Harmony Blanks
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Harmony Blanks
Abril era meu mês preferido. Antes de ser mãe era por causa das flores, o cheiro de grama fresca e o clima agradável de primavera. Depois de Omaha chegar, se deu ao fato de estarmos mais perto do verão, o que significava que minha filha não iria precisar ficar igual um boneco, presa em dezenas de mantas e jaquetas de frio. O inverno sempre foi rigoroso nesta parte do estado, e minha pequena tinha problemas pra se movimentar com aquelas perninhas desajeitadas dentro de duas calças e galocha. Ela adorava a neve, mas eu adorava a chegada do verão porque poderia aproveitar até para ensiná-la a ir ao banheiro. Ser mãe é uma delícia, mas não via a hora de que toda a sujeira saísse no penico e não nas fraldas.
Acordei antes do despertador, que era programado para às sete, e fiquei algum tempo sentada na cama observando minha filha dormir. Não podia conter um sorriso toda vez que a via tão calma e segura. Ultimamente outros pensamentos me atormentavam toda vez que eu passava muito tempo vendo Omaha: Adam. Sim, podia negar até para o Papa, mas venho lutando contra o desejo de dizer a ele sobre a linda filha que tem. Balancei a cabeça negativamente, afim de espantar os pensamentos ruins, e fui até a cozinha ainda de camisola — que consistia em uma blusa masculina do período pré-Omaha e uma cueca-calcinha azul desbotada — e comecei a preparar o café para mim e algumas frutas para minha pequena Kimi.
Estava feliz cantarolando uma música chiclete que eu havia escutado na rádio enquanto servia no Picker’s Coffe, quando ao virar para pegar a chaleira, dei de cara com um homem desconhecido parado entre o batente da cozinha do jeito como veio ao mundo.
— Meu Deus! — Gritei e peguei a colher de pau que estava sob o balcão e arremessei direto na cabeça do cidadão. Acertou em cheio sua testa.
— Leah! Leah! Tem um tarado aqui! — Gritei enquanto corria para o quarto para proteger minha filha, deixando o estranho caído no chão passando a mão sobre a testa.
Omaha havia acordado com minha gritaria e quando abri a porta do quarto ela já estava chorando em pé com a cara sonolenta e seu ursinho na mão. A peguei no colo com urgência e sequei algumas lágrimas com a manga da minha blusa.
— Calma meu amor, mamãe tá aqui. — Disse de forma carinhosa.
— Mã mã mã… — Ela gaguejava em meio ao choro, mas estava aparentemente mais calma. Nunca achei que eu fosse o motivo de alguém se sentir seguro.
Leah correu do seu quarto assim que me aproximei da porta com minha filha no colo, ela foi direto ao homem nu e ajoelhou sobre ele, só aí que percebi que este era só mais um homem com quem ela passou a noite. Eles falaram algo e ela veio na direção do meu quarto.
— Ohama está bem? Ela não viu o… — Ela se deteve, e apontou o estranho com o olhar.
— Só está assustada… Tá tudo bem — Respondi de forma ríspida. Eu achei que estávamos em perigo, mas era apenas um “ficante” da Leah. Fiquei muito irritada pelo fato de ela não preveni-lo sobre haver crianças na casa. E se fosse minha filha? Desisti do café da manhã e comecei a arrumar Omaha para a creche. Decidi que tomaríamos café no bar da esquina.
Saímos em menos de quinze minutos, com Omaha usando um lindo vestido azul com flores amarelas balançando as perninhas pendurada no bebê-canguru. Eu estava usando o básico jeans e a camisa do Picker’s.
No trajeto até o bar eu matei a Leah mil vezes mentalmente, mas depois de chegar e pedir um cappuccino para mim e pão de batata para Omaha eu me culpei por ter sido muito dura com minha colega de quarto. Afinal era a casa dela e ela tinha todo o direito de levar quem quisesse para lá. Isso reforçou ainda mais a urgência de conseguir logo aquele apartamento, pensei no que minha mãe faria, provavelmente ela iria enrolar ao máximo e decidir quando a filha já estivesse com quinze anos. Mas eu não sou a minha mãe e repeti isso na minha cabeça enquanto liguei para o bondoso senhor que nos levou para visitar o apartamento. Eu ofereci dar uma oferta de entrada no imóvel e só precisei esperar que ele entrasse em contato com os antigos donos.
Após deixar Omaha na creche, peguei o metrô até o Picker’s, chegando lá faltando quase meia hora para abrir. Entrei como de costume e ajeitei algumas coisas. Jeffrey já estava lá e pareceu perceber meu rosto com um mix de expressões que ia do cansaço a irritação.
— Tem alguém precisando de férias na praia... — Brincou enquanto limpava as coisas na cozinha.
— Acho que praia não resolveria meu problema. — Resmunguei e me percebi mais rabugenta que o habitual.
Ele torceu o nariz.
— Ainda procurando um lar doce lar? — Ele insistiu.
— Já achei… só não tenho certeza se vou conseguir cobrir a oferta. — Suspirei, cansada.
Ele veio até mim segurando um pano de prato e usando aquelas redinhas no cabelo que o deixava engraçado.
— Você sabe que pode contar comigo, não é?
— Do que está falando?
— Quanto é? — Ele ignorou minha pergunta.
— Não Jeff, não vou te pedir dinheiro. Talvez eu peça um adiantamento para a senhora Picker...
— E trabalhar aos domingos e feriados para pagar e perder o pouco tempo que tem com Omaha? Tem formas menos dolorosas de se matar, tipo uma facada no coração.
Dei a primeira risada do dia, e admito até que me senti melhor. Senti outra coisa, que foi meu celular vibrar no bolso do avental e ao ler o nome na tela comecei a tremer por dentro.
Mamãe.
Saí correndo para fora da cafeteria e atendi o celular do outro lado da rua.
— Alô? — Falei tentando controlar a respiração.
— Florzinha de maracujá, estou morrendo de saudades de você! — A voz da minha mãe soou animada e com aquele tom hippie despreocupado de sempre.
— Como vai, mãe? — Tentei não demonstrar que estava quase surtando. Havia esquecido completamente que mentia para os meus pais sobre minha vida.
— Estou ótima, ontem fiz uma caminhada pelo direito de vida dos coalas albinos. Estava uma coisa linda, você deveria estar lá.
Inacreditável como minha mãe me conhece tão pouco e como o cérebro humano é o único capaz de conseguir manter uma mentira viva.
— Deveria estar bem legal… E o papai? Como está? -- Mudei de assunto antes que ela começasse a falar de todas as passeatas que ela frequentou nos últimos meses.
— Seu pai está ótimo, anda passando mais tempo na ONG dos coalas do que em casa. Mas ficou super feliz quando recebeu um pedido de aluguel da nossa casa em Nova York depois de anos juntando poeira.
Senti o chão sumir debaixo dos meus pés e se eu tinha asma, fui descobrir só naquele momento.
— Papai tem um apartamento aqui? Por que vocês não me contaram? Eu poderia estar dormindo lá e não dividindo um apartamento com uma… — Tentei encontrar a palavra certa para definir Leah e não consegui.
— Me desculpe querida… Esquecemos completamente desse apartamento e… Espera, você não estava nos dormitórios da faculdade?
— Ahn… claro, mãe. Mas um apartamento só pra mim seria melhor. — essa individualidade saiu seca da minha garganta
— Achei que a faculdade era longe de Nova York… Mas com toda essa tecnologia de minhocas metálicas subterrâneas… Me esqueci que ninguém mais vai de bicicleta — Ela soltou uma risada despreocupada e eu agradeci por minha mãe ser um pouco tapada, e não perceber o tom com que falei. O woodstock deve ter afetado mais do que eu pensei.
Ri junto com ela.
— Já contei que seu pai plantou treze orquídeas desde o Natal? Ele iria adorar levar uma muda para você, talvez consiga marcar um dia para te ver aí em Nova York, quando ele for entregar as chaves para o comprador.
Talvez um contato com a família me fizesse bem. Mas ao mesmo tempo eu não saberia como mentir olhando nos olhos do meu pai e… Como eu esconderia a Omaha?
— Não sei mãe… Os estudos estão bem puxados, não sei se consigo tempo para ver o papai…
— Deixe de ser tão preocupada, Harmony. Deveria ser mais calma, seu nome é exatamente o oposto…
Tudo na minha vida é exatamente o oposto.
— Vou ver o que posso fazer e te ligo, tudo bem? — Era melhor agir com naturalidade, ninguém estuda tanto assim que tem de ficar dois anos sem ver a família.
— Irei aguardar sua ligação, foi uma pena não ter vindo para a Páscoa, fiz um bolo de couve maravilhoso…
— Realmente uma pena, tenho que ir para a aula. Beijo em todos, menos no Matt.
Ela deu uma risada gostosa, daquelas que me fazia sentir saudades de casa e desligou. Senti meu coração pesado. Por que estava privando meus pais da neta? Só para afirmar para mim mesma que eu era superior a eles?
Eu já nem sei mais o porque fiz tudo o que fiz.
Depois do telefonema não teve mais incidentes que me deixassem a beira de um surto psicótico. O dia no Picker’s Coffee foi normalmente corrido para uma segunda-feira. Leah se desculpava a cada cinco minutos quando me via passar pelo estabelecimento, e mesmo eu jurando que estava tudo bem, ela não parecia satisfeita.
Quando anoitecesse eu faria um jantar para ela, só pra dizer que estava tudo bem e deixar o apartamento sem mal entendidos. Pelo menos sem mais um mal entendido.
***
Adam Noah
Esperei o dia todo pela Harmony na festa da Páscoa. Tentava não parecer ansioso e decepcionado, mas Marie de alguma forma, notou que eu não deixava de olhar da varanda a portaria de cinco em cinco minutos.
A festa foi sensacional, o pai da Marie — que era produtor musical — havia conseguido um DJ famoso para tocar, algo como Skrillex ou coisa assim.
Mas foi na madrugada de sábado que minha namorada conseguiu falar comigo.
— E então… O que achou do DJ? — Ela encostou ao meu lado segurando um cigarro na ponta dos dedos, tinha um copo de plástico machado de batom nas bordas em sua outra mão. Estávamos na varanda.
— Achei a sua cara… — Brinquei.
— É mesmo? — Ela ergueu uma sobrancelha — Esquisito e apaixonante?
— Muito sua cara. — Sorri e em resposta ela me deu um beijo na bochecha. O silêncio começou a ficar incômodo, e o que eu achei que ela não falaria, ela falou.
— Sinto muito por sua amiga não ter vindo. — Me olhou com aqueles olhos verdes brilhantes, e de relance, pude ver que ela estava realmente solidária.
— Tudo bem, ela deve ter ido passar com os pais. — Respondi tentando parecer menos desapontado do que realmente estava.
Ela passou um braço ao redor dos meus ombros e encostou sua cabeça no meu pescoço. Beijei o alto de sua cabeça e sorri.
— Fica para a próxima… — Ela respondeu de maneira doce. Nos separamos e ela sustentou o nosso olhar por alguns minutos, até voltar olhar dentro do apartamento — Melhor eu ir socorrer o Jim… Ou ele vai lavar nosso carpete com vômito de novo.
Eu dei risada e ela piscou para mim, sumindo na multidão.
“Melhor deixar para a próxima”... Ou seria melhor esquecer? Se ela não teve nem a decência de responder meu e-mail, significa que também não estava nem um pouco interessada no nosso encontro.
— Espero que esteja tendo uma ótima vida, Harmony. — Falei para ninguém — Por que demorou para que eu tivesse uma sem você…
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