar claro que eu poderia cuidar de tudo sozinha.
— Tenho certeza que sim – disse sorrindo. Ele está brincando comigo? – Meu nome é Ichinose Yusuke. Você é a menina do outro dia, certo? Do esbarrão na saída.
— É.
— Qual é o seu nome?
— Yoshihara.
— E o primeiro nome, não vai me dizer?
— Não há necessidade. Não é como se fôssemos amigos ou qualquer coisa do tipo.
— Sei... – ele respondeu ainda sorrindo. Definitivamente ele está brincando comigo – vou te levar até a sua sala, tá?
— Não precisa. Eu vou sozinha – minha recusa não adiantou e, no fim, ele me acompanhou até a sala 1-A.
– Bem, se cuide, certo? – ele disse antes de me deixar na porta.
— Aika-chan, aquele era o Ichinose-kun?
— É! – bufei, irritada – mas não foi ele quem se confessou, nem nada, pode parar de pensar besteira – ouvi o sino bater – Que droga! Não vou conseguir comer!
— Bem, você demorou muito hoje, aconteceu alguma coisa?
Eu expliquei tudo o que aconteceu até que o professor entrou na sala.
~
— Ai, pelo amor de Deus, come mais devagar, vai acabar morrendo!
— Desculpa nii-chan, mas já são seis e meia e eu não comi nada desde o café da manhã! – respondi, choramingando, enquanto enfiava uma porção de comida na boca.
— Mas e o obentô que eu fiz?
— Eu não pude comer... – por fora, eu choramingava para o nii-chan, mas, por dentro, eu batia naquele garoto do telhado. Eu nunca havia visto ele antes e espero que nunca mais o veja. Para a segurança dele. – Na hora do almoço eu tive que ir ao telhado encontrar um cara, mas então eu tive alguns problemas e...
— Que tipo de problema? – Sabia que ele ia me interromper. Nós sempre contávamos tudo um para o outro, inclusive as confissões, mas, no geral, ele não gostava dos garotos que se confessavam para mim.
— Não fica bravo, tá? Já cuidei de tudo e... – respondi, tentando acalmá-lo.
— Aika...
— O cara meio que... me atacou... – respondi abrindo os braços.
— O QUÊ!? – Kou ficou tão surpreso que seus olhos quase saltaram das órbitas. Eu sabia que ele teria uma reação desse tipo. Como irmão mais velho ele é super protetor e fica todo estranho quando falamos desses garotos que se confessaram. Tenho certeza de que algumas pessoas pensam que temos algum tipo de complexo um pelo outro.
— Calma, eu dei um jeito nele e tinha um menino por lá que me ajudou – disse fazendo aspas com os dedos na parte do “ajudou”.
— Que-garoto? – ele perguntou, seco.
— Ichinose Yusuke, acho que ele tá na sal...
— Graças a Deus o Yu-kun estava lá... tenho que agradecê-lo – e eu tenho que impor uma regra proibindo o Kou de me interromper enquanto eu falo, que mania!
— Yu-kun?
— Aika, por favor, não seja imprudente com garotos como esse que te atacou, certo? Tome cuidado.
— Eu sempre sou prudente com meninos. Todos. Você sabe. E de onde você conhece o “Yu-kun”?
— Clube de basquete. Meu Deus, Ai, quanto trabalho você me dá, hein? – disse ele passando a mão na minha cabeça.
~
— Ah, bom dia, Yoshihara-san, senpai.
— Bom dia, Yu-kun.
— Bom dia – respondi, desanimada, olhando para o lado. Eu pensei em correr, mas uma mão impositora pousava sobre meu ombro esquerdo.
— Yu-kun, — começou o nii-chan – queria agradecer por você ter ajudado a Ai, ontem – terminou se curvando e me levando junto.
— Ah, tudo bem, não foi nada. Eu só estava por perto.
— De qualquer forma, obrigado, Yu-kun. – respondeu o nii-chan ao mesmo tempo em que o sinal tocava – tchau, Ai, se cuida – disse ele plantando um beijo em minha testa – Tchau, Yu-kun.
— Tchau – respondemos eu e Ichinose-kun em uníssono. Mas acho que fiz uma cara estranha, porque o ele perguntou:
— Que foi, Yoshihara-san?
Eu comecei a andar e ele veio junto. Estranho.
— Ah, não é nada. É só que eu já disse pra ele parar de fazer coisas assim na escola.
— Ah, é? Por que? Vocês são irmãos e moram juntos, sem os pais, então têm que cuidar um do outro. É normal que sejam próximos, certo?
— As pessoas podem entender errado e isso pode causar problemas – eu disse. Calma, como ele sabe que moramos sozinhos? Isso é realmente estranho.
— Tipo o garoto de quem você gosta?
— Não. Quer dizer o cara de ontem e sei lá, as garotas que gostam do Kou. Na verdade, eu não me importo que os garotos pensem que estamos juntos ou qualquer coisa, se isso evitar problemas. E, com o evento de ontem, cheguei à conclusão de que... Alguns homens não são confiáveis. Definitivamente.
— Sei... Mas e as garotas? Não acho que o senpai ligue...
— Sim, mas... Veja bem, no geral, as garotas são fofas e agradáveis, mas elas podem ser assustadoras quando estão apaixonadas e há algo em seu caminho. Não sei. E elas poderiam ficar magoadas, eu não gostaria disso.
— Entendo...
— Ei, você não vai para a sua sala? – estávamos quase chegando na minha sala, a 1-A, e ele ainda estava ao meu lado.
— Eu estou indo, minha sala é a 1-C, fica ao lado da sua.
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