Na segunda que se seguiu após o fim de semana que Gina e Rony visitaram Gideon Prewett – e a ruiva teve a oportunidade de herdar o nome “Punhos de Fogo” – o clima na Academia de Boxe Dumbledore era de preparação concentrada. Embora todos continuassem com seus treinos de sempre, o foco principal do local até o final de maio seria a dupla Harry e Gina, os dois que se inscreveram para o Campeonato Nacional Juvenil ABAE. Além disso, entrou um novo aluno: Blásio Zabini. Este estava se passando por mais um aluno comum que queria aprender com Dumbledore… Mas na verdade, ele é um membro da Academia Dark Cobra que se voluntariou a Snape para espionar os treinos de Harry e Gina, de forma que isso fosse favorecer Draco Malfoy e Cho Chang.

Todavia, Hermione, sempre atenta, começou a perceber que Blásio passava mais tempo observando os dois principais lutadores que realmente treinando e tentando aperfeiçoar algo. Enquanto não conseguia decidir se estava só imaginando coisas ou não, ela foi até o canto onde Harry e Rony treinavam. O rapaz ruivo segurava as manoplas enquanto Harry disparava combinações de golpes poderosos. Os sons dos socos ecoavam pelo salão, tamanha era a força. Rony tentava se firmar, mas era empurrado pra trás algumas vezes.

— Cara… você tá me obrigando a ficar forte só pra te aguentar! – disse Rony, tentando recuperar o fôlego.

Harry dava pulos curtos, animado, movendo os braços. Ele sorriu quando viu que Hermione estava se aproximando.

— Ou isso, ou você tá tentando parecer bastante incrível pra Hermione! – disse Harry. – Se você quiser, eu bato menos forte e você vai parecer o bonzão!

Haha, muito engraçado! – disse Rony com bastante sarcasmo. – Agora vai começar a conversar que nem o Dino? E quem disse que quero impressionar a Hermione?!

— Como se precisasse alguém dizer! – respondeu Harry. – Todo mundo já deve ter percebido que vocês dois só estão precisando de um empurrãozinho!

— Cala a boca e continua batendo… – disse Rony, corado.

Harry riu e continuou descarregando sequências enquanto Rony segurava as manoplas. Hermione chegou com um caderninho de anotações e caneta. Rony estranhou quando viu. Harry sorriu e se sentiu um profissional sendo avaliado. Hermione fez uma careta e disse:

— Tão olhando o quê?! Aqui nessa academia, levamos torneios a sério! Ronald, vê se firma essas pernas e segura direito essas manoplas! Olha pro Harry, não pra mim! E você, Harry! Se errar de novo o tempo desse jab, vou jogar essa caneta na sua cabeça!

Harry e Rony ficaram com medo e trataram de levar o treino a sério, focando e caprichando na execução. Hermione fazia anotações com rosto militar de seriedade. Um pouco distante, Blásio estava de olho. Tentava decorar os exercícios e as séries. De repente, um bater de palmas assustou o garoto. Era Angelina.

— Acorda, novato! Tá preocupado demais com o treino dos outros! Aqui é lugar de se mexer, entendeu? Vamos, venha com o um-dois que te ensinei! – disse Angelina, que segurava manoplas também.

— Ah, que preguiça… — respondeu Blásio. – Não podemos só assistir os mais fortes? Pode ser que a gente aprenda algo.

PREGUIÇA?! – Angelina estava espumando agora. – Não sei o que te disseram lá fora, mas aqui é uma academia de BOXE e não um cinema!! Agora chega de morcegar e vem pra cima!! Boxe se aprende BOXEANDO!

Blásio não podia discutir ou acabaria entregando suas verdadeiras intenções. Ele teve que treinar sequências de “um-dois” com Angelina. No outro canto da academia, Gina fazia abdominais com ajuda de Neville. Ela estava no chão dobrando o corpo, segurando as pernas do garoto alto (que estava de pé), enquanto levava as próprias pernas repetidas vezes até as mãos dele. Neville empurrava as pernas dela de volta para dificultar o exercício.

— Então, você decidiu carregar o nome “Punhos de Fogo” do seu tio? Essa história é incrível! – disse Neville.

— Ah, sim… – disse Gina, que sorria enquanto contava como foi o fim de semana. – Ele ficou muito feliz e me deixou fazer isso. Estou louca pra fazer o nome ser gritado pelos fãs de boxe novamente!

— E essa briga de bar que você contou? – comentou Neville, rindo. – Caramba, se eu estivesse lá, teria ajudado com certeza… Mesmo que eu apanhasse um pouco.

— Ah, acabou sendo bem divertida! – disse Gina rindo enquanto ainda fazia as abdominais. – Mas não se preocupe, se você estivesse lá e ficasse difícil, eu iria te salvar rapidinho!

Minha heroína! – respondeu Neville com um pouco de drama na voz e os dois acabaram rindo.

Aquilo não passou despercebido por Rony, que fez uma careta. Hermione notou Rony parando com as manoplas e reclamou:

— RONALD! O que tá fazendo? Harry vai esfriar!

— Eu tô só… Desde quando o Neville e Gina são tão próximos? – disse Rony.

Hermione olhou pra trás e viu a dupla conversando descontraidamente enquanto a ruiva se exercitava. A garota de cabelos castanhos mordeu o lábio inferior. Parte dela gostaria que fosse ela e um certo ruivo… Depois, ela olhou brava para Rony e disse:

— Não tem espaço pra distrações aqui! Final de maio vai chegar rapidinho! Vamos voltar pro foco!

Harry assentiu e voltou pra postura de combate. Rony também voltou pra postura com as manoplas e eles voltaram a exercitar como estavam. No outro canto, Angelina se cansou de Blásio:

— Meu Deus, garoto, que desinteresse! – ela jogou as manoplas no chão, com raiva. – Simas, deixo Blásio pra você, eu não perco mais nem um minuto aqui! Vou treinar a Gina, que vale mais a pena!

Blásio só deu um sorrisinho inocente. Simas foi até ele, com pouca vontade de ensinar.

— Ah, eu só vou ensinar umas coisinhas, não sou tão bom nisso. – disse Simas.

— Tá tudo bem, meu chapa! – disse Blásio. – Aqui, podemos treinar perto do Harry? Eu gosto de observar quem é bom, sabe.

— Tá, tanto faz… – disse Simas, pouco interessado.

Enquanto Blásio ficou feliz por ter conseguido o que queria, Dumbledore observava todos de longe. Um sorriso enigmático apareceu no rosto do velho treinador, um que ele só deu porque sabia que ninguém estava vendo.





Fevereiro de 2009 chegou e pouca coisa mudou nesse tempo. A turma continuava ajudando Harry e Gina a treinar, Neville continuava ajudando e conversando bastante com a ruiva, Dumbledore participava pouco, só dava algumas instruções. Blásio sempre reportava para Snape tudo o que estava vendo. Ele empolgou tanto quando o treinador de cabelos escuros o elogiou que agora ele estava sendo mais ousado: ele passou a usar o celular pra filmar sempre que podia. O problema era que Blásio não era tão discreto quanto achava. Hermione ia percebendo e agora até isso ela anotava no seu caderninho. Ela mal conseguia conter o seu desconforto com aquilo.

Então, certo dia, a de cabelo castanho se cansou e foi até Angelina no meio de um dos treinos.

— Angelina, tá na cara que Blásio só tá aqui pra espionar! – disse Hermione. – É tão óbvio que não sei porque o Treinador Dumbledore não deu um jeito nisso ainda! Ele treina super pouco e já peguei ele várias vezes tentando filmar Harry e Gina!

Angelina ficou com o rosto nervoso na hora. Ela largou o treino que fazia com Gina e foi andando séria. Os instintos que a tornariam uma policial ferrenha um dia ficaram evidentes. Neville também estava perto e ouviu o que Hermione contou.

— Cadê ele? – perguntou Angelina, seca.

— Advinha! Filmando ali da arquibancada! – disse Hermione, apontando para Blásio.

— TODO MUNDO PARANDO DE TREINAR AGORA! – berrou Angelina.

Harry e Rony pararam o treino de pular corda que faziam, olhando sem entender. Gina colocou as duas mãos na cintura, olhando sério pra direção de Blásio, assim como Hermione. Simas parou com as flexões e se levantou. Neville seguiu Angelina. Ele não tinha percebido nada até esse dia, mas o absurdo da situação deixou até ele, que era tão calmo, revoltado. Dumbledore observava a cena de uma certa distância.

Blásio percebeu que a situação ficou tensa pro lado dele e começou a mexer no celular com bastante pressa. Terminou de mandar os vídeos que fez e foi apagando a conta que tinha criado pra essa finalidade. Angelina, furiosa, pegou o garoto pela gola do moletom. Blásio só sorria um sorriso debochado, sem qualquer escrúpulo.

— Então, quer dizer que você não passa de um SAFADO que só veio aqui espionar tudo pro Snape, é? – disse Angelina. – Eu já devia ter entendido pelo moletom preto desde o primeiro dia! Passa esse telefone pra cá agora!

— É tarde demais, menina! – disse Blásio, agora já nem tentava esconder. – Deviam me agradecer, vão ficar bem famosos! Eu já mandei os vídeos… e a conta? Já era! Vocês vão ser ESMAGADOS pelos nossos representantes no torneio! E tudo graças a mim! HAHAHAHA!

De repente, Blásio levou um empurrão bem forte, tirando ele das mãos de Angelina. Para a surpresa de todos, foi Neville. Ele estava lívido, com chamas nos olhos. Os outros se assustaram, não conheciam esse lado de um garoto alto que era sempre calmo e gentil. Blásio não se intimidou e tentou dar um soco em Neville. Este, segurou a mão do espião e a apertou com tanta força que fez com que ele gritasse de dor e ajoelhasse. Gina assistiu à cena e ficou… CORADA.

— Como você se atreve, seu PALHAÇO… – vociferou Neville. – Nós te recebemos aqui de braços abertos, acreditamos que queria treinar, ser um de nós… E você estava só mentindo pra tirar proveito da gente?? CAI FORA DAQUI AGORA!! AGORA!! Aqui não é lugar de cobras! Volte pra sua academia escura!!

Blásio se levantou quando Neville soltou a mão dele e saiu correndo porta afora. Angelina estava de olhos arregalados, não acreditando no que viu. Neville suspirou de leve e voltou a ter a expressão tímida no olhar. O que restou aos espectadores foi aplaudir.

— Com um guarda desse, a gente não tem com o que se preocupar! – Gina falou alto pra todos ouvirem. Neville ficou corado e coçou a nuca, não acostumado com o holofote.

Os garotos foram zoar Neville enquanto Angelina andou até Dumbledore. O velho técnico continuava com a expressão facial de sempre. Angelina não parecia satisfeita.

— Treinador, o senhor sabia, não é? – disse a moça. – Eu conheço o senhor, é claro que já tinha notado que o moleque tava aqui só pra espionar! Por que… POR QUE você não o mandou embora antes? Isso que ele fez pode nos prejudicar DE VERDADE… Prejudicar Harry e Gina!

Dumbledore olhou sério para Angelina. Esta ficou intimidada com o olhar e parou de falar. O velho treinador foi falando:

— Isso não passou de uma distração. Algo que estava dentro dos meus… cálculos. A partir de agora, o verdadeiro treino começa.

E, sem esperar resposta de Angelina, Dumbledore apitou forte o suficiente para ecoar por toda a academia. Os alunos largaram a comemoração com Neville e se posicionaram correndo para o centro. Dumbledore olhava sério para todos, ou seja, o clima de brincadeira estava anulado.

— Não são os punhos… – começou ele.

— … É O CORAÇÃO! – responderam todos gritando.

— A partir de agora, não teremos treinos leves aqui dentro, entenderam? Desse instante em diante, treinaremos vencedores. Harry Potter, Gina Weasley.

Os dois deram um passo à frente.

— Vinte voltas no quarteirão, agora. Vão. Os outros, preparem-se para o sparring. Cada um de vocês vai testar Harry e Gina.

Os dois nem responderam, foram imediatamente correr ao redor do quarteirão. Os outros foram se aquecendo para entrarem no ringue contra eles assim que voltassem. Angelina olhava para Dumbledore. Ocorreu a ela que talvez não conhecesse o velho treinador tanto assim, que talvez ele tivesse seus próprios objetivos. Objetivos esses que ele mantinha para si próprio.





Nos meses que se seguiram depois da expulsão de Blásio da academia, o ritmo de treino mudou completamente. Depois da escola, Harry ia imediatamente para a Columbia Road, encontrava-se com Gina e os dois faziam a corrida que antecedia os treinos. Depois de um descanso rápido, eles alongavam, faziam abdominais e treinavam trabalho de pés. Pouco depois, eles treinavam várias combinações, cada um em seu estilo. Dumbledore explicava como seria, Angelina demonstrava e a dupla fazia várias séries. Cada apito era uma explosão de golpes, aprimorando combos e movimentação. Dumbledore estava totalmente imerso agora, participando ativamente do “treinamento de vencedores” que ele tinha falado. Sua postura sempre calma, agora foi substituída por uma de um treinador exigente e falador. Enquanto Harry e Gina não estivessem com as posturas e desenvolturas perfeitas, ele não parava de corrigir. No meio de exercícios de postura, ele apitava sem aviso. Harry e Gina tinham que ir para o chão e pagar vinte flexões. Depois, eram treinos de manoplas. Rony continuava auxiliando Harry, enquanto Angelina fazia o mesmo por Gina. Hermione anotava e mostrava o que ela observava para o velho treinador. Dumbledore agora apitava quando precisava corrigir os dois lutadores, fazendo com que os parceiros de manoplas esperassem as instruções de aprimoramento. Neville auxiliava Gina todos os dias, levava toalha para ela se secar, buscava água, dava suas próprias observações do que ele via, cronometrava o tempo dela em alguns exercícios. Simas fazia o papel de juiz quando havia sparrings. Até ele agora estava se envolvendo mais, avisando quanto tempo restava nos rounds, quem estava marcando mais pontos.

— Isso mesmo. – dizia Dumbledore enquanto rodeava o salão, observando Harry e Gina pulando corda freneticamente em mais uma tarde de treino. – Quem falha em se preparar, se prepara para falhar. E não se enganem. Seus adversários estão treinando dia e noite.

No treinamento com sacos de pancada, Dumbledore GRITAVA, incentivando Harry a dar tudo de si.

— VAMOS, POTTER! Eu quero ver o soco mais potente! Você pode fazer melhor que isso! Quer ir pras Olimpíadas? Dê toda a sua força nesses socos! Eu quero ver o seu adversário SER ATIRADO PRA FORA DO RINGUE!!

Harry gemia de esforço e lançava seus melhores diretos, buscando aumentar a força de cada soco. Após, Dumbledore foi acompanhar a movimentação de Gina dentro do ringue, ela praticava os balanços de cabeça com a guarda peak-a-boo.

— MAIS RÁPIDO, WEASLEY! – gritou Dumbledore, batendo com a mão no tablado. – Você tem que ser INTOCÁVEL! Não quero ver bloqueios, quero ver esquivas!! Mais rápido, e lance cruzados quando voltar! VELOCIDADE vai te dar a vitória contra as outras garotas!

Gina gemeu entre os dentes, movendo-se mais depressa, lançando cruzados quando retornava da esquiva. Ela suava e sentia os braços mais pesados, agora que o nível do exercício subiu. Rony, Simas e Neville olhavam assustados aquela versão nervosa de Dumbledore que eles raramente viam. Angelina, já acostumada, sorria. Ela sabia que aquilo deixaria os dois ainda mais fortes. Hermione anotava no caderno: “Combinar com a turma de assistir no fim de semana as semifinais do Nacional Irlandês de 2005 para que Harry observe um peso-leve que tinha a mesma guarda dele.”

Harry e Gina estavam agora revezando no saco de velocidade. Eles estavam tão cansados que nem conversavam um com o outro. De repente, Dumbledore apitou novamente. Eles foram ao chão ao mesmo tempo e fizeram mais vinte flexões.

— De pé, agora! Mais dez voltas no quarteirão! – berrou Dumbledore.

Os dois se levantaram sofrendo, mas foram para a corrida.

— Preparem-se pro sparring com eles quando voltarem! – o treinador anunciou aos outros.

Neville olhou preocupado para Simas e Rony.

— Meu Deus, o treinador tá pegando pesado demais, não acham? – disse Neville.

— Nem me fala, cara… – disse Rony. – A Gina chega em casa completamente destroçada, ela nem consegue conversar direito.

— Eu tô com dó do Harry também. – disse Simas. – Vou pegar leve no sparring com ele…

— Você fará um desserviço com ele se fizer isso, Simas. – disse Hermione. – O treinador tá fazendo Harry e Gina sofrerem como profissionais, mas isso é porque ele não quer menos que a vitória lá no campeonato da ABAE.

— Exatamente! – disse Angelina, colocando as luvas e se aquecendo. – Quando a Gina voltar, eu vou dar um sparring de respeito pra ela! Se ela conseguir me acompanhar, eu que sou uma peso-leve, as meninas do peso dela serão moleza!

Momentos depois, Harry e Gina chegavam completamente ofegantes na porta da academia. Ficaram alguns segundos ofegando e depois olharam um para o outro. Começaram a rir.

— Você tá um lixo, Potter… – disse Gina, provocativa.

— E você tá tão vermelha que dá pra ver do espaço sideral, Weasley. – respondeu Harry, também rindo.

— Meu Deus, ainda tem a seção de sparring… eu quero morrer! – disse Gina.

— Se a gente não morrer de verdade depois desses meses de tortura, a gente deve mesmo vencer esse torneio… – comentou Harry.

Gina deu um risinho cansado e só encostou a cabeça no ombro de Harry quando se sentaram na calçada. Eles ficaram alguns minutos descansando antes da seção de sparring que iria se seguir. A ruiva foi falando.

— Há um ano, eu estava quebrando a sua cara dentro do ringue… Agora olha pra mim, encostada em você pra descansar.

Harry riu e se lembrou da sua primeira luta contra ela, a que ele teve um péssimo desempenho. Muito aconteceu desde então e agora eles eram companheiros de batalha.

— Vou começar a cobrar pelos minutos no ombro… – brincou Harry.

Enquanto ofegavam, Gina olhou para o Pet Shop Lepus, bem de frente a academia.

— Tem falado com a Luna? – perguntou ela.

— Ah… Sempre, né. – respondeu com sinceridade o garoto de óculos.

— Vocês são uma gracinha juntos, sabia? – disse Gina, sorrindo. – Porque não a pede em namoro?

Harry ficou tão vermelho que teve que encostar à parede da entrada da academia ao ficar desconcertado. Gina, ainda no ombro dele, deu risada.

— Tímido que nem meu irmão… Coitada da Luna… – ela foi zoando.

— Tá… Vamos entrar pro treino de sparring! – disse Harry desconversando.

Gina riu e foi entrando na academia após se levantar, seguida pelo garoto de óculos, que ainda estava corado.





As semanas se passavam e agora o mês de abril estava terminando. Era 13:30 quando Harry e Luna dividiam um vagão de trem que partiu da Euston Station. A ideia era de Luna: ir até Liverpool e conhecer o Centro Esportivo Everton Park, local onde se daria o tão aguardado Campeonato Nacional Juvenil ABAE no final de maio. Segundo a loira sonhadora, “um leão caça melhor na selva que conhece” e ela convenceu Harry que ir dar uma olhada no local seria algo benéfico. O garoto de óculos ficou animado com aquele plano e eles decidiram fazer isso juntos no dia 26 de abril.

Quando se encontraram na estação de trem, acabaram rindo. Harry estava de jaqueta jeans azul, camisa branca e calça jeans azul. Luna estava com uma jaqueta cardigã azul, blusa rosa, saia azul e meia-calça azul (com brincos azuis combinando). Eles se vestiram com bastante azul sem nem terem planejado. “Azul é a cor da sorte, Harry?”, brincara Luna. “Se vou passar uma tarde legal com você, eu diria que sim”, o garoto respondera com um largo sorriso.

Duas horas e meia de viagem depois, eles chegaram na Estação Lime Street em Liverpool. Luna observava tudo, radiante, sempre conectada com todas as coisas, com todos os sinais, com a vida. Harry sorria ao vê-la tão entusiasmada. Ele supôs que havia bastante tempo que a garota loira não fazia uma viagem como aquela. Embora ele soubesse que aquela tarde fosse beneficiá-lo mentalmente para o torneio, ele ficou feliz de saber que ela também teria um dia divertido. Após, a dupla pegou um ônibus urbano que os levou até o local. O parque fica numa região alta com vista para o centro da cidade. O tempo todo, Luna falava sobre o que ela sentia e via. Harry ficava encantado. Onde quer que estivesse, Luna Lovegood estava em sintonia com tudo.

O Centro de Esportivo Everton Park se erguia como um refúgio moderno no meio do concreto antigo de Liverpool. Com sua fachada de vidro e estrutura angular, destoava dos prédios vermelhos e das casas geminadas ao redor, como se tivesse sido plantado ali por uma geração mais esperançosa. Do lado de fora, famílias, crianças e jovens atletas formavam um fluxo constante entre a entrada principal e os arredores do parque.

Do alto da colina, era possível ver parte da cidade abaixo — ruas estreitas, prédios antigos, e ao fundo, o brilho tênue do Rio Mersey sob o céu nublado. A visão deixou Luna maravilhada, ela pegou o próprio celular e foi tirando fotos. Uma leve brisa trazia cheiro de chuva recente misturado ao de grama molhada e café vindo da pequena lanchonete logo na entrada. Depois que tirou as fotos, Luna puxou Harry pelo braço, bem animada e entraram no prédio. O centro esportivo era público, então o acesso para visitantes era permitido durante o horário de funcionamento, sem necessidade de agendamentos.

Lá dentro, o ar tinha um zumbido constante de tênis no chão, apitos e o som ritmado das cordas nas mãos de iniciantes animados. Os visitantes se espalhavam entre a recepção, a área de musculação envidraçada e os corredores que levavam ao ringue principal — um espaço sagrado cercado por tapumes de segurança, sacos pesados e treinadores observando tudo com olhos clínicos. Harry olhava impressionado. Já começava a imaginar a movimentação no dia do torneio da ABAE. Era um complexo multiesportivo, um ambiente de energia pulsante, mas controlada. Era possível ver crianças fazendo aulas de natação e de dança, jovens em treino de basquete e futsal, famílias usando a área de lazer ou a lanchonete e também era possível ver praticantes de boxe fazendo seus treinos. Harry assistiu um pouco ao treino deles, vendo como os Scousers (quem mora em Liverpool é chamado assim) tratavam a Nobre Arte.

Pouco depois, percebeu que Luna olhava um panfleto do complexo de cabeça para baixo. Ele levantou uma sobrancelha, impressionado.

— Precisa de ajuda aí? – disse o garoto de óculos rindo.

— Está tudo sob controle! – respondeu a loira sonhadora. – Vem, eu já descobri onde vai ser o evento!

Luna saiu correndo animada, Harry revirou os olhos e começou a correr atrás dela. As pessoas ficaram olhando os dois, mas naquele momento, eles nem estavam ligando.

A entrada não era permitida, mas podiam ver à distância. A estrutura estava sendo montada aos poucos, mas o ringue já estava lá, majestoso. Os olhos de Harry perderam o foco e ele viajou para o futuro. Já se imaginava entrando, a torcida acompanhando, os olhos todos vendo as batalhas que ele travaria, os golpes que ele usaria, os adversários que ainda não conhece, os rounds, os riscos. Ele começou a sentir o peso das incertezas com tantas variáveis.

Luna tirou fotos da estrutura e depois viu como Harry estava. Ela começou a falar:

— Søren Kierkegaard diz que “A ansiedade é a vertigem da liberdade”. A liberdade nos desafia, mas também nos dá a chance de sermos autores de nossa história. Você não vai estar sozinho, Harry. Todos da academia estarão aqui te apoiando… E eu também.

Quando terminou de falar, ela fechou os olhos e deu um lindo sorriso. Harry saiu da ansiedade que sentia com as palavras de Luna e olhou para ela. Ele deu um suspiro e sorriu de volta.

— Obrigado, Luna… Você é a melhor, sabia?

Luna ficou corada com o que ele disse e olhou para outra direção, envergonhada. Sem olhar pros olhos dele, ela foi dizendo:

— Tem trilhas com áreas verdes aqui no Everton Park… Você quer caminhar comigo? Faz tempo que não olho a natureza…

— Quero sim, Luna! Vai ser um prazer! – disse Harry.

A loira ficou radiante e começou a andar na direção que encontrou no panfleto de cabeça para baixo. Antes de segui-la, Harry olhou uma ultima vez para o ringue. Ficou com o rosto sério e apertou o punho direito. “Farei o meu rugido ecoar aqui. É uma promessa.”, pensou.

A trilha verde de Everton Park serpenteava suavemente por entre colinas gramadas e pequenas árvores espalhadas com ar de descuido. O solo era firme, mas irregular — marcado por raízes rasas, pedrinhas e manchas de terra batida. Ao redor, arbustos baixos dividiam espaço com bancos de madeira simples, alguns gastos pelo tempo. A vista da trilha se abria em certos pontos, revelando Liverpool lá embaixo, com seus telhados vermelhos e fumaça flutuando no ar.

A tarde caminhava lentamente, aquecida por um sol ameno e brisas suaves que brincavam com os cabelos dourados de Luna enquanto ela e Harry terminavam de percorrer os arredores do centro esportivo. Já tinham gravado na memória a imagem do chão polido do ginásio com o ringue de boxe erguendo-se como um monumento no meio dele. Agora, caminhavam pelas trilhas arborizadas do Everton Park, num contraste tranquilo da tensão que cercava o mundo competitivo do boxe.

Luna andava em silêncio, o olhar distante, como se escutasse algo que ninguém mais ouvia. Harry percebeu a mudança. Ela sempre tinha algo a dizer — sobre o som das folhas, o humor dos esquilos, ou as histórias secretas dos pássaros. Mas agora… apenas o silêncio.

— Você está bem…? — ele perguntou, gentil, observando o sorriso dela desbotar sutilmente.

Luna parou. Seus olhos azuis fixaram-se numa árvore enorme, cujas raízes escapavam da terra como dedos de uma memória antiga.

— M… Mamãe costumava me levar em parques assim… — disse Luna com o rosto triste. — Ela dizia que os melhores lugares pra pensar são aqueles em que o céu consegue tocar o chão. Aqui... é um desses.

Luna tentava conter as lágrimas que iam surgindo. A ausência e a dor tomando conta dela. Harry olhou e ficou comovido. Assim como ela, ele também tinha perdido a mãe, uma pessoa doce e cheia de luz. Ele mordeu o lábio inferior e foi falando com calma:

— Luna, eu tenho certeza de que sua mãe estaria orgulhosa de você. Não só por todas as coisas que sabe, mas pela pessoa incrível que você é. Mesmo agora… você tá tentando não chorar, só pra não “me incomodar”. Eu só consigo te admirar mais ainda. Não conheci sua mãe, mas… Graças a ela, eu tenho uma amiga muito especial hoje. E sei que ela gostaria que você tivesse boas lembranças quando andasse em parques assim, e não lembranças dolorosas.

Luna ouviu cada palavra e se lembrou do sorriso da mãe, um sorriso tão bonito que ela achava que estava com um anjo. “Posso dar o seu sorriso pra ele, mamãe?”, pensou Luna. Ela se virou para o garoto de óculos e deu um sorriso maravilhoso. Harry sentiu o coração disparar e o rosto corar fortemente. Os olhos ficaram arregalados e a timidez tomou conta.

— Já que é pra ter boas lembranças, que tal uma foto comigo? – disse Luna, com a alegria renovada.

F-Foto?! – Harry gaguejou, meio desconcertado.

— Sim! A gente tá aqui, estamos bem vestidos, está tudo lindo, eu estou feliz… Não podemos perder essa chance! Agora é o momento certo pra isso!

— Ah… C-Claro, vamos tirar sim…! – disse Harry.

Luna se posicionou ao lado dele, envolveu o ombro do rapaz de óculos com naturalidade e esticou o braço com o celular pra tirar a selfie. O clique capturou a cena: Luna sorrindo como um sol que acabara de nascer, e Harry, surpreso, com um sorriso tímido, mas real.

Naquele instante, ele não pensava no torneio. Nem em medalhas. Nem em adversários. Só conseguia pensar que, por alguma razão inexplicável, o mundo parecia mais leve perto daquela garota. E era uma leveza que ele não tinha pressa alguma de perder.





Já era noite na casa dos Lovegood. O vento balançava as cortinas claras do quarto de Luna, espalhando o aroma das flores secas penduradas na prateleira. A luz do abajur, suavemente amarelada, envolvia o ambiente com um calor sereno. No canto do cômodo, Pompom, o coelho branco, roía seu brinquedo de madeira em forma de estrela, só para largá-lo em seguida e encarar Luna com seus olhos redondos e julgadores — ou talvez apenas curiosos.

Luna estava sentada de pernas cruzadas na cama, usando o famoso pijama com estampa de coelhos (e alguns usavam cartolas), o celular na mão e um sorriso bobo no rosto. Ela olhava a foto tirada mais cedo: ela, brilhante como a própria primavera, e Harry, visivelmente encabulado, mas genuinamente feliz ao lado dela. Então, frases começaram a vir à memória da garota:

Luna, você… você é BRILHANTE”

Você é como… mágica.”

Você é como a lua mesmo, você brilha quando está tudo escuro.”

Obrigado… por existir.”

O que eu gritei pra aquele pessoal é a verdade: Você é a pessoa mais especial do mundo.”

Eu só consigo te admirar mais ainda.”

Luna olhava para a foto enquanto se lembrava de tanta coisa que só Harry tinha dito a ela. O rosto da garota foi ficando mais e mais corado. A mão que segurava o celular agora tremia. Ela deixou o aparelho ao lado e abraçou as pernas.

— Pompom… — começou ela, com um suspiro leve, apoiando o queixo nos joelhos e a voz mais doce do mundo. — Eu acho que estou gostando de alguém.

O coelho fez um som curto, quase um "pff", e se virou de lado. Luna interpretou como um “até que enfim”.

— Ele… é diferente. Não só porque me defendeu, ou porque escuta de verdade. Mas porque, quando ele tá por perto… — ela sorriu, meio envergonhada — ... meu coração vira uma fanfarra de escola de samba! Tã-dã-dã-dã-dã-bumm! — fez, batendo com os dedinhos no colchão como se imitasse a bateria.

Pompom pulou, assustado, e encarou Luna com uma expressão claramente ofendida.

— Desculpa! — riu a loira, cobrindo a boca. — Mas foi uma boa ilustração, vai!

Pompom olhava pra dona como se estivesse mais interessado na próxima cenoura que na história romântica. Ela continuou.

— Eu quero sempre ficar perto dele… Ele… Me faz feliz… Será que existe mesmo final feliz pra uma personagem como eu?

Pompom deu de ombros como se pensasse “quanto drama…”. Luna riu, ainda corada. Ela foi até onde estava o coelho e o pegou. Colocou ao seu lado na cama.

— Boa noite, Pompom. Se eu sonhar com ele e sorrir… não me acorda, tá?

Ela beijou o coelho com carinho e depois apagou a luz do abajur para dormir. O problema era que o coração dela não estava deixando. Ela ficou sorrindo, imaginando que jamais se esqueceria daquele dia.





Já era tarde na casa de McGonagall. O relógio da parede marcava 00:17 quando Harry ainda estava sentado na beira da cama, com o celular em mãos, encarando a selfie que tirou com Luna no parque. Ele estava de pijama e com o coração batendo como se tivesse acabado de correr uma maratona.

Edwiges, empoleirada, soltou um suave kroo, observando o dono com um olhar quase maternal.

— Tá, eu sei… — disse Harry, envergonhado. — Eu tô agindo que nem o Neville quando olha pra Gina, né?

Edwiges fez outro som, dessa vez mais parecido com um riso de coruja, se isso fosse possível.

— Mas você devia ter visto ela hoje, Edwiges… Luna tava… tava linda demais. Aquela roupa… aquele sorriso… — ele parou e soltou um suspiro tão sonoro que a coruja se virou para o outro lado com um leve farfalhar. Ele caiu de costas na cama e deixou o celular cair sobre o peito.

— Eu sou um caso perdido. — murmurou.

E foi aí que a mente de Harry começou a viajar de novo para o futuro. Na fantasia, o ginásio do torneio estava lotado. Começou a se imaginar lutando uma final contra Draco Malfoy. Só que invés de imaginar o correto – os dois com uniformes comuns de torneios amadores e protetores de cabeça – ele visualizava os dois sem camisa e sem protetores, lutando como verdadeiros profissionais. Até os óculos ele estava usando.

Harry vencia Draco facilmente e a plateia aplaudia de pé. Um locutor gritava:

— SENHORAS E SENHORES, O NOVO CAMPEÃO JÚNIOR DOS PESOS-LEVES DO REINO UNIDO… HARRY “O LEÃO DO RINGUE” POTTER!!!

Ele, sem camisa, com as bandagens suadas nas mãos e um sorriso que ia de orelha a orelha, levantava o troféu como se fosse o martelo do Thor. E ao lado dele… Luna, com um vestido lilás esvoaçante, se agarrava em seu braço com orgulho, os olhos fechados, sorrindo como se já fosse a esposa do campeão. Fotógrafos capturavam o momento que daria uma perfeita capa de revista.

E então, ainda no devaneio, Luna olhava pra ele e dizia:

— “Harry… meu leão. Me dá orgulho todo dia.”

A imaginação idiota empolgava Harry, que sorria como um imbecil. Quando de repente…

CRASH!

De volta à realidade, Harry tinha derrubado o abajur tentando levantar o chinelo como se fosse o troféu. Edwiges deu um salto, voando de susto e protestando furiosamente com um SKRAA!

— AAAAAAH, FOI MAL! FOI MAL, FOI MAL!! — Harry tentava se desculpar enquanto acalmava a coruja.

Edwiges bicava o ar como se dissesse: "ENDOIDOU DE VEZ, MENINO?"

Ele recolocou o abajur, massageando a testa que bateu na beirada da cama.

— Ok. Sem mais devaneios… — murmurou, tentando parecer sério, mas com um sorriso enorme no rosto.

Ele olhou de novo a selfie no celular.

— Mas se isso acontecer mesmo… vai ser só o começo, né?

Edwiges voou até a cabeceira da cama e, calmamente, deitou as penas. No fundo, até a ave parecia torcer para ele. Harry sorriu, puxou o cobertor e apagou a luz, sussurrando para a escuridão:

— Boa noite, Luna.





Dias depois, enquanto a noite cobria Londres, Rony e Gina estavam descendo do ônibus 30 e chegando na região de Homerton, que ficava no distrito de Hackney, no East London. É uma região diversa, classe trabalhadora, com uma vibe sem luxo, mas com muita vida comunitária. Tinha casas geminadas antigas, modestas, muitas delas com pequenos quintais. Também era conhecida por ter quarteirões que misturavam o velho e o novo, mercados de rua e ruas com nomes poéticos. O rapaz andava com paciência ao lado da irmã, que estava bem esgotada após mais um longo e cansativo treino para o torneio da ABAE. Sendo gentil, ele abriu para a irmã o portão que dava para a casa conhecida como “A Toca”, a residência dos Weasley.

Era uma casa geminada de dois andares, de tijolos avermelhados já desgastados pelo tempo, com janelas que rangiam sempre que o vento passava — e o vento sempre passava. No portão da frente, a tinta azul desbotada mal escondia o desgaste de anos de histórias, jogos de rua e entregas atrasadas. Mas bastava atravessar a porta para perceber que ali dentro batia o coração de uma família incomparável. Lá, viviam nada menos que NOVE pessoas — um casal e seus sete filhos. Com tantos integrantes, era de se imaginar que havia pilhas de diversas coisas espalhadas que já não tinham onde serem guardadas: roupas ainda por passar, revistas, a coleção imensa de boxe do patriarca Arthur Weasley, cadernos, livros velhos, materiais de bordado – um hobby da matriarca, Molly Weasley. Mas estava tudo disposto de forma que desse para andar pela casa, afinal, ainda precisavam receber visitas às vezes.

Na sala de estar, onde a família normalmente se juntava para assistir a filmes ou a eventos de boxe, havia vários porta-retratos com diversos momentos da família. Havia uma foto muito importante para Arthur: era ele com Gideon Prewett, quando os dois ainda eram jovens e o ex-boxeador conquistou a Medalha de Prata nos Jogos da Commonwealth em 1986. Depois de terem ido a Keswick conhecer Prewett, Rony e Gina agora sorriam todas as vezes que passavam pela foto. E assim o fizeram novamente, a caminho da cozinha.

— Nossa, eu tô com tanta fome que deu saudade dos scones com creme e geleia do tio Gideon… E do chocolate quente, claro. – disse Rony, já abrindo a geladeira.

— Ué, mas quem se matou de treinar fui eu! – disse Gina, rindo.

De repente, chegaram duas figuras na cozinha. Um totalmente similar ao outro, exceto pela inicial que estava bordada no moletom – uma das estratégias que Molly desenvolveu para não confundir os filhos gêmeos: Fred e Jorge. Rony olhou preocupado para a dupla de mais velhos e Gina já começava a rir. Os dois sempre traziam um caos bem divertido.

— Olha só quem voltou! A estrela do boxe e seu… carregador de toalhas! – disse Fred.

— Ah, não fale assim do Roniquito, Fred. – disse Jorge. – Se desmoralizá-lo, ele vai parar de fingir que sai de casa todo dia pra treinar!

— Ah, não comecem, vocês dois! – resmungou Rony. – É claro que eu treino também! Não sou como vocês que tiveram a sorte do pai não ter tido a ideia de enfiar no boxe quando eram mais novos!

— A quem você quer enganar, Roniquito? – disse Fred. – A gente sabe muito bem a verdade!

— Pois é, Fred. – completava Jorge. – Ele só aparece lá no Dumbledore pra ver a…

Rony ficou furioso antes de eles terminarem. Gina se juntou ao coro e falou ao mesmo tempo com os gêmeos:

— … HERMIONE!!

Os dois foram rindo e Rony ficou bem emburrado. Gina sorria com suavidade.

— Ai, vocês são insuportáveis! – dizia a ruiva, dando risada.

— Obrigado! – responderam Fred e Jorge ao mesmo tempo, com enormes sorrisos.

— Vocês não têm nada melhor pra fazer não?? – indagava Rony, espumando.

— A gente quer saber porque só a mais nova entrou no torneio! – disse Jorge.

— Pois é, por que não se inscreveu também? Ficou com medo de levar soco? – indagou Fred.

— Eu devia socar vocês dois!! – disse Rony, furioso.

Fred e Jorge começaram a imitar galinhas pra zoar Rony. Ele ficou bravo e começou a perseguir os gêmeos, que só fugiam dele com facilidade. Gina teve que se segurar no armário da cozinha, pois estava rindo descontrolada agora.





Depois que tomou o banho, Gina estava em seu quarto – o que ficava mais no alto da casa, tentando afastar a única filha garota do barulho que reinava naquele lugar. Ela estava sentada na cama, com os cabelos ainda úmidos repousando no pijama que usava. No colo, havia um laptop onde ela assistia a algumas reportagens. Ficava sorrindo, se imaginando no lugar dos correspondentes jornalísticos, viajando pelo mundo, registrando momentos importantes, divulgando causas nobres, conhecendo diferentes culturas… Esse era o verdadeiro sonho da garota.

Uma batida leve soou na porta. Com medo de ser o pai, ela minimizou as janelas que mostravam reportagens e falou:

— Oi?

— Posso entrar, filha? – a voz era de Molly.

— Ah, er… Claro! Já vou abrir, mãe! – respondeu Gina.

Gina fechou o laptop e foi destrancar a porta. A mãe entrou com uma bandejinha, trazendo chá.

— Achei que ia ser bom pra te acalmar. O treino foi pesado de novo, né? Tem certeza que Dumbledore não está exigindo muito de você?

— Eu tô bem cansada mesmo… Obrigada, mãe. – Gina disse e sorveu um pouco do chá de camomila. – Mas sabe, são… como posso dizer… “dores boas”. Eu sinto que estou MUITO mais forte que no começo do ano, não tem nem comparação. Então acredito e confio no treinador.

Molly acariciou os cabelos da filha, com carinho por alguns momentos. Por mais que ela fosse forte e até temida, para a matriarca da família, ela sempre seria a sua querida flor.

— E como está o coração da minha campeã? — perguntou, com aquela sutileza que só mães têm pra acertar onde dói e onde cura ao mesmo tempo.

Gina deu um risinho baixo.

— Acho que… está bem. O Dino era… bonito, confiante, habilidoso. Mas no fundo… ele não me via de verdade. Só gostava do que eu representava pra ele. E eu também não sabia direito quem eu era. Talvez… eu ainda esteja descobrindo.

Molly a olhou com ternura.

— Às vezes a gente acha que se apaixonou, mas o que a gente queria mesmo era ser notada. Ser escolhida. E quando percebe que pode se escolher primeiro… tudo muda.

— Você tem tanta razão, mãe! Agora, no ringue, eu me sinto inteira. Forte. Leve. Como se o mundo fosse meu por alguns segundos. E… tem um garoto… — Gina deu um sorriso quase envergonhado.

Molly arqueou uma sobrancelha, interessada.

— Ah, é? E quem é esse sortudo?

— É o Neville. Ele é… MUITO diferente do Dino. Ele não é muito habilidoso… Bom, ainda não… Mas… É gentil. Engraçado sem forçar. Sempre tá lá quando precisa. E eu… acho que ele me vê. Do jeito certo, sabe?

Molly apertou a mão da filha.

— Minha filha, conexões que são verdadeiras são as mais importantes. Sua felicidade é tudo pra mim. Espero que esse garoto um dia se aproxime e diga o que sente, com dignidade, com confiança. Não deixarei que qualquer um ande com a minha filhinha!

Gina deu risada e ficou um pouco corada. Para outras pessoas, esperar por Neville podia ser algo perigoso, já que ele era ainda mais tímido que Harry e Rony, mas Gina sentia que talvez nem tudo nessa vida precisava ser tão imediato. Ela olhou pra mãe e foi falando, divertida:

— E o Rony, hein? Vai esperar mais quantos anos pra admitir que tá caidinho pela Hermione?

Molly riu alto, tapando a boca.

— Ah, esse meu Ronald... Herdou do pai o coração bom e a cabeça... bom... distraída.

As duas gargalharam juntas.

— Às vezes, minha filha, os meninos demoram. Mas os que valem mesmo… chegam pra ficar. Eu vou torcer por você… no ringue e na vida. Sempre.

Gina se aconchegou no ombro da mãe. Por um momento, não era a atleta do campeonato, a garota forte, a que tinha que manter a pose. Era só a filha de Molly, segurando uma xícara de chá e sendo ouvida de verdade. E ali, no calor daquele quarto cheio de história, ela soube: o que quer que viesse na vida dela, ela podia enfrentar com cabeça erguida — porque ela sempre teria um lar cheio de amor para retornar.

Momentos depois de Molly sair e Gina terminar o chá, ela apertou o punho direito com força. Olhou sério para a janela e pensou no torneio que estava cada dia mais próximo.

“Harry, espero que esteja com fome de vitória… Porque eu, com certeza, quero vencer. Então… Conto com você. Bom descanso onde quer que esteja.”



Continua…