Harry Potter: O Leão do Ringue
9 Punhos de Fogo
Ano: 2009
Londres em janeiro de 2009 era uma cidade resiliente, mas sob pressão. A crise econômica gerava incerteza, mas a vida cultural e a energia cosmopolita continuavam a definir a capital. Os londrinos lidavam com o frio, os desafios econômicos e as tensões políticas, enquanto mantinham a cidade como um centro global de cultura, finanças e inovação. O Oyster Card, sistema de pagamento eletrônico, já era amplamente utilizado. A moeda estava desvalorizada em relação ao dólar e ao euro, impactando o custo de vida e o comércio. A taxa de desemprego começava a subir, afetando especialmente setores como finanças e construção. Muitos londrinos sentiam os impactos da crise, com aumento da incerteza econômica. A gestão do então Primeiro-Ministro Gordon Brown enfrentava críticas devido à crise econômica, e sua popularidade estava em declínio.
Janeiro de 2009 era um mês frio em Londres, com temperaturas médias variando entre 0°C e 6°C. O Reino Unido enfrentou um inverno rigoroso, e a cidade teve episódios de neve e gelo no início do ano, afetando o transporte público, especialmente o metrô e os ônibus.
Na Academia de Boxe Dumbledore, algumas coisas mudaram. Desde o dia que perdeu para Harry, Dino nunca mais foi visto. Não apenas naquela academia, ele simplesmente sumiu. Aparentemente, era mais suportável desaparecer que ter que carregar aquela derrota em qualquer lugar de Londres. Ele até apagou as redes sociais. Gina chegou à conclusão que ele mudaria até de identidade se pudesse.
Já Cho Chang foi vista repetidas vezes entrando no prédio da Academia Dark Cobra, onde Snape era o treinador. “Sinceramente, ninguém vai sentir falta”, disse Angelina. “Se ela decidiu nos trocar pelos psicopatas, tanto faz. Vamos seguir nossa vida normalmente.”
Era segunda-feira e os que restaram (Harry, Rony, Hemione, Gina, Neville, Simas e Angelina) estavam fazendo os treinos individuais antes do treinamento em grupo. O trio Harry, Rony e Hermione estava no chão, fazendo alongamentos, quando Harry comunicou a eles que agora o seu sonho era conseguir ir para as Olimpíadas de Londres, que aconteceriam em 2012.
— Cara, que da hora! – foi falando Rony. – Objetivo bem grande, hein? Mas a gente sabe que ainda dá tempo!
— É, mas não vai ser simples não. – comentou Hermione. – Harry, pra conseguir ir pro GB Boxing Team, você precisa vencer alguns torneios amadores de prestígio! E, de preferência, mostrando talento incrível para ser visado! Daí, se for bem, pode ser chamado pros acampamentos regionais. Se passar, entra na Seleção Júnior. E se mantiver o nível… entra na Equipe Nacional. Aí sim, Londres 2012 vira realidade.
— Falando assim, parece que vai levar uma eternidade, Hermione. – disse Harry, se esticando sentado até a ponta dos pés. – Mas estou totalmente disposto! Depois do que eu passei pra conseguir lutar sem enxergar tão bem, eu sinto como se fosse capaz de alcançar qualquer objetivo agora!
— Ah, nada como um bom resultado pra nos motivar, hein? – disse Rony, sorrindo. – Bom trabalho escondendo da gente por MESES que tava treinando com o Lupin…
— Eu já pedi desculpas muitas vezes e expliquei que foi ele que pediu para eu não contar! – disse Harry com um sorriso enorme.
— Ah, aquele malandro! – disse Hermione com uma careta. – Sorte dele que foi pra Glasgow, ou eu tiraria essa história a limpo pessoalmente! Vocês homens e seu segredos…
Harry e Rony se olharam e começaram a rir meio preocupados. Hermione era assustadora quando queria. Pouco depois, todos estavam ou batendo nos sacos de pancada, ou fazendo treinamento de sombra, ou pulando corda quando Dumbledore apareceu. Ele apitou e todos foram para o centro do salão para o treino em grupo, mas o treinador gesticulou com a mão e disse:
— Alunos, eu gostaria de conversar um pouco com vocês. Por favor, sentem-se na arquibancada.
Harry e Gina se entreolharam, sem entender. Só Angelina estava com uma cara tranquila, certa do que o treinador estava prestes a falar com eles. Logo que todos se sentaram em fileiras diferentes da arquibancada, Dumbledore abriu um grande pôster que estava carregando e o mostrou para os alunos. Estava bem grande escrito no topo: “Campeonato Nacional Juvenil ABAE”. No meio tinha uma imagem de dois boxeadores com luvas e protetores de cabeça se enfrentando. Havia outras informações: “Data: 31 de maio de 2009” e “Local: Centro de Lazer Everton Park, Liverpool”. Os alunos olhavam com os olhos arregalados. O técnico foi falando:
— Chegou a hora de se testarem contra o mundo lá fora. Quem quiser, terá meu total apoio. Temos interessados?
Harry e Gina levantaram as mãos na hora, animados. Os outros, ou não se consideravam preparados o suficiente ou não queriam. Mas a turma se animou mesmo assim. Eles sabiam que Harry e Gina eram mesmo os mais indicados.
— Pode deixar com a gente, treinador! – dizia Gina. – A gente vai dar trabalho lá na terra dos Beatles!
— Eu sei, querida. – respondeu Dumbledore com um sorriso, já sabendo que seriam os dois a se dispor.
De repente, todos olharam ao mesmo tempo para Angelina. Ela já esperava os olhares e deu um sorriso.
— Ué, não vai entrar, Angelina? – Hermione foi a primeira a perguntar. – Você é a mais experiente aqui e é uma Peso Leve de alto nível! Esse torneio seria simples pra você!
— Ah, gente, pensei que sabiam! – dizia Angelina. – Eu amo lutar, mas meu coração tá em outro lugar. Quero ser policial. Entrei aqui pra me fortalecer… não pra seguir carreira. Até curto ensinar e ajudar, mas não tenho interesse em fazer nome no boxe! Eu quero fazer a diferença no real mesmo, enfrentando criminosos e malfeitores!
Enquanto os outros ficaram admirados e faziam perguntas para Angelina, Gina olhou meio triste pra baixo. Embora ela tivesse decidido participar, ela também não queria viver de boxe pra sempre. Neville notou e falou com ela:
— Tá tudo bem, Gina?
Gina forçou um sorriso e respondeu:
— Tá sim, Neville! Conto com você pra me ajudar nesses meses de preparação, tá?
Neville não se convenceu pelo sorriso forçado, mas não quis dar força para o drama. Ele sorriu seu sorriso tímido e respondeu:
— Gina, eu estarei aqui todos os dias pra o que você precisar… nem que seja só uma conversa, tá bom?
Ele estendeu o punho fechado pra ela. Gina deu um sorriso sincero agora, se sentindo acolhida e bateu o punho com o dele. Rony olhou de seu lugar e deu um sorriso calmo. “Você ainda vai encontrar a sua resposta, maninha…”, pensava o ruivo.
…
No dia seguinte, Harry decidiu passar no pet shop de Luna antes do treino. Ele estava muito empolgado com a novidade de participar do torneio nacional da ABAE (sigla em inglês de “Associação de Boxe Amador da Inglaterra”) e queria muito contar para ela. O garoto de óculos tinha finalmente tomado a decisão de seguir o caminho do boxe, de lutar, de entrar nos torneios amadores e chegar até as Olimpíadas. A ideia de treinar, de aprimorar suas habilidades, de representar a si mesmo e seu potencial… isso deixava o coração do garoto aquecido como nunca.
Mas quando entrou no Pet Shop Lepus, o seu sorriso se desfez.
A cena que se desenrolava diante de seus olhos congelou sua expressão. Três clientes estavam lá, maltratando Luna – um homem mais velho, uma mulher que segurava um poodle e um outro homem na casa dos trinta. Ela, sempre calma e gentil, estava tentando se manter profissional, mas a tensão em seu rosto era impossível de esconder. A loira de longos cabelos tentava manter um sorriso, mas a frustração transparecia nos olhos. E, pior, ela estava se desculpando por coisas fúteis que eles reclamavam, coisas como o preço de um brinquedo para o coelho ou a “estranheza” de Luna em falar de seus animais de maneira tão apaixonada.
A garota murmurou um pedido de desculpas enquanto acariciava Pompom, o coelho que parecia tão irritado quanto ela:
— Me desculpem por não estar dentro da expectativa de vocês…
Luna disse aquilo com uma voz tranquila, mas com uma leve tristeza que não passava despercebida por Harry. Até Pompom parecia não aguentar mais. O coelho, normalmente tão dócil, estava olhando para os clientes com uma expressão quase de desdém.
— Não sei como ainda conseguem clientes com essa esquisita olhando a loja! Coitados dos bichinhos… – disse a mulher com o poodle no colo.
Sem pensar duas vezes, Harry avançou, se colocando entre Luna e os clientes, sua postura firme como um bloco de concreto. Seus olhos estavam ardendo de fúria, e ele falou com uma intensidade que ninguém jamais havia ouvido dele:
— COMO PODEM TRATAR A LUNA DESSE JEITO?? Vocês se consideram pessoas dignas de terem animais, sendo que não possuem empatia!! O que a Luna precisa fazer pra ser finalmente respeitada como um ser humano??
Luna arregalou os olhos. Os três clientes ficaram surpresos com a entrada repentina do rapaz de óculos e com as palavras que ele disse. O homem de trinta anos soltou uma risada de desdém. A mulher olhou para Harry como se ele fosse um marginal. O mais velho ajeitou os óculos, dizendo:
— Ora, como se atreve, seu moleque? Isso não te diz respeito!
Harry não se intimidou. Continuou, seu tom subindo com raiva:
— Luna é a pessoa mais especial do mundo!! Respeitem ela! Ela ama e entende os animais como ninguém mais conseguiria!!
Os três se olharam e deram risada do que Harry disse. O homem de meia-idade fez uma careta para o garoto de óculos antes de dar de ombros e sair do pet shop, seguido pelos outros dois. Não disseram uma palavra, mas Harry podia sentir o desprezo deles no ar. Mesmo assim, ele não desistiu de defender Luna. Sua voz ainda ressoava no ar.
Enquanto os clientes saíam, Harry estava tremendo, não apenas pela raiva que queimava dentro dele, mas também pela sensação de impotência. Ele queria ter feito mais, mas a fúria estava começando a ceder lugar a uma tensão interna. Então, decidiu inspirar e expirar algumas vezes, tentando desfazer a raiva imensa que estava sentindo. Aquele era um local de paz e de amor, não de sentimentos ruins.
Luna estava em silêncio, os olhos brilhando de surpresa, olhando para as costas do garoto. Seu rosto estava completamente corado, e ela parecia um pouco desconcertada pelo que Harry havia dito. Ele se virou, agora sorrindo.
— Eles já se foram, Luna… Desculpe não ter chegado antes pra te ajudar.
Luna sentiu o rubor indo da face até as orelhas. Ninguém nunca a tinha defendido daquela forma em toda a sua vida. Todas as vezes que ela foi humilhada na escola, ela não contou para o pai. Não queria incomodá-lo com esse tipo de coisa. Com o rosto todo rosado, ela foi falando:
— Harry, eu… Eu agradeço muito, mas você não precisava. Eu consigo dormir bem à noite sabendo que há pessoas como você, que me respeitam. Eu sei que não vou conseguir agradar todo mundo, e isso é algo que aprendi a aceitar. Mas ter a presença de alguém que realmente me valoriza, como você, é mais do que suficiente. Isso já é muito mais do que muita gente tem.
Harry ficou em silêncio por um momento. Ele não sabia exatamente o que dizer. Ele ainda estava tentando digerir a onda de emoções que o tomaram. Mas o que Luna disse o tocou profundamente. Ela não buscava aprovação de todos, e isso fazia com que ela fosse ainda mais forte na sua essência.
Com um sorriso, Harry finalmente respondeu, com uma sinceridade que vinha do fundo do seu ser:
— Eu sei que você não precisa da minha defesa, mas vai ter ela sempre, Luna… Sempre.
Luna sorriu suavemente em resposta. Um sorriso genuíno e caloroso que iluminava seu rosto.
— Eu sei, Harry… Eu sei.
Enquanto Luna guardava os produtos que os três não levaram, Harry finalmente se lembrou do motivo de ter ido visitá-la. Ele olhou para a loira com um sorriso decidido, como se o peso da raiva tivesse dado lugar a uma nova determinação.
— Eu… tenho algo pra te contar. – ele começou, agora com a voz mais calma. – Eu vou competir. Vou entrar nos torneios amadores. Vou fazer meu nome, sabe? O meu objetivo principal são as Olimpíadas de 2012!
Luna terminou de guardar os produtos e o olhou atentamente, seus olhos brilhando com uma mistura de curiosidade e compreensão. Ela apenas sorriu suavemente depois de ouvir aquelas palavras. De certa forma, ela já sabia que o caminho dele seria esse.
— Olimpíadas, é…? – disse a loira, sua voz suave e tranquila. – Eu já imaginava… Um leão não fica satisfeito só com uma refeição.
— Você me conhece bem, né? – ele comentou com um sorriso envergonhado.
— Você sempre foi assim, Harry. Desde que era só o garoto da tempestade. Eu só estou te vendo seguir o seu caminho. – disse Luna. – Então, qual é o próximo passo?
— Bom, nosso treinador apareceu ontem e perguntou quem queria participar de um certo torneio nacional amador. – respondia o garoto de óculos. – Somente a Gina e eu decidimos entrar. Ele vai ser no final de maio em Liverpool…
Então, olhando para Luna, meio tímido, ele juntou a coragem e falou:
— Você… Vai me assistir, Luna? Seu apoio seria muito importante pra mim.
Luna olhou com os olhos surpresos. Depois, um sorriso surgiu no rosto dela, um pouco corada.
— Não vai... se importar comigo gritando o seu nome diante de uma multidão?
— Luna, eu faço questão que você vá! – respondeu Harry. – Eu não me importo sobre o que dizem de você, eu te conheço e o que eu gritei pra aquele pessoal é a verdade: Você é a pessoa mais especial do mundo.
A loira tocou o rosto com as duas mãos, sentindo ficar ainda mais corada. Por dentro, ela ficou emocionada. Harry fez uma careta engraçada ao perceber e acabou ficando corado também, pensando nas palavras que tinha dito a ela. Os bichos do pet shop começaram a fazer barulho, como se estivessem participando da conversa. Luna riu olhando aquilo com o rosto corado, depois se virou para Harry e disse:
— Claro que vou… Eu estarei lá com certeza. Vou te dar toda a força do mundo pra vencer!
Harry deu um largo sorriso. Ele ficou realmente animado com o apoio dela… Depois, olhou para os bichos e fez uma cara sarcástica.
— Foram os bichos aqui que incentivaram, né…?
Luna deu uma risada calma.
— Eles… falaram outra coisa… Mas depois te conto, não é o dia ainda!
Harry engoliu em seco sonoramente. Tentou achar um jeito de mudar o rumo da conversa. Viu os sacos de ração espalhados no chão e disse:
— P-Posso te ajudar a organizar isso? P-Parecem pesados…
Luna se animou com a simples possibilidade de ver o garoto fazendo trabalho manual.
— Já que está pedindo com jeitinho… Por favor!
Logo, Luna foi dando comandos para Harry para que cada saco fosse colocado no local correto. Ele achou divertido o jeito que ela assumiu o comando e foi executando a tarefa. A loira sonhadora olhou com ternura. “Se você soubesse…”, ela foi pensando enquanto corava novamente.
…
Naquela mesma tarde, em um canto escuro da região de Bethnal Green, os membros da Academia Dark Cobra estavam fazendo barulho, socando sacos de pancada, grunhindo durante um grande número de abdominais, pulando corda, testando combinações de treino de sombra… tudo com pouca iluminação. O local era o perfeito contraste da Academia de Boxe Dumbledore: janelas fechadas, luzes fracas iluminando, paredes escuras, silêncio, concentração absoluta, alunos mais agressivos, alguns eram até ex-detentos.
Andando por entre eles, estava o treinador gélido Severo Snape. Após passar por alguns mais velhos, ele foi para onde alguns mais jovens estavam. Desde aquela visita à academia de Dumbledore meses atrás onde testemunhou o talento do jovem Harry Potter, ele começou a arquitetar o plano para finalmente superar o seu antigo colega: colocar um aluno da mesma categoria de peso para derrotar Potter completamente em algum torneio de grande visibilidade. E o candidato ideal era um de seus alunos mais fieis: Draco Malfoy. O treinador de cabelos negros foi até Malfoy, que estava batendo num saco de pancadas. O cabelo do jovem estava amarrado atrás, tinha crescido um pouco no tempo que passou.
Draco já estava sendo preparado para desmantelar o estilo de Harry desde o dia seguinte ao que este derrotou Dino diante dos olhos dos boxeadores de moletom preto. Mas agora, em janeiro, surgiu a oportunidade que Snape esperava. Ele chamou o garoto loiro e a nova recruta que já estava desde dezembro em sua academia: Cho Chang. Crabbe e Goyle também participaram da conversa.
— Escutem os dois. – falava Snape com o olhar sempre sério. – Vocês irão se inscrever no Campeonato Nacional Juvenil ABAE que vai acontecer dia 31 de maio. Dumbledore com certeza vai inscrever o garoto Potter e a menina Weasley, os alunos mais competitivos dele. Vocês dois serão os nossos representantes nesse torneio nas respectivas categorias de peso deles.
— Ah, finalmente uma oportunidade! – Draco bateu as duas mãos enluvadas, com um sorriso desafiador. – Será um grande prazer dar um fim naquele moleque!
— Obrigada por me selecionar, treinador. – dizia Cho. – Não vou te decepcionar. Já faz tempo que quero dar àquela ruiva o que ela merece!
Snape continuou com a expressão neutra e séria de sempre. Ele olhou para Draco e foi falando:
— Desde o final de novembro estamos trabalhando no estilo que vai derrotar o de Potter. Precisamos extinguir essa faísca rebelde dele antes que se torne um incêndio incontrolável. Vou continuar supervisionando pessoalmente os seus treinos. Temos tempo mais que suficiente para aperfeiçoar a técnica de resposta até o final de maio. Está pronto… Víbora Orgulhosa?
Draco deu um sorriso agressivo e socou o saco de pancada com tanta força que ele se balançou forte, batendo na parede escura. Crabbe e Goyle olharam e ficaram bem animados com o desempenho do “chefe”. Snape reparou nos dois garotos e foi falando com Cho:
— Srta. Chang, você vai treinar constantemente com Crabbe e Goyle. A função deles vai ser aumentar a sua força. A garota Weasley tem a explosão e a ferocidade baseadas em Mike Tyson, mas se a sua resistência for aprimorada até lá, será capaz de suportar os piores golpes. Essa vai ser uma das etapas do seu treino. A outra vai ser no foco da sua habilidade, vamos refinar um estilo que seja o contraponto com o daquela garota. Com habilidade e força, ela não será adversária pra você. Qual é o seu nome dentro do ringue?
Cho olhou para Snape com a mesma seriedade que ele olhava para ela. Ela respondeu:
— Corvo de Batalha.
Snape deu um sorriso raro, o que deixou Draco, Crabbe e Goyle impressionados. O treinador voltou a ficar sério e foi falando:
— Corvo de Batalha, você vai superar a sua rival e trazer a vitória para a nossa academia.
De repente, um outro rapaz que estava ouvindo se aproximou dos cinco. Ele era Blásio Zabini. Tinha um sorriso malandro e estava louco pra mostrar serviço.
— Treinador, ninguém da Academia de Dumbledore me conhece! – disse Blásio. – Eu posso me infiltrar lá e até trazer alguns vídeos dos treinos de Potter e Weasley! Vou adorar! Que tal essa ideia?
Snape levantou uma sobrancelha. Ele nunca tinha acreditado muito no talento de Blásio para o esporte, mas a oferta era intrigante. Ele olhou para Draco, que assentiu com a cabeça.
— Blásio é leal, treinador! – disse Draco. – E pra nós só interessa a vitória, certo?
— Pois bem… — foi falando Snape para Blásio. – Pode ir. Consiga o máximo possível de informações nos próximos dias. Se forem úteis, será recompensado.
Blásio se animou e foi correndo para o vestiário masculino trocar de roupa e já se jogar em seu “plano perverso”.
— De volta aos treinos. – ordenou Snape.
Enquanto Draco e Snape foram se concentrar em refinar o estilo “anti-Potter”, Cho foi para o saco de pancada para treinar socos fortes, descarregando golpes com precisão militar. Atrás dela, Crabbe e Goyle agora seriam seus auxiliares, tanto com equipamentos como com sparring e até carregar toalha de rosto e água para ela beber. Eles a acompanhariam agora como cães de guarda.

…
O fim de semana chegou e os irmãos Weasley (Rony e Gina) estavam num trem a caminho de Keswick, uma cidade que fica na região de Lake District, no condado de Cúmbria – norte da Inglaterra. Gina olhava emburrada para a paisagem na janela enquanto pensava como foi que deixou o irmão a convencer de fazer aquilo. Eles estavam indo para a cidade onde agora mora o tio Gideon Prewett, o ex-boxeador conhecido como “Punhos de Fogo”, que era aluno de Dumbledore. “Gina, acho que antes de qualquer coisa, precisamos ir conhecer direito o nosso tio”, falara Rony um dia antes. “Você ainda tá cheia de dúvidas e com uma grande angústia interna, então, nada melhor que falarmos diretamente com aquele que é basicamente responsável pelo que a gente tá vivendo… De repente a gente volta pra casa com outra perspectiva! O que não dá é participar do torneio com mentalidade vacilante!”
Gideon foi avisado pela irmã (Molly Weasley) que os sobrinhos estavam indo visitá-lo, então ele os esperaria no local marcado. A dupla pegou um trem da estação London Euston até Penrith North Lakes. Mas a viagem que normalmente duraria três horas e meia, durou cinco. Isso se deu por causa da neve, que atrapalhou boa parte do caminho. Londres estava fria em janeiro, mas Keswick, uma cidade do norte, realmente estava gelada. Depois que chegaram na estação, eles pegaram um táxi para o local onde Gideon morava: uma casa rústica de madeira e troncos, construída por ele mesmo, numa área florestal, perto de Whinlatter Forest (uma floresta que ficava a 8 quilômetros do centro). Gina observava a paisagem da natureza dentro do táxi. Era possível ver um mundo de pinheiros e carvalhos, com vista pras colinas como Skiddaw e Catbells. A casa isolada do tio era próxima a um riacho.
Depois que largou o boxe, Gideon Prewett se mudou para aquela cidade e se tornou um lenhador. Ele trabalhava com corte, transporte e processamento de madeira, seja pra madeira de construção, lenha, ou manutenção florestal. Em 2009, a silvicultura no Lake District era regulamentada, com foco em sustentabilidade. O ex-boxeador trabalhava como autônomo, fornecendo lenha pra os pubs de Keswick e casas de campo.
Logo que Gina e Rony desceram do táxi, eles perceberam que ainda teriam que caminhar um pedaço.
— Caramba, nosso tio não mora, ele ESCONDE! – resmungou Rony. – E pensar que ele tinha uma vida tão repleta de fãs e imprensa nos anos 80…
— Ah, mas que ideia fantástica foi essa de virmos aqui… – disse Gina, com uma careta. – Será que vai valer a pena mesmo? Eu acho que eu deveria estar na academia, treinando pro torneio da ABAE.
— Gina, precisamos afastar esse fantasma de sermos sobrinhos desse cara. – dizia Rony. – E não é o nosso pai fanático que vai nos ajudar nessa. Nós mesmos precisamos olhar pra cara dele e entender qual é o nosso papel real nessa situação.
Gina não disse mais nada e foi andando junto com o irmão. Algum tempo depois, eles viram um homem de costas. Ele era alto, com grande massa muscular, usando camisa xadrez, e o mais importante: cabelo ruivo. Ele tinha um machado e estava cortando lenha. Cada golpe dividia uma tora em duas, sem erro. Os irmãos se entreolharam e fizeram um “sim” com a cabeça, bem sincronizado. Depois que se aproximaram o suficiente Rony foi falando:
— Er… Sr. Gideon Prewett? Somos os seus sobrinhos… Ronald e Ginevra Weasley… bom, Rony e Gina. Filhos da sua irmã mais velha…
O grande homem se virou com um largo sorriso. Agora era possível ver que ele era bem barbudo, com um bigode ruivo enorme. Rony e Gina se assustaram quando ele deu um abraço esmagador nos dois.
— MEUS SOBRINHOS! – exclamou Gideon. – Minha nossa, faz tanto tempo que não vejo vocês! Rony e Gina! Vocês eram uns dois tampinhas quando os vi anos atrás! Quanto tempo já faz, hein? HAHAHAHAHAHA!!!
A dupla tentava, comicamente, sair do abraço de Gideon, mas ele era forte como um touro. Eles também não esperavam que ele fosse tão extrovertido. Depois que o abraço terminou, ele pegou o machado.
— Fico tão feliz que vieram lá de baixo no mapa pra me visitarem! E eu soube que praticam boxe!! Isso é PRA LÁ de bacana!! Parece que herdaram a minha coragem através da Molly! HAHAHAHAHA!!
Rony ficou feliz por ver que o tio era tão radiante, ele só conhecia a fama de boxeador do sujeito. Gina fazia uma careta, e ainda não conseguia ver vantagem de terem ido pra aquele fim de mundo.
…
Algum tempo depois, os três estavam sentados a uma mesa, tomando chocolate quente e comendo scones com creme e geleia. Rony, que amava chocolate, estava realmente feliz agora. Gina olhava para tudo o que tinha na casa rústica. Havia um canto com diversos porta-retratos, com medalhas, premiações de torneios de boxe, havia um pôster do “Quinteto de Dumbledore” exatamente igual ao que tinha na sala do velho treinador. Em breve, ela se levantou da mesa de refeição e foi andando, diante dos olhares de Rony e Gideon. Ela foi até uma foto que a chamou atenção: era ela mesma quando era bebê, sendo segurada pela mãe Molly. Em cada lado da mulher, estava Gideon e Arthur, o tio e o pai. Gina deu um sorriso meigo, que a deixou ainda mais linda. Ela já era amada pelo tio desde bebê. Rony foi perguntando:
— Então… é verdade que você mesmo construiu essa casa?
— Cada parte! – respondeu o animado tio. – Eu ia chamá-la de “A Toca”, mas a sua mãe disse que não! Que “Toca” seria o nome da casa dela seja onde fosse!
— É… A gente mora numa casa humilde, mas realmente a chamamos de “Toca”. – disse Rony. – Às vezes é meio apertado porque… bom, além de mim e Gina, tem mais sete pessoas!
— Caramba, parece mais um time de futebol, e não uma família! HAHAHAHAHA! – Gideon foi dando sua gargalhada alta. – Mas diga, garoto! Há algum motivo em particular que os trouxe aqui fora virem ver o seu tio favorito??
Enquanto Gina olhava todas as coisas de boxe, fotos, lembranças e prêmios que o tio tinha em exposição naquele canto da casa, Rony foi contando para ele sobre o “drama do boxe”. Que ele e Gina foram praticamente forçados a começarem no boxe por causa do fanatismo do pai, e a principal influência para aquilo era Gideon, que construiu uma carreira inquestionável como “Punhos de Fogo”. Também explicou que tanto ele como Gina não pensam em viver do boxe, que Gina sofre muito por ser a mais habilidosa e o pai está sempre com as mais altas expectativas sobre ela.
— Eu já peguei a minha irmã pesquisando sobre “carreira de jornalismo” e todo o tipo de assunto relacionado. – dizia Rony. – Ela… está bem dividida, sabe? Existe um lado dela que realmente ama o boxe, a maneira com a qual ela se entrega e treina, não é, de forma alguma, como se o odiasse. Pelo contrário, ela conseguiu assimilar pra si mesma o estilo do Mike Tyson. Cara, você ficaria orgulhoso. Eu tenho meus truques, mas a Gina é uma das melhores da nossa academia. Só que acabou namorado com um babaca lá que a fez com que espancasse um novato só porque ele manipulou tudo para que a situação terminasse nisso. Não se preocupa, ela já mandou ele pastar… E ele nem está lá mais. Mas agora, seu antigo treinador Dumbledore perguntou quem quer participar do Campeonato Nacional Juvenil ABAE e a Gina se prontificou a ir junto com um amigo meu que é tão bom quanto ela. Mas, sabe… eu ainda sinto que ela está conflitada, uma parte quer o boxe e a outra não. E tenho medo de que isso a prejudique, sabe? Como nosso pai sempre usou a sua carreira como argumento pra nos cobrar o boxe, eu achei que seria adequado vir aqui conversar e… bom, pelo menos saber o que você acha de tudo isso.
Gideon alisava a própria barba, ouvindo com atenção a cada palavra. Então, começou a falar:
— Sabe como o seu velho conheceu a sua mãe? Ele era um grande amigo meu! Já era muito fanático por boxe e mesmo não tendo o talento pro esporte, ele já colecionava todo o tipo de coisa sobre o assunto! Ele acompanhou toda a minha carreira, ia pras minhas lutas, participava das minhas comemorações… Ah, bons tempos… Seus pais se conheceram porque Molly também ia nessas comemorações! E bem, acho que você já consegue imaginar, né? Convivendo sempre com uma bela moça, as coisas acabam acontecendo.
Rony engoliu em seco e pensou em Hermione. Ficou corado. Depois, sacudiu a cabeça comicamente.
— Mas não imaginei que ele iria surtar e forçar o boxe nos filhotes mais novos! – dizia Gideon. – E, se essa situação é minha culpa… Me desculpem, nanicos! Se eu soubesse que isso ia acontecer, teria dado uma bronca danada no velho Arthur…
Gina ouviu e voltou para a mesa. Ela se sentou na cadeira com calma e foi falando suavemente:
— Não é sua culpa, tio Gideon. Mas chegou num ponto que… Eu nem consigo chegar no meu pai e dizer a ele que não quero viver disso pra sempre. Eu não sei se conseguiria conviver com o fato de que tirei a luz dos olhos dele…
De repente, o lenhador deu um soco extremamente forte e escandaloso na mesa de madeira, fazendo tudo sacudir. Rony e Gina ficaram assustados na hora, arregalando os olhos comicamente e colando as costas nas cadeiras, intimidados.
— ORA, MAS QUE ABSURDO!! – vociferava Gideon. – Gina, a sua vida é SUA! Você e nem ninguém é obrigado a viver os sonhos de outra pessoa! Isso me deixa maluco! Sequer imaginar alguém tentando controlar o que eu quero ou não fazer… Eu JAMAIS toleraria isso!!! Precisa encarar seu pai nos olhos e deixar claro: “Pai, eu mesma vou decidir o meu destino!”
Rony e Gina ainda estavam assustados. O jovem olhou pra irmã e murmurou:
— Estourado que nem a mamãe, pelo visto… Você tem mesmo a quem puxar.
Gina fez uma careta de desdém pro irmão após o comentário. Depois, ela se voltou para o tio:
— Tio Gideon… por que deixou o boxe? O que aconteceu pra agora estar aqui… isolado desse jeito? Sem esposa, sem filhos… O que aconteceu?
Gideon se acalmou e pigarreou ao ouvir a pergunta da sobrinha. Ele se sentou com mais elegância e foi falando:
— O pai de vocês deve ter contado sobre os meus maiores títulos, certo? Campeão Britânico, Campeão Europeu… Medalha de Prata nos Jogos da Commonwealth… Eu não estava satisfeito e tentei alcançar o topo mais alto: um cinturão mundial dos médios! Eu me esforcei, me desdobrei, sacrifiquei muito… Mas ainda assim… Quando finalmente consegui a disputa do título, não consegui. Mesmo assim, eu me mantive no boxe por mais alguns anos.
Rony e Gina ouviam com atenção. O tio continuou a contar:
— Em 1998, quando eu já não tinha mais aquela juventude, meu manager arranjou uma luta contra uma jovem promessa do boxe. Ele me perturbou até aceitar, dizendo que “os punhos de fogo estavam se extinguindo”. Aquele atrevido miserável… Enfim, a luta foi dura, eu já não era mais aquele incrível boxeador… E perdi no oitavo round. Nanicos, a mídia caiu em cima! Os tabloides começaram a me chamar de “ultrapassado”, “relíquia”, “peso morto”! Os fãs que se diziam leais, me abandonaram! Era como se tudo que eu conquistei fosse nada – e olha que não era pouca coisa não! Colegas boxeadores que diziam me admirar, começaram a dar entrevistas sendo bastante condescendentes, dizendo que “o futuro chegaria cedo ou tarde”! Em outras palavras… Eu estava cercado de HIPÓCRITAS!! Bom, tirando Rolanda, Quim, Edgar e Emelina, claro… Eles sempre foram fantásticos comigo. Ainda são.
Quando o tio levantou a voz, carregada de frustração antiga, Rony e Gina ficaram com olhar triste. Era um lado do boxe que eles ainda não conheciam.
— Então, chegou o dia que eu disse ao velho Dumbledore: “Pra mim chega”. Dumbledore foi compreensivo e disse “Não importa pra onde você vá agora, sempre lembraremos do eterno Punhos de Fogo”. Apesar das palavras, eu já estava FARTO. Eu peguei uma mochila, paguei uma passagem de trem e subi para o norte, sem nem pensar pra onde estava indo. Eu só queria… distância de tudo aquilo.
— Aí… veio parar em Keswick. – disse Gina.
— Isso mesmo, florzinha! – disse Gideon. – Eu ainda estava frustrado com tudo, mas aluguei um chalé barato, com cheiro de lenha. Era outono. Árvores vermelhas e douradas, o som dos galhos se movendo, o silêncio… Naquele dia, finalmente senti o que não sentia desde a minha infância: Paz. Fiquei mais um dia, depois, mais uma semana… Acabei alugando um quarto e com o dinheiro que eu ainda tinha, comecei a trabalhar cortando lenha! Não havia mais câmeras, nem autógrafos, nem pessoas me dizendo o que fazer, o que decidir… Pela primeira vez, nanicos… Eu era só o Gideon! E isso foi mais que o suficiente pra mim!
Os olhos de Gina brilhavam. Rony não deixou de perceber, mas também ficou tocado pela história que o tio contava. Gideon se aproximou mais deles, arrastando a cadeira e disse:
— Nada disso significa que viver do boxe é errado. Eu fiz a MINHA escolha. O desfecho da história de vocês não precisa ser o mesmo do meu. Gina, eu vejo em seus olhos o fogo que existia nos meus. Eu nem preciso perguntar, eu SEI que você quer participar do torneio que se inscreveu, independente de ser minha sobrinha, independente de ser a filha do velho Arthur… Independente de qualquer coisa. Se veio perguntar o que eu acho, eu digo o seguinte: Participe do torneio! Teste seus limites, use seus punhos de fogo! Se algum dia, isso perder a graça, só saia! Viva o melhor que você puder, mas sem se preocupar com o que os outros dirão. Seja feliz. Eu SOU feliz… E estou muito feliz que vieram me visitar e conversar comigo!
Rony e Gina deram um sorriso cheio de ternura. Depois se olharam.
— E então, o que acha, Gina? Ele tem razão? – perguntou Rony.
Gina finalmente sorriu do fundo do coração, com sinceridade, com confiança renovada.
— Tio, eu queria perguntar uma coisa: Eu posso levar o seu nome pra dentro do ringue? Seria uma honra!
Gideon mal podia acreditar no que ouvia. Os olhos tremeram de emoção e um sorriso imenso surgiu no rosto dele.
— Você… Você quer ser chamada de “Punhos de Fogo”?
— Vou mostrar que esse nome é atemporal e supera termos como “peso morto” e “ultrapassado”! Eu vou me chamar de Punhos de Fogo com ORGULHO. O senhor deixa?
Em mais uma reação exagerada, Gideon atirou longe a mesa de madeira, deixando Rony e Gina bastante assustados. O grande lenhador começou a gargalhar e deu outro abraço esmagador nos sobrinhos, que tentavam se soltar comicamente.
— É CLARO QUE PODE, MINHA FLOR!!! COMO EU ESTOU FELIZ!!! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
Ainda presos no abraço do tio, Rony olhou para Gina com um sorriso sincero, feliz por ela ter tomado sua decisão. Gina devolveu o olhar com carinho, agradecida pelo que o irmão fez por ela.
…
Com o cair da noite, Gideon estava passeando com os sobrinhos por Keswick num Land Rover Defender 2005, um SUV 4x4 rústico, que o lenhador usava tanto para trabalhar quanto para passear. Depois de mostrar alguns pontos da cidade para Rony e Gina, ele dirigiu até um pub famoso da cidade que se chamava “Dog & Gun”. Os dois jovens se entreolharam, confusos. Gideon puxou o freio de mão e foi falando:
— Estou tão feliz que decidi comemorar tomando umas!! Eu sei que são menores de idade, mas existem outras opções, claro! Aqui é onde me divirto depois de um longo dia de trabalho! Todos os frequentes me conhecem!
Quando os três desceram do SUV, Gina reparou que havia um grupo estacionado do outro lado da rua. Era só de homens e eles estavam rindo e bebendo latinhas, fazendo bastante barulho. Um deles era particularmente alto e bem calado. Gideon reparou o desconforto dela e disse:
— Não dê atenção, florzinha! Aqueles ali são bêbados fora de controle. Isso aí se acha em qualquer cidade, não é mesmo?
— Vamos, Gina, eles estão olhando pra gente agora… – Rony empurrou Gina com calma para dentro do pub.
Gina entrava, mas percebeu que um dos caras não tirou os olhos dela. Ela fez uma careta quando passou pela porta.
O interior do “Dog & Gun” era acolhedor e ligeiramente desgastado, com vigas de madeira escuras no teto, paredes de pedra exposta e um chão de tábuas que range sob os pés. Uma lareira de pedra, que estava acesa, dominava uma das paredes, enchendo o espaço com um leve cheiro de lenha queimada. Fotos antigas de Keswick, mapas do Lake District e imagens de montanhas como Skiddaw adornavam as paredes, junto com alguns troféus de caça (ou réplicas) que reforçam o nome do pub. Estava uma mistura de moradores locais (trabalhadores rurais, donos de lojas e até outros lenhadores) e turistas.
O trio se sentou em uma das mesas de madeira. As pessoas começaram a cumprimentar Gideon. Ele respondia animado e gritava “São meus sobrinhos! Vejam só, bem ruivinhos como eu! HAHAHAHA!”, enquanto Rony e Gina morriam de vergonha. Em uma mesa ao lado, havia um grupo de quatro garotas lindas da cidade. Elas olharam para Rony e acenaram, se insinuando, achando o garoto interessante. Rony ficou todo bobo e também acenou, timidamente, as garotas riram. Gina fez uma careta para o irmão e disse:
— Você sabe que vou contar tudo pra Hermione, né?
Rony ficou vermelho como um tomate e perdeu um pouco a calma.
— C-COMO ASSIM HERMIONE??! Ficou louca, Gina?!
— Hermione?! – indagou Gideon, confuso.
— É a “namorada” dele. – disse Gina fazendo gesto de aspas com as mãos. – Só que esse sonso nunca se declara, e o mundo vive se decepcionando com um casal que não acontece nunca…
— Pode parar!! – vociferou Rony. – Nós não somos namorados! E não é bem a sua área de expertise, Gina!
— Viu com o que eu tenho que lidar todo dia? – disse Gina e Gideon riu bem alto.
— Vocês são ótimos! – disse Gideon. – Volto logo, vou ao banheiro e depois farei nossos pedidos, ok?
— Tá bom. – disseram Gina e Rony ao mesmo tempo.
Logo que Gideon saiu da mesa para ir ao banheiro, a porta do Dog & Gun se abriu. Gina arregalou os olhos: o rapaz que ficou olhando pra ela quando entrou estava vindo, os amigos logo atrás. A risada alta de alguns deles chamaram a atenção dos presentes. Rony olhou pra trás e pensou “Caramba…”
Enquanto os outros do grupo se sentaram e continuaram conversando alto com suas latinhas de cerveja em mãos, o que ficou olhando pra Gina – ele tinha uma jaqueta de couro preta, luvas de couro pretas e três brincos em cada orelha – foi em direção a ela. Ele colocou a mão rudemente na mesa entre Gina e Rony e foi falando.
— Olá, princesa ruiva! Gostei das meias-calças vermelhas… É alguma moda do sul, é? Que tal dar um rolê comigo e com meus amigos ali?
Rony deu um olhar nervoso para o rapaz dos brincos e disse:
— Se liga, cara, ela só tem 15 anos! E, por acaso, é minha irmã, então cai fora.
O de jaqueta de couro e brincos não se intimidou. Deu um sorriso desafiador e colocou a mão no ombro de Gina. Esta olhou para o gesto incrédula, não acreditando na audácia.
— Ninguém te perguntou nada, “irmãozinho”! – disse o rapaz bêbado. – E então, gatinha? Partiu?
Gina deu um sorriso calmo. Ela se levantou da mesa com cuidado. Rony olhava com uma sobrancelha levantada. A ruiva sorriu suavemente para o rapaz de brincos e disse:
— Claro… “gatinho”.
Gina deu um cruzado de direita tão forte no rapaz que ele foi atirado na mesa das quatro garotas que flertaram com Rony anteriormente. Elas deram gritos agudos, chamando atenção junto com o barulho dos copos e garrafas que caíram. Rony estava com um dos olhos fechados, pensando no azar que o sujeito deu de mexer justo com ela. Os amigos do que foi derrubado logo se levantaram e começaram a protestar gritando e vociferando insultos. O mais alto daquele grupo continuou só observando.
— Ei!! Vocês mexeram com o cara errado, turistas! – disse um deles.
Rony se levantou e se colocou em guarda, ao lado de Gina.
— Não. Vocês que se meteram com os ruivos errados!
E assim, o caos se instalou. Os seis começaram a brigar com Gina e Rony. Copos se quebraram, garrafas voaram, pessoas gritando, gente correndo, mesas sendo quebradas. Os funcionários ficaram assombrados ao ver aquilo, tentando se esconder atrás do balcão. E curiosamente, a música que estava tocando nas caixas de som combinou com a cena.
Os adversários eram brigões bêbados. Além de não terem treinamento, estavam com os sentidos nublados pelos efeitos do álcool. Eles socavam com violência, mas Gina e Rony só se desviavam com categoria, revidando com socos precisos. Gina usava os balanços do estilo peak-a-boo e desviava com tranquilidade dos socos, cadeiradas, garrafadas, revidando com seus cruzados poderosos. Um deles puxou o cabelo da ruiva e ela gritou. Rony pulou e se jogou no que fez isso, caindo os dois numa das mesas de madeira. Depois, ele deu uma cabeçada que desacordou o adversário.
— Aqui não é o ringue, Gina! Não tem regras! – avisava Rony.
— Ah, não enche! – disse Gina, que chutou um dos caras no meio das pernas e depois o nocauteou com um cruzado no queixo. – Queria ver VOCÊ lutando com essa saia jeans aqui!
Rony riu e desviou de mais um soco, dando um gancho que jogou o atacante numa outra mesa.
Gideon voltou do banheiro assoviando e olhou a cena. Mesas voando, cadeiras quebrando, garrafas caindo, gente levando soco… e os sobrinhos quebrando a cara de todo mundo.
— MAS QUE FESTA BOA, HEIN??! – Gideon se animou na hora, sempre adorou uma pancadaria. – Espero que não se importem se eu participar!! HAHAHAHAHA!!
Alguns derrubados foram se levantando. Um deles pegou uma garrafa para agredir Gina. Só que ele teve o braço segurado por Gideon. O ex-boxeador deu um direto tão forte no agressor que ele foi atirado pela janela. Rony ficou embasbacado com a força do tio. Não satisfeito, ele também lutou com os outros e foi derrubando um por um, com técnica de boxe apurada. Gina ficou impressionada com o estilo dele, que continuava incrível e cheio de técnica mesmo depois de tantos anos. Os ruivos terminaram de derrubar todos e olharam com seriedade para o último que restou.

O mais alto, para a surpresa de todos, fez uma cara bem assustada e saiu correndo. Até deu alguns gritinhos agudos, o medo realmente tinha tomado conta depois do que viu. Rony fez uma careta de sarcasmo pra Gina, levantando as mãos e os ombros.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! – Gideon estava empolgado. – Isso sim foi uma reunião de família! Teve até briga de bar!! Que dia, nanicos!! Venham sempre que quiserem!!
Gina e Rony se olharam com caretas. Embora tenham gostado do tio e resolvido as dúvidas, eles ficaram tentando imaginar quem iria pagar a conta daquele estrago todo…
Continua…
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